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Estilhaços de Vidro e Retalhos de Seda
O silêncio na mansão de Emanuel nunca era um sinal de paz; era apenas o intervalo entre duas tempestades. Naquela tarde, o ar parecia carregar uma eletricidade estática que fazia os pelos do braço de Eduarda se arrepiarem. Ela estava no andar de cima, terminando de se arrumar para o evento de gala beneficente que Emanuel patrocinaria naquela noite.
Eduarda usava um robe de seda clara, movendo-se com a delicadeza de quem teme quebrar o próprio reflexo. Ela caminhou até a sua penteadeira, o lugar onde guardava seus pequenos tesouros: pincéis de cerdas naturais, perfumes com notas de jasmim e, o mais importante, o porta-joias de porcelana pintado à mão que pertencera à sua avó. Não era uma peça de valor financeiro exorbitante, pelo menos não para os padrões de Emanuel, mas era onde residia a memória afetiva de Eduarda.
O estalo de um salto alto contra o assoalho de madeira anunciou a intrusa antes mesmo que ela cruzasse o batente da porta. Sara entrou no quarto sem bater, como sempre fazia, exalando um perfume doce e agressivo que parecia lutar contra a suavidade do ambiente.
— Ainda não está pronta, boneca? — Sara perguntou, a voz carregada de um sarcasmo ácido. Ela usava um babydoll de renda vermelha e segurava uma taça de champanhe. — O Manu detesta atrasos, embora eu ache que ele já esteja acostumado com a sua lentidão de tartaruga.
— Eu já estou quase pronta, Sara — Eduarda respondeu sem se virar, tentando manter a voz estável. — Por favor, saia. Eu gostaria de terminar de me vestir sozinha.
— Ah, por favor, como se eu nunca tivesse visto esse seu corpinho de criança — Sara riu, aproximando-se da penteadeira. Seus olhos brilharam com malícia ao ver o porta-joias. — O que é isso? Uma peça de museu? Ou você comprou em um brechó de quinta categoria?
— Não toque nisso! — Eduarda se levantou, a voz subindo uma oitava. — É da minha avó.
— É horroroso — Sara disse, pegando a peça com as pontas dos dedos longos e bem feitos. — Combina com você. Velho, sem brilho e prestes a desmoronar.
— Sara, me devolve! — Eduarda tentou alcançar o objeto, mas Sara, com um movimento brusco e calculado, recuou.
O movimento foi rápido demais. A mão de Sara "escorregou", e o porta-joias de porcelana voou pelo ar, atingindo o pé da cama de ferro antes de se espatifar no chão em dezenas de pedaços brancos e azuis. O impacto ecoou pelo quarto, seguido por um silêncio mortal.
— Ops — Sara disse, sem um pingo de remorso, levando a taça aos lábios. — Minha mão estava úmida por causa do gelo. Que pena, Duda. Acho que o lixo é o lugar dele agora.
Eduarda olhou para os cacos no chão. O coração dela parecia ter se quebrado junto com a porcelana. Não houve grito, não houve escândalo imediato. Houve apenas uma dor aguda que se transformou, em segundos, em uma raiva fria e desconhecida. Ela olhou para Sara, que sorria vitoriosa, e depois para o closet aberto da loira, visível através da porta de conexão entre as suítes.
Lá estava ele, pendurado em destaque: o vestido que Sara mandara vir de Milão especialmente para aquela noite. Um modelo de alta costura, verde-esmeralda, coberto de cristais e fendas estratégicas. Era o orgulho de Sara.
Sem dizer uma palavra, Eduarda caminhou até o quarto vizinho.
— O que você pensa que está fazendo, sua sonsa? — Sara gritou, seguindo-a.
Eduarda pegou uma tesoura de costura que estava sobre a mesa lateral e, com uma rapidez que ninguém esperaria dela, cravou a lâmina no tecido luxuoso. O som da seda rasgando foi como música para seus ouvidos feridos. Ela não parou em um corte; ela retalhou o corpete, transformando a obra de arte em trapos verdes que caíram no tapete.
— O MEU VESTIDO! — O grito de Sara foi tão agudo que pareceu quebrar as janelas. — VOCÊ DESTRUIU O MEU VESTIDO DE DEZ MIL DÓLARES! SUA VACA!
Sara avançou para cima de Eduarda, as mãos prontas para agarrar o cabelo da morena, mas o som de passos pesados e autoritários no corredor interrompeu o confronto. Emanuel apareceu na porta, já vestido com um smoking impecável, a expressão endurecida pelo estresse do trabalho e agora, pela visão do caos.
