D
O Voo da Borboleta e o Rugido do Leão
O relógio de parede, uma peça de design minimalista em ouro rosé, marcava seis horas da tarde. O loft estava mergulhado em uma luz alaranjada, mas o clima no interior da suíte de Eduarda era de uma ansiedade pulsante. Sobre a cama de dossel, repousava um vestido de seda verde-esmeralda, com um corte romântico que deixava os ombros à mostra e uma fenda discreta, porém elegante. Era a noite da abertura da exposição anual da faculdade de História da Arte, um evento que Eduarda vinha planejando há meses.
— Manu, você viu o convite? — Eduarda perguntou, saindo do closet com os sapatos na mão. — Começa às oito. Eu estou tão animada para mostrar meu projeto sobre o Renascimento!
Emanuel, que estava sentado em uma poltrona de couro preto folheando alguns relatórios financeiros no iPad, nem sequer levantou os olhos de imediato. Ele vestia uma camisa social preta, com as mangas dobradas revelando as tatuagens que subiam pelos seus antebraços fortes.
— Eu não vou poder ir, Eduarda — disse ele, a voz seca e definitiva. — Surgiu um problema em um dos estúdios de Madri. Preciso resolver isso por videoconferência e depois tenho um compromisso com a Sara.
Eduarda parou no meio do quarto, o sorriso murchando lentamente.
— Mas... você tinha prometido. É importante para mim, Manu. Eu me esforcei tanto.
— Eu sei que se esforçou — ele finalmente olhou para ela, a expressão séria e impenetrável. — Mas negócios são negócios. Vá outro dia, sozinha ou com alguma colega, durante a tarde.
— Não é a mesma coisa! — Eduarda sentiu o nó na garganta. — A abertura é hoje. Todos os professores estarão lá. Eu posso ir sozinha agora à noite, não tem problema. Eu pego um Uber ou peço para o motorista me levar.
Emanuel deixou o iPad de lado e levantou-se lentamente. Sua presença parecia ocupar todo o espaço do quarto, uma aura de autoridade que costumava silenciar qualquer um.
— Sozinha? À noite? Em um evento cheio de estudantes bêbados e homens que não sabem se comportar? — Ele caminhou até ela, parando a poucos centímetros. — Não. Você não vai.
Eduarda piscou, incrédula.
— Como assim "não vou"? Emanuel, eu tenho vinte anos, eu sou mãe do seu filho, eu estudo naquela faculdade!
— Exatamente por ser mãe do meu filho e minha mulher, você não vai se expor dessa maneira sem a minha proteção — ele disse, o tom de voz baixando para aquele registro perigoso e possessivo. — Eu conheço o tipo de gente que frequenta esses eventos artísticos. Homens que se acham intelectuais e vão tentar te impressionar com conversas vazias só para ver o que conseguem. Você é bonita demais, Eduarda. É ingênua demais.
— Eu não sou ingênua! — Ela exclamou, as lágrimas começando a transbordar. — Você está sendo injusto! Eu fico aqui o dia todo cuidando do Arthur, estudando entre as mamadas... eu só queria uma noite!
Ela começou a chorar, um choro manhoso, de quem se sentia injustiçada. Aproximou-se dele, segurando as lapelas de sua camisa, enterrando o rosto em seu peito.
— Por favor, Manu... deixa eu ir. Eu prometo que volto cedo. Eu uso um casaco comprido, ninguém vai me ver. Por favor...
Emanuel sentiu o coração amolecer por um breve segundo com o contato do corpo macio dela, mas sua natureza controladora era mais forte. Ele a afastou gentilmente, segurando seu rosto com as mãos grandes.
— A resposta é não, Eduarda. Não faça birra. É para o seu bem.
— Eu te odeio! — Ela soluçou, empurrando as mãos dele. — Você só quer me trancar aqui!
— Você não me odeia — ele respondeu com uma frieza que a gelou. — Agora, pare com isso. Vou sair com a Sara e a Valentina. Vamos jantar fora para comemorar um novo contrato dela. Fique com o Arthur e descanse.
