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O Espectro no Espelho de Cristal
O estúdio principal de Emanuel em São Paulo não era apenas um local de trabalho; era um monumento ao seu sucesso. Localizado em um rooftop nos Jardins, o espaço estava decorado para a festa de aniversário de cinco anos da unidade brasileira. O concreto exposto, o aço escovado e a iluminação em tons de âmbar criavam uma atmosfera de sofisticação industrial. Garçons circulavam com taças de cristal, e o som de um DJ de deep house preenchia o ambiente, misturando-se ao burburinho de modelos, artistas e empresários influentes.
Emanuel estava em seu elemento. Vestia uma camisa de linho preta, levemente aberta no colarinho, exibindo as tatuagens que subiam pelo seu pescoço. Ele mantinha uma mão possessiva na cintura de Eduarda, que parecia uma visão etérea em um vestido de seda champagne, com alças finas e um caimento que abraçava seu corpo esguio com elegância. Ela estava mais silenciosa que o habitual, seu brilho era suave, como uma pérola em meio a diamantes brutos.
Do outro lado do salão, Sara era o oposto. Usando um vestido de paetês dourados tão justo que parecia uma segunda pele, ela exibia o decote generoso e as pernas torneadas. Ela ria alto, atraindo olhares de todos os cantos, claramente em seu habitat natural de ostentação e excessos.
— Você está muito quieta, pequena — sussurrou Emanuel no ouvido de Eduarda, sentindo-a levemente tensa sob seu toque. — Não gosta da música?
— Está tudo lindo, Emanuel — respondeu ela, forçando um sorriso doce que não chegava aos olhos. — Só é... muita gente. Sabe que prefiro os nossos momentos a sós.
— Eu sei. Mas hoje é uma noite importante para os negócios. Aguente só mais um pouco, depois te levo para casa e cuidarei de você do jeito que gosta — ele prometeu, dando um beijo casto em sua têmpora.
Ele foi chamado por um investidor europeu e, relutantemente, soltou a cintura de Eduarda, afastando-se alguns metros para a conversa. Eduarda suspirou, sentindo-se subitamente desprotegida. Ela caminhou em direção à mesa de canapés, tentando se distrair com a decoração, quando o ar em seus pulmões simplesmente pareceu solidificar.
Parado perto da saída de emergência, conversando casualmente com um dos fornecedores de tinta, estava um homem de aparência comum. Terno cinza, óculos de aro fino, um sorriso que qualquer um chamaria de simpático. Mas, para Eduarda, aquele rosto era o protagonista de todos os seus pesadelos silenciados.
Era ele. O homem que a perseguira por doze meses. O homem que conhecia sua rotina, que deixava flores mortas em sua porta, que a sequestrara e a mantivera trancada em um quarto escuro por quarenta e oito horas antes de seu pai e a polícia invadirem o local. O stalker que deveria estar cumprindo uma ordem de restrição eterna em outro estado.
Eduarda travou. Seus dedos, que seguravam uma taça de água, começaram a tremer violentamente até que o cristal tilintasse. Seu rosto perdeu toda a cor, tornando-se tão pálido quanto o mármore do balcão. Ela não conseguia desviar o olhar. O homem, como se sentisse o peso de seu escrutínio, virou a cabeça.
Ele a viu. E sorriu. Não foi um sorriso de surpresa, mas de reconhecimento. Um sorriso de quem finalmente encontrou algo que estava perdido.
— Duda? — Uma voz feminina a chamou, mas parecia vir debaixo d'água. Era Marina, uma colega da faculdade de História da Arte que também trabalhava como recepcionista no estúdio. — Meu Deus, Eduarda, você está branca como um papel! O que foi?
Eduarda não respondeu. Seus lábios se moveram, mas nenhum som saiu. Ela estava em choque catatônico, revivendo o cheiro de mofo daquele quarto e o som da voz dele sussurrando que ela "pertencia a ele".
Emanuel, percebendo a agitação de longe, desculpou-se com o investidor e caminhou rapidamente em direção à namorada. Ele viu o estado dela e seu instinto protetor entrou em alerta máximo.
— Eduarda? O que aconteceu? — Ele segurou os ombros dela, sentindo-a vibrar de terror. — Olhe para mim. O que você tem?
