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Pecados de Ouro e Línguas de Veneno
O casarão da família de Emanuel, no Morumbi, exalava um perfume de tradição, madeira de carvalho e dinheiro antigo. Diferente do luxo moderno e minimalista da cobertura de Emanuel, a casa de seus pais era um monumento à sobriedade da alta sociedade paulistana. Tapetes persas legítimos cobriam o chão de mármore, e as paredes eram adornadas com retratos de antepassados que pareciam vigiar cada movimento dos convidados com desaprovação silenciosa.
Aquela noite não era apenas um jantar comum; era uma celebração de aniversário de casamento de Helena e Ricardo, os pais de Emanuel. A mesa de jantar, uma peça maciça que acomodava vinte pessoas, estava posta com aparelhos de jantar de porcelana francesa e talheres de prata que brilhavam sob o lustre de cristal tcheco. Tios conservadores, tias cobertas de pérolas e primos que administravam fundos de investimento preenchiam o ambiente com conversas polidas sobre a bolsa de valores e viagens a Courchevel.
Emanuel sentia o peso do estresse comprimindo suas têmporas. Ele sabia que trazer suas duas namoradas para um evento daquela magnitude era como caminhar em um campo minado carregando tochas acesas. De um lado, Eduarda parecia uma pintura de porcelana. Ela usava um vestido de renda renascença em tom off-white, com gola alta e mangas bufantes transparentes, evocando uma elegância vitoriana que encantava as tias mais velhas. Ela falava baixo, ouvia com atenção e sorria com uma timidez que Helena, a matriarca, adorava exibir como se fosse um troféu de boa educação.
Do outro lado, Sara era uma afronta visual aos costumes da família. Ela viera com um vestido de bandage preto, tão curto que cada vez que ela se movia, Emanuel temia um escândalo. O decote era profundo, exibindo o brilho do óleo corporal e o volume óbvio do silicone. Suas unhas eram garras douradas e sua risada, estridente demais para o ambiente, cortava a música clássica ambiente como uma serra elétrica.
— Eduarda, querida, me conte mais sobre aquele restauro que você acompanhou na Pinacoteca — pediu a tia Berenice, uma mulher que cheirava a talco e naftalina cara.
— Foi maravilhoso, tia Berenice — respondeu Eduarda, a voz doce e melodiosa. — Ver a camada de verniz antigo sendo removida para revelar as cores originais do século XIX é como ver uma alma sendo limpa. É um processo de paciência e respeito pela história.
— Que mocinha adorável, Emanuel — comentou um tio, dando um tapinha no ombro do sobrinho. — Você tem bom gosto. Uma mulher que valoriza o que é clássico.
Sara, que estava sendo ignorada pelos últimos dez minutos enquanto devorava o vinho mais caro da adega de Ricardo, soltou uma risada debochada que fez os talheres de prata tilintarem.
— Clássico? Ah, por favor! — Sara se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa, o que fez seu decote saltar perigosamente. — O que a Eduarda gosta mesmo é de coisa velha e empoeirada porque ela tem medo de viver no presente. Essa história de restauro é só uma desculpa para ela continuar sendo essa santinha de museu.
O silêncio caiu sobre a mesa como uma cortina de chumbo. Helena apertou o guardanapo de linho com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Emanuel lançou um olhar de aviso para Sara, mas ela já estava sob o efeito de três taças de vinho e uma fúria acumulada por ter sido deixada de lado.
— Sara, comporte-se — murmurou Emanuel, a voz gélida.
— Me comportar? Eu estou sendo eu mesma, Emanuel! — Ela deu um gole largo no vinho. — Diferente de certas pessoas, eu não finjo ser uma boneca de porcelana para agradar a sua mamãe. Eu sou uma mulher de verdade, com desejos de verdade e planos de verdade.
— E quais seriam esses planos, Sara? — perguntou um primo, tentando aliviar a tensão, sem saber que estava abrindo a porta do inferno. — Algum novo empreendimento na área de administração?
Sara sorriu, um sorriso predatório que fez Eduarda encolher os ombros e buscar a mão de Emanuel por baixo da mesa. A jovem sentia o desastre iminente em cada poro de sua pele sensível.
— Empreendimento? Bom, você pode chamar assim — disse Sara, olhando diretamente para Emanuel. — Eu estou planejando um investimento na minha própria infraestrutura. Sabe como é, né? Manutenção de luxo. Eu decidi que vou fazer uma ninfoplastia completa.
A tia Berenice engasgou com o vinho. O tio Ricardo parou o garfo no ar. Helena fechou os olhos, como se estivesse rezando por um arrebatamento imediato.