Ele deu as costas, saindo do quarto sem olhar para trás. Eduarda caiu sentada na cama, soluçando. Ela ouviu o barulho dos saltos de Sara no corredor, a risada estridente da loira e o choro baixo de Valentina sendo levada para fora. Ouviu a porta principal do loft se fechar com um clique metálico que soou como a tranca de uma cela.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda olhou para o vestido verde sobre a cama. O choro parou, substituído por uma centelha de rebeldia que ela nem sabia que possuía. Ela sempre fora a menina doce, a que aceitava as joias e a proteção de Emanuel como um refúgio. Mas algo naquela proibição absoluta, enquanto ele saía para se divertir com Sara, quebrou algo dentro dela.
— Ele acha que pode me mandar... — ela sussurrou para o quarto vazio.
Eduarda levantou-se. Lavou o rosto, apagando os vestígios do choro. Com mãos firmes, ela se vestiu. O seda verde deslizou por sua pele como uma carícia. Ela fez uma maquiagem leve, mas que destacava seus olhos expressivos, e prendeu o cabelo em um coque elegante com algumas mechas soltas.
No quarto ao lado, Arthur estava acordando da soneca, fazendo pequenos ruídos de satisfação.
— Nós vamos sair, meu amor — disse ela, pegando o bebê no colo. — Se o seu pai não quer nos levar, nós vamos sozinhos.
Ela arrumou a bolsa do bebê com rapidez. Colocou Arthur em um macacão de linho fino, prendeu-o no bebê-conforto e, com o coração disparado, saiu do loft. Ela não chamou o motorista de Emanuel; em vez disso, usou um aplicativo de transporte, pedindo para embarcar na área de serviço do prédio para evitar ser vista pelo porteiro principal, que era leal a Emanuel.
Enquanto isso, em um restaurante francês de luxo no centro da cidade, a tensão era palpável na mesa de Emanuel. Sara falava sem parar sobre tendências de marketing e como Valentina seria a estrela da próxima campanha de uma marca de roupas infantis, mas Emanuel mal a ouvia.
Ele checava o celular a cada cinco minutos. As câmeras de segurança do loft estavam desconectadas — um problema técnico que o zelador mencionara mais cedo —, e isso o deixava inquieto. Ele imaginava Eduarda no quarto, provavelmente dormindo ou lendo, ainda magoada com ele. Uma parte dele sentia uma pontada de remorso, mas a parte possessiva silenciava qualquer dúvida. Ela estava segura. Isso era o que importava.
— Manu? Você está me ouvindo? — Sara perguntou, batendo com as unhas de gel na mesa. — Eu estava dizendo que precisamos de um novo fotógrafo. O último era um idiota.
— Sim, Sara. O que você achar melhor — ele respondeu, impaciente.
— Você está pensando na santinha, não está? — Sara sorriu com ironia, tomando um gole de vinho. — Ela deve estar lá, chorando as pitangas porque o "mestre" não deixou ela sair para brincar de intelectual. Francamente, Emanuel, você mima demais aquela menina.
— Não comece, Sara — ele avisou, os olhos escurecendo.
— Só estou dizendo a verdade. Ela é um peso morto. Se eu fosse você, já teria mandado ela de volta para aquela faculdadezinha de quinta categoria com uma pensão bem gorda.
Emanuel não respondeu. Ele sentiu uma vibração estranha, um pressentimento. Ele pegou o celular e ligou para o fixo do loft. Ninguém atendeu. Ligou para o celular de Eduarda. Desligado.
— O que foi? — Sara perguntou, percebendo a mudança na postura dele.
— Ela não atende — Emanuel disse, levantando-se abruptamente. — Vamos embora. Agora.
— O quê? Mas o jantar mal chegou! — Sara exclamou, indignada. — Emanuel, você não vai me deixar aqui por causa de um capricho daquela sonsa!
— Pegue a Valentina e entre no carro, Sara. Eu não vou repetir.
O trajeto de volta foi um borrão de velocidade e as reclamações constantes de Sara. Quando Emanuel abriu a porta do loft, o silêncio que o recebeu não era o de uma casa tranquila, mas o de um ninho vazio.
Ele correu para o quarto de Eduarda. A cama estava arrumada, o vestido verde que ele vira mais cedo havia sumido. Correu para o quarto de Arthur. O berço estava vazio. O bebê-conforto não estava lá.
— Eduarda? — ele gritou, sua voz ecoando pelas paredes de concreto e vidro. — Eduarda!
Ele voltou para a sala, onde Sara entrava com Valentina no colo, parecendo confusa.
