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Labirintos de Vidro e o Brilho da Provocação
O ambiente do "Velvet Lounge" era o oposto exato da calmaria que Emanuel buscava após uma semana exaustiva gerenciando a abertura de seu novo estúdio em Berlim. O ar estava saturado com o perfume caro de mulheres da alta sociedade, o cheiro de tabaco importado e o som de jazz moderno que pulsava suavemente pelas paredes revestidas de veludo carmesim. Emanuel estava sentado em um dos reservados mais discretos, sua postura rígida e seu olhar cinzento varrendo o local com a vigilância de um falcão.
Ao seu lado esquerdo, Eduarda parecia uma pintura delicada. Ela usava um vestido de seda champagne que caía suavemente por seu corpo esguio, com um decote discreto que Emanuel considerava "aceitável" para uma saída pública. Ela bebia um coquetel de frutas sem álcool, mantendo os olhos baixos, as mãos pequenas brincando com o canudo de vidro. Ela sentia a tensão emanando de Emanuel e, como sempre, buscava conforto na proximidade física, encostando o ombro no braço tatuado dele.
— Você está bem, Duda? — Emanuel perguntou, sua voz baixa e rouca, suavizando-se apenas para ela.
— Estou sim, Emanuel... — ela sussurrou, fazendo manha ao se aninhar um pouco mais. — Só está um pouco barulhento. Queria estar em casa com você assistindo aquele documentário sobre o Louvre.
Emanuel esboçou o início de um sorriso e beijou o topo da cabeça dela.
— Logo iremos. Só precisamos esperar a Sara terminar de "socializar".
Do outro lado da mesa, o contraste era absoluto. Sara estava em seu elemento. Usando um vestido de lantejoulas douradas que era curto demais, justo demais e decotado demais para os padrões de Emanuel, ela não parava de se mexer, rindo alto e atraindo olhares de todos os homens num raio de dez metros. Ela estava entediada. O tédio para Sara era uma arma carregada, e ela estava pronta para puxar o gatilho.
— Pelo amor de Deus, Emanuel! — Sara exclamou, revirando os olhos e batendo a taça de martini na mesa. — Vocês dois parecem dois idosos em um asilo. "Documentário sobre o Louvre"? Duda, você tem vinte anos, não oitenta!
— Ela gosta de coisas com significado, Sara — retrucou Emanuel, o tom de voz esfriando instantaneamente. — Coisa que você parece ter dificuldade em entender.
— O que eu entendo é que estamos em um dos lounges mais badalados da cidade e eu estou prestes a morrer de inanição social — Sara levantou-se, ajeitando o busto siliconado que quase saltava do vestido. — Vou buscar outra bebida. Já que meu namorado prefere agir como um segurança de museu hoje.
Emanuel não respondeu, apenas apertou o copo de uísque com mais força. Ele viu Sara desfilar em direção ao bar de mármore, balançando os quadris de uma forma que fazia os pescoços de metade dos homens do local girarem.
No balcão, Sara não apenas pediu um drink. Ela avistou o alvo perfeito: um homem alto, loiro, com aparência de modelo e que parecia ser o tipo de herdeiro que Emanuel desprezava. Ela se inclinou sobre o balcão de forma que o decote se tornasse um convite inevitável e começou a rir de algo que o barman disse, tocando levemente no braço do desconhecido ao seu lado.
Emanuel observava tudo. Seus olhos se estreitaram e a veia em sua têmpora começou a pulsar. Ele conhecia aquele jogo. Sara estava testando o território, testando o limite dele.
— Emanuel... — Eduarda chamou baixinho, sentindo o braço dele ficar tenso como uma corda de piano. — Não olha. Vamos embora, por favor?
— Fique quieta, Eduarda — ele disse, a voz cortante. Não era uma grosseria, era o comando de um homem que estava perdendo a paciência.
Lá no bar, Sara foi além. Ela aceitou um drink do desconhecido e, em um movimento deliberadamente lento, inclinou a cabeça para trás, rindo de algo que o homem sussurrou em seu ouvido. Ela então colocou a mão no peito do rapaz, deixando os dedos deslizarem pela lapela do paletó dele, antes de olhar diretamente para a mesa onde Emanuel estava, com um sorriso desafiador e vulgar nos lábios.
Emanuel explodiu por dentro. Ele se levantou de forma brusca, fazendo a mesa tremer e o coquetel de Eduarda quase virar.
— Emanuel, não! — Eduarda implorou, segurando a mão dele, mas ele se desvencilhou com facilidade.
