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O Labirinto de Luxo e a Revanche da Boneca de Seda
O ar condicionado da cobertura de Emanuel em São Paulo zumbia suavemente, um contraste gritante com o calor emocional que emanava do escritório de portas fechadas. Três meses haviam se passado desde a viagem à montanha, e a dinâmica entre o trio havia se tornado uma corda bamba esticada ao limite. Emanuel, mergulhado em uma expansão agressiva de seus estúdios pela Europa, estava com os nervos em frangalhos.
— Eu fui bem claro, Eduarda! — A voz de Emanuel reverberou pelas paredes de vidro, fria e cortante como um bisturi. — Eu disse que não queria que você fosse àquela exposição sozinha com aquele curador. O cara é um predador conhecido no meio artístico e você, com esse seu jeito de quem nasceu ontem, é o alvo perfeito.
Eduarda estava parada diante da mesa de carvalho negro, as mãos entrelaçadas sobre a saia de pregas rosa-claro. Seus olhos estavam marejados, mas, desta vez, havia uma centelha de indignação que ela tentava sufocar.
— Manu, você não está entendendo... — ela começou, a voz trêmula mas firme. — Eu não fui sozinha para flertar. Ele é o maior historiador de arte sacra do país! Era uma oportunidade para a minha faculdade. Eu levei a segurança que você contratou, ele ficou na porta o tempo todo!
— Não me interessa! — Emanuel se levantou, a silhueta alta e imponente bloqueando a luz da tarde. — Você me desobedeceu. Eu dei uma ordem direta para a sua proteção. Você é ingênua, Eduarda. Você acha que todo mundo tem boas intenções, mas você é apenas um troféu para homens como ele.
— Um troféu? — Eduarda sentiu o peito arder. — É assim que você me vê também? Como algo que você precisa trancar em um cofre para que ninguém mais olhe? Eu não tive culpa se ele tentou segurar minha mão para mostrar um detalhe na tela! Eu me afastei na hora!
— O fato de ele ter tido a audácia de tocar em você prova que eu estava certo — Emanuel sentenciou, contornando a mesa. — A partir de hoje, você está proibida de frequentar eventos da faculdade sem que eu pessoalmente aprove a lista de convidados. E não quero ouvir mais um pio sobre isso.
Eduarda abriu a boca para protestar, mas o olhar gélido de Emanuel a calou. Ele não estava agindo como o seu "Manu" carinhoso; ele era o empresário autoritário que geria impérios. Ele a tratou como uma criança irresponsável, ignorando sua autonomia e sua integridade.
— Agora saia. Tenho uma conferência com Berlim em dez minutos.
Eduarda girou nos calcanhares, as lágrimas finalmente transbordando. Ao cruzar o corredor, ela deu de cara com Sara. A loira estava encostada na parede, retocando o batom vermelho vibrante em um espelhinho de ouro. Ela usava um vestido bandage preto que mal cobria o essencial, exibindo o decote que era sua marca registrada.
— Ora, ora... a princesinha foi colocada de castigo? — Sara guardou o batom e sorriu, uma expressão de pura satisfação malévola. — Eu ouvi os gritos lá da sala de jantar. Parece que o seu jeitinho de "sou santa" não funcionou hoje, não é, querida?
Eduarda não respondeu. Ela apenas acelerou o passo, sentindo o riso de Sara chicotear suas costas.
— Aproveita o quarto, Duda! — gritou Sara. — Porque hoje à noite o Emanuel vai precisar de uma mulher de verdade para desestressar, e eu já agendei o melhor restaurante da cidade no cartão dele. Prepare-se para ficar sozinha com seus livros de arte!
Eduarda trancou-se em seu quarto. A raiva, um sentimento que ela raramente permitia que florescesse, começou a borbulhar. Ela olhou para o próprio reflexo no espelho: a bata de babados, os laços no cabelo, a aparência de fragilidade. Emanuel achava que podia controlá-la através do medo e da proteção sufocante. Sara achava que ela era apenas um obstáculo descartável.
— Injusto — sussurrou ela para o quarto vazio. — É tão injusto.
Seu olhar caiu sobre a bolsa de grife que Emanuel lhe dera no mês passado. Dentro dela, em um compartimento secreto, estavam os dois cartões de crédito adicionais que ele mantinha para "emergências e mimos". Emanuel nunca controlava os gastos dela, porque Eduarda sempre fora econômica, quase tímida ao usar o dinheiro dele. Já Sara... Sara gastava fortunas, mas Emanuel sempre impunha limites mensais para a loira, para manter o controle sobre ela.