— Ela sumiu, Sara. Ela levou o Arthur.
— O quê? — Sara soltou uma risada nervosa. — Ela não teria coragem. Para onde aquela mosca morta iria com um bebê no meio da noite?
Emanuel sentiu o sangue ferver. A fúria começou a subir por sua garganta, uma mistura de medo e ódio possessivo. Ele pegou o celular e ligou para o seu chefe de segurança.
— Localize o celular da Eduarda. Agora! E quero saber se algum carro saiu do prédio pela garagem de serviço nos últimos quarenta minutos.
Ele começou a andar de um lado para o outro, os punhos cerrados. A imagem de Eduarda em um evento, cercada por outros homens, usando aquele vestido que ele sabia que a deixaria irresistível, o torturava.
— Se ela estiver naquela faculdade... — ele murmurou, a voz saindo como um rosnado.
— Emanuel, acalme-se — Sara tentou dizer, mas ele a ignorou completamente.
O celular dele tocou. Era o segurança.
— Senhor, o celular dela foi rastreado na zona sul, perto do centro cultural da universidade. Um veículo de aplicativo pegou uma passageira com um bebê na saída de serviço há trinta minutos.
Emanuel não esperou mais nada. Ele pegou as chaves do carro e saiu como um furacão.
Na faculdade, o ambiente era vibrante. Luzes suaves iluminavam as esculturas e quadros. Eduarda caminhava pelo salão com Arthur no colo, que olhava tudo maravilhado com as cores e luzes. Ela se sentia viva. Amigos e professores se aproximavam para cumprimentá-la, elogiando sua pesquisa e, claro, a beleza do bebê.
— Eduarda, que surpresa maravilhosa! — disse um colega de classe, aproximando-se com uma taça de vinho. — Você está deslumbrante. E quem é esse pequeno cavalheiro?
— Este é o Arthur — ela sorriu, sentindo uma confiança que há muito não experimentava. — Obrigada, Lucas.
Eles começaram a conversar sobre a exposição. Por um momento, Eduarda esqueceu o medo da reação de Emanuel. Ela se sentia uma mulher, uma acadêmica, e não apenas um objeto de adoração e controle em uma cobertura de luxo.
De repente, o burburinho do salão mudou de tom. As pessoas começaram a sussurrar e a olhar para a entrada principal. Eduarda sentiu um calafrio percorrer sua espinha antes mesmo de se virar.
Emanuel entrou no salão como uma força da natureza. Ele não pertencia àquele ambiente de sutilezas artísticas. Com sua camisa preta, olhar sombrio e a mandíbula travada, ele parecia um predador em meio a um rebanho de ovelhas. Seus olhos percorreram o lugar com uma precisão mortal até pararem nela.
Lucas, o colega de Eduarda, percebeu a tensão.
— Está tudo bem, Eduarda? Quem é esse...?
Emanuel não deu tempo para respostas. Ele atravessou o salão em passos largos, ignorando os olhares curiosos. Quando chegou diante de Eduarda, a atmosfera ao redor deles pareceu esfriar dez graus.
— O que você pensa que está fazendo? — a voz de Emanuel era um sussurro baixo, carregado de uma fúria contida que era muito mais assustadora do que um grito.
Eduarda recuou um passo, apertando Arthur contra o peito. O bebê, sentindo a tensão, começou a resmungar.
— Eu vim para a minha exposição, Emanuel. Eu te avisei que era importante.
— Você me desobedeceu — ele disse, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Você pegou o meu filho e saiu escondida, como uma fugitiva.
— Eu não sou sua prisioneira! — Ela tentou manter a voz firme, mas suas mãos tremiam.
— Ei, cara, você está incomodando a moça — Lucas interveio, tentando ser corajoso.
Emanuel sequer olhou para o rapaz. Ele apenas estendeu o braço, afastando-o com um movimento brusco que quase o derrubou.
— Não se meta — Emanuel rosnou. — Agora, Eduarda, você vai andar até o carro. Agora.
— Não! — Ela disse, as lágrimas de raiva voltando. — Eu acabei de chegar! Eu quero ver os outros trabalhos!
Emanuel olhou para Arthur, que agora começava a chorar alto, assustado com a voz do pai. O som do choro do filho pareceu ser o estopim para Emanuel. Ele pegou Eduarda pelo braço, não com força para machucar, mas com uma determinação inabalável.
