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O Labirinto de Linhas e a Rebeldia de Renda
A manhã de sábado no loft de Emanuel começou com o som de malas sendo abertas e o perfume forte do spray de cabelo de Sara impregnando o corredor. O sol de São Paulo entrava pelas janelas do chão ao teto, iluminando a poeira que dançava no ar, mas o clima dentro do quarto principal era de uma tempestade iminente. Emanuel, já vestido com uma calça de sarja preta e uma camisa polo que deixava suas tatuagens nos antebraços à mostra, conferia o relógio de ouro com impaciência.
— Manu, você prometeu! — A voz de Eduarda saiu abafada, vinda de dentro do closet.
Ela emergiu segundos depois, vestindo uma saia jeans curtíssima com botões frontais e uma bata branca de babados tão delicada que parecia feita de nuvens. Seus pés estavam descalços e seus olhos, grandes e expressivos, já mostravam o brilho de lágrimas represadas.
— Duda, eu prometi levar vocês para fazer compras. A Sara precisa de um vestido novo para o evento da galeria em Milão e eu reservei um horário exclusivo na boutique da Oscar Freire — disse Emanuel, tentando manter a voz calma, embora o vinco entre suas sobrancelhas denunciasse sua irritação crescente. — É prático. Você vai, escolhe o que quiser na mesma loja, eu pago e depois almoçamos.
Eduarda parou no meio do quarto, cruzando os braços sobre o peito, o que só fazia os babados da bata se agitarem.
— Eu não quero roupa de boutique, Emanuel. Eu já te disse dez vezes. Eu quero ir naquela costureira que a minha avó indicou. Ela mora em um vilarejo depois de Cotia, quase no fim do mundo, eu sei, mas ela faz rendas manuais que ninguém mais faz. Eu quero um vestido único.
Nesse momento, Sara apareceu na porta, terminando de abotoar um bracelete de ouro. Ela usava um vestido de couro sintético caramelo que parecia uma segunda pele, realçando seus seios siliconados e suas curvas agressivas.
— Ah, não! — Sara soltou uma risada estridente e vulgar. — Emanuel, você não vai perder o nosso sábado dirigindo duas horas para o meio do mato para visitar uma velhinha que costura pano de prato, vai? Pelo amor de Deus, Eduarda, cresça! Existem marcas internacionais que fazem isso melhor.
— Você não entende nada de arte, Sara! — Eduarda rebateu, a voz subindo de tom, algo raro para ela. — Você só entende de etiquetas e de aparecer. Eu quero algo que tenha alma!
— Alma não combina com o tapete vermelho de Milão, querida. Combina com retiro espiritual — Sara debochou, aproximando-se de Emanuel e passando a mão pelo peito dele. — Vamos, Manu. O carro já está lá embaixo. Não deixe essa pirracenta estragar o nosso dia.
Emanuel olhou para Eduarda. Ele amava a doçura dela, mas sua mente racional e prática odiava ineficiência. Dirigir até um lugar remoto, sem GPS preciso, apenas por causa de um capricho de costura, parecia um absurdo.
— Duda, por favor. Seja razoável — Emanuel pediu, dando um passo em direção a ela. — Eu te compro três vestidos na loja que a Sara quer ir. Qualquer preço. Mas eu não vou para o "fim do mundo" hoje. Eu tenho reuniões por telefone à tarde.
— Não é pelo preço! — Eduarda bateu o pé no chão, o som do impacto abafado pelo tapete persa. — Você nunca faz o que eu quero se a Sara estiver por perto. Você sempre cede às vontades dela porque ela grita mais alto!
— Eu não cedo, eu sou lógica! — Emanuel explodiu, a voz de trovão fazendo Eduarda encolher os ombros por um segundo. — A loja da Sara é no caminho. O que você quer é um desvio de quatro horas!
— Então eu vou sozinha! — Eduarda declarou, o lábio inferior tremendo em uma manha irresistível, mas carregada de determinação. — Eu pego um táxi, um ônibus, eu vou a pé, mas eu não vou naquela loja fútil com vocês!
— Você não vai sozinha para um lugar que nem sabe o endereço direito — Emanuel sentenciou, pegando as chaves do carro. — Ou você entra no carro agora e vamos para a cidade, ou você fica em casa e esquece essa história.