— Uma... o quê? — perguntou a prima mais jovem, confusa.
— Uma plástica íntima, querida! — exclamou Sara, a voz ecoando pelo salão. — Eu quero deixar tudo lá embaixo como se eu tivesse doze anos de idade. Lisinho, apertadinho, sem nenhuma sobra de pele. Afinal, uma mulher poderosa como eu tem que estar impecável em todos os ângulos, não acham?
— Sara, chega! — Emanuel levantou-se, a cadeira raspando o chão com um som estridente. — Você está passando de todos os limites.
— Ah, agora você ficou bravinho? — Sara levantou-se também, apontando o dedo para ele. — Ele não quer pagar, sabia, família? O grande Emanuel, o magnata das tatuagens, o homem que gasta fortunas com arte e cavalos, está sendo um pão-duro com a minha estética! Ele diz que é "vulgar". Mas na hora de aproveitar o resultado, ele não reclama, né?
— Por favor, Sara... pare — implorou Eduarda, as lágrimas já começando a brilhar em seus olhos grandes. — Não é o lugar, nem o momento...
— Você fica na sua, sua mosca morta! — Sara virou-se para Eduarda com um veneno renovado. — Você não precisa de plástica porque ninguém nem repara em você! Você é tão sem sal que se fizesse uma cirurgia, o médico nem saberia onde cortar para achar uma personalidade. Eu sou o fogo desta relação, e o Emanuel quer apagar o meu brilho negando o que eu quero!
Helena levantou-se com uma dignidade imperial, embora seu rosto estivesse lívido.
— Emanuel — disse a mãe, a voz tremendo de indignação —, eu exijo que você retire essa... essa pessoa da minha casa. Agora.
— Com todo prazer, mãe — disse Emanuel, segurando o braço de Sara com uma força que a fez soltar um ganido de surpresa.
— Me solta! Você está me machucando! — gritou Sara, tentando se desvencilhar enquanto os tios e tias observavam a cena com horror indisfarçável.
— Você não viu nada ainda — sibilou Emanuel no ouvido dela. — Eduarda, pegue suas coisas. Vamos embora.
— Ah, claro! Leve a sua protegida! — Sara continuava a gritar enquanto era arrastada em direção ao hall de entrada. — Leve a menina que estuda flores enquanto eu sou a única que tem coragem de dizer o que você realmente gosta na cama! Você é um hipócrita, Emanuel! Você adora a minha vulgaridade, mas tem vergonha dela na frente da sua família de plástico!
Eduarda caminhava atrás deles, de cabeça baixa, o rosto escondido pelas mechas de cabelo. Ela sentia a humilhação como se fosse um peso físico. Cada olhar de pena dos parentes de Emanuel era como uma agulhada em sua alma sensível. Ao passarem pela porta, ela ainda ouviu o comentário de uma das tias: "Pobre Emanuel, tão bem sucedido, mas carregando esse fardo loiro".
Já no jardim, longe dos ouvidos da família, Emanuel soltou Sara perto do Mercedes com um empurrão que a fez cambalear nos saltos agulha.
— Você é doente, Sara! — rugiu ele, a fúria finalmente transbordando. — Você humilhou a minha mãe, meu pai e a Eduarda no aniversário de casamento deles! Por causa de uma cirurgia de merda?
— Não é pela cirurgia, é pelo controle! — Sara gritou de volta, as lágrimas de raiva borrando sua maquiagem pesada. — Você usa o dinheiro para nos manipular. Dá joias eróticas para ela para se sentir o mestre, e nega o que eu quero para me sentir inferior! Eu odeio o jeito que você olha para ela, como se ela fosse uma santa! Ela não é santa, Emanuel, ela só é covarde!
Eduarda aproximou-se devagar, parando ao lado de Emanuel. Ela tocou o braço dele, um gesto automático de busca por proteção.
— Emanuel, vamos embora... por favor. Eu não aguento mais.
— Viu? — Sara apontou para Eduarda. — "Eu não aguento mais". A vítima! A manhosa! Ela te ganha no cansaço emocional, Emanuel. E você cai como um patinho.
Emanuel respirou fundo, tentando não perder o resto de sua sanidade. Ele olhou para a fachada da casa de seus pais, sabendo que levaria anos para apagar a mancha daquela noite.
— Entre no carro, Sara. Agora. Se você abrir a boca para falar mais uma palavra sobre sua anatomia ou sobre a Eduarda, eu te deixo na beira desta estrada e você pode ir a pé para casa.