— Olhe para o que você está fazendo. O Arthur está sofrendo por causa da sua rebeldia idiota. Você quer que ele seja o centro das atenções em um lugar desses?
Eduarda olhou para o filho, o coração partido. Ela odiava que ele estivesse chorando.
— Vamos embora — Emanuel ordenou.
Ele a guiou para fora da faculdade sob os olhares atônitos de todos. O trajeto até o carro foi feito em silêncio absoluto, interrompido apenas pelos soluços de Arthur, que Emanuel logo pegou no colo assim que entraram no veículo, acalmando-o com uma eficiência que Eduarda odiava admitir que ele tinha.
Quando chegaram ao loft, a cena que os esperava era de puro caos emocional. Sara estava na sala, fumando um cigarro e andando de um lado para o outro.
— Olha só quem voltou! — Sara exclamou, irônica. — A pequena fugitiva e o herdeiro. Emanuel, você vai deixar isso passar? Ela nos fez passar por idiotas!
Emanuel ignorou Sara. Ele caminhou direto para o quarto de Eduarda, depositando Arthur, que já dormia de exaustão, no berço. Depois, ele se virou para Eduarda, que estava parada na porta, o vestido verde agora parecendo um fardo.
— Sara, saia. Agora — Emanuel ordenou, sem desviar os olhos de Eduarda.
— Mas Emanuel, nós precisamos conversar sobre...
— SAIA! — Ele rugiu.
Sara bufou, pegou sua bolsa e saiu do quarto, batendo a porta com força.
Emanuel caminhou até Eduarda. Ele a prensou contra a porta fechada, suas mãos espalmadas na madeira de cada lado da cabeça dela. Ele estava ofegante, o cheiro de fúria e desejo emanando dele.
— Você nunca mais — ele começou, a voz trêmula de emoção — nunca mais saia desta casa sem a minha permissão. Você tem ideia do que passou pela minha cabeça? Eu achei que algo tinha acontecido com você. Com o Arthur.
— Você não pode me controlar assim, Manu... — ela sussurrou, as lágrimas escorrendo livremente. — Eu me sinto sufocada.
— Eu te dou tudo! — Ele exclamou. — Joias, conforto, proteção! Eu tirei você daquela vida comum e te dei o mundo!
— Você me deu o seu mundo, Emanuel. Não o meu.
Ele a olhou, e por um momento, a fúria foi substituída por uma dor possessiva. Ele a beijou, um beijo violento e desesperado, que ela tentou resistir no início, mas logo cedeu, como sempre fazia. O poder que ele exercia sobre ela era físico, químico, quase doentio.
Ele a afastou um pouco, olhando para o vestido.
— Esse vestido... você ficou linda nele. Mas eu odeio que outros homens tenham te visto assim.
Ele segurou a alça do vestido e, com um movimento brusco, rasgou o tecido fino. Eduarda soltou um grito abafado.
— Agora ninguém mais vai te ver nele — ele murmurou, seus lábios encontrando o ombro dela. — Você é minha, Eduarda. Só minha. E se eu tiver que trancar as portas e janelas deste lugar para garantir isso, eu farei.
Eduarda chorava, mas suas mãos se agarravam aos ombros dele. Ela odiava o controle dele, odiava a forma como ele a tratava como uma propriedade, mas no fundo de sua alma ferida e manhosa, ela não sabia como viver sem aquele fogo sombrio que Emanuel emanava.
Naquela noite, o loft foi palco de uma reconciliação amarga e intensa. Emanuel a possuiu com uma ferocidade que era um aviso: ele nunca a deixaria ir. E Eduarda, enquanto se perdia nos braços do homem que era seu mestre e seu captor, percebeu que sua pequena tentativa de voo apenas a levara de volta para a gaiola de ouro, onde o rugido do leão era a única música que ela tinha permissão para ouvir.
Enquanto isso, no quarto ao lado, Sara ouvia os sons que vinham da suíte de Eduarda, seus olhos fixos no escuro, o ódio por aquela "santinha" se transformando em algo muito mais perigoso. Ela percebeu que, para Emanuel, Eduarda não era mais apenas uma distração; ela era uma obsessão. E Sara não estava disposta a ser a segunda em um império que ela ajudara a construir. A guerra na cobertura estava longe de terminar; ela estava apenas mudando de tática.