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O Sabor Amargo do Privilégio

O aroma de manjericão fresco e carne selada na manteiga começou a serpentear pelos corredores de mármore da cobertura, desafiando a frieza asséptica que Sara tentava impor ao ambiente. Na cozinha gourmet, Eduarda movia-se com uma leveza que contrastava com o peso das joias que Emanuel insistia que ela usasse. Ela vestia um avental de linho sobre um vestido de seda clara, os cabelos presos em um coque frouxo que deixava algumas mechas caírem sobre o rosto suave.

Arthur, sentado em seu cadeirão de madeira nobre, batia as mãozinhas gordinhas na bandeja, soltando gritinhos de antecipação. Aos seus olhos de um ano e meio, não havia nada no mundo mais fascinante do que o ritual da mãe na cozinha.

— Calma, meu amor. A mamãe já está terminando o seu favorito — disse Eduarda, a voz carregada daquela doçura manhosa que sempre desarmava Emanuel.

Ela picou o bife em pedaços minúsculos e suculentos, misturando-os ao macarrão caseiro envolvido em um molho de tomates frescos que ela mesma preparara. Era uma comida real, com cheiro de infância e cuidado, algo que Eduarda se recusava a terceirizar para as babás ou cozinheiros.

Do outro lado da bancada de quartzo, Sara observava a cena com um desdém que mal escondia sua irritação. Ela segurava Valentina no colo, que parecia uma boneca de porcelana em seu vestido de grife engomado. Valentina, com seus olhos atentos e expressivos, observava o irmão com uma curiosidade crescente.

— Você vai mesmo dar isso para ele, Eduarda? — perguntou Sara, a voz cortante e carregada de ironia. — Essa quantidade de carboidratos e gordura... você quer que ele cresça sem disciplina alimentar? A Valentina só come papinhas orgânicas importadas e suplementos balanceados.

Eduarda parou por um segundo, sentindo a costumeira pontada de insegurança, mas olhou para o filho, que sorria com a boca aberta esperando a primeira colherada.

— É comida de verdade, Sara. Ele precisa de sustento, e ele ama o tempero da mamãe — respondeu Eduarda, tentando manter a voz firme, embora seus dedos tremessem levemente.

— "Tempero da mamãe" — Sara debochou, revirando os olhos. — É por isso que você nunca vai passar de uma amadora. Educação vem do berço, inclusive a estética. Olhe para a Valentina, ela é elegante até na hora de comer.

Valentina, no entanto, parecia discordar da mãe. O cheiro do bife acebolado era muito mais atraente do que a pasta verde e insossa que a babá acabara de colocar em sua frente. A menina esticou o braço pequeno, apontando para o prato de Arthur.

— Dá! — Valentina balbuciou, os olhos brilhando. — Dá, dá!

— Não, Valentina. Isso não é para você — Sara disse prontamente, segurando a mão da filha com firmeza excessiva. — Coma sua papinha de espinafre e quinoa. É o que faz bem para a sua pele e para o seu desenvolvimento.

Valentina começou a se remexer no colo de Sara, o beicinho de frustração crescendo. Ela olhava para Arthur, que agora devorava o macarrão com uma satisfação barulhenta, sujando as bochechas de molho.

— Dá! — a menina insistiu, desta vez com um tom mais agudo, quase um grito de protesto.

— Eu disse que não! — Sara elevou a voz, irritada pela desobediência da filha diante de Eduarda. — Você não vai comer essa comida vulgar e gordurosa. Você é uma princesa, não um selvagem.

Eduarda sentiu o clima pesar. Ela olhou para a pequena Valentina, cujo olhar era de puro desejo pela comida do irmão.

— Sara, é só um pedacinho... ela está com vontade. Não faz mal um pouco de bife — sugeriu Eduarda, com cautela.

— Eu não pedi sua opinião, Eduarda! — Sara disparou, os olhos faiscando. — Cuide do seu filho que parece um bárbaro e deixe que eu cuido da minha filha. Eu sei o que é melhor para ela. Eu não vou deixar que ela desenvolva hábitos de classe média baixa só porque você sente saudades da sua vida simples.

