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O Labirinto de Vidro e a Semente da Discórdia

O retorno de Sara para São Paulo não foi anunciado. Ela simplesmente surgiu na cobertura, as chaves girando na fechadura com um estalido que soou como um tiro no silêncio da tarde. Emanuel estava em seu escritório, revisando os lucros trimestrais de sua rede de estúdios, quando sentiu o cheiro familiar de seu perfume — algo caro, forte e invasivo.

— Sentiu saudades, querido? — Sara entrou na sala, jogando os óculos escuros sobre a mesa de carvalho. Ela parecia mais radiante, se é que isso era possível. O bronzeado de Miami destacava o loiro platinado e o vestido de seda verde-esmeralda deixava pouco para a imaginação.

Emanuel levantou os olhos, a expressão endurecida.

— Você deveria ter avisado. Achei que ficaria na Flórida por mais um mês.

— E perder a diversão de ver como você está brincando de "casinha" com a sua boneca de porcelana? — Ela se aproximou, sentando-se no braço da cadeira dele e passando a unha comprida pelo contorno da mandíbula de Emanuel. — Eu senti sua falta, Emanuel. E sei que você sentiu a minha. A paz é entediante, não é?

Emanuel não negou. O silêncio da casa nas últimas semanas tinha sido um bálsamo, mas também uma espécie de vácuo. Eduarda era doce, manhosa e sempre disposta a agradá-lo, mas faltava o atrito. E Sara era puro atrito.

— Onde ela está? — Sara perguntou, olhando em volta com desdém.

— No quarto. Ela não tem passado bem ultimamente. Tem tido tonturas, o estresse de ficar trancada aqui não está fazendo bem a ela.

Sara sorriu de lado, um brilho perigoso nos olhos.

— Coitadinha. Talvez ela precise de um "incentivo" para sair mais.

O plano de Sara começou a ser executado naquela mesma noite. Ela sabia que Emanuel era possessivo ao extremo, e sabia que a timidez de Eduarda era sua maior vulnerabilidade. Sara contratou, através de um contato antigo, um rapaz — um modelo de quinta categoria, desesperado por dinheiro — para se passar por um admirador secreto. O plano era simples: o rapaz deveria abordar Eduarda na única saída permitida que ela tinha, suas idas rápidas à livraria da esquina, e garantir que Emanuel visse a cena ou recebesse fotos comprometedoras.

No entanto, Sara subestimou a pureza e o medo de Eduarda.

No dia seguinte, enquanto Emanuel observava pelas câmeras de segurança do prédio — algo que ele fazia com frequência obsessiva —, ele viu o rapaz se aproximar de Eduarda na calçada. Mas, em vez de Eduarda dar corda ou parecer lisonjeada, como Sara previra para instigar o ciúme de Emanuel, a garota entrou em pânico.

Eduarda tropeçou nos próprios pés, deixou a bolsa cair e começou a tremer visivelmente. O rapaz, tentando cumprir o roteiro de Sara, segurou o braço dela de forma um pouco mais brusca para "parecer íntimo" na foto. Eduarda soltou um grito abafado e desmaiou ali mesmo, na calçada fria.

Emanuel saiu do prédio como um raio. Quando ele chegou à calçada, o rapaz já tinha fugido, assustado com a reação da menina. Emanuel pegou Eduarda nos braços, o rosto dela pálido como mármore, e a levou para dentro, fervendo de fúria.

Ele não precisou de muito para ligar os pontos. Ao entrar no apartamento, encontrou Sara bebendo um coquetel na varanda, com um sorriso de satisfação que ela não conseguiu esconder rápido o suficiente.

— Foi você, não foi? — A voz de Emanuel era um trovão contido. Ele colocou Eduarda, ainda inconsciente, no sofá de couro.

— Do que você está falando, querido? — Sara tentou manter a pose, mas o olhar de Emanuel era capaz de perfurar aço.

— O cara lá fora. Eu vi a forma como ele agiu. Parecia um ensaio mal feito. Você armou para que ela parecesse culpada, para que eu achasse que ela estava me traindo.

— Emanuel, eu só queria que você visse que ela não é essa santinha...

— Chega, Sara! — Ele caminhou até ela, a presença física dele esmagando o espaço dela. — Você quase a matou de susto! Ela é frágil, ela é sensível! Você não tem limites?

— Eu faço tudo por você! — gritou Sara, perdendo o controle. — Eu trouxe ela para cá! Eu aceitei essa palhaçada! E agora você a defende como se ela fosse algo sagrado?

— Para mim, ela é! — Emanuel respirou fundo, tentando não explodir. — Você vai embora daqui agora. E desta vez, não é para Miami. Vá para um hotel, para o inferno, onde quiser.

— Você não pode me expulsar! — Sara chorava, uma mistura de raiva e desespero. — Eu te amo!

— Se você me amasse, respeitaria o que eu quero. E eu quero ela segura.

Sara saiu batendo a porta, mas a vitória de Emanuel parecia amarga. Ele voltou para o sofá e viu Eduarda abrindo os olhos lentamente. Ela começou a chorar assim que o viu, agarrando-se à sua camisa.

