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Sombras e Sentenças

A meia-noite em São Paulo tinha um peso diferente para Emanuel. Enquanto o resto da cidade mergulhava em um silêncio inquieto ou na agitação das baladas, ele preferia o isolamento de sua cobertura, onde o vidro blindado filtrava o som do caos urbano. Mas, naquela noite, o caos estava dentro de casa.

Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro, um copo de uísque puro na mão direita e um tablet na esquerda, revisando o faturamento mensal de seus estúdios na Europa. O silêncio foi quebrado pelo som de passos apressados e o farfalhar de um tecido pesado.

Eduarda apareceu no arco da sala, e Emanuel sentiu uma pontada de irritação preventiva. Ela não estava com seus habituais vestidos leves de seda. Usava uma saia de veludo preto até os joelhos, uma blusa de gola alta com rendas vitorianas e carregava uma lanterna antiga, daquelas que pareciam saídas de um filme de terror gótico.

— Manu... — a voz dela era um sussurro carregado de uma ansiedade que ele conhecia bem. — Eu já vou indo, tá? O pessoal da faculdade já está se reunindo na entrada do Cemitério da Consolação.

Emanuel travou a tela do tablet e levantou o olhar devagar. Suas sobrancelhas se juntaram em uma linha rígida.

— Cemitério? — A voz dele saiu rouca, carregada de autoridade. — A essa hora, Eduarda? Você perdeu o juízo?

— É um evento da História da Arte, Manu! — Ela se aproximou, as mãos pequenas apertando a alça da lanterna. — Vamos fazer uma análise iconográfica das esculturas tumulares sob a luz da lua. É uma oportunidade única, o professor conseguiu uma autorização especial...

— Não me importa o que o seu professor conseguiu — Emanuel interrompeu, levantando-se. Ele era muito mais alto que ela, e sua presença física costumava ser o suficiente para encerrar qualquer discussão. — Você não vai entrar em um cemitério à meia-noite. É perigoso, é imprudente e eu não vou permitir.

O rosto de Eduarda mudou instantaneamente. Os lábios começaram a tremer e seus olhos grandes se encheram de lágrimas que brilharam sob a luz do lustre.

— Você não pode fazer isso! — Ela bateu o pé no chão, um gesto infantil que contrastava com a seriedade do ambiente. — Eu tenho vinte anos, Emanuel! Eu estudo para isso, é a minha carreira!

— Você tem vinte anos e vive sob o meu teto, sob a minha proteção — ele rebateu, a voz fria como aço. — São Paulo não é um museu a céu aberto à noite, Eduarda. É uma selva. Eu não vou deixar você ser um alvo fácil lá dentro.

— Você está sendo um ditador! — Eduarda começou a chorar, soluços manhosos que ecoavam pela sala. — Você deixa a Sara sair a hora que quer, com aquelas roupas que chamam atenção de todo mundo, e para mim você diz não? Só porque eu gosto de arte e não de festas vulgares?

— A Sara sabe se cuidar. A Sara morde — Emanuel disse, embora soubesse que comparar as duas só pioraria a situação. — Você se perde se o sinal do GPS falhar.

— Eu vou fugir! — Ela gritou, a voz subindo uma oitava. — Eu vou pular a janela, eu vou sair escondida, mas eu vou para esse evento! Você não é meu dono!

Emanuel sentiu a têmpora latejar. O estresse acumulado do dia parecia prestes a explodir. Ele deu um passo em direção a ela, mas antes que pudesse falar, a porta do corredor se abriu com um estrondo.

Sara entrou na sala, usando um penhoar de oncinha transparente sobre uma lingerie preta mínima. Ela segurava uma lixa de unha e exalava um tédio profundo.

— Mas que gritaria é essa? Eu estou tentando terminar de passar meu autobronzeador e essa gata no cio não para de berrar — Sara disparou, lançando um olhar de desprezo para Eduarda. — O que foi agora, Dudinha? O museu fechou?

— Ela quer ir para um cemitério. Agora — Emanuel explicou, massageando a testa.

Sara soltou uma gargalhada estridente, jogando a cabeça loira para trás.

— Cemitério? Sério? Emanuel, deixa ela ir. Com sorte, algum fantasma leva ela e a gente finalmente tem um pouco de paz e silêncio nesta cobertura.

— Não ajuda, Sara — Emanuel rosnou.

— Eu vou de qualquer jeito! — Eduarda insistiu, ignorando Sara e focando em Emanuel com um olhar de puro desespero. — Se você não me deixar ir, eu nunca mais falo com você! Eu vou me trancar no quarto e entrar em greve de fome!

Ela se jogou no sofá, escondendo o rosto nas mãos e chorando de forma dramática. Era uma mistura de dor real e manipulação emocional que Emanuel conhecia de cor, mas que sempre conseguia atingir seu ponto fraco: o instinto de proteção.

— Olha só isso — Sara disse, aproximando-se de Emanuel e passando a mão pelo braço dele. — Ela faz esse teatrinho e você fica todo mole. Emanuel, querido, se ela quer ver defunto, deixa ela ir. Ela já parece um, com essa pele pálida e essas roupas de velha.

Emanuel olhou para Eduarda soluçando no sofá e depois para Sara, que sorria com malícia, claramente aproveitando o caos. Ele era um homem prático, um resolvedor de problemas. E o problema ali era que Eduarda era teimosa demais para ceder e ele era cauteloso demais para deixá-la ir sozinha.