Ele caminhou pelo lounge como uma tempestade negra. As pessoas abriam caminho, sentindo a aura de perigo que o tatuador exalava. Quando chegou ao bar, ele não disse uma palavra ao desconhecido. Ele apenas segurou o braço de Sara com uma força que a fez soltar um pequeno arquejo de surpresa.
— Acabou a brincadeira — ele rosnou no ouvido dela.
— Ei, cara, qual é o problema? — o loiro tentou intervir, colocando a mão no ombro de Emanuel.
Emanuel virou-se com uma velocidade assustadora. Ele segurou a mão do homem e a apertou até que os ossos estalassem levemente, inclinando-se para frente com um olhar que prometia violência pura.
— Se você tocar em mim ou nela de novo, eu vou garantir que você nunca mais consiga segurar um copo de bebida na vida — disse Emanuel, a voz baixa e letal. — Suma daqui. Agora.
O herdeiro empalideceu, olhou para as tatuagens que subiam pelo pescoço de Emanuel e para a fúria gélida em seus olhos, e recuou sem dizer mais nada, desaparecendo na multidão.
Emanuel voltou-se para Sara, que agora tinha um brilho de triunfo e excitação nos olhos. Ela adorava quando ele perdia o controle por causa dela.
— Você está me machucando, querido — ela provocou, embora não fizesse esforço nenhum para se soltar.
— Você vai desejar que eu estivesse apenas machucando seu braço quando chegarmos em casa — ele disse, arrastando-a de volta para a mesa.
Eduarda estava encolhida no reservado, parecendo querer desaparecer. Quando viu Emanuel chegando com uma Sara sorridente e vitoriosa, ela sentiu o estômago revirar. Ela odiava quando Emanuel ficava naquele estado de fúria cega.
— Vamos. Agora — Emanuel ordenou, pegando o casaco de Eduarda.
— Mas Emanuel, eu ainda não terminei meu... — Eduarda começou, com sua voz manhosa habitual, tentando acalmá-lo com um olhar doce.
— Eu disse AGORA, Eduarda! — ele rugiu, e o som de sua voz fez várias pessoas ao redor pararem de falar. — Eu não quero ouvir mais um pio de nenhuma das duas até chegarmos em casa.
Eduarda estremeceu e seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente. Ela se levantou rápido, tropeçando nos próprios pés de tanto nervosismo, e seguiu Emanuel como uma sombra assustada. Sara, por outro lado, caminhava com a confiança de uma rainha, deliciando-se com o caos que criara.
O trajeto no SUV de Emanuel foi um inferno de silêncio. Ele dirigia com as mãos apertando o volante com tanta força que o couro rangia. Sara olhava pela janela, retocando o batom vermelho-sangue, enquanto Eduarda chorava baixinho no banco de trás, abraçada à própria bolsa.
— Para de choramingar, Eduarda — Emanuel disse, sem olhar pelo retrovisor. — Sua passividade só me irrita mais agora.
— Eu não fiz nada... — ela soluçou, a voz trêmula. — Eu estava quieta, eu só queria ir para casa...
— Exatamente! Você fica aí, sendo essa criatura indefesa, enquanto essa outra — ele apontou para Sara — age como se estivesse em um bordel! Eu estou farto das duas!
— Ah, não me culpe pela sua falta de segurança, Emanuel — Sara interveio, cruzando as pernas. — Se você não aguenta a concorrência, deveria ter ficado em casa pintando as unhas da Duda.
Emanuel freou o carro bruscamente em frente ao portão da mansão, fazendo os pneus gritarem. Ele saiu do veículo e abriu a porta de Sara, tirando-a de lá com um puxão possessivo.
— Entrem. As duas. Para o meu escritório.
Ao entrarem na mansão, o clima era de execução iminente. Emanuel trancou a porta do escritório e jogou as chaves sobre a mesa de carvalho. Ele se virou para as duas, desabotoando os punhos da camisa preta e dobrando as mangas, revelando as tatuagens intrincadas que cobriam seus braços.
— Você — ele apontou para Sara. — Você acha que pode me desrespeitar em público? Acha que eu sou um dos seus brinquedinhos que você testa para ver quando quebra?
— Eu só estava me divertindo, Emanuel. Você é quem é um possessivo maníaco — Sara respondeu, embora o tom de sua voz tivesse perdido um pouco da audácia diante da fúria física dele.
