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D

Ouro, Pecado e Provocação

A tensão na cobertura de Emanuel nunca desaparecia por completo; ela apenas mudava de forma, como uma névoa que ora se dissipava, ora se tornava densa o suficiente para sufocar. Semanas haviam se passado desde o incidente com o perseguidor de Eduarda. Emanuel, usando sua influência e recursos, havia garantido que o homem desaparecesse do mapa, mas o preço fora uma vigilância ainda mais rígida sobre a jovem estudante de arte. Para Eduarda, a proteção dele era um abraço que às vezes apertava demais as costelas. Para Sara, era uma negligência imperdoável, já que toda a atenção do "rei das tatuagens" parecia agora voltada para a segurança da "bonequinha de porcelana".

Emanuel sabia que o clima estava insuportável. Ele era um homem prático: se o diálogo falhava, ele usava o poder. E, para ele, o poder muitas vezes se manifestava em presentes caros, objetos que marcavam território e que lembravam a ambas a quem elas pertenciam.

Naquela noite de sexta-feira, ele as chamou para a sala principal. O ambiente estava imerso em uma luz âmbar, e sobre a mesa de centro de mármore negro, repousavam duas caixas de veludo azul-marinho, idênticas por fora, mas com conteúdos drasticamente diferentes. Emanuel estava servindo-se de um uísque, as mangas da camisa social enroladas, revelando a tinta preta em seus antebraços.

— Sentem-se — disse ele, a voz rouca e autoritária. — Eu sei que as últimas semanas foram difíceis. Brigas, medos, inseguranças. Eu não sou um homem de muitas palavras, vocês sabem disso. Gosto de demonstrar o que sinto através de gestos.

Sara sentou-se no sofá com a agressividade de uma pantera, cruzando as pernas longas. Ela usava um minivestido de cetim verde que mal cobria o necessário, os lábios pintados de um vermelho quase negro.

— Espero que esses gestos pesem no meu pescoço ou no meu pulso, Emanuel — disse ela, lançando um olhar de soslaio para Eduarda. — Porque paciência eu já não tenho mais nenhuma para vender.

Eduarda aproximou-se devagar, sentando-se na ponta oposta do sofá. Ela usava um vestido de algodão leve, romântico e de cor creme, que contrastava com a vulgaridade vibrante de Sara. Ela olhava para as caixas com uma curiosidade tímida, as mãos pequenas entrelaçadas no colo.

— Obrigada, Emanuel — sussurrou Eduarda. — Você não precisava...

— Eu quis — cortou ele, aproximando-se e entregando a primeira caixa para Eduarda. — Esta é a sua, pequena. Abra.

Eduarda abriu a tampa de veludo com cuidado. Seus olhos se arregalaram e suas bochechas ganharam um tom rosado instantâneo. Deitado sobre o cetim branco estava um pingente de ouro 18 quilates, delicado, mas de um design explícito. Era uma joia erótica, um adorno vaginal esculpido com uma precisão artística, cravejado com uma pequena safira no centro. Era íntimo, possessivo e, de uma forma estranha, combinava com a aura de "sexy romântico" que Emanuel tanto apreciava nela.

— É... é lindo — murmurou Eduarda, a voz falhando. Ela entendeu o recado silencioso de Emanuel: um adorno para ser usado apenas para ele, escondido sob suas roupas leves, um segredo entre o mestre e sua protegida.

— Que gracinha — ironizou Sara, esticando o pescoço para ver. — Um brinquedinho de ouro para a santinha. Muito a sua cara, Emanuel. Algo que ela pode esconder e fingir que não existe enquanto analisa as flores de Botticelli.

Emanuel não respondeu. Ele apenas entregou a segunda caixa para Sara.

— A sua, Sara.

Sara abriu a caixa com a avidez de quem espera uma joia de catálogo da Tiffany. No entanto, o que ela encontrou a fez congelar. Era um plug anal de ouro maciço, pesado, com a base adornada por um diamante negro lapidado em formato de gota. Era uma peça de luxo, mas sua função era inegável e visualmente impactante.

O silêncio na sala tornou-se cortante. Sara olhou para o objeto, depois para Emanuel, e então para Eduarda, que desviou o olhar, constrangida.

— Você está brincando comigo? — perguntou Sara, a voz subindo de tom, a fúria começando a borbulhar.

— Não estou — respondeu Emanuel, bebendo um gole de seu uísque. — É uma peça exclusiva. Feita por um joalheiro que trabalha apenas sob encomenda para colecionadores de arte erótica. Achei que combinava com a sua... energia.

— Com a minha energia? — Sara levantou-se, jogando a caixa sobre a mesa com um estalo violento. — Você dá para essa songamonga um pingente delicado, algo que ela pode usar como uma joia de verdade, e para mim você dá isso? Um... um tampão de luxo?