Uma ideia, audaciosa e perigosa, começou a se formar na mente de Eduarda. Se Emanuel a tratava como uma posse cara, talvez devesse aprender o custo de manter uma posse que estava furiosa.
Ela pegou o celular e abriu os aplicativos das boutiques mais exclusivas da Oscar Freire e de Paris que entregavam via *concierge* de luxo.
— Você quer uma boneca, Manu? — Eduarda murmurou, os dedos voando pela tela. — Então vamos ver quanto custa vestir essa boneca.
O primeiro clique foi em uma bolsa de couro de crocodilo que custava o preço de um carro popular. *Comprar.*
Em seguida, joias. Ela entrou no site da joalheria que Emanuel frequentava. Um colar de diamantes com uma gota de safira. *Adicionar ao carrinho.* Pulseiras de ouro sólido. *Comprar.*
O limite do primeiro cartão era astronômico, mas Eduarda não parou. Ela lembrou-se de Sara mencionando que queria um relógio específico, cravejado de esmeraldas, para o jantar de hoje. Eduarda encontrou o modelo exato. Havia apenas uma unidade disponível para entrega imediata.
*Comprar.*
Ela sentiu uma onda de adrenalina. Ela não estava apenas gastando dinheiro; ela estava drenando o oxigênio financeiro que Sara usava para brilhar. Ela passou para o segundo cartão. Comprou sapatos de sola vermelha em todos os números próximos ao dela, vestidos de alta costura que ela provavelmente nunca usaria, e até um piano de cauda que ela mandou entregar na fundação de caridade onde fazia voluntariado, em nome de Emanuel, mas debitando o valor integral de uma vez.
Vinte minutos depois, os dois cartões estavam bloqueados por atingirem o limite global.
Eduarda respirou fundo, sentindo o coração martelar. Ela se deitou na cama, pegou um livro de História da Arte e começou a folhear as páginas, a imagem da serenidade.
Duas horas depois, o caos irrompeu.
O grito de Sara ecoou pelo loft, seguido pelo som de algo de vidro quebrando.
— EMANUEL! QUE PALHAÇADA É ESSA? — Sara invadiu a sala de estar, onde Emanuel tentava relaxar com um copo de uísque após sua reunião.
— O que foi agora, Sara? — Emanuel perguntou, sem abrir os olhos, a voz carregada de exaustão.
— O cartão! O meu cartão foi recusado na reserva do restaurante! E quando eu tentei passar o outro para comprar aquele vestido que eu te pedi, a vendedora disse que não havia um centavo de limite disponível! — Sara estava lívida, o rosto vermelho de humilhação. — Você me cortou? Você me bloqueou para dar dinheiro para aquela sonsa?
Emanuel franziu o cenho, abrindo os olhos.
— Eu não bloqueei nada, Sara. O seu limite é renovado automaticamente. Deve ser algum erro do banco.
— Não é erro! Eu liguei para o gerente do *Premier*! — Sara jogou a bolsa no sofá. — Ele disse que houve uma atividade intensa nos seus cartões principais e adicionais nas últimas duas horas. Milhares... não, milhões de reais em compras online! Emanuel, alguém clonou seus dados!
Emanuel sentou-se ereto, a expressão mudando instantaneamente para alerta. Ele pegou o celular e viu a avalanche de notificações de transações que ele havia ignorado durante a conferência. Seus olhos se arregalaram.
— Joias... bolsas... um piano? — Ele leu as notificações em voz alta, a confusão dando lugar a uma compreensão sombria.
Ele se levantou e caminhou em direção ao quarto de Eduarda. Sara o seguiu, bufando de ódio.
— Se foi um hacker, eu quero que ele seja preso! — gritava a loira. — Ele acabou com o meu limite! Eu não tenho como pagar o salão para hoje à noite!
Emanuel abriu a porta do quarto de Eduarda sem bater.
A jovem estava sentada na poltrona perto da janela, a luz suave do entardecer emoldurando seu rosto doce. Ela levantou os olhos do livro, parecendo a personificação da inocência.
— Aconteceu algo, Manu? — ela perguntou, a voz baixa e carinhosa.
Emanuel jogou o celular sobre a cama dela.
— Eduarda, você pode me explicar por que recebi notificações de compras que somam o valor de um apartamento em Paris nos últimos sessenta minutos?
Eduarda fechou o livro lentamente e colocou-o no colo. Ela olhou para Emanuel e depois para Sara, que parecia prestes a explodir.
— Ah, você disse que eu precisava de proteção, Manu — disse Eduarda, com um sorriso mínimo e enigmático. — E eu me senti tão insegura depois da nossa conversa... Tão pequena. Então eu pensei que, se eu tivesse coisas bonitas e caras, talvez eu me sentisse mais forte. Como a Sara.