Eduarda desabou no banco de veludo aos pés da cama, escondendo o rosto nas mãos e começando a chorar. Não era um choro discreto; era um pranto manhoso, cheio de soluços que sacudiam seus ombros delicados.
— Você é mau... você só gosta dela... — ela soluçava entre as palavras. — Eu só queria um vestido especial...
— Emanuel, vamos logo — Sara pressionou, puxando-o pelo braço. — Ela está fazendo cena. Daqui a pouco ela cansa e vai gastar o seu dinheiro no shopping do lado de casa.
Emanuel olhou para Eduarda uma última vez. A visão dela ali, pequena, vestida de branco e rendas, chorando como se o mundo estivesse acabando, apertou seu coração. Mas a irritação pelo controle que ela tentava exercer através da emoção falou mais alto.
— Ótimo. Fique aí então — disse ele, a voz fria. — Quando eu voltar, espero que essa birra tenha passado.
Ele saiu do quarto, seguido por uma Sara triunfante que lançou um olhar de vitória por cima do ombro. Eduarda ouviu o som da porta principal batendo. O silêncio que se seguiu no loft foi absoluto.
Ela levantou o rosto, os olhos vermelhos, mas o choro parou quase instantaneamente. Ela não era apenas manhosa; ela sabia ser persistente. Eduarda pegou seu celular e uma pequena anotação em papel que sua avó lhe dera.
— Ele acha que eu sou uma boneca de porcelana — ela murmurou, limpando o rosto com as costas das mãos. — Mas até as bonecas têm pernas.
Vinte minutos depois, Eduarda estava em um carro de aplicativo. O motorista olhava pelo retrovisor, confuso com a moça de aparência angelical que pedia para ir a uma estrada de terra que nem constava direito no mapa.
Enquanto isso, na boutique de luxo, Emanuel estava encostado em um balcão de mármore, segurando uma taça de champanhe que a vendedora lhe oferecera. Sara estava no provador, saindo a cada cinco minutos com um vestido mais curto e chamativo que o anterior.
— O que acha deste, Manu? — Sara perguntou, desfilando com um modelo dourado que acentuava seus seios de forma quase agressiva.
— Está bom, Sara. Leve esse — Emanuel respondeu sem olhar de verdade. Ele estava com o celular na mão, tentando rastrear a localização de Eduarda.
O dispositivo dela estava desligado. Ou, pelo menos, fora de área.
— Ela não atende — Emanuel murmurou, sentindo uma pontada de ansiedade começar a corroer sua irritação.
— Esquece ela, Emanuel! — Sara exclamou, irritada com a falta de atenção. — Ela deve estar dormindo ou assistindo algum filme de romance bobo. Olha para mim! Este decote está perfeito ou preciso de um ajuste?
— Eu vou ligar para a segurança do prédio — Emanuel disse, ignorando Sara completamente.
Ele se afastou e discou o número.
— Aqui é o Emanuel, do 42. A Eduarda saiu?
— Saiu sim, Sr. Emanuel — respondeu o porteiro. — Faz uns quarenta minutos. Ela pegou um carro preto. Parecia estar com pressa.
Emanuel desligou o telefone, o rosto empalidecendo. A fúria agora era direcionada a si mesmo. Ele conhecia Eduarda; quando ela colocava uma ideia na cabeça, sua manha se transformava em uma teimosia cega.
— Aquela garota idiota... — ele sibilou.
— O que foi? — Sara se aproximou, vendo a expressão dele.
— Ela foi, Sara. Ela foi para aquele lugar no meio do nada sozinha.
— E daí? Ela tem vinte anos, Emanuel, não dez! Deixa ela se perder um pouco, assim ela aprende a te obedecer.
— Você não entende — Emanuel disse, pegando o casaco. — Aquele lugar é perigoso para alguém como ela. É beira de estrada, mata fechada, e ela não sabe o endereço exato. Ela só tem o nome de uma vila que nem no GPS aparece direito.
— Emanuel, se você sair agora, eu juro que...
— Cale a boca, Sara! — Emanuel gritou, e o silêncio caiu sobre a boutique luxuosa. As vendedoras pararam o que estavam fazendo. — Eu vou atrás dela. Fique aí com seus vestidos.
Ele saiu da loja quase correndo, deixando Sara estática, espumando de raiva no meio dos cabides de seda.