— O que significa isso? — A voz dele era um trovão baixo.
— Emanuel! Olha o que ela fez! — Sara se jogou nos braços dele, soluçando dramaticamente, apontando para os restos do vestido no chão. — Ela entrou aqui como uma louca e rasgou o meu vestido! Eu não tenho o que vestir! Ela me odeia, Manu! Ela é uma psicopata!
Emanuel olhou para o vestido destruído e depois para Eduarda, que ainda segurava a tesoura, as mãos tremendo, o rosto pálido e manchado de lágrimas.
— Eduarda? — O tom de Emanuel era de descrença absoluta.
— Ela quebrou o porta-joias da minha avó, Emanuel... — Eduarda tentou explicar, a voz falhando. — Ela fez de propósito. Ela riu da minha cara.
Emanuel olhou para Sara, que continuava a chorar em seu peito, e depois voltou a olhar para o vestido. Para um homem prático e focado em resultados como ele, o valor sentimental de uma porcelana antiga não se comparava ao desastre logístico de ter uma namorada sem roupa para um evento que começaria em uma hora.
— Sara, vá para o outro quarto e tente achar algo no seu armário que sirva — Emanuel ordenou, afastando-a gentilmente, mas com firmeza.
— Mas Manu... nada se compara a esse! — Sara resmungou, mas ao ver o olhar severo dele, ela saiu pisando duro, lançando um olhar de triunfo maligno para Eduarda antes de fechar a porta.
Emanuel fechou a porta e caminhou até Eduarda. Ele não a abraçou. Ele tirou a tesoura da mão dela e a colocou sobre a mesa com um estalo seco.
— Você perdeu a cabeça? — Ele perguntou, a voz carregada de uma frieza que cortava mais que a lâmina.
— Ela me provocou, Manu... Ela destruiu a única coisa que eu tinha da minha família — Eduarda disse, as lágrimas voltando a cair. Ela estendeu a mão para tocar o braço dele, buscando o conforto habitual, mas ele se esquivou.
— Eu não quero saber de porcelana, Eduarda! — Emanuel explodiu, fazendo-a sobressaltar-se. — Você tem noção do quanto eu trabalhei para organizar esse evento? Você sabe que a Sara precisa estar impecável ao meu lado hoje? Aquele vestido era uma peça única. O que você fez foi infantil, foi baixo e foi destrutivo.
— Mas ela começou...
— Eu não estou interessado em quem começou! — Ele gritou, aproximando-se, sua altura intimidando a pequena figura de Eduarda. — Eu espero classe de você. Eu espero que você seja a parte equilibrada dessa casa. Se você se rebaixa ao nível da Sara toda vez que ela te espeta, você não é melhor do que ela. Na verdade, hoje você foi pior. Você causou um prejuízo que não pode ser consertado em uma hora.
Eduarda soluçou, cobrindo o rosto com as mãos. Ela nunca vira Emanuel tão furioso com ela. Ele costumava ser seu protetor, seu escudo contra o mundo e contra Sara. Ouvir aquelas palavras era como receber bofetadas físicas.
— Eu estou decepcionado, Eduarda — ele continuou, a voz agora mais baixa, mas ainda mais letal. — Você vai ficar em casa hoje. Eu vou levar a Sara, e você vai passar a noite pensando no que fez. E não quero ouvir uma palavra sobre porcelana quando eu voltar. Se você quer coisas novas, eu te compro uma loja inteira, mas não ouse tocar nas coisas da Sara de novo. Entendeu?
Eduarda apenas assentiu, incapaz de falar. Emanuel saiu do quarto sem olhar para trás, batendo a porta com força.
Nas duas horas seguintes, Eduarda ficou sentada no chão do seu quarto, rodeada pelos cacos do porta-joias. Ela ouviu o som do carro de Emanuel saindo da garagem, imaginando Sara sentada ao lado dele, sorrindo com algum vestido reserva, sentindo-se a rainha da mansão. A solidão da casa parecia esmagá-la. Ela se sentia injustiçada, mas também sentia um peso de culpa. Ela sabia que Emanuel valorizava a ordem e a imagem, e ela havia quebrado as duas coisas.
Perto da meia-noite, o som do motor anunciou o retorno deles. Eduarda já estava deitada, mas não dormia. Ela ouviu as vozes no corredor, a risada alta de Sara — provavelmente levemente bêbada — e o silêncio de Emanuel. Ela esperou que ele entrasse no quarto para continuar a briga ou para ignorá-la completamente, mas nada aconteceu por um longo tempo.
