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O Preço da Proteção e a Sombra do Passado
O silêncio que se seguiu à partida de Sara para o apartamento de Miami não era a paz que Emanuel imaginava. Era um silêncio denso, carregado de expectativas e de uma calmaria artificial que precedia a tempestade. No centro do luxuoso tríplex, Eduarda florescia. Sem as provocações constantes da loira, ela parecia mais solta, embora sua natureza manhosa e dependente só tivesse aumentado. Ela agora caminhava pela casa usando apenas as camisas de linho de Emanuel, os pés descalços afundando nos tapetes persas, sempre buscando o contato físico dele como se fosse sua única âncora.
Emanuel, no entanto, vivia sob uma tensão constante. Ele ainda falava com Sara por telefone — discussões rápidas, carregadas de sarcasmo da parte dela e de uma irritação cansada da parte dele. Ele sentia falta do fogo de Sara, mas a doçura de Eduarda era um vício que ele não conseguia largar. No entanto, o controle que ele exercia sobre a vida de Eduarda estava prestes a subir um degrau perigoso.
Tudo começou em uma manhã de terça-feira, quando Emanuel encontrou Eduarda se vestindo com um cuidado incomum. Ela usava uma saia plissada e uma blusa de gola alta, prendendo o cabelo com um laço delicado.
— Onde você vai, pequena? — perguntou ele, encostado no batente da porta, observando-a pelo reflexo do espelho.
— Eu preciso ir para a galeria, Emanuel — respondeu ela, a voz suave, mas com um traço de ansiedade. — Eu sou estagiária lá, lembra? Fiquei afastada esses dias por causa da mudança, mas o Sr. Vicente me ligou dizendo que precisam de mim para a nova exposição.
Emanuel sentiu um nó se formar em seu estômago. Ele sabia da galeria de arte contemporânea onde ela trabalhava, mas nunca tinha dado importância até aquele momento. Agora que ela morava com ele, a ideia de Eduarda exposta ao mundo, e especificamente a outros homens, o incomodava profundamente.
— Sr. Vicente? — Emanuel caminhou até ela, colocando as mãos em seus ombros. — Quem é esse homem, Eduarda?
— Ele é o dono da galeria. É um homem muito culto, Emanuel. Ele me ensina muito sobre curadoria. Ele é... gentil.
— Gentil? — A palavra soou como um insulto nos lábios de Emanuel. — Quantos anos ele tem?
— Não sei... uns quarenta? — Eduarda virou-se para ele, notando a mudança em sua expressão. — Por que você está falando assim?
Emanuel não respondeu de imediato. Ele pegou o celular e fez uma busca rápida. Vicente de Almeida. Um marchand conhecido, divorciado duas vezes, com uma reputação de "apreciador da beleza feminina" nos círculos sociais de São Paulo. A lógica prática de Emanuel, misturada com sua nova possessividade, disparou todos os alarmes.
— Você não vai voltar para lá — declarou ele, a voz firme e inquestionável.
Eduarda arregalou os olhos, os lábios entreabertos em choque.
— O quê? Mas Emanuel, é o meu estágio! Eu amo o que faço lá. É a minha carreira...
— Eu não confio naquele homem, Eduarda. Eu conheço o tipo dele. Ele não quer uma estagiária para organizar quadros; ele quer uma menina bonita e vulnerável para enfeitar o escritório dele.
— Isso não é verdade! — Ela tentou se afastar, mas ele a segurou pela cintura, trazendo-a para perto. — Ele nunca me faltou com o respeito.
— Porque ele estava esperando o momento certo. Mas agora você é minha, Eduarda. Você mora na minha casa. Eu não vou deixar você ser alvo de um predador como o Vicente.
— Você está sendo injusto — choramingou ela, as lágrimas começando a inundar seus olhos expressivos. — Eu me sinto útil lá. Aqui eu só... eu só espero por você.
— E isso não é o suficiente? — Ele tocou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele. — Eu te dou tudo. Joias, roupas, proteção. Você não precisa daquele lugar. Se você quer trabalhar com arte, eu compro uma galeria para você no futuro. Mas lá, com aquele homem, você não pisa mais.
Eduarda desabou em choro, escondendo o rosto no peito dele. Ela era manhosa demais para lutar, sensível demais para enfrentar a autoridade dele. Emanuel a abraçou com força, sentindo uma satisfação sombria. Ele a estava protegendo, pensava ele. Ele estava mantendo sua pureza longe da sujeira do mundo.