— Sara, é ouro e diamante — disse Emanuel, mantendo a calma que sempre a irritava. — Vale três vezes o que o pingente da Eduarda vale.

— Eu não quero saber o valor, Emanuel! — gritou ela, gesticulando freneticamente. — É o simbolismo! Você trata ela como se fosse uma obra de arte que precisa de um detalhe final, e me trata como se eu fosse um receptáculo! Você quer me calar por baixo enquanto ela é adornada por cima? É isso?

— Você sempre tem que transformar tudo em uma disputa de ego — suspirou Emanuel, encostando-se na parede. — A joia da Eduarda é para a sensibilidade dela. A sua é para a sua intensidade. Você gosta de ser notada, gosta do impacto. Imagine o peso disso em você enquanto caminhamos por uma galeria. Só eu saberei o que você está carregando.

— Ah, agora você quer ser o poeta do fetiche? — Sara riu, uma risada amarga e estridente. — O que você quer é me humilhar! Você quer que eu use algo que me lembre o tempo todo da minha posição aqui. Enquanto ela fica aí, toda manhosa, com o seu "pingente vaginal" que parece um amuleto de boa sorte, eu recebo um plug!

Eduarda, sentindo a tensão escalar, tentou intervir com sua voz suave.

— Sara, eu tenho certeza de que o Emanuel não quis te ofender... é uma peça muito cara e...

— Cala a boca, Eduarda! — disparou Sara, virando-se para a jovem com os olhos faiscando. — Você não tem voz aqui! Você aceita qualquer migalha que ele te joga porque não tem personalidade. Se ele te desse uma coleira com o nome dele, você usaria e ainda agradeceria com um beijo!

— Sara, chega — ordenou Emanuel, dando um passo à frente, sua presença preenchendo o espaço de forma ameaçadora.

— Chega nada! — ela rebateu, enfrentando-o. — Você faz isso de propósito. Você cria essas situações para nos ver brigar, para se sentir o grande mestre do harém. Você dá para ela algo que reforça a "pureza" dela e para mim algo que reforça a minha "vulgaridade". Você me rotula, Emanuel!

— Eu não te rotulo, Sara. Você se rotula — disse ele, a voz gélida. — Você gasta milhares de dólares em procedimentos para se transformar em uma fantasia ambulante e agora reclama quando eu te presenteio com algo que condiz com a imagem que você vende. A Eduarda não tenta ser nada além do que é.

— E o que ela é? — Sara apontou para Eduarda, que agora tinha lágrimas nos olhos. — Uma criança de vinte anos que não sabe nem pedir um café sozinha? Uma menina que se esconde atrás de livros de arte porque tem medo da vida real? É isso que você ama? A fraqueza dela?

— Eu amo o fato de que ela não me dá dor de cabeça a cada cinco minutos por causa de um capricho — retrucou Emanuel.

Eduarda levantou-se devagar, segurando sua caixinha de veludo contra o peito como se fosse um escudo.

— Eu vou para o quarto — disse ela, a voz trêmula. — Eu não quero participar disso. Obrigada pelo presente, Emanuel. É... é especial para mim.

Ela caminhou apressadamente pelo corredor, o som de seus passos leves desaparecendo rapidamente. Sara observou-a sair e depois voltou sua fúria para Emanuel.

— Viu? Ela foge! Ela sempre foge e deixa o rastro de destruição para eu limpar! — Sara pegou o plug de ouro da mesa e o balançou diante do rosto de Emanuel. — Você quer que eu use isso? Quer mesmo?

— Quero — disse ele, aproximando-se dela até que seus corpos quase se tocassem. Ele segurou o pulso de Sara, forçando-a a baixar o objeto. — Porque, apesar de toda essa sua gritaria, nós dois sabemos que você adora o desafio. Você adora o fato de que eu te vejo exatamente como você é: insaciável e competitiva.

— Você é um desgraçado — sussurrou ela, embora sua respiração estivesse começando a acelerar. A raiva de Sara sempre flertava perigosamente com o desejo.

— E você é minha — respondeu ele. — Agora, pegue sua joia e vá para o seu quarto. Se eu ouvir mais um grito vindo daqui, eu juro que confisco os dois presentes e vocês passarão o final de semana trancadas, cada uma em um canto, sem luxo nenhum.

Sara o encarou por longos segundos, o peito subindo e descendo. Ela queria quebrar o plug na cabeça dele, mas o peso do ouro em sua mão e o brilho do diamante negro exerciam um fascínio que ela não conseguia negar. Ela era movida pelo luxo, pela posse e pela provocação.

— Eu vou usar — disse ela, a voz agora carregada de uma promessa perigosa. — Mas não pense que isso resolve as coisas. Eu ainda odeio o fato de você tratar aquela sonsa como se ela fosse feita de açúcar.