Ela não olhou para ele. Seus olhos estavam fixos no ponto onde o homem estava, mas ele já havia desaparecido na multidão.
— Ele... ele está aqui — ela finalmente conseguiu sussurrar, a voz falha, quase inaudível.
— Quem está aqui? — perguntou Emanuel, a voz subindo de tom, seus olhos percorrendo o salão como um predador em busca de uma ameaça.
Sara se aproximou, balançando sua taça de champanhe, com um sorriso de escárnio.
— Ah, pronto. Começou o show da coitadinha. O que foi agora, Duda? Viu um fantasma ou o caviar estava estragado? Emanuel, não dê corda, ela só quer que você pare de dar atenção aos convidados para carregar ela no colo.
— Cala a boca, Sara! — rugiu Emanuel, sem tirar os olhos de Eduarda. — Marina, o que aconteceu aqui?
Marina olhou de Eduarda para o salão, confusa, mas então viu o rastro do terror no rosto da amiga e ligou os pontos. Ela sabia do passado de Eduarda; fora a única a quem a jovem confiara a história meses atrás.
— Emanuel... — Marina hesitou, vendo a fúria crescer no patrão. — Eu acho que ela viu o homem que... o homem de quem ela tem medo. O stalker de Curitiba.
O corpo de Emanuel enrijeceu instantaneamente. Ele sentiu o sangue ferver nas veias, uma mistura de confusão e uma raiva primitiva que ele raramente demonstrava.
— Stalker? Do que você está falando? — Ele olhou para Eduarda, que agora chorava silenciosamente, escondendo o rosto no peito dele. — Eduarda, que história é essa?
— Ah, por favor! — Sara interrompeu, soltando uma risada anasalada. — Stalker? Isso é tão anos 90. Ela provavelmente viu um ex-namorado ou alguém que não achou ela "fofinha" o suficiente e agora está inventando esse drama todo. É patético como ela manipula você, Emanuel.
Emanuel ignorou Sara completamente, embora seus nós dos dedos estivessem brancos de tanto apertar a cintura de Eduarda.
— Marina, me conte tudo. Agora. No meu escritório.
O trajeto até o escritório foi um borrão. Emanuel carregou Eduarda praticamente nos braços, enquanto Sara os seguia, bufando de irritação, recusando-se a ficar de fora do que ela considerava "a grande farsa".
Lá dentro, sob a luz fria do escritório, Marina contou a história que Eduarda nunca teve coragem de dizer: os meses de perseguição, as cartas, o sequestro, o trauma que a fizera mudar de cidade e de vida.
Enquanto Marina falava, a expressão de Emanuel passava de choque para uma fúria gélida e perigosa. Ele olhava para Eduarda, que estava encolhida na poltrona de couro, soluçando.
— Você foi sequestrada? — A voz de Emanuel era um sussurro perigoso. — Você passou por tudo isso e nunca me disse uma palavra? Há quanto tempo estamos juntos, Eduarda?
— Eu... eu tive medo — soluçou ela, olhando para ele com os olhos vermelhos. — Eu queria que você me visse como eu sou agora, não como aquela vítima. Eu queria que nossa vida fosse... normal.
— Normal? — Emanuel explodiu, chutando uma cadeira de metal que voou contra a parede. — Você me deixou no escuro! Eu trago você para os meus eventos, eu te exponho sem saber que tem um psicopata atrás de você! Eu poderia ter te protegido! Eu sou o homem da sua vida e você me tratou como um estranho!
— Ai, Emanuel, para de drama — Sara interveio, encostada na porta, lixando uma unha imaginária. — Você realmente acredita nessa história de filme de terror? Olhe para ela. É óbvio que ela está inventando isso para que você se sinta culpado por ter dado atenção à festa. Ela é uma gatinha manhosa, Emanuel. Ela sabe exatamente como te prender. Sequestro? Por favor, ela não tem nem cicatriz.
Emanuel virou-se para Sara com uma velocidade que a fez recuar e perder o sorriso.
— Se você abrir a boca mais uma vez para falar dela, eu juro que te jogo daqui de cima pela janela. Saia do meu escritório. Agora!
— Você não pode estar falando sério... — Sara começou, mas o olhar de Emanuel era o de um homem que havia perdido completamente o controle da própria civilidade.
— SAI!
