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Sombras de Esmeralda e o Silêncio da Mata

O rugido do motor do jipe de Emanuel era o único som que cortava a estrada de terra batida, subindo as colinas em direção ao coração da Mata Atlântica. O sol já começava a se despedir, pintando o céu com tons de violeta e laranja, mas dentro do veículo, o clima era uma mistura de tensão claustrofóbica e expectativa. Emanuel mantinha as mãos firmes no volante, o olhar fixo na trilha sinuosa. Ele precisava de ar. Precisava que elas respirassem o mesmo ar puro que ele, longe das paredes de concreto da cidade e do veneno que as duas destilavam uma contra a outra.

No banco do passageiro, Eduarda estava encolhida, segurando a alça de segurança com as mãos pequenas. Ela vestia um conjunto de linho cru, elegante e suave, que parecia deslocado em meio à poeira. Seus olhos grandes observavam as árvores gigantescas passando pela janela com uma mistura de fascínio e medo.

— Manu... — murmurou ela, a voz quase sumindo no barulho do motor. — Tem certeza de que é seguro? Parece tão... isolado.

— É a minha propriedade, Duda — Emanuel respondeu, lançando um olhar rápido e terno para ela. — Ninguém entra aqui sem minha permissão. É o lugar mais seguro do mundo.

— Seguro e entediante! — A voz de Sara chicoteou do banco de trás. Ela estava sentada de pernas cruzadas, usando botas de cano alto de grife que custavam mais que um carro popular e um short jeans tão curto que era quase inexistente. — Emanuel, querido, eu achei que íamos para um resort em Angra, não para um acampamento de escoteiros. Olhe para as minhas unhas! Acabei de fazer o banho de gel. Se eu quebrar uma, você vai ter que me dar aquele anel de esmeralda que eu vi na vitrine ontem.

Emanuel apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.

— Sara, se você falar de joias mais uma vez nos próximos dez minutos, eu te deixo na beira da estrada para você negociar com os micos-leões.

Sara bufou, cruzando os braços sobre os seios siliconados que pulavam para fora do top decotado. Ela lançou um olhar mortal para a nuca de Eduarda.

— E você, mosca morta? Está aí toda quietinha, fingindo que está rezando. Aposto que está adorando essa ideia de "contato com a natureza" só para ficar grudada no Manu como uma trepadeira.

Eduarda não respondeu. Ela apenas se encolheu um pouco mais, fechando os olhos. O silêncio da morena era o que mais irritava Sara; era uma barreira que a loira não conseguia quebrar com seus insultos vulgares.

Finalmente, o jipe parou em uma clareira ampla, onde uma cabana de madeira e vidro se erguia, integrada perfeitamente à vegetação. Era uma obra-prima da arquitetura moderna, rústica e luxuosa ao mesmo tempo. Emanuel desceu, respirando fundo o cheiro de terra molhada e mato.

— Chegamos — anunciou ele, abrindo a porta para Eduarda.

Ele a ajudou a descer, segurando-a pela cintura com uma delicadeza que fez Sara ranger os dentes enquanto saltava do jipe sozinha, quase torcendo o tornozelo no solo irregular.

— Maravilha — ironizou Sara, olhando para a cabana. — Pelo menos tem paredes. Achei que você ia nos fazer dormir em uma rede cercada de mosquitos.

— Entre, Sara. E pare de reclamar — ordenou Emanuel, pegando as malas.

A noite caiu rapidamente, e com ela, os sons da floresta se intensificaram. O coaxar dos sapos e o estalar dos galhos criavam uma sinfonia que, para Eduarda, era poética, mas para Sara, era aterradora. Emanuel acendeu a lareira de pedra no centro da sala, as chamas dançando e refletindo em suas tatuagens enquanto ele se movia com a agilidade de um predador em seu habitat.

Ele amava as duas. De formas terrivelmente diferentes, mas amava. Eduarda era sua paz, o porto seguro onde ele descansava a alma cansada do mundo dos negócios e da sujeira das ruas. Sara era seu caos, o fogo que consumia sua paciência e alimentava seus instintos mais básicos. Ele não conseguia escolher, e por isso, as arrastava para o seu mundo, tentando forçar uma harmonia que parecia impossível.

— Venham aqui — disse ele, sentando-se no tapete de pele de carneiro diante do fogo.

Eduarda aproximou-se timidamente, sentando-se ao lado dele e apoiando a cabeça em seu ombro. Emanuel passou o braço por ela, puxando-a para perto. Sara, não querendo ficar atrás, sentou-se do outro lado, colando seu corpo quente ao dele, passando a mão pelo peito de Emanuel de forma provocativa.

