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D

O Tríptico da Discórdia e a Fuga para o Abismo

O silêncio no loft de Emanuel não era de paz; era o silêncio que precede a detonação de uma bomba. O tatuador estava parado diante da imensa parede de vidro que dava para a skyline de São Paulo, mas seus olhos não viam os prédios. Ele segurava um exemplar físico da revista *Exposed*, que acabara de chegar por um estafeta. Na capa, Sara posava com uma insolência que transbordava as margens do papel. O título em letras garrafais dizia: "A Vênus de Tinta: Sara e o Poder da Carne".

Emanuel jogou a revista sobre a mesa de centro. O som do impacto foi seco. Ele sentia uma irritação visceral, não apenas pelo fato de ela ter posado, mas pela vulgaridade estratégica com que ela o fizera. Sara não queria apenas arte; ela queria controle.

— Gostou da textura do papel, querido? — Sara apareceu no topo da escada em caracol, usando um robe de seda transparente que deixava muito pouco para a imaginação. Ela desceu os degraus com um sorriso predatório. — Disseram que é a edição mais vendida da década. O meu nome está em todos os outdoors da Avenida Paulista.

Emanuel virou-se lentamente. Sua expressão era gélida, os traços do rosto endurecidos como se tivessem sido esculpidos em granito.

— Você parece uma mercadoria barata, Sara — disse ele, a voz baixa e carregada de veneno. — Eu construí um nome baseado na exclusividade e no mistério. Você pegou tudo isso e jogou na lama por causa de cliques e ego. Você não é uma Vênus. Você é um anúncio de beira de estrada.

Sara parou diante dele, os olhos brilhando de fúria. Ela odiava quando ele usava aquele tom de superioridade intelectual.

— Você está morrendo de ciúmes! — ela disparou, apontando o dedo para o peito dele. — Você não suporta saber que agora o mundo inteiro sabe o que você tem entre quatro paredes. Você quer me trancar aqui como faz com aquela mosca morta da Eduarda, mas eu sou grande demais para o seu aquário, Emanuel!

— Você é barulhenta demais, isso sim — ele retrucou, aproximando-se dela com uma presença física que a fez recuar um passo. — Eu pago as suas contas, eu financio esse seu estilo de vida de rainha sem reino. Se você quer ser independente, comece por sair deste loft hoje mesmo.

A discussão escalou rapidamente. Gritos sobre lealdade, dinheiro e posse ecoavam pelas paredes de concreto aparente. No corredor lateral, Eduarda observava a cena com as mãos cobrindo os ouvidos. Ela estava vestida para sair: um vestido de linho lilás, delicado e romântico, com pequenas mangas bufantes e uma sapatilha de bico fino. Ela segurava o celular com força, onde uma mensagem de sua colega de faculdade, Bia, brilhava na tela: *"Duda, o almoço tá pronto! Vem logo, o pessoal da História da Arte já chegou. É aqui na Brasilândia, perto da praça. Te mando a localização!"*

Eduarda sentia o coração acelerado. Ela precisava sair dali. O clima entre Emanuel e Sara estava sufocante, e ela se sentia como um dano colateral em uma guerra de titãs.

— Manu... — ela chamou baixinho, aproveitando uma brecha no fôlego de Sara.

Emanuel virou o rosto na direção dela. O fogo da irritação ainda estava em seus olhos, mas suavizou minimamente ao encontrar a figura frágil de Eduarda.

— O que foi, Duda? — perguntou ele, tentando controlar a respiração.

— Eu... eu vou almoçar na casa da Bia. Lembra que eu te falei? É um trabalho em grupo sobre o Barroco Mineiro.

Emanuel franziu o cenho e caminhou até ela, ignorando Sara, que bufava de ódio ao ser deixada de lado. Ele pegou o celular da mão de Eduarda e olhou a localização.

— Brasilândia? — Ele soltou uma risada ríspida e incrédula. — Você enlouqueceu?

— É só um almoço, Manu. A Bia mora lá desde pequena, é seguro para ela...

— Para ela, Eduarda! — ele gritou, a agressividade voltando com força total. — Olhe para você! Você parece uma boneca de porcelana que nunca viu a luz do sol sem filtro solar. Você entra naquele bairro vestida assim e não dura dez minutos sem que alguém tente levar sua bolsa ou coisa pior. Eu conheço aquela região, tenho estúdios em lugares pesados, e eu te digo: você não vai.

— Mas é meu trabalho de faculdade! — Eduarda choramingou, os olhos já se enchendo de lágrimas. — Você não pode me proibir de tudo. Eu não sou uma criança!

— Nesta casa, você faz o que eu digo para a sua própria segurança — sentenciou Emanuel, guardando o celular dela no bolso do próprio paletó. — Você vai para o seu quarto, vai tirar esse vestido e vai pedir um delivery. Eu não vou buscar você em uma delegacia ou em um IML porque você resolveu ser "independente" em um bairro perigoso.

