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O Pequeno Guardião e a Visita do Veneno
A campainha da cobertura de Emanuel não apenas tocou; ela pareceu anunciar uma invasão. Sara correu para a porta com um sorriso que não usava há meses, uma expressão de alívio misturada com uma ansiedade quase infantil. Quando a porta se abriu, surgiu Dona Odete. Se Sara era a versão siliconada e chamativa da ambição, Odete era a matriz original, envolta em um casaco de pele sintética, joias pesadas de ouro e um perfume tão invasivo que parecia querer expulsar o oxigênio do ambiente.
— Minha filha! Que saudade deste luxo! — exclamou Odete, abraçando Sara enquanto seus olhos já escaneavam a sala em busca de qualquer imperfeição.
— Mãe, que bom que você chegou! — Sara respondeu, lançando um olhar de triunfo na direção da cozinha, onde Eduarda estava. — Agora sim terei alguém do meu lado nesta casa.
Emanuel, que estava no escritório, saiu para cumprimentar a sogra com a cortesia fria que lhe era característica. Ele sabia que Odete era uma versão mais velha e amargurada de Sara, mas mantinha a política de boa vizinhança para