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D

O Predador, a Presa e o Beijo do Dragão

O silêncio no loft de Emanuel, que antes parecia uma jaula de ouro, foi quebrado pelo som estridente da campainha às três da manhã. Emanuel, que estava sentado em sua poltrona de couro escuro, observando Eduarda dormir no sofá — envolta em uma manta de cashmere como se fosse um casulo de inocência —, não se moveu de imediato. Ele apenas apertou o copo de uísque, os olhos fixos na porta.

Quando ele finalmente abriu a entrada, não encontrou um invasor, mas um espectro de luxo decadente. Sara estava parada ali, o rímel borrado, o salto de uma das botas de grife quebrado e o orgulho nitidamente em frangalhos. A aventura em Milão, ao que parecia, tinha sido um desastre retumbante.

— O gato comeu a sua língua, Emanuel? — Sara tentou manter o tom de deboche, mas sua voz falhou. Ela entrou sem ser convidada, arrastando uma mala cravejada de cristais que agora parecia apenas um peso morto. — Aquele agente italiano era um vigarista. Ele queria mais do que apenas fotos, e eu... bom, digamos que eu não estava disposta a pagar o preço cobrado em certas moedas.

Emanuel encostou-se no batente da porta, cruzando os braços. Seus músculos tencionaram sob a camisa preta, e um sorriso sombrio e sem humor surgiu em seus lábios.

— Voltou com o rabo entre as pernas, Sara? — A voz dele era um sussurro perigoso. — Achei que você fosse grande demais para o meu aquário.

— Eu sou — ela retrucou, jogando a bolsa no chão e desabando em uma poltrona, longe de onde Eduarda dormia. — Mas até as baleias precisam de um porto seguro quando a tempestade aperta. Eu preciso de um lugar para ficar até reorganizar minha administração.

— Você fica no quarto de hóspedes. No fundo — sentenciou Emanuel. — E se você acordar a Eduarda com esse seu drama de diva falida, eu juro que te jogo no duto de lixo.

Sara lançou um olhar venenoso para a figura adormecida de Eduarda.

— Ela ainda está aqui? Achei que você já teria empalhado a coitadinha para garantir que ela não fugisse mais para a periferia.

Emanuel não respondeu. Ele apenas apontou para o corredor, um gesto final que Sara, em sua derrota momentânea, resolveu obedecer.

***

Na manhã seguinte, o sol de São Paulo entrou pelas janelas do estúdio principal de Emanuel, o *Rossi Ink*. O lugar era uma catedral de metal, vidro e o som constante das máquinas de tatuagem. Emanuel estava terminando um trabalho complexo nas costas de um cliente quando Eduarda entrou, trazendo um copo de café orgânico e aquele sorriso tímido que parecia iluminar até os cantos mais sombrios da alma dele.

— Manu, eu trouxe seu café — ela disse, aproximando-se com passos leves. Ela usava um vestido de seda rosa pálido, com um laço delicado no pescoço, parecendo uma pintura romântica perdida em um galpão industrial.

— Obrigado, pequena — Emanuel murmurou, pausando a máquina. Ele a puxou pela cintura para um beijo rápido e possessivo na testa, marcando seu território diante de todos os funcionários.

Sara, que havia insistido em acompanhar Emanuel ao estúdio sob o pretexto de "ajudar na gestão", estava sentada na recepção, lixando as unhas e lançando olhares de puro desdém para a cena.

— Isso aqui está parecendo um comercial de margarina de baixo orçamento — resmungou Sara. — Emanuel, você tem clientes VIP esperando e está perdendo tempo com carinhos de jardim de infância.

Antes que Emanuel pudesse retrucar, a porta pesada do estúdio se abriu, e o ar na sala pareceu mudar de densidade. Entrou um homem alto, cujas cicatrizes no rosto contavam histórias que a maioria das pessoas preferiria não ouvir. Era "O Russo", o chefe de uma das gangues mais temidas que controlava o fluxo de mercadorias no porto. Ele era cliente de Emanuel há anos, e o único homem que o tatuador respeitava — ou tolerava — por sua brutalidade honesta.

O Russo caminhou até o centro do estúdio, seus olhos gélidos varrendo o ambiente até pararem, com uma precisão cirúrgica, em Eduarda.

— Emanuel — disse o homem, a voz saindo como brita sendo esmagada. — Vim terminar o dragão no meu peito. Mas vejo que você adquiriu algo muito mais interessante do que tintas novas desde a minha última visita.

Emanuel imediatamente se colocou à frente de Eduarda, a mão indo instintivamente para a base do pescoço dela, protegendo-a.

— Ela não é um item de exposição, Russo. É a minha mulher.

O Russo deu um passo à frente, ignorando a tensão óbvia. Ele olhou para Eduarda como se ela fosse um artefato raro de museu.