Emanuel entrou no carro e acelerou. Sua mente trabalhava rápido. Ele tentava lembrar dos detalhes que ela mencionara: "Vila das Rendas", "depois do quilômetro 58", "uma casa azul com cercas de madeira". Ele se sentia um imbecil. Como pudera deixá-la sozinha? A fragilidade de Eduarda, que às vezes o irritava, era a mesma coisa que ele jurara proteger.
Enquanto Emanuel lutava contra o trânsito de saída da cidade, Eduarda estava vivendo uma realidade completamente diferente.
O carro de aplicativo a deixara em uma encruzilhada de terra, alegando que o sinal de internet havia acabado e ele não podia se arriscar a ficar sem GPS. Eduarda, em vez de se desesperar, apenas ajeitou a bata branca, segurou a alça da bolsa e começou a caminhar. O sol batia em seus ombros, e o cheiro de mato e flores silvestres a deixava estranhamente feliz.
— Deve ser por aqui — ela cantarolava, sentindo-se em um filme de época.
Depois de quinze minutos de caminhada, ela viu a casa azul. Era uma construção antiga, coberta por trepadeiras de flores roxas, com uma varanda onde uma senhora de cabelos brancos trabalhava em uma almofada de bilro.
— Com licença? — Eduarda chamou, sua voz doce ecoando no silêncio do campo. — A senhora é a Dona Mercedes?
A senhora levantou os olhos e sorriu.
— Sou eu mesma, minha filha. Você deve ser a neta da Jandira. Ela me avisou que uma menina com rosto de anjo viria me ver.
Eduarda sentiu uma onda de alívio e alegria. Ela se aproximou e, em poucos minutos, estava sentada em um banco de madeira, tomando um suco de amora fresco enquanto Mercedes mostrava rolos de rendas feitas à mão que pareciam teias de aranha de tão finas e complexas.
— Eu quero um vestido que pareça que foi feito pela própria natureza — Eduarda explicou, os olhos brilhando. — Para um homem muito sério e bravo perceber que a beleza não está no que brilha, mas no que é feito com carinho.
— Você fala do seu namorado, não é? — Mercedes riu, medindo os ombros de Eduarda. — Ele deve ser um homem de muita sorte, embora pareça que ele te dá um pouco de trabalho.
— Ele é difícil — Eduarda admitiu, fazendo um biquinho manhoso enquanto olhava para um pedaço de renda renascença. — Ele acha que pode mandar em tudo só porque tem muito dinheiro e estúdios pelo mundo. Mas ele não manda no meu coração.
Enquanto isso, a quilômetros dali, Emanuel estava à beira do colapso. Ele havia passado o quilômetro 60 e não via sinal de vila nenhuma. Ele parou o carro em um posto de gasolina decadente.
— Você conhece uma Vila das Rendas por aqui? — ele perguntou a um frentista, a voz carregada de uma tensão perigosa.
— Vila das Rendas? Ah, é entrando naquela estradinha de terra ali atrás. Mas cuidado, moço, o carro do senhor é muito baixo para aquele barro.
Emanuel não esperou o resto da explicação. Ele jogou o carro na estrada de terra, sentindo a suspensão reclamar a cada buraco. Ele estava possesso. Estava furioso com Eduarda por ser tão irresponsável e furioso consigo mesmo por estar tão desesperado por ela.
Quando ele finalmente viu a casa azul, seu coração deu um salto. O carro dele estava coberto de lama, e ele desceu batendo a porta com força.
— EDUARDA! — ele gritou, a voz ecoando pela propriedade.
Eduarda, que estava experimentando um molde de tecido cru sobre a saia jeans, saiu para a varanda. Ela parecia uma ninfa, com o cabelo levemente bagunçado pelo vento e um sorriso radiante no rosto.
— Manu! Você me achou! — ela disse, sem um pingo de medo, apenas com aquela manha vitoriosa.
Emanuel subiu os degraus da varanda em dois passos. Ele a segurou pelos ombros, olhando-a de cima a baixo para garantir que ela estava inteira.
— Você ficou louca? — ele rosnou, a voz baixa e vibrante de raiva e alívio. — Você desliga o celular, some no meio do mato, pega um carro com um estranho... Você tem ideia do que eu pensei? Eu quase chamei a polícia!