Nesse momento, o som de passos pesados ecoou no corredor. Emanuel entrou na cozinha, ainda vestindo o terno escuro, a gravata levemente frouxa e a expressão de quem carregava o peso de seus vários estúdios nas costas. Ele parou na soleira, observando a cena: Arthur radiante com o rosto sujo de molho, Eduarda encolhida pela agressividade de Sara, e Valentina começando a chorar de frustração no colo da mãe.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou Emanuel, a voz grave preenchendo o espaço e impondo silêncio imediato.

— Nada, Manu — Sara disse, mudando instantaneamente o tom para algo mais diplomático, embora ainda ácido. — A Eduarda está tentando interferir na dieta da Valentina. Você sabe como eu sou rigorosa com a saúde da nossa filha.

Emanuel caminhou até o centro da cozinha. Ele olhou para Arthur, que soltou um grito de alegria ao ver o pai, e depois para Valentina, que estendia os braços para ele, as lágrimas escorrendo pelo rosto perfeito.

— Ela quer comer o que o irmão está comendo — Emanuel observou, aproximando-se de Valentina e pegando-a no colo.

— É apenas um capricho, Emanuel. Ela não pode comer essas coisas pesadas que a Eduarda faz — Sara insistiu, cruzando os braços sobre os seios siliconados.

Emanuel olhou para o prato de Arthur e depois para o rosto de Eduarda. Ele sabia o quanto ela se dedicava àquelas pequenas coisas, o quanto o "manhoso" dela se traduzia em cuidado físico.

— O cheiro está ótimo, Eduarda — disse Emanuel, surpreendendo as duas. — O que é?

— Macarrão com bife, Manu. Do jeito que você gosta também — ela respondeu, os olhos brilhando com a validação dele.

Emanuel pegou uma colher pequena, pegou um pouco do macarrão e um pedaço minúsculo de carne do prato de Arthur e levou à boca de Valentina. A menina aceitou instantaneamente, mastigando com uma satisfação que a fez parar de chorar na mesma hora.

— Emanuel! — Sara exclamou, horrorizada. — Você está estragando meses de disciplina!

— Disciplina? — Emanuel virou-se para ela, o olhar gélido. — Ela é uma criança de um ano e meio, Sara. Ela tem fome. Ela quer sentir o sabor das coisas, não apenas comer o que parece ração de luxo.

— É para o bem dela! Eu não quero que ela cresça sem controle, que se torne... — Sara parou, mas o insulto a Eduarda estava implícito em seu olhar.

— Que se torne o quê? — Emanuel deu um passo em direção a Sara, ainda com Valentina no colo. — Humana? Afetuosa? Você está tão preocupada com a imagem da Valentina, com a "estética" dela, que está esquecendo que ela é uma criança. Olhe para ela. Ela está feliz.

Valentina soltou um som de aprovação, pedindo mais. Emanuel entregou a menina para Eduarda, que a sentou em uma cadeira ao lado de Arthur.

— Dê a ela, Eduarda. Se ela quer comer a sua comida, ela vai comer — ordenou Emanuel.

Eduarda obedeceu, servindo um pequeno prato para Valentina. A cena das duas crianças comendo juntas, compartilhando o mesmo tempero, era de uma harmonia que Sara não suportava.

— Você está me desautorizando na frente dela? — Sara sibilou, a voz trêmula de fúria. — Eu sou a mãe dela! Eu decido o que entra no corpo da minha filha!

— E eu sou o pai — Emanuel retrucou, a voz num tom baixo e perigoso que costumava usar quando perdia a paciência nos negócios. — E eu decido que nesta casa ninguém vai passar vontade de comer algo feito com carinho porque você tem obsessão por uma perfeição que não existe.

— Você sempre defende ela! — Sara apontou para Eduarda. — Essa... essa menina que não sabe nada da vida, que só sabe ser "manhosa" e cozinhar como uma dona de casa de subúrbio!

Emanuel segurou Sara pelo braço, não com força, mas com uma firmeza que a fez calar-se.

— Você está passando dos limites, Sara. A Eduarda cuida do Arthur com um amor que você parece ser incapaz de demonstrar sem pensar em como isso vai aparecer numa foto. Se você não consegue aceitar que a Valentina tenha prazer nas coisas simples, talvez o problema não seja a dieta, mas sim a sua amargura.