Sara bateu o pé, bufando, e saiu batendo a porta. Emanuel voltou-se para Eduarda, mas sua irritação não havia passado. Pelo contrário, ela agora se misturava com uma culpa corrosiva.
— Como ele era? — perguntou ele, pegando o telefone. — Me dê a descrição. Vou mandar os seguranças fecharem todas as saídas e olhar as câmeras agora mesmo. Se esse homem estiver aqui, ele não sai vivo.
— Emanuel, por favor, não... — Eduarda tentou segurar a mão dele.
— Não o quê? — Ele se soltou, a voz carregada de mágoa. — Você não confia em mim para te defender? É isso? Você prefere viver com medo do que me deixar ser o seu porto seguro? Eu me sinto um idiota, Eduarda. Eu achei que conhecia você. Achei que cuidava de você. E o tempo todo você estava guardando esse monstro debaixo da cama sem me contar.
— Eu só não queria que você mudasse comigo! — gritou ela, levantando-se, a voz ganhando uma força inesperada pela dor. — Você já é controlador, Emanuel! Você já me vigia, já decide tudo! Se eu te contasse, eu nunca mais sairia de casa! Eu me tornaria sua prisioneira de novo, mesmo que fosse por amor!
Emanuel parou. As palavras dela o atingiram como um soco no estômago. Ele abriu a boca para retrucar, mas o rádio em sua cintura chiou. Era o chefe da segurança.
— Patrão, identificamos um indivíduo suspeito saindo pelo elevador de serviço. Ele não estava na lista de convidados. Tentamos abordar, mas ele fugiu em um sedan prata. Temos a placa.
Emanuel apertou o rádio com tanta força que o plástico rangeu.
— Quero a localização desse carro em dez minutos. Usem todos os contatos. Se precisarem pagar, paguem. Eu quero esse homem na minha frente antes do amanhecer.
Ele desligou o rádio e olhou para Eduarda. O silêncio entre eles era pesado, cheio de coisas não ditas.
— Você vai para casa agora — disse ele, a voz agora baixa e autoritária. — Marina, vá com ela. Chame dois dos meus seguranças pessoais para ficarem na porta do apartamento. Ninguém entra, ninguém sai.
— Emanuel, para onde você vai? — perguntou Eduarda, o terror sendo substituído pela preocupação com o que ele seria capaz de fazer.
— Vou fazer o que você deveria ter me deixado fazer há muito tempo — respondeu ele, pegando a jaqueta de couro e caminhando para a porta. — Vou terminar esse pesadelo. E quando eu voltar, Eduarda... nós vamos ter uma conversa séria sobre o que significa confiança. Porque eu não posso amar uma mulher que me esconde o próprio medo.
Ele saiu sem olhar para trás.
Eduarda ficou parada no centro do escritório luxuoso, sentindo-se mais sozinha do que nunca. Marina se aproximou e colocou a mão em seu ombro.
— Vamos, Duda. Ele está fora de si, mas ele tem razão em uma coisa... ele vai resolver isso.
No corredor, Sara as viu passar. Ela estava encostada na parede, observando o caos que havia se instalado.
— Divirtam-se no bunker — ironizou Sara, embora houvesse um lampejo de dúvida em seus olhos. — Mas não se acostume, Eduarda. Emanuel odeia segredos. E esse seu passado sujo... ele não vai esquecer tão cedo.
Eduarda não respondeu. Ela apenas caminhou, sentindo que, embora o stalker tivesse fugido fisicamente, ele havia conseguido o que queria: ele havia quebrado a redoma de cristal que Emanuel construíra ao redor dela. E agora, ela não sabia se os cacos poderiam ser colados novamente.
Enquanto o Mercedes de Emanuel rugia pelas ruas de São Paulo em uma caçada frenética, Eduarda olhava pela janela do carro da segurança, vendo as luzes da cidade passarem como borrões. Ela tocou o pescoço, onde as mãos do homem a haviam apertado anos atrás, e depois tocou o peito, onde o amor possessivo de Emanuel agora doía de uma forma diferente.
O monstro estava lá fora, mas o homem que ela amava havia se tornado um monstro também — um monstro de fúria e proteção que ela não tinha certeza se conseguiria controlar. E, no fundo, ela se perguntava: quem era mais perigoso? O homem que a perseguia nas sombras, ou o homem que queria trancá-la na luz para que ninguém mais a tocasse?