No entanto, o que ele não esperava era que Sara escolheria justamente aquele momento para aparecer no apartamento, alegando que precisava buscar alguns documentos que esquecera. Ela entrou na sala bem no momento em que Emanuel tentava acalmar uma Eduarda soluçante.
— Mas que cena patética — disparou Sara, jogando as chaves sobre o balcão de mármore. — O que foi agora? A bonequinha quebrou um braço?
Emanuel suspirou, soltando Eduarda, que imediatamente se encolheu, limpando as lágrimas.
— Não é da sua conta, Sara. O que você está fazendo aqui?
— Vim buscar meu passaporte. Mas não pude deixar de ouvir os gritos de tirano lá de fora — disse Sara, aproximando-se com um sorriso de escárnio. — Então o grande Emanuel resolveu proibir a pequena órfã de trabalhar?
— Eu estou protegendo a Eduarda de um homem que não presta — retrucou ele, os olhos faiscando.
Sara soltou uma gargalhada genuína, inclinando o corpo para trás.
— Protegendo? Emanuel, você é hilário! Você não está protegendo ela, você está trancando ela em uma gaiola de ouro porque tem medo de que qualquer homem com dois neurônios perceba como ela é fácil de manipular.
— Cala a boca, Sara — disse Emanuel, a voz baixa e perigosa.
— Não calo! — Ela deu um passo em direção a Eduarda, que recuou até bater na parede. — Olha para você, garota. Você é tão patética que deixa ele decidir até onde você pode trabalhar. Você tinha uma vida, um estágio, um futuro. Agora você é o quê? Uma acompanhante de luxo que ele mantém no quarto de hóspedes?
— Eu não sou isso! — Eduarda gritou, sua voz trêmula ganhando uma força inesperada. — O Emanuel cuida de mim!
— Ele te controla, sua tonta! — Sara virou-se para Emanuel, a fúria brilhando em seus olhos loiros. — E você, Emanuel... eu estou furiosa com você. Não porque você a proibiu de trabalhar, mas porque você nunca teve esse tipo de cuidado comigo. Comigo você sempre foi o "homem prático". "Vá lá, Sara", "Resolva isso, Sara". Você nunca se importou se eu estava em perigo ou se homens olhavam para mim.
— Você sempre soube se cuidar sozinha, Sara — respondeu ele, impiedoso. — Você não é como ela. Você é...
— Vulgar? — interrompeu ela, com um sorriso amargo. — É essa a palavra que você usa na sua cabeça, não é? Eu sou a mulher que aguenta o tranco, a mulher que você leva para as festas para ostentar. Ela é a que você quer esconder. Mas saiba de uma coisa: essa sua proteção vai sufocar ela. E quando ela perceber que você é o carcereiro, e não o príncipe, ela vai correr para os braços de qualquer Vicente que aparecer.
— Saia daqui, Sara — ordenou Emanuel, apontando para a porta. — Agora.
Sara pegou sua bolsa, mas antes de sair, olhou para Eduarda com uma mistura de pena e desprezo.
— Aproveite a sua prisão, Duda. As joias são lindas, mas as grades são bem frias.
Quando a porta bateu, o silêncio que ficou era pesado. Eduarda olhou para Emanuel, e pela primeira vez, havia uma sombra de dúvida em seus olhos.
— Ela tem razão? — perguntou ela, a voz quase inaudível. — Você tem vergonha de mim? É por isso que não quer que eu saia?
Emanuel caminhou até ela, sentindo uma pontada de culpa que ele rapidamente sufocou. Ele a pegou no colo, levando-a para o sofá, sentando-a em seu colo como se fosse uma criança.
— Claro que não, pequena. Eu tenho orgulho de você. Mas você é doce demais, ingênua demais para esse mundo. Eu vi como aquele homem olhava para as fotos nas redes sociais da galeria. Eu não vou deixar ninguém tocar no que é meu.
— Mas eu preciso fazer alguma coisa, Emanuel... eu me sinto vazia.
— Você vai ter tudo aqui. Eu vou contratar professores particulares para você, se quiser continuar estudando arte. Vou trazer as obras até você. Mas eu quero você aqui, onde eu possa te ver, onde eu saiba que você está segura.
Eduarda deitou a cabeça no ombro dele, o calor do corpo de Emanuel acalmando seu coração acelerado. Ela amava aquele sentimento de ser possessão de alguém tão poderoso. Era assustador, sim, mas também era inebriante. Ela se sentia importante, sentia-se a joia mais preciosa de sua coleção.
— Tudo bem... — murmurou ela, cedendo mais uma vez. — Eu fico. Se você diz que é o melhor para mim, eu acredito.