— Você quer diversão? — Emanuel caminhou até ela, encurralando-a contra a estante de livros. — Você vai ter toda a diversão que aguentar. Mas será nos MEUS termos. Você vai passar a próxima semana sem sair desta casa. Sem festas, sem drinks, sem olhares de estranhos. E cada vez que você pensar em dar em cima de outro homem, vai se lembrar da marca que eu vou deixar em você hoje.
Ele segurou o rosto de Sara com força, beijando-a de forma bruta, um beijo que era mais uma punição do que um ato de afeto. Sara gemeu contra a boca dele, uma mistura de desafio e submissão.
Eduarda, vendo a cena, sentiu uma pontada de ciúme misturada com pavor. Ela se aproximou timidamente, puxando a manga da camisa de Emanuel.
— Emanuel... por favor... não briga com ela assim... você está me assustando... — ela disse, com a voz mais manhosa e doce que conseguiu produzir, tentando atrair a atenção dele para sua própria fragilidade.
Emanuel se afastou de Sara e olhou para Eduarda. Sua expressão não suavizou.
— E você, Eduarda — ele disse, caminhando em direção a ela. — Você acha que sua "inocência" te isenta de tudo? Você vê o que ela faz, você vê como ela me provoca, e você fica aí, chorando e fazendo manha, esperando que eu resolva tudo com um abraço?
— Mas eu não fiz nada de errado! — ela protestou, as lágrimas escorrendo por seu rosto delicado. — Eu sou sempre boa para você!
— Ser boa não é o suficiente! — ele exclamou, segurando-a pelos ombros de forma firme, mas menos bruta do que fizera com Sara. — Sua passividade permite que o caos da Sara se instale. Você precisa aprender a ter pulso, ou vai ser engolida por ela e pela minha paciência que está no fim.
Eduarda soluçou alto, escondendo o rosto no peito dele, seus braços rodeando a cintura de Emanuel.
— Eu só quero que você me ame, Emanuel... eu não gosto quando você grita... me desculpa por ser fraca... — ela sussurrou, tremendo contra ele.
Emanuel suspirou, sentindo a raiva começar a se transformar naquela exaustão possessiva que sempre sentia com as duas. Ele olhou para Sara, que observava a cena com um sorriso cínico, e depois para Eduarda, que se agarrava a ele como se sua vida dependesse disso.
— Vocês duas vão me levar à loucura — ele murmurou, fechando os olhos por um momento. — Mas eu não vou permitir que esse desrespeito se repita. Sara, para o quarto. Agora. Eu vou lidar com você primeiro. E não se atreva a tirar esse vestido até que eu mande.
Sara deu uma piscadela para Eduarda, um gesto de pura malícia, e saiu do escritório com seu andar provocante.
Emanuel voltou sua atenção para Eduarda. Ele limpou as lágrimas dela com o polegar, mas seu olhar ainda era severo.
— E você, Duda... você vai para o banho. Tire essa seda, tire esse perfume. Eu quero você limpa e pronta para me ouvir. Sem manha, sem choro. Você vai aprender que ser minha namorada exige mais do que apenas ser bonita e silenciosa.
— Você vai ficar bravo comigo também? — ela perguntou, com os olhos grandes e brilhantes.
— Eu vou garantir que você entenda que, neste triângulo, eu sou o único que dita as regras — ele sentenciou, dando um beijo firme e proprietário nos lábios dela. — Agora vá. Antes que eu perca o resto do meu autocontrole.
Eduarda saiu do escritório apressada, sentindo o coração disparado. Ela sabia que a noite seria longa e que Emanuel, em sua fúria possessiva, não teria misericórdia de nenhuma das duas. Mas, no fundo, em sua mente intuitiva e sensível, ela sabia que aquele caos era o que os mantinha unidos — a vulgaridade de Sara que incendiava o sangue de Emanuel e a sua própria doçura que servia de bálsamo para as feridas que eles mesmos criavam.
Emanuel ficou sozinho no escritório por alguns minutos, servindo-se de mais um uísque. Ele olhou para as chaves sobre a mesa e para a porta trancada. Ele tinha o controle, ou pelo menos a ilusão dele. Ele sabia que Sara continuaria a provocá-lo e que Eduarda continuaria a se esconder atrás de sua fragilidade. E ele, o tatuador que marcava a pele das pessoas para sempre, continuaria a tentar marcar a alma daquelas duas mulheres, prendendo-as em seu mundo de luxo, dor e desejo absoluto.
Ele virou o copo de uma vez, sentindo o líquido queimar sua garganta, e caminhou em direção às escadas. A noite de punição e prazer estava apenas começando, e ele pretendia garantir que nenhuma das duas esquecesse quem era o dono daquela mansão.