O caminho de volta para a cobertura foi um túmulo de silêncio. Sara bufava no banco de trás, cruzando os braços e olhando pela janela com um bico de criança mimada. Eduarda, no banco do passageiro, chorava baixinho, o som de seus soluços sendo a única coisa que quebrava a tensão.
Ao chegarem na cobertura, Emanuel não esperou. Ele caminhou direto para o seu escritório e trancou a porta, precisando desesperadamente de isolamento.
Sara correu para o seu quarto e bateu a porta com tanta força que um dos quadros do corredor entortou.
Eduarda ficou sozinha na sala vasta e luxuosa. Ela caminhou até a varanda, sentindo o ar frio da noite paulistana. Ela olhou para as próprias mãos, tão delicadas e pálidas. Ela se perguntou, pela milésima vez, o que estava fazendo ali. Ela amava Emanuel, amava o cuidado dele, a forma como ele a fazia se sentir segura contra o mundo. Mas o preço dessa segurança era a convivência com o caos personificado em Sara.
— Ela tem razão em uma coisa — sussurrou Eduarda para o vento. — Eu sou covarde.
Horas depois, a porta do escritório de Emanuel se abriu. Ele saiu com um copo de conhaque na mão e encontrou Eduarda ainda na varanda, enrolada em uma manta, observando as luzes da cidade.
— Sinto muito por hoje, pequena — disse ele, aproximando-se e envolvendo-a em um abraço por trás. — Minha família não merecia aquilo, e você muito menos.
— Eles me odeiam agora, não é? — perguntou ela, a voz frágil. — Eles vão associar a minha imagem àquela cena horrível.
— Eles amam você, Duda. Minha mãe sabe quem é quem naquela mesa. Ela sabe que você é a luz e que a Sara... bom, a Sara é um erro que eu ainda não tive coragem de corrigir totalmente.
— Por que você não a manda embora, Emanuel? — Eduarda virou-se nos braços dele, os olhos buscando os dele. — Ela nos machuca. Ela te desrespeita.
Emanuel desviou o olhar. Como explicar para a doce Eduarda que a vulgaridade de Sara era o que alimentava sua criatividade sombria? Que o conflito era o combustível para sua arte?
— É complicado, Duda. Mas eu prometo que ela não vai mais pisar na casa da minha mãe. E quanto à cirurgia... ela pode gritar o quanto quiser. Eu não vou financiar a autodestruição dela para alimentar um ego que já é maior que este prédio.
Nesse momento, Sara apareceu na porta da varanda. Ela havia tomado banho e estava usando apenas uma camiseta de Emanuel, sem nada por baixo. Ela parecia mais calma, mas o brilho de desafio ainda estava lá.
— Eu ouvi isso — disse ela, encostando-se no batente da porta. — Você acha que é autodestruição? Eu acho que é evolução. Mas tudo bem, Emanuel. Se você não quer pagar, eu dou um jeito. Tenho amigos que apreciariam o investimento.
Emanuel apertou o copo de conhaque.
— Se você aceitar dinheiro de outro homem para isso, Sara, você não entra mais nesta casa.
— É uma ameaça? — Ela sorriu, aproximando-se dele e ignorando a presença de Eduarda como se ela fosse um móvel. — Ou é ciúme?
— É um fato — disse ele, a voz firme.
Sara riu e passou a mão pelo peito de Emanuel, uma provocação clara.
— Veremos. Por enquanto, eu vou dormir. O jantar me deixou exausta. Aquela comida da sua mãe... precisava de muito mais tempero. Assim como a sua namoradinha.
Ela deu um beijo rápido no canto da boca de Emanuel e saiu, rebolando de forma ostensiva.
Eduarda sentiu uma náusea súbita. Ela se soltou dos braços de Emanuel.
— Eu também vou dormir — disse ela, a voz sem emoção.
— Duda, espera...
— Boa noite, Emanuel. Espero que você consiga o que quer de nós duas. Porque eu não sei quanto tempo mais eu consigo ser o seu "silêncio" enquanto ela é o seu "grito".
Eduarda caminhou para o seu quarto, trancando a porta. Pela primeira vez, ela não queria o carinho dele. Ela queria apenas o silêncio que a arte lhe proporcionava, longe da vulgaridade, longe da posse e longe daquela mesa de jantar que havia destruído o pouco de paz que ela ainda possuía.
Emanuel ficou sozinho na varanda. Ele olhou para o céu sem estrelas de São Paulo e sentiu, pela primeira vez, que o império que ele construíra — de estúdios, de luxo e de mulheres — estava começando a rachar. E a rachadura tinha o formato de uma língua venenosa e de um coração sensível demais para o mundo que ele habitava.