Sua mente racional começou a trabalhar. Ele não podia ir com ela; tinha uma conferência por vídeo com Tóquio em uma hora. Mas ele também não suportaria a ideia de Eduarda chorando a noite toda ou, pior, tentando cumprir a promessa de fugir.

— Chega de drama — Emanuel sentenciou, a voz tão autoritária que até Sara parou de lixar as unhas.

Eduarda levantou o rosto manchado de lágrimas, os olhos cheios de esperança.

— Você vai me deixar ir?

— Eu vou deixar você ir — Emanuel disse, e antes que ela pudesse comemorar, ele continuou: — Mas com uma condição. Você não vai com seus amigos da faculdade. Você vai com segurança particular. Dois homens, na porta do cemitério, e um deles vai andar dez metros atrás de você o tempo todo.

Eduarda fez um beicinho, metade aliviada, metade indignada.

— Mas Manu... o pessoal vai achar estranho. Vai parecer que eu sou uma criminosa ou uma princesa mimada.

— Você é as duas coisas — Emanuel retrucou, pegando o celular. — Ou vai com segurança, ou não sai por aquela porta. Escolha agora.

Eduarda olhou para o relógio na parede. Faltavam vinte minutos para a meia-noite.

— Tá bom! — Ela aceitou, levantando-se e limpando o rosto rapidamente. — Eu aceito.

— Ah, fala sério! — Sara interveio, cruzando os braços, o que realçava seu silicone. — Você vai gastar dinheiro com segurança para ela ir ver túmulo? Emanuel, você é um otário. Ela te dobra como se você fosse papel.

Emanuel ignorou o comentário de Sara e fez a ligação. Em poucos minutos, as instruções foram dadas. Ele se voltou para Eduarda, que já estava pegando sua bolsa de couro artesanal.

— O carro está descendo. O motorista vai te entregar um rádio. Se eu tentar falar com você e você não atender em dez segundos, eu mando eles te buscarem pelos cabelos. Fui claro?

— Sim, Manu... — Ela se aproximou dele, ficando na ponta dos pés e dando um beijo carinhoso em sua bochecha, a pele ainda úmida das lágrimas. — Obrigada. Você é o melhor.

— Vá logo antes que eu me arrependa — ele resmungou, embora sua mão tivesse pousado por um instante na cintura dela, um gesto automático de afeto.

Eduarda saiu quase saltitando, a lanterna balançando em sua mão.

Assim que a porta se fechou, Sara soltou um bufo de indignação e se jogou na poltrona que Emanuel ocupava antes.

— Você mima demais essa garota, Emanuel. Um dia ela vai te pedir a lua e você vai contratar uma agência espacial para buscar.

— Eu prefiro pagar seguranças do que passar a noite ouvindo ela chorar ou me preocupando se ela foi assaltada em uma esquina escura — Emanuel respondeu, servindo-se de mais uísque.

— E eu? — Sara perguntou, inclinando-se para frente, a lingerie de renda preta deixando muito pouco para a imaginação. — Eu estou aqui, toda produzida, e você vai ficar aí com essa cara de enterro esperando o rádio da coitadinha tocar?

Emanuel olhou para Sara. A vulgaridade dela, a forma como ela usava o corpo para reivindicar espaço, era o oposto absoluto da fragilidade estudada de Eduarda. Era cansativo, mas também era o que o mantinha acordado.

— Eu tenho uma reunião em meia hora, Sara.

— A reunião pode esperar dez minutos — ela disse, levantando-se e caminhando até ele com um rebolado predatório. Ela tirou o copo da mão dele e o colocou sobre a mesa. — Você está tenso. Precisa de alguém que saiba tirar esse estresse de você, não de alguém que te dê mais problemas.

Ela passou as mãos pelos ombros dele, as unhas longas e bem feitas arranhando levemente a nuca de Emanuel. Ele fechou os olhos por um segundo, sentindo o perfume forte e caro dela.

— Você é insuportável — ele murmurou.

— E você adora — ela rebateu, beijando o pescoço dele com uma voracidade que contrastava com o beijo casto que Eduarda deixara minutos antes.

Emanuel a segurou pela cintura, sentindo a firmeza do corpo de Sara. Ele era um homem dividido entre dois mundos: um que exigia cuidado, silêncio e proteção, e outro que exigia fogo, confronto e exibicionismo.

Enquanto Sara o puxava para o quarto, o celular de Emanuel vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem da equipe de segurança: "Alvo no local. Perímetro seguro. Estudante iniciou a caminhada".

Ele relaxou minimamente. Eduarda estava segura entre os mortos, cercada por anjos de pedra e guardas armados. E ele... ele estava prestes a enfrentar o furacão loiro que era sua própria escolha de caos.

— Vamos logo, Emanuel — Sara chamou da porta do quarto, soltando o penhoar de oncinha no chão. — Deixa a faculdade para quem não tem nada melhor para fazer.

Emanuel caminhou em direção a ela, mas sua mente, por um breve instante, imaginou Eduarda sob a luz da lua, tocando o mármore frio de algum túmulo esquecido. Ele era o mestre de um império de tinta e sombras, mas suas maiores obras de arte eram aquelas duas mulheres, cada uma com sua forma de prendê-lo a uma realidade que ele nunca planejou, mas da qual não conseguia mais escapar.

A noite em São Paulo estava apenas começando, e entre o silêncio do cemitério e o barulho de seu quarto, Emanuel sabia que o controle era apenas uma ilusão que ele pagava caro para manter. Mas, enquanto pudesse ouvir a respiração de uma e o grito de prazer da outra, ele continuaria sendo o centro daquele universo imperfeito.