— Isso mesmo, Duda — provocou Sara, rindo da desgraça da outra. — Fica no seu cercadinho. O mundo lá fora morde meninas que cheiram a lavanda.

Eduarda sentiu uma onda de humilhação e revolta que nunca havia sentido antes. O jeito que Emanuel a tratava como um objeto frágil e a forma como Sara a diminuía eram demais para suportar. Ela não respondeu. Apenas deu meia-volta e correu para o quarto, batendo a porta.

— Ótimo! — gritou Emanuel para o corredor. — Agora eu vou para o estúdio resolver o prejuízo que a sua revista causou, Sara. E se eu voltar e você ainda estiver com esse robe, eu mesmo te jogo na rua!

Emanuel saiu, batendo a porta principal com uma força que fez os vidros vibrarem. Sara, irritada, foi para a cozinha abrir uma garrafa de champanhe, resmungando sobre como ele era um "cavernícola".

Dentro do quarto, Eduarda não estava chorando na cama. Ela estava frenética. Ela tinha um celular antigo na gaveta, que usava apenas para ouvir música. Ela o ligou, conectou ao Wi-Fi do loft e mandou uma mensagem para Bia pelo Instagram: *"Bia, meu celular quebrou, mas estou indo. Me espera no ponto de ônibus da praça, por favor!"*

Ela trocou as sapatilhas por um tênis branco, pegou uma jaqueta jeans para esconder o vestido chamativo e, com o coração na boca, saiu pela porta de serviço do loft, que Emanuel raramente conferia. Ela sabia que estava sendo imprudente, mas a necessidade de provar que podia ter uma vida fora daquela redoma de ouro era maior que o medo.

***

Quarenta minutos depois, o Uber parou em uma rua estreita e íngreme. O cenário era drasticamente diferente do luxo dos Jardins. Grafites coloridos cobriam os muros, o som de funk vinha de uma barbearia próxima e o cheiro de churrasco de rua impregnava o ar. Eduarda desceu do carro, sentindo-se imediatamente deslocada. Sua pele clara e seu jeito delicado atraíam olhares curiosos dos moradores que passavam.

— Bia? — ela chamou, olhando para os lados.

A praça estava movimentada, mas ela não via a amiga. Eduarda começou a caminhar, tentando seguir o mapa mental que fizera antes de sair. Cada assobio ou olhar mais demorado a fazia acelerar o passo.

Enquanto isso, Emanuel estava no estúdio, revisando alguns contratos, quando sua mão tateou o bolso e encontrou o celular de Eduarda. Ele o ligou por hábito, e viu uma notificação de "Login em novo dispositivo" na conta do Instagram dela.

O sangue de Emanuel gelou. Ele conhecia Eduarda. Sabia que aquele silêncio dela no quarto era perigoso demais para ser apenas obediência. Ele acessou o rastreamento do IP do login.

— Aquela garota idiota... — ele rosnou, levantando-se tão rápido que derrubou a cadeira.

Ele ligou para o seu chefe de segurança.

— Prepare o carro. Agora! A Eduarda fugiu para a Zona Norte. Se acontecer um arranhão naquela pele, eu juro que vou incendiar aquele bairro inteiro!

***

Eduarda estava perdida. Ela havia entrado em uma viela que parecia um labirinto. O sol estava forte e ela já sentia o suor sujar seu vestido de linho. De repente, três rapazes que estavam sentados em uma mureta se levantaram e começaram a caminhar em sua direção.

— Ei, bonequinha! Perdeu o castelo? — um deles perguntou, com um sorriso que não era nada amigável.

— Eu... eu estou procurando a casa da Bia. Professora Bia... — Eduarda gaguejou, recuando até suas costas baterem em um muro áspero.

— Não conheço nenhuma Bia, mas conheço esse relógio aí no seu pulso. Parece caro, né? — O rapaz mais alto se aproximou, esticando a mão para tocar o cabelo dela. — E esse perfume? Cheira a dinheiro, rapaziada.

Eduarda fechou os olhos, o pânico paralisando seus pulmões.

— Por favor... eu só quero ir embora...

— Agora é tarde, lindinha. Vamos bater um papo ali no canto...

Antes que o rapaz pudesse fechar a mão no braço de Eduarda, o som de um motor roncando alto ecoou pela viela. Uma SUV preta, com vidros escurecidos, subiu a calçada de forma agressiva, quase atropelando os rapazes.

A porta do motorista se abriu e Emanuel saiu. Ele não parecia um empresário ou um artista; ele parecia um carrasco. Seus olhos estavam injetados de raiva e a aura de violência que ele emanava era quase palpável.

— Saiam. Daqui. — A voz de Emanuel foi um trovão contido.