Cerca de vinte minutos depois, a porta do quarto se abriu suavemente. Eduarda fechou os olhos, fingindo dormir. Ela sentiu o colchão afundar levemente quando Emanuel se sentou na beirada da cama. O cheiro de uísque e perfume caro o acompanhava.
— Eu sei que você está acordada, Duda — ele murmurou.
Eduarda abriu os olhos lentamente. Emanuel estava sem o paletó, com a gravata borboleta desfeita e os primeiros botões da camisa abertos. Ele parecia exausto. Em seu colo, havia uma caixa de transporte perfurada, dessas usadas para pequenos animais.
— O que é isso? — Ela perguntou, a voz rouca de tanto chorar.
Emanuel não respondeu imediatamente. Ele abriu a portinha da caixa e, com uma delicadeza surpreendente para um homem de mãos tão grandes e marcadas por tatuagens, tirou de lá um pequeno coelho branco, de orelhas caídas e olhos curiosos.
— Eu passei na casa de um amigo que cria esses bichos antes de voltar — disse Emanuel, colocando o coelhinho sobre o cobertor, perto de Eduarda. — Ele é pequeno, frágil e... manhoso. Achei que combinava com você.
Eduarda olhou para a pequena criatura, que começou a farejar o lençol. Ela sentiu uma pontada de doçura no peito, mas a mágoa ainda estava lá.
— Você gritou comigo — ela disse baixinho. — Você defendeu ela.
Emanuel suspirou, passando a mão pelos cabelos curtos.
— Eu defendi a ordem da noite, Duda. E eu ainda acho que o que você fez foi errado. Você não pode sair rasgando as coisas dos outros só porque está com raiva. O mundo não funciona assim, e a minha casa não pode ser um campo de batalha constante.
Ele fez uma pausa, olhando para o coelho e depois para os olhos marejados de Eduarda.
— Mas... — ele continuou, a voz suavizando — eu fui duro demais. Eu sei o quanto aquele porta-joias significava para você. Eu briguei com a Sara no carro. Eu disse a ela que, se ela tocar em algo seu de novo, eu a coloco para fora no mesmo instante, sem mala e sem cartão de crédito.
Eduarda sentou-se na cama, o coelhinho pulando para o seu colo. Ela acariciou os pelos macios do animal, sentindo as lágrimas voltarem, mas desta vez eram lágrimas de alívio.
— Você disse isso mesmo?
— Disse. E ela sabe que eu não brinco em serviço — Emanuel estendeu a mão e, desta vez, Eduarda não se esquivou. Ele acariciou a bochecha dela com o polegar. — Eu não passo a mão na sua cabeça quando você erra, Eduarda. Eu exijo muito de quem está ao meu lado. Mas eu não quero que você pense, nem por um segundo, que aquela loira vulgar tem mais importância para mim do que você.
Ele a puxou para um abraço. Eduarda se aninhou no peito dele, sentindo o calor do seu corpo e a segurança que só ele proporcionava. O coelhinho ficou entre os dois, um pequeno mediador de paz.
— Como ele vai se chamar? — Emanuel perguntou, beijando o topo da cabeça dela.
— Algodão — ela respondeu, com a voz manhosa que ele tanto gostava. — Porque ele é macio como o jeito que você me trata quando não está bravo.
Emanuel deu uma risada curta e rouca.
— Então ele vai ter que ser muito paciente, porque você e a Sara ainda vão me deixar louco antes do fim do ano.
Eduarda sorriu contra o peito dele. Ela sabia que a guerra com Sara estava longe de terminar. Na manhã seguinte, haveria novos insultos, novas provocações e, provavelmente, Sara tentaria assustar o coelho. Mas, por enquanto, ali naquela penumbra, ela tinha o seu perdão, o seu protetor e um novo pequeno amigo para curar a dor da porcelana quebrada.
Emanuel a apertou um pouco mais, fechando os olhos. Ele era um homem de contrastes: capaz de uma fúria avassaladora e de uma ternura inesperada. Ele sabia que a dinâmica entre as duas era insustentável a longo prazo, mas enquanto pudesse mediar os conflitos com vestidos novos e coelhinhos de desculpa, ele manteria seu reino intacto. Afinal, para um homem que vivia de marcar a pele dos outros para sempre, ele sabia que as cicatrizes emocionais eram as mais difíceis de tatuar, e ele faria de tudo para que as de Eduarda fossem as mais leves possíveis.