— Ele... ele me segurou, Emanuel... eu tive tanto medo...

— Shhh, eu estou aqui. Ninguém vai te tocar de novo.

Emanuel percebeu que a reclusão estava destruindo Eduarda. Ele precisava dar a ela um propósito, mas sob sua supervisão. No dia seguinte, ele ligou para uma antiga amiga e cliente fiel, Helena, dona de uma das galerias mais prestigiadas da cidade.

— Helena, preciso de um favor. Quero colocar a Eduarda para trabalhar com você. Mas nada de público por enquanto. Quero que ela aprenda a curadoria nos bastidores. Quero que ela se sinta útil, mas protegida.

Helena aceitou imediatamente, e a notícia trouxe o primeiro sorriso verdadeiro ao rosto de Eduarda em semanas.

— Um estágio? — Eduarda perguntou, os olhos brilhando. — Na galeria da Helena? Ela é famosa, Emanuel!

— Sim, pequena. Mas você vai com o meu motorista e volta com ele. E se qualquer pessoa te incomodar, você me liga na hora. Entendido?

— Sim! — Ela o abraçou, manhosamente, escondendo o rosto em seu pescoço. — Obrigada por cuidar de mim.

As semanas passaram. Eduarda parecia mais radiante, embora as náuseas matinais tivessem se tornado uma constante. Emanuel atribuía isso ao estresse dos últimos acontecimentos. Sara, por outro lado, mantinha um silêncio sepulcral em seu hotel de luxo, enviando mensagens de desculpas que Emanuel ignorava sistematicamente.

Até que o destino, ou o caos que Emanuel cultivara, decidiu cobrar a conta.

Eduarda estava na galeria quando sentiu uma tontura mais forte que o normal e acabou desmaiando novamente. Helena a levou ao hospital e ligou para Emanuel. Ao mesmo tempo, no outro lado da cidade, Sara entrava em uma clínica particular, sentindo-se estranhamente indisposta e com um atraso que sua disciplina com pílulas anticoncepcionais não deveria permitir.

Emanuel chegou ao hospital em tempo recorde. Ele encontrou Eduarda sentada na maca, com um olhar de completa confusão e admiração.

— Emanuel... — ela disse, a voz trêmula. — O médico... ele fez um exame de sangue.

Emanuel segurou a mão dela, o coração batendo descompassado.

— O que foi, Duda? Você está doente?

— Não... — Ela sorriu, uma lágrima descendo pelo rosto. — Eu estou grávida. Eu vou ter um bebê seu.

O mundo de Emanuel parou. Um filho. Com Eduarda. A pureza dela agora gerava vida, uma extensão dele que ele protegeria com unhas e dentes. Ele a beijou com uma ternura que nunca sentira antes, sentindo uma satisfação absoluta. Ele tinha tudo. Tinha o controle, tinha a doçura, e agora tinha um herdeiro.

Mas o telefone em seu bolso vibrou. Era uma mensagem de Sara. Ele pensou em ignorar, mas o texto na tela de bloqueio o fez congelar:

"Precisamos conversar seriamente, Emanuel. Estou na clínica. O plano de nos separar não vai funcionar agora. Eu também estou grávida. E você sabe que é seu."

Emanuel sentiu o sangue fugir do rosto. Ele olhou para a doçura de Eduarda, que acariciava a própria barriga com um olhar de anjo, e depois para o celular, onde a vulgaridade e a fúria de Sara o aguardavam com uma notícia que mudaria tudo.

Ele queria as duas. Ele queria o controle. Mas agora, ele tinha plantado duas sementes em solos completamente diferentes, e a colheita prometia ser um campo de batalha do qual ninguém sairia ileso.

— O que foi, Emanuel? — Eduarda perguntou, notando sua palidez. — Você não está feliz?

Emanuel forçou um sorriso, guardando o celular e beijando a testa da menina.

— Estou, pequena. Estou muito feliz. É apenas... muita emoção para um dia só.

Ele saiu do quarto sob o pretexto de falar com o médico, mas na verdade, precisava respirar. No corredor do hospital, ele encostou a cabeça na parede fria. Sara não aceitaria dividir a paternidade. Eduarda não suportaria a pressão da rivalidade. E ele, o homem que se orgulhava de ser racional e prático, estava preso no meio de duas mulheres grávidas que se odiavam.

O maior erro da vida de Sara tinha sido trazer Eduarda para aquela cama. Mas o maior erro de Emanuel tinha sido acreditar que poderia possuir o céu e o inferno ao mesmo tempo, sem que as chamas e as nuvens entrassem em colisão.

Ele pegou o celular e digitou uma resposta curta para Sara:

"Vou até você agora. Não diga nada a ninguém."

A guerra fria acabara. A partir daquele momento, a vida de Emanuel se tornaria um labirinto de mentiras, possessividade e um amor dividido que ameaçava destruir o império que ele tanto levara para construir. Ele olhou através do vidro da porta para Eduarda, tão frágil e doce, e depois para o reflexo de si mesmo no vidro — um homem que tinha tudo, mas que estava prestes a perder o controle sobre a única coisa que o dinheiro não podia comprar: a paz.