Os rapazes, percebendo que aquele homem não era um "almofadinha" comum — as tatuagens de gangue que Emanuel carregava nos nós dos dedos eram um código que eles entendiam muito bem —, recuaram imediatamente.

— Calma, chefia! A gente só estava dando uma informação para a moça... — disse o líder, levantando as mãos e desaparecendo por um beco lateral com os outros.

Emanuel caminhou até Eduarda. Ela estava trêmula, com as mãos cobrindo o rosto, soluçando baixinho.

— Manu... — ela sussurrou, desabando em direção a ele.

Emanuel a segurou com força, mas não foi um abraço carinhoso. Ele a apertou pelos ombros, forçando-a a olhar para ele. Sua expressão era de uma fúria possessiva absoluta.

— Você tem noção do que você fez?! — ele gritou, sacudindo-a levemente. — Eu avisei! Eu te disse que não era seguro! Você queria provar o quê? Que pode morrer em um beco por causa de um almoço idiota?

— Eu só queria sair! — ela gritou de volta, em um raro momento de explosão. — Eu não aguento mais você e a Sara brigando! Eu não aguento mais ser tratada como um móvel que você guarda onde quer!

Emanuel a calou com um olhar tão sombrio que ela perdeu a voz. Ele a arrastou para dentro do carro e bateu a porta. O silêncio dentro da SUV era sufocante. Ele dirigia em alta velocidade, as mãos apertando o volante com tanta força que o couro rangia.

— Você nunca mais vai sair sozinha, Eduarda. Nunca. — disse ele, sem olhar para ela. — Se eu tiver que contratar dez seguranças para ficarem na porta do seu banheiro, eu vou fazer. Você provou hoje que não tem maturidade para viver no mundo real.

— Você está me sequestrando na minha própria vida — ela disse, a voz manhosa transformada em um sussurro de dor.

— Eu estou mantendo você viva! — ele rebateu, parando o carro bruscamente em um sinal vermelho e virando-se para ela. — A Sara se expõe porque ela é cínica e sabe se defender. Você... você é um alvo, Duda. E enquanto você for minha, eu decido quem chega perto.

Ao chegarem no loft, a cena que os esperava era o ápice do caos. Sara estava na sala, cercada por malas e caixas. Ela usava um vestido justo e óculos escuros, mesmo dentro de casa.

— O que é isso? — perguntou Emanuel, entrando com Eduarda ainda sob seu braço.

— Eu estou indo embora, Emanuel — Sara anunciou, com um tom de voz estranhamente calmo. — A revista me conseguiu um contrato em Milão. Eu não preciso mais das suas migalhas de afeto ou das suas crises de controle. Fique com a sua boneca de porcelana. Vamos ver quanto tempo ela dura antes de quebrar nas suas mãos.

Emanuel olhou para as malas e depois para Sara. Uma parte dele sentiu um alívio imenso, mas a irritação pela insubordinação dela ainda queimava.

— Vá. E não ouse usar o meu nome ou o nome dos meus estúdios para conseguir contatos na Europa. Você está por conta própria, Sara.

— Eu sempre estive — ela retrucou, pegando sua bolsa de grife e caminhando até a porta. Antes de sair, ela olhou para Eduarda. — Boa sorte, pequena. Você vai precisar de muito mais do que tinta dourada para sobreviver ao que ele vai fazer com você agora que eu não estou mais aqui para distraí-lo.

A porta se fechou. O loft, antes barulhento e cheio de conflitos triplos, tornou-se um mausoléu de silêncio.

Emanuel virou-se para Eduarda. Sem a presença de Sara, toda a sua intensidade estava focada apenas nela. Ele caminhou devagar, encurralando-a contra a mesa onde a revista *Exposed* ainda repousava.

— Agora somos só nós, Duda — ele murmurou, a voz rouca e possessiva. Ele acariciou o rosto dela, o polegar pressionando seu lábio inferior com uma força desnecessária. — Sem fugas. Sem amigas de bairro perigoso. Sem Sara.

Eduarda sentiu um calafrio. Ela buscava a proteção dele, mas agora, aquela proteção parecia uma jaula que estava se fechando definitivamente.

— Manu, você está me assustando...

— Eu estou cuidando de você — ele corrigiu, puxando-a para um abraço esmagador, escondendo o rosto no pescoço dela. — E eu nunca mais vou deixar você fugir de mim. Você é a minha única paz, e eu não perco o que é meu.

Eduarda fechou os olhos, sentindo o cheiro de tinta e uísque de Emanuel. Ela estava segura, mas, no fundo de sua alma intuitiva, ela sabia que a liberdade que ela tanto buscara naquelas vielas perigosas havia acabado de morrer no conforto daquele loft de luxo. O dragão agora não tinha mais ninguém para combater, exceto a própria necessidade de possuí-la por inteiro.