— Está tão escuro lá fora — sussurrou Eduarda, olhando para as grandes janelas de vidro que mostravam apenas o negrume da mata. — Parece que a floresta está nos observando.

— É só o vento, Duda — disse Emanuel, beijando o topo da cabeça dela.

— O vento e a falta de sinal de celular — reclamou Sara, balançando o iPhone no ar. — Emanuel, isso é tortura. Eu preciso postar que estou aqui. Como as pessoas vão saber que eu sou rica e estou na floresta se eu não puder postar um story?

— Ninguém precisa saber de nada, Sara — Emanuel disse, a voz ficando rouca. — Hoje, o mundo não existe. Só nós três.

Ele se inclinou e beijou Sara com força, uma possessividade que a fez gemer contra seus lábios. Ao mesmo tempo, sua mão livre acariciava o rosto de Eduarda, que observava a cena com uma tristeza resignada. Emanuel separou-se de Sara e olhou para Eduarda, capturando seus lábios em um beijo lento e profundo, cheio de uma promessa de cuidado que Sara nunca entenderia.

— Eu quero que vocês parem de brigar — Emanuel sentenciou, olhando para as duas. — Pelo menos por esta noite. Eu trouxe vocês aqui para que entendam que vocês fazem parte da minha vida. Ambas.

— Ela começou — disse Sara, apontando para Eduarda. — Com esse jeito de coitadinha, fazendo você sentir pena dela o tempo todo.

— Eu não faço nada, Sara — Eduarda respondeu em um sussurro, os olhos marejados. — Eu só queria que você me deixasse em paz.

— Paz é para os mortos, querida. Eu estou viva, e eu quero o que é meu por direito.

Emanuel levantou-se abruptamente, a paciência esgotando-se.

— Já chega! — Ele caminhou até a porta e a abriu. O ar frio da noite invadiu a sala. — Se vocês não conseguem ficar no mesmo ambiente sem se atacar, talvez precisem de um pouco de perspectiva.

Ele pegou uma lanterna potente e olhou para as duas.

— Vamos caminhar. Agora.

— O quê? — Sara gritou. — No escuro? Você ficou louco?

— É uma ordem, Sara.

Eles saíram para a trilha que levava a um mirante natural. Emanuel ia na frente, a luz da lanterna cortando a escuridão. Eduarda seguia logo atrás, segurando na barra da camisa de Emanuel, enquanto Sara vinha por último, praguejando a cada passo que seus saltos afundavam na terra.

— Isso é ridículo! — gritava Sara. — Tem bichos aqui! Eu ouvi um barulho! Emanuel, tem uma onça atrás de mim!

— É só um gambá, Sara! — Emanuel respondeu sem olhar para trás.

De repente, Emanuel desligou a lanterna.

O silêncio e a escuridão foram absolutos. Eduarda soltou um ganido de susto e agarrou-se ao braço de Emanuel. Sara, em um impulso raro de vulnerabilidade, correu e abraçou as costas dele, escondendo o rosto em suas omoplatas.

— O que você está fazendo? — a voz de Sara saiu aguda, despida de sua arrogância habitual. — Liga essa luz, Emanuel!

— Escutem — disse ele, a voz calma e firme. — Esqueçam as unhas, os vestidos, as joias e a faculdade. Escutem a floresta. Ela não se importa com quem vocês são ou quanto dinheiro eu tenho. Ela apenas é.

Eles ficaram ali, parados no meio do nada. Aos poucos, os olhos delas começaram a se acostumar com a penumbra. A lua, quase cheia, surgiu por trás de uma nuvem, iluminando as copas das árvores com uma luz prateada e fantasmagórica.

— É lindo... — sussurrou Eduarda, perdendo o medo por um instante. — Parece um santuário.

— É assustador — murmurou Sara, mas pela primeira vez, ela não soltou Emanuel. Ela sentia o coração dele batendo contra suas costas e o de Eduarda batendo contra o braço dele.

Emanuel sentiu a conexão. Ali, no escuro, as barreiras sociais e as máscaras de vulgaridade ou timidez caíam. Elas eram apenas duas mulheres dependentes do mesmo homem, cercadas por uma força maior que todos eles.

— Eu amo vocês duas — Emanuel disse, as palavras pesando no ar frio. — Mas se vocês continuarem tentando se destruir, vão acabar me destruindo também. E eu não sou um homem que se deixa quebrar facilmente.