Eduarda não recuou. Ela se inclinou para frente e apoiou as mãos no peito de Emanuel, sentindo o coração dele batendo freneticamente sob a polo.
— Mas eu estou bem, Manu. Olha só que lugar lindo. A Dona Mercedes é um amor. Ela vai fazer o vestido mais bonito do mundo para mim.
— Eu não quero saber do vestido! — Emanuel exclamou, embora suas mãos tivessem passado dos ombros dela para envolver sua cintura, puxando-a para perto por puro instinto. — Você me desobedeceu, Eduarda. Você agiu como uma criança inconsequente.
— Eu agi como uma mulher que sabe o que quer — ela rebateu, olhando-o nos olhos com uma doçura desafiadora. — Você estava sendo um ogro. Estava preferindo os gritos da Sara do que o meu desejo. Eu tive que vir sozinha porque você não me deu escolha.
Emanuel fechou os olhos por um segundo, encostando a testa na dela. A fúria estava evaporando, substituída por aquela exaustão emocional que só ela conseguia causar. O cheiro de baunilha dela, misturado agora com o cheiro de flores do campo, o acalmava de um jeito que ele odiava admitir.
— Eu quase tive um infarto, Duda — ele sussurrou.
— Isso é porque você me ama muito — ela disse, passando os braços pelo pescoço dele e se aninhando em seu peito. — E agora que você já está aqui, você pode me ajudar a escolher entre a renda de bilro e a renascença? A Dona Mercedes disse que eu fico bem com as duas.
Emanuel soltou uma risada curta e incrédula, soltando a tensão dos ombros.
— Você é impossível. Eu venho até aqui, quase destruo meu carro, perco meu dia de trabalho, e você quer que eu escolha rendas?
— Por favor, Manu... — ela fez aquela voz pequena, roçando o nariz no pescoço dele. — Eu fiz todo esse caminho só por você. Para ficar bonita para você.
Emanuel olhou para a senhora Mercedes, que observava a cena com um sorriso discreto. Ele olhou para Eduarda, tão pequena e vitoriosa em seus braços, vestida naquela bata branca que agora tinha algumas manchas de suco de amora.
— Tudo bem — ele cedeu, derrotado pela manha. — Eu ajudo. Mas depois disso, você vai entrar no carro e nós vamos ter uma conversa muito séria sobre segurança e sobre nunca mais desligar esse celular. Entendeu?
— Entendi, meu lobo bravo — ela sorriu, dando um beijo casto no queixo dele antes de puxá-lo pela mão para dentro da casa.
Emanuel passou as duas horas seguintes sentado em uma cadeira de palha, discutindo tipos de bordados com uma costureira de 80 anos, enquanto Eduarda desfilava amostras de tecido com uma alegria contagiante. Ele estava irritado com o tempo perdido, irritado com a lama no carro e sabia que Sara estaria tendo um ataque de nervos no loft.
Mas, enquanto observava Eduarda rir e apontar para os detalhes das linhas, ele percebeu que aquele "fim do mundo" era o único lugar onde ele realmente conseguia respirar. Sara era o barulho da cidade, o brilho falso das joias e a disputa constante de poder. Eduarda era aquela estrada de terra: difícil, cheia de curvas e às vezes perigosa, mas que o levava para um lugar de paz que ele não trocaria por boutique nenhuma na Oscar Freire.
Quando finalmente saíram, o sol estava começando a se pôr, pintando o céu de laranja e rosa. Emanuel abriu a porta do carro para ela, mas antes que ela entrasse, ele a prensou levemente contra o veículo.
— Não ache que isso acabou assim — ele avisou, os olhos escuros fixos nos dela. — Você ainda está de castigo por esse susto.
Eduarda sorriu, passando a ponta da língua pelos lábios, um gesto que era ao mesmo tempo inocente e provocador.
— E qual vai ser o meu castigo, Manu? — ela perguntou, a voz carregada de uma manha sensual.
Emanuel não respondeu com palavras. Ele a beijou com uma intensidade que calou qualquer protesto, um beijo que carregava toda a possessividade e o alívio de tê-la encontrado. No silêncio da estrada de terra, ele soube que, não importa o quanto ele tentasse ser racional, ele sempre seria o escravo daquela pequena boneca de seda que sabia exatamente como levá-lo ao fim do mundo e trazê-lo de volta com um simples sorriso.