Sara puxou o braço, o rosto vermelho de humilhação. Ela olhou para Eduarda, que continuava alimentando as duas crianças, mantendo o olhar baixo, mas com uma leve curvatura nos lábios que Sara interpretou como vitória.

— Isso não vai ficar assim — Sara murmurou, antes de sair da cozinha batendo os saltos, o som ecoando como um aviso de guerra.

O silêncio que ficou era preenchido apenas pelo som dos talheres e pelas risadas baixas das crianças. Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto, o estresse do dia pesando sobre ele. Ele caminhou até Eduarda e parou atrás dela, colocando as mãos em seus ombros.

— Desculpe por isso — ele sussurrou perto do ouvido dela.

Eduarda inclinou a cabeça para trás, encostando-a no peito dele.

— Eu só queria que eles fossem felizes, Manu. A Valentina é tão pequena... ela não entende essas regras da Sara.

— Eu sei. E você está certa — Emanuel a virou para si, ignorando por um momento as crianças que estavam ocupadas demais com o macarrão. — Você traz uma humanidade para este lugar que eu nem sabia que faltava. Não deixe a Sara te diminuir. Nunca.

Eduarda sorriu, aquele sorriso tímido e doce que o prendia a ela de forma irremediável.

— Você vai querer um prato também? — ela perguntou, manhosamente, passando os braços pelo pescoço dele.

Emanuel olhou para ela, a fome de pele superando qualquer fome de comida, mas o momento em família o acalmava de uma forma estranha.

— Eu quero tudo o que você fizer, Duda. Tudo.

Ele a beijou com ternura, um contraste absoluto com a fúria que dedicara a Sara momentos antes. Eduarda sentia-se protegida, sentia que, naquele pequeno reino de sabores e afetos, ela finalmente estava ganhando terreno.

Enquanto isso, no quarto principal, Sara observava-se no espelho, retocando o batom com mãos trêmulas. Ela via a felicidade de Eduarda como uma afronta pessoal, uma infiltração que estava destruindo as bases do que ela considerava poder. Para ela, o macarrão com bife não era apenas comida; era o símbolo da sua perda de controle sobre Emanuel e sobre a própria filha.

— Você pensa que venceu, não é, santinha? — Sara disse para o seu reflexo. — Mas o amor do Emanuel é como uma tatuagem... às vezes, a gente precisa de várias sessões para cobrir o que não quer mais ver. E eu ainda tenho muita tinta para usar.

Na cozinha, Arthur e Valentina agora batiam as colheres um no prato do outro, rindo. Emanuel observava os dois, sentindo uma satisfação possessiva. Ele tinha as duas mulheres, os dois filhos, e o controle absoluto. Ou pelo menos, era o que ele queria acreditar.

Eduarda serviu o prato de Emanuel, colocando-o na cabeceira da mesa. Ela sentou-se ao lado dele, observando o homem poderoso que ela amava devorar a comida simples que ela preparara com tanto cuidado. Naquele momento, entre o cheiro do molho e o calor da presença de Emanuel, Eduarda sentiu que, apesar de toda a vulgaridade e agressão de Sara, o coração de Emanuel tinha um sabor que só ela sabia temperar.

— Está perfeito — disse Emanuel, olhando para ela enquanto comia.

— Eu sei — respondeu Eduarda, com um brilho de confiança nos olhos que Sara nunca esperaria ver. — Eu fiz com amor. E o amor, Manu, é o único ingrediente que a Sara nunca vai conseguir comprar.

Emanuel sorriu, um sorriso sombrio e cúmplice. Ele sabia que a guerra estava longe do fim, mas naquela noite, o sabor da vitória tinha o gosto do macarrão de Eduarda e o cheiro da paz que só ela conseguia criar em meio ao seu império de tinta e poder. E enquanto as crianças brincavam e Sara se afogava em sua própria fúria, Emanuel decidiu que, custasse o que custasse, ele manteria aquele equilíbrio, mesmo que tivesse que quebrar todas as regras que Sara tentasse impor. Pois no final, ele era o mestre, e naquela cobertura, a única vontade que realmente importava era a dele.