Emanuel beijou o topo da cabeça dela, sentindo-se vitorioso. Ele tinha o controle novamente. Mas, no fundo de sua mente, as palavras de Sara ecoavam. Ele estava puxado entre dois extremos. Ele sentia falta da resistência de Sara, do conflito que o fazia sentir vivo, mas ao mesmo tempo, a submissão de Eduarda era um bálsamo para o seu ego e para o seu estresse.
Enquanto isso, em Miami, Sara não estava apenas sentada à beira da piscina. Ela estava com o notebook aberto, pesquisando tudo sobre a vida de Eduarda. Ela descobriu sobre a família humilde da garota no interior, sobre suas inseguranças e, principalmente, sobre o tal Vicente.
Sara pegou o telefone e discou um número que conhecia bem.
— Rodrigo? — disse ela, quando o primo de Emanuel atendeu. — Preciso que você faça um favor para mim. O Emanuel está perdendo a mão com aquela garota. Ele a proibiu de trabalhar. Ele está criando um monstro de dependência.
— E o que você tem a ver com isso, Sara? — perguntou Rodrigo, hesitante. — Você não deveria estar aproveitando as férias que ele te deu?
— Eu não tiro férias da minha vida, Rodrigo. E o Emanuel é a minha vida. Eu vou salvar ele dele mesmo. Quero que você consiga o contato pessoal do Vicente, o dono da galeria. Vamos ver como o nosso grande tatuador reage quando a "bonequinha" dele for tentada pelo fruto proibido que ele mesmo proibiu.
— Você está jogando com fogo, Sara. Se o Emanuel descobrir...
— Ele não vai descobrir. Pelo menos não até ser tarde demais. O Emanuel quer as duas? Pois bem, ele vai ter o que merece. Mas ele vai aprender que não se pode domesticar um lobo e um cordeiro no mesmo cercado sem que o sangue comece a correr.
De volta ao apartamento, a noite caiu sobre Emanuel e Eduarda. Ele a levou para o quarto, e o sexo foi carregado de uma intensidade nova. Havia algo de sombrio na forma como ele a possuía naquela noite, como se estivesse marcando território, como se cada toque fosse um selo de propriedade. Eduarda, em sua manha habitual, gemia baixo, entregando-se totalmente, buscando o prazer na dor leve e no peso do corpo dele sobre o seu.
— Você é minha, Eduarda — sussurrou ele contra o ouvido dela, a voz rouca. — Só minha. Entendeu?
— Sim... — respondeu ela, os olhos revirando de prazer. — Sempre sua, Emanuel.
Mas, enquanto ele a abraçava após o ato, Emanuel olhou para o lado da cama que costumava ser de Sara. O vazio ali parecia maior do que ele gostaria de admitir. Ele tinha a doçura, ele tinha a obediência, mas o fogo... o fogo estava a milhares de quilômetros de distância, planejando o incêndio que destruiria seu castelo de vidro.
Emanuel pensava que poderia ter tudo sob controle. Ele pensava que a lógica de seus negócios se aplicava ao coração humano. Ele não percebia que, ao proibir Eduarda de voar, ele estava apenas preparando o terreno para que ela caísse nas mãos de quem soubesse oferecer as asas certas. E Sara, com sua vulgaridade e inteligência afiada, seria a pessoa a fornecer o vento para essa queda.
A proteção de Emanuel estava se tornando uma prisão, e como toda prisão, ela gerava o desejo de fuga, mesmo que Eduarda ainda não soubesse disso. A semente da discórdia fora plantada por Sara, regada pela possessividade de Emanuel e nutrida pela timidez de Eduarda. O próximo capítulo dessa história não seria escrito com flores, mas com as cicatrizes de uma batalha que nenhum deles estava pronto para vencer.
— Emanuel? — Eduarda chamou baixinho, já quase dormindo.
— Sim, pequena?
— Você nunca vai me deixar, não é? Mesmo se eu fizer algo errado?
Emanuel hesitou por um segundo. A pergunta parecia um presságio.
— Eu nunca vou te deixar, Duda. Mas não me dê motivos para mudar de ideia.
Ele fechou os olhos, mas o sono não veio fácil. Na penumbra do quarto, os desenhos das suas tatuagens pareciam ganhar vida, serpenteando por seus braços, lembrando-o de que cada marca na pele, assim como cada escolha na vida, era permanente. E ele acabara de marcar a vida de Eduarda de uma forma que nem o tempo, nem Sara, e nem ele mesmo poderiam apagar. A guerra estava apenas começando.