— Ela é... suave — comentou o gângster, esticando um dedo calejado para, talvez, tocar o laço do vestido dela. — Eu gosto de coisas suaves. O mundo onde eu vivo é feito de arestas e sangue. Uma criatura dessas seria um excelente adorno para a minha mesa de jantar.

Eduarda estremeceu, escondendo o rosto no ombro de Emanuel. Ela sentia o perigo emanando daquele homem, uma escuridão que era diferente da de Emanuel; a de Emanuel era protetora, a do Russo era predatória.

— Ela não é um adorno — rosnou Emanuel, os olhos brilhando com uma fúria agressiva. — E se você terminar essa frase, o único dragão que eu vou tatuar em você hoje será um que eu vou esculpir com um bisturi.

Sara, percebendo a oportunidade de causar caos, levantou-se e caminhou até eles com um rebolado exagerado.

— Ora, Sr. Russo, não ligue para o Emanuel. Ele é um pouco... primitivo com as posses dele. Eu sou a Sara, a mente por trás do império. Se o senhor gosta de beleza, talvez queira olhar o meu portfólio na revista *Exposed*.

O Russo desviou o olhar para Sara por um segundo, analisando o silicone, o cabelo platinado e o batom berrante. Ele soltou uma risada ríspida.

— Você? Você é como uma dessas luzes de neon de bordel, loira. Brilha muito, mas não tem alma. Eu quero a pequena. Ela tem cheiro de flores e medo. É um vício que eu adoraria cultivar.

O rosto de Emanuel ficou pálido de raiva. Ele soltou Eduarda e deu um passo na direção do Russo, os punhos cerrados.

— Saia do meu estúdio. Agora.

— Calma, Emanuel — disse o Russo, abrindo os braços com um sorriso sinistro. — Eu sou seu melhor cliente. Só estou admirando a vista. Mas saiba de uma coisa... tudo tem um preço. Até o que você acha que não está à venda.

O gângster deu meia-volta e saiu, mas não antes de lançar um último olhar para Eduarda, um olhar que prometia que aquele não seria o último encontro.

***

O resto do dia foi um inferno de tensão. Emanuel estava em um estado de irritação constante, quebrando agulhas e gritando com os aprendizes. Eduarda, sentindo-se culpada por ser o centro da discórdia, encolheu-se em um canto do escritório, tentando ler um livro sobre o Renascimento, mas as palavras pareciam embaralhadas.

Sara, por outro lado, estava se divertindo.

— Você viu como ele olhou para você, Duda? — provocou Sara, entrando no escritório com uma taça de vinho. — Ele vai te levar, sabia? Um homem como o Russo não pede por favor. Ele simplesmente pega. E o Emanuel... bom, o Emanuel pode ser o rei das tatuagens, mas o Russo é o rei das covas rasas.

— Cala a boca, Sara! — Eduarda gritou, a voz saindo aguda e trêmula. — O Manu não vai deixar nada acontecer comigo!

— O "Manu" está quase tendo um aneurisma de tanto ódio — Sara riu. — É engraçado, na verdade. Você é tão santinha que atrai os demônios mais pesados.

Emanuel entrou no escritório naquele exato momento. Ele parecia exausto, o cabelo bagunçado e os olhos sombrios.

— Sara, se eu ouvir a sua voz de novo nos próximos dez minutos, eu vou te trancar no estoque de tintas e só te solto no próximo mês — ele disse, a voz gélida.

Sara revirou os olhos e saiu, rebolando. Emanuel caminhou até Eduarda e se ajoelhou entre as pernas dela, apoiando a cabeça em seu colo. Eduarda, intuitiva como sempre, começou a acariciar os cabelos dele, sentindo a tensão nos ombros do homem.

— Eu não vou deixar ele chegar perto de você, pequena — ele sussurrou, a voz abafada pelo tecido do vestido dela. — Eu vou colocar mais seguranças. Vou blindar o loft. Vou...

— Manu, você está me assustando de novo — ela disse, baixinho. — Eu não sou uma joia que precisa ser guardada em um cofre.

Emanuel levantou o rosto, e a expressão dele era uma mistura de possessividade e desespero.

— Para mim, você é. O mundo é um lugar imundo, Eduarda. Homens como o Russo veem algo puro como você e querem estragar. Eles querem ver a luz nos seus olhos se apagar. E eu prefiro queimar o mundo inteiro a deixar que uma única sombra toque em você.

— Você é muito dramático às vezes — ela disse, tentando aliviar o clima com um toque de humor ingênuo. — Parece aqueles vilões de novela mexicana que eu via com a minha avó.

Emanuel piscou, pego de surpresa pela comparação. Ele soltou uma risada curta, a primeira do dia.

— Novela mexicana? Sério, Eduarda? Eu sou um tatuador renomado, um empresário... e você me compara com um vilão de novela?

— Sim! — ela riu, sentindo o clima suavizar. — Só falta o bigode e a música de suspense toda vez que você entra na sala.

Emanuel balançou a cabeça, puxando-a para um abraço apertado.

