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O Perfume da Ausência e a Armadura de Algodão
A manhã na cobertura de Emanuel tinha um peso diferente após o desastroso jantar na casa de Helena. O sol de outono entrava pelas janelas de vidro do teto ao chão, iluminando as partículas de poeira que dançavam sobre os móveis minimalistas, mas não conseguia aquecer o clima gélido que se instalara entre os três. Emanuel havia saído cedo para o estúdio; um cliente internacional de última hora exigia sua atenção exclusiva, e ele, como sempre, usava o trabalho como uma válvula de escape para o caos doméstico.
Eduarda acordou com o som da porta da suíte de Sara batendo. A loira, fiel ao seu estilo, já estava de pé, provavelmente gravando vídeos para suas redes sociais ou reclamando ao telefone com alguma amiga sobre a "falta de classe" da família de Emanuel. Eduarda, no entanto, permaneceu na cama por longos minutos, sentindo o vazio do lado de Emanuel. Ela detestava os conflitos. A agressividade de Sara a deixava fisicamente exausta, como se cada insulto da outra mulher sugasse um pouco de sua vitalidade.
Lentamente, Eduarda se levantou. Ela não queria se vestir com suas roupas românticas hoje; sentia-se pequena, desprotegida. Caminhou até o closet de Emanuel, um santuário de tons escuros, couro e tecidos caros. O cheiro dele estava impregnado ali — uma mistura de tabaco suave, tinta de tatuagem e um perfume amadeirado que a fazia se sentir segura.
Ela deslizou os dedos pelas camisas penduradas e escolheu uma de algodão egípcio, branca e impecavelmente passada. Tirou o pijama de seda e vestiu apenas uma calcinha de renda clara, deixando que a camisa de Emanuel caísse sobre seu corpo. O tecido era grande demais, as mangas cobriam suas mãos e a barra chegava até o meio de suas coxas delicadas. Ela abotoou apenas os botões centrais, deixando o colarinho frouxo. Era sua armadura secreta; usar as roupas dele era como estar nos braços dele o dia todo.
Ao chegar na cozinha para preparar um chá, ela encontrou Sara. A loira estava sentada na ilha de granito, usando um conjunto de ginástica rosa choque que parecia ter sido esculpido em seu corpo. Ela bebia um suco detox enquanto digitava furiosamente no celular. Quando ouviu os passos suaves de Eduarda, Sara levantou o olhar, e seus olhos azuis se estreitaram em puro desdém.
— Mas olha só... — Sara soltou uma risada anasalada, deixando o celular de lado. — A "santinha" resolveu brincar de casinha logo cedo. O que é isso, Eduarda? Algum fetiche novo para tentar compensar o fato de que você é um tédio total?
Eduarda sentiu o rosto esquentar, mas manteve a cabeça baixa, focada em colocar a água para ferver.
— É apenas confortável, Sara. Emanuel não se importa.
— Emanuel não se importa com nada do que você faz, porque você é invisível — rebateu Sara, levantando-se e caminhando até Eduarda com a graça predatória de quem sabe que tem o corpo mais chamativo. — Você usa as camisas dele para tentar sentir que ele te pertence, não é? É patético. Você parece uma criança perdida que pegou as roupas do pai.
Sara parou ao lado dela, o cheiro de perfume doce e forte invadindo o espaço de Eduarda. Ela esticou a mão e puxou o colarinho da camisa que Eduarda usava, expondo um pouco da clavícula da jovem.
— Ele gosta de ver isso? — Sara zombou. — Esse visual de "acabei de acordar e sou pura"? Porque eu garanto a você, Eduarda, quando ele quer fogo, ele não vem atrás de uma camisa de algodão e uma carinha de choro. Ele vem atrás de mim.
— O Emanuel gosta de paz — disse Eduarda, finalmente levantando os olhos, que brilhavam com uma determinação silenciosa. — E ele gosta de saber que, quando chega em casa, tem alguém que não vai exigir um cheque ou uma cirurgia plástica a cada cinco minutos.
Sara deu um passo à frente, a fúria faiscando em seu olhar. A menção à cirurgia ainda era uma ferida aberta após o jantar.
— Você se acha tão superior, não é? Com seus livrinhos de arte e esse seu jeito de quem pede desculpas por existir. Mas a verdade é que você é uma parasita emocional. Você se apoia nele porque não tem coragem de ser mulher o suficiente para enfrentar o mundo sozinha.
— E você se apoia no dinheiro dele porque não tem nada por dentro para oferecer — retrucou Eduarda, a voz trêmula, mas firme.
A mão de Sara subiu, como se fosse desferir um tapa, mas ela parou no ar. Ela sabia que, se tocasse em Eduarda, Emanuel seria implacável. Em vez disso, ela soltou uma risada venenosa e se aproximou do ouvido de Eduarda.
— Aproveite a camisa enquanto pode, querida. Porque, no final das contas, ele sempre volta para o que é real, vibrante e... caro. E você é apenas um rascunho em preto e branco.
Sara saiu da cozinha batendo os saltos, deixando Eduarda sozinha com o som da água fervendo. Eduarda fechou os olhos e apertou o tecido da camisa contra o corpo. O cheiro de Emanuel a acalmou. Ela preparou seu chá e se refugiou na varanda, tentando ignorar a presença de Sara que ainda ecoava no apartamento através de músicas altas vindas do quarto da loira.
As horas passaram devagar. Eduarda tentou ler, mas sua mente voltava constantemente para a insegurança que Sara plantava com tanta facilidade. Ela se olhou no reflexo do vidro da varanda. A camisa de Emanuel a fazia parecer pequena, sim, mas havia uma intimidade naquilo que Sara jamais entenderia. Sara era sobre a exibição pública; Eduarda era sobre o que acontecia entre as quatro paredes, no silêncio dos sussurros.
No final da tarde, o som da fechadura eletrônica anunciou a chegada de Emanuel. Eduarda sentiu o coração acelerar. Ela ainda estava com a camisa dele, os cabelos presos em um coque desleixado, os pés descalços.
Emanuel entrou na sala parecendo exausto. Ele jogou a chave sobre o aparador e soltou os primeiros botões da própria camisa, suspirando. Quando viu Eduarda vindo em sua direção, sua expressão endurecida suavizou-se instantaneamente.
— Oi, pequena — disse ele, a voz rouca.
Ele a envolveu em um abraço, enterrando o rosto no pescoço dela. Ele sentiu o tecido familiar de sua própria camisa e sorriu contra a pele de Eduarda.
— Você pegou a minha favorita — murmurou ele.
— Eu precisava de você hoje — sussurrou ela, aninhando-se nele. — O dia foi longo.
— A Sara te incomodou? — perguntou Emanuel, afastando-se o suficiente para olhar no rosto dela. Ele percebeu o leve inchaço nos olhos de Eduarda.
— Ela sempre incomoda, Emanuel. Mas eu estou bem. Só queria que você chegasse.
Emanuel a pegou no colo, como se ela não pesasse nada, e a levou para o sofá. Ele a sentou em seu colo, as pernas de Eduarda envolvendo sua cintura, a camisa dele subindo um pouco mais, revelando a curva de seus quadris e a renda da calcinha.
— Você fica linda assim — disse ele, passando as mãos grandes pelas costas dela, por cima do algodão. — Parece que você faz parte de mim.
— A Sara disse que eu pareço uma criança perdida — comentou Eduarda, não resistindo a contar.
Emanuel soltou um suspiro de irritação.
— A Sara não entende o que é sutileza. Ela acha que tudo tem que ser gritado, mostrado, exposto. Ela não entende que o que eu sinto quando vejo você usando algo meu é muito mais profundo do que qualquer lingerie de grife que ela compre com o meu cartão.
Nesse momento, Sara apareceu na sala. Ela havia trocado de roupa e usava um vestido de seda vermelha, curto e provocante, claramente preparada para exigir que Emanuel a levasse para jantar fora. Ao ver a cena no sofá, ela parou, as mãos nos quadris.
— Ah, que cena idílica — disse Sara, a voz carregada de sarcasmo. — O mestre e sua pequena protegida. Emanuel, querido, você realmente vai ficar aí perdendo tempo com esse drama doméstico? Eu reservei uma mesa naquele restaurante novo na Oscar Freire.
Emanuel nem sequer se virou para olhá-la. Ele continuou com os olhos fixos em Eduarda, acariciando o rosto da jovem.
— Eu não vou a lugar nenhum hoje, Sara. Estou cansado. Peça algo pelo aplicativo ou saia com suas amigas.
— Você está brincando? — Sara deu um passo à frente, a voz subindo de tom. — Eu passei o dia me preparando! Eu não vou ficar trancada aqui enquanto você mima essa menina que nem se deu ao trabalho de se vestir como uma mulher!
Emanuel virou o rosto lentamente para Sara. Seu olhar era gélido, o tipo de olhar que fazia seus funcionários no estúdio tremerem.
— Ela está vestida exatamente como eu gosto. E se você não está satisfeita com a programação de hoje, a porta da rua continua no mesmo lugar. Eu não sou seu animador de festas, Sara.
Sara ficou boquiaberta. Ela olhou para Eduarda, que estava escondida no peito de Emanuel, e sentiu uma onda de fúria cega.
— Você prefere ficar aqui, abraçado a uma camisa velha, do que sair comigo? O que houve com você, Emanuel? Ficou mole?
— Eu fiquei exausto, Sara! — Emanuel levantou a voz, o que fez Eduarda dar um pequeno sobressalto. — Exausto de gritos, de exigências, de superficialidade. Hoje eu só quero silêncio. E se você não pode oferecer isso, saia.
Sara bufou, as narinas dilatadas. Ela sabia quando havia perdido uma batalha, mas nunca aceitava a derrota com dignidade.
— Tudo bem! Fique aí com a sua boneca de pano. Mas não reclame quando você se cansar dessa monotonia e perceber que o que você realmente quer é o que eu tenho para oferecer.
Ela girou nos calcanhares e marchou em direção à porta de saída, batendo-a com tanta força que o som ecoou por todo o apartamento.
O silêncio que se seguiu foi imediato e abençoado. Emanuel relaxou os ombros e voltou a abraçar Eduarda.
— Desculpe por isso — murmurou ele. — Eu só queria um momento de paz com você.
— Ela me odeia tanto, Emanuel... — disse Eduarda, a voz abafada contra o peito dele. — Às vezes eu acho que ela tem razão. Que eu sou sem graça perto dela.
Emanuel segurou o queixo de Eduarda e a obrigou a olhá-lo nos olhos.
— Escute bem, Eduarda. A Sara é como uma tatuagem de flash: chama a atenção, é vibrante, mas você vê em todo lugar. Você... você é uma obra de arte exclusiva. Cada detalhe, cada traço de sensibilidade, essa sua mania de usar minhas camisas... isso é o que me mantém são. Ela é o barulho que eu suporto, mas você é a música que eu escolho ouvir.
Eduarda sorriu, as lágrimas finalmente secando. Ela se sentiu amada, não pelo que ela mostrava ao mundo, mas pelo que ela era para ele na intimidade.
— Você realmente gosta de me ver assim? — perguntou ela, puxando levemente a gola da camisa.
— Eu amo — disse ele, a voz baixando para um tom mais íntimo. — Gosto de saber que a minha pele tocou esse tecido e agora ele toca a sua. É como se eu estivesse te abraçando o tempo todo.
Ele a beijou, um beijo lento e profundo que selava a promessa de uma noite tranquila. Emanuel a levou para o quarto, onde a luz era suave e o mundo exterior não importava. Ele a despiu da camisa com a mesma reverência com que um colecionador manuseia uma peça rara, e naquela noite, entre os lençóis de linho, Eduarda percebeu que não precisava de armaduras ou de vestidos caros.
Ela era o refúgio dele, e ele era o dela.
Enquanto isso, em algum bar chique da cidade, Sara bebia seu terceiro coquetel, cercada de pessoas vazias e luzes brilhantes, tentando desesperadamente preencher o buraco que a simplicidade de uma camisa branca e um abraço sincero haviam deixado em seu ego. Ela tinha o ouro, o silicone e a audácia, mas, naquela noite, ela era a única que estava verdadeiramente nua e sozinha.
Na cobertura, Eduarda adormeceu com o rosto encostado no peito de Emanuel. Ela não tinha mais medo do veneno de Sara. Pois ela sabia que, enquanto pudesse se perder no perfume das roupas dele e no calor de suas palavras, ela seria sempre a verdadeira dona daquele império de tinta e silêncio. A arte, afinal, sempre sobrevive ao espetáculo. E o amor de Eduarda era a obra-prima que Emanuel jamais deixaria de proteger.