— Vá, Sara — disse Emanuel, voltando para seu uísque.

Ela saiu da sala com um rebolado desafiador, batendo a porta do quarto com força.

Emanuel ficou sozinho na sala silenciosa. Ele suspirou, sentindo o peso do entretenimento que ele mesmo criara. Ele amava a paz de Eduarda, mas o caos de Sara o mantinha alerta. Ele caminhou até o quarto de Eduarda primeiro.

Ao entrar, encontrou-a sentada na cama, olhando para o pingente de ouro. Ela parecia tão frágil sob a luz do abajur que, por um momento, Emanuel sentiu uma pontada de remorso por tê-la exposto à fúria de Sara.

— Você está bem, pequena? — perguntou ele, sentando-se ao lado dela.

— Por que ela me odeia tanto, Emanuel? — perguntou Eduarda, virando-se para ele. — Eu não fiz nada para ela. Eu só quero que todos fiquemos bem.

— Ela não te odeia, Duda — disse ele, puxando-a para o seu colo. — Ela tem inveja da sua luz. Ela é feita de sombras e de barulho, e você é o silêncio que ela nunca vai conseguir alcançar.

— Mas o presente dela... ela ficou tão brava.

— O presente dela é para a carne. O seu é para a alma — mentiu Emanuel de forma sedutora, sabendo exatamente como manipular a sensibilidade da jovem. — Deixe-me ver como fica em você.

Com dedos habilidosos e gentis, ele ajudou Eduarda a prender a joia. O contraste do ouro contra a pele alva e delicada dela era, para Emanuel, a definição de perfeição. Eduarda se encolheu, manhosa, buscando o calor dele, sentindo-se protegida e marcada por aquele objeto que ninguém mais veria.

— Agora descanse — sussurrou ele. — Eu preciso resolver uma coisa com a Sara.

— Você vai brigar com ela de novo? — perguntou ela, preocupada.

— Não — disse ele com um sorriso enigmático. — Vou apenas garantir que ela entenda o propósito do presente dela.

Emanuel saiu do quarto de Eduarda e caminhou até o de Sara. Ele não bateu; apenas entrou. O quarto estava imerso em um perfume doce e forte. Sara estava parada diante do espelho de corpo inteiro, usando apenas o plug e um par de saltos altíssimos. Ela se observava com uma mistura de narcisismo e raiva.

— Vejo que você já começou a "instalação" — disse ele, fechando a porta com o pé.

— Eu disse que usaria — retrucou ela, virando-se para ele, os olhos desafiadores. — Mas eu quero algo em troca, Emanuel. Eu quero aquela viagem para Paris que você prometeu. E quero ir sozinha com você. Sem a santinha.

Emanuel caminhou até ela, pegando-a pela cintura e puxando-a contra seu corpo rígido.

— Veremos, Sara. Depende do seu comportamento nos próximos dias.

— Meu comportamento é o reflexo do seu — disse ela, mordendo o lábio inferior e puxando-o pela nuca.

A noite na cobertura seguiu seu curso habitual de extremos. Em um quarto, o silêncio, a doçura e o apego emocional de uma jovem que buscava na arte e no amor romântico um refúgio para sua insegurança. No outro, a disputa de poder, o sexo agressivo e a vaidade de uma mulher que usava o corpo como campo de batalha.

Emanuel transitava entre os dois mundos com a perícia de um tatuador que sabe exatamente quanta pressão aplicar na agulha para não rasgar a pele, mas para deixar uma marca eterna. Ele sabia que as joias eram apenas símbolos de uma posse que ele exercia de formas diferentes.

Horas depois, quando a casa finalmente silenciou, Emanuel estava na varanda, observando as luzes de São Paulo. Ele sabia que a trégua era temporária. Amanhã, Sara encontraria um novo motivo para reclamar do café da manhã de Eduarda, e Eduarda encontraria um novo motivo para chorar baixinho em seu ateliê.

Mas, por enquanto, ele sentia o controle em suas mãos. Ele tinha o ouro, tinha o diamante e tinha a safira. Ele tinha a vulgaridade e a timidez sob o mesmo teto, adornadas por sua vontade. E enquanto ele pudesse presenteá-las com joias e cercá-las de luxo, ele acreditava que poderia manter o caos e a paz em um equilíbrio perfeito, mesmo que esse equilíbrio fosse tão frágil quanto o cristal de uma taça de uísque prestes a cair.

No fundo de sua mente, porém, uma dúvida persistia: o que aconteceria quando as joias não fossem mais suficientes? O que aconteceria se a "boneca de porcelana" decidisse quebrar ou se a "pantera de ouro" decidisse que a gaiola era pequena demais? Emanuel afastou o pensamento com um gole final de sua bebida. Para um homem rico e poderoso, o futuro era algo que se comprava. E ele ainda tinha muito crédito para gastar.