Sara soltou um guincho de horror.
— Você o quê? Sua ratinha de esgoto! Você gastou o dinheiro do meu relógio? Você estourou os cartões dele de propósito?
— Eu usei os cartões que o Manu me deu — respondeu Eduarda, levantando-se com uma elegância que Emanuel nunca tinha visto nela. — Ele disse que eram para emergências. E eu senti que era uma emergência emocional. Eu precisava de... compensação.
Emanuel estava estupefato. A racionalidade que ele tanto prezava parecia ter sido obliterada pela audácia silenciosa de Eduarda. Ele olhou para a mulher à sua frente — a saia jeans curta, a bata de babados, os olhos de corça — e percebeu que havia subestimado gravemente a inteligência e a capacidade de retaliação de sua "namorada tímida".
— Você tem noção do que fez? — Emanuel perguntou, a voz baixa, perigosa. — Eu posso cancelar essas compras, Eduarda. Eu posso estornar tudo.
— Pode — concordou ela, aproximando-se dele e tocando suavemente as tatuagens em seu antebraço. — Mas o banco já notificou que o limite global foi atingido. Para liberar o crédito da Sara hoje, você teria que ligar para o gerente geral, transferir fundos de investimento e passar por toda aquela burocracia que você odeia. E, mesmo assim, as joias que eu comprei... elas foram edições limitadas. O sistema já as tirou do mercado.
Sara avançou para cima de Eduarda, as unhas prontas para o ataque.
— Sua vadiazinha! Eu vou acabar com você!
Emanuel segurou Sara pelo braço, impedindo-a de avançar, mas seus olhos nunca deixaram os de Eduarda.
— Você me desobedeceu de novo — disse ele, embora houvesse agora uma nota de admiração relutante em sua voz.
— Não, Manu — corrigiu ela, ficando na ponta dos pés para sussurrar perto do ouvido dele, garantindo que Sara ouvisse cada palavra. — Eu apenas usei a lógica que você me ensinou. Se eu sou um troféu, sou o troféu mais caro da sua coleção. E troféus não são guardados em caixas sem que haja um custo por isso.
Ela se afastou e olhou para Sara, que tremia de fúria.
— Sinto muito pelo seu jantar, Sara. Mas acho que hoje à noite, em vez de restaurante de luxo, você vai ter que se contentar com um delivery. Se o Emanuel tiver dinheiro vivo na carteira, claro. Porque o crédito... bem, o crédito sou eu.
Sara soltou um grito de frustração e saiu batendo os pés, entrando no próprio quarto e trancando a porta com tanta força que o som ecoou por todo o loft.
Emanuel e Eduarda ficaram sozinhos no quarto. O silêncio era denso, mas diferente de antes. Não havia mais a opressão do sermão de Emanuel, mas sim um novo equilíbrio de poder.
Emanuel soltou um suspiro longo, sentando-se na beira da cama. Ele olhou para as mãos, depois para a garota à sua frente.
— Você me deixou em uma situação muito complicada com os meus contadores, Eduarda.
— Eu sei — disse ela, sentando-se ao lado dele e apoiando a cabeça em seu ombro, voltando ao seu jeito manhoso como se nada tivesse acontecido. — Mas você também me deixou muito triste hoje cedo.
Emanuel passou o braço pelos ombros dela, sentindo a suavidade da bata de babados. Ele estava irritado? Sim. Mas, acima de tudo, ele estava fascinado. Eduarda tinha mostrado que, sob a camada de seda e timidez, havia uma mente tão estratégica e implacável quanto a dele.
— Você é uma criaturinha perigosa — murmurou ele, beijando a testa dela.
— Eu só sou o que você me faz ser, Manu — respondeu ela, fechando os olhos.
Naquela noite, não houve jantar glamouroso, nem joias para Sara, nem eventos de gala. Emanuel ficou no loft, lidando com telefonemas de gerentes de banco e tentando acalmar a fúria loira que se trancara no quarto. Mas, em nenhum momento, ele conseguiu tirar os olhos de Eduarda, que lia seu livro de arte com a maior calma do mundo, usando um colar de diamantes que brilhava mais do que qualquer luz na cidade.
A boneca de seda havia mostrado suas garras, e Emanuel, pela primeira vez na vida, percebeu que o controle que ele tanto amava era apenas uma ilusão que Eduarda permitia que ele tivesse. A guerra entre a seda e o ferro continuava, mas agora, as regras eram ditadas por quem sabia gastar — e amar — com mais ferocidade.