— Você é a única pessoa que consegue me fazer rir quando eu sinto vontade de esganar alguém. Mas não se engane, pequena. Eu posso ser um vilão de novela, mas eu sou o vilão que fica com a mocinha no final. E ai de quem tentar mudar o roteiro.

***

A noite caiu sobre São Paulo, e o retorno para o loft foi cercado por uma escolta de três carros pretos. Emanuel não estava correndo riscos. Sara ia no banco de trás, reclamando do "excesso de paranoia".

— Emanuel, o Russo é um criminoso, não um sequestrador de princesas da Disney — ela disse, retocando o batom. — Ele só queria te irritar. E funcionou maravilhosamente bem.

— Ele não estava brincando, Sara — Emanuel respondeu, os olhos fixos no retrovisor. — Eu conheço o olhar de um homem que decidiu o que quer. E ele quer a Eduarda.

Ao chegarem no loft, Emanuel trancou todas as portas e ativou o sistema de segurança de última geração. Ele se sentia como um animal protegendo sua toca. Eduarda foi para o banho, tentando tirar o cheiro de estúdio e a sensação do olhar do Russo de sua pele.

Enquanto isso, na cozinha, Sara e Emanuel tiveram um confronto final.

— Por que você ainda deixa ela ficar aqui, Emanuel? — perguntou Sara, servindo-se de mais vinho. — Ela é um fardo. Você vive em estado de alerta. Comigo era mais fácil. Nós éramos iguais. Dois predadores.

— Exatamente, Sara — Emanuel disse, aproximando-se dela. — Dois predadores acabam se matando ou se cansam um do outro. A Eduarda... ela é o que me mantém humano. Ela é a única coisa que não tem um preço, que não é um negócio. E é por isso que ela fica. E é por isso que você vai embora assim que conseguir um hotel.

Sara sentiu a pontada de rejeição, mas antes que pudesse responder, o som de algo batendo no vidro da varanda as assustou.

Emanuel sacou uma arma que mantinha escondida sob o balcão da cozinha em um movimento fluido. Ele caminhou até a varanda, mas não havia ninguém. Apenas uma caixa de veludo preto deixada sobre a mesa externa.

Ele abriu a porta de vidro com cautela e pegou a caixa. Dentro, havia um colar de diamantes negros, caríssimo e pesado, com um bilhete escrito em caligrafia elegante: *"Para a pequena flor. Ouro e diamantes combinam com a pureza. Vejo você em breve. — R."*

Emanuel rosnou, fechando a caixa com tanta força que o estalo ecoou pela sala.

— Ele entrou aqui... — sussurrou Sara, a voz agora tremendo de verdade. — Emanuel, o Russo entrou no seu loft.

Emanuel não disse nada. Ele caminhou até a lixeira e jogou a caixa lá dentro. Depois, foi até o quarto onde Eduarda estava saindo do banho, vestida com um pijama de seda azul-claro que a deixava com um ar ainda mais frágil.

— Manu? O que aconteceu? — ela perguntou, vendo a expressão sombria no rosto dele.

Emanuel não respondeu com palavras. Ele a pegou no colo e a levou para a cama, cobrindo-a com o próprio corpo. Ele a beijou com uma intensidade desesperada, uma mistura de desejo e proteção que quase a sufocava.

— Você não vai sair de perto de mim nem por um segundo — ele murmurou contra os lábios dela. — Amanhã, nós vamos para a minha casa de campo. É uma fortaleza. Ninguém entra. Ninguém sai.

— Mas as minhas aulas... — ela tentou protestar.

— Esqueça as aulas, Eduarda! — ele explodiu, segurando o rosto dela com as mãos. — O mundo lá fora decidiu que você é o prêmio. E eu sou o único que vai ganhar essa competição. Entendeu?

Eduarda viu a lágrima de raiva e medo brilhar nos olhos de Emanuel. Ela percebeu que, naquele momento, o homem agressivo e possessivo que ela amava estava em sua forma mais vulnerável. Ela o abraçou, enterrando o rosto em seu peito.

— Tudo bem, Manu. Eu fico com você. Sempre.

No escuro do quarto, enquanto Emanuel a vigiava como um sentinela, Sara estava na sala, olhando para a lixeira onde os diamantes negros brilhavam sob a luz da cozinha. Ela sorriu de forma amarga. O jogo tinha acabado de subir de nível. E ela sabia que, naquela guerra entre o tatuador e o gângster, a pequena Eduarda seria a tela onde o sangue seria pintado.

Emanuel apertou Eduarda mais forte contra si. Ele era o mestre das tintas, o dono das agulhas, o senhor do seu império. Mas ali, no silêncio da noite, ele sabia que a batalha pela alma de sua pequena estava apenas começando. E ele estava disposto a se tornar o monstro que todos temiam para garantir que ela continuasse sendo o seu anjo.

— Durma, pequena — ele sussurrou. — O dragão está acordado. E ninguém toca no tesouro do dragão.