Ele ligou a lanterna novamente, mas a luz agora parecia menos agressiva. Eles continuaram até o mirante, uma pedra gigante que se projetava sobre um vale profundo. Lá embaixo, um rio serpenteava como uma fita de prata sob o luar.

Sara aproximou-se da beirada, olhando para o abismo. O vento soprou seus cabelos loiros, e por um momento, ela não parecia a mulher vulgar que frequentava salões de luxo, mas uma criatura selvagem e perdida.

— Você nos trouxe aqui para nos assustar, Emanuel? — perguntou ela, sem olhar para ele.

— Trouxe vocês aqui para que vejam como o ódio de vocês é pequeno diante da imensidão do mundo — ele respondeu, aproximando-se e ficando entre as duas.

Eduarda pegou a mão de Emanuel, e em um gesto surpreendente, estendeu a outra mão para Sara.

Sara olhou para a mão de Eduarda como se fosse um inseto estranho. Ela hesitou. A arrogância lutava contra o sentimento de isolamento que a floresta lhe impunha. Lentamente, com os dedos trêmulos, Sara aceitou a mão de Eduarda.

Emanuel sorriu, um sorriso raro e genuíno que raramente aparecia em seu rosto severo.

— Vamos voltar — disse ele. — Vou preparar o jantar.

A volta para a cabana foi mais calma. Sara ainda reclamava de vez em quando, mas o tom era mais de hábito do que de raiva. Eduarda caminhava com uma nova confiança, sentindo que, talvez, houvesse um lugar para ela naquele arranjo caótico.

Dentro da cabana, o calor da lareira os acolheu. Emanuel preparou uma carne na brasa e abriu uma garrafa de vinho tinto encorpado. Eles comeram sentados no chão, em um piquenique improvisado sobre o tapete.

O vinho começou a fazer efeito, e a tensão relaxou. Sara, já mais solta, começou a contar histórias de suas festas em Dubai, mas desta vez, sem a intenção de diminuir Eduarda, apenas para preencher o silêncio. Eduarda, por sua vez, falou sobre o simbolismo das flores nas pinturas renascentistas, e Sara, para surpresa de todos, ouviu com atenção, embora tenha feito um comentário sobre como "aquelas mulheres precisavam de um bom sutiã".

Emanuel observava, satisfeito. Ele sabia que aquela trégua era frágil, que assim que voltassem para a cidade e para o salão de beleza de Beatriz, as faíscas voltariam a voar. Mas ali, sob o teto de madeira e o céu de estrelas, ele tinha o que queria.

— Venham — disse ele, levantando-se e estendendo as mãos para as duas.

Ele as conduziu para o quarto principal, onde uma cama imensa, coberta com mantas de lã e travesseiros de penas, os esperava. O teto do quarto era de vidro, permitindo que eles vissem as estrelas enquanto se deitavam.

Emanuel ficou no meio, como sempre. Eduarda aninhou-se em seu lado direito, escondendo o rosto em seu pescoço, exalando seu perfume de lavanda e sabonete caro. Sara deitou-se à esquerda, jogando uma perna sobre a dele, o cheiro de perfume importado e suor leve subindo de sua pele quente.

— Manu? — chamou Eduarda, já quase dormindo.

— Sim, meu anjo?

— Obrigada por nos trazer. Eu... eu acho que entendi.

Sara soltou um suspiro longo, fechando os olhos.

— É, Emanuel. Você é um bruto, mas sabe como domar suas feras. Só não espere que eu comece a usar linho cru e a ler livros de arte amanhã.

Emanuel riu, uma risada baixa que vibrou no peito das duas.

— Eu não mudaria nada em nenhuma de vocês — ele sussurrou.

Enquanto a lua cruzava o céu sobre a mata fechada, os três adormeceram em um emaranhado de membros e respirações sincronizadas. Lá fora, a floresta continuava seu ciclo eterno, indiferente aos dramas humanos, mas protegendo, entre suas sombras e folhagens, o segredo daquele homem que amava o oposto e a semelhança com a mesma intensidade feroz.

A trégua duraria até o amanhecer, mas para Emanuel, aquele momento de silêncio compartilhado era a maior obra de arte que ele já havia ajudado a criar. E enquanto o fogo na lareira se transformava em brasas, ele soube que, não importava o quanto elas brigassem, elas sempre voltariam para ele, porque no final, eram as duas metades de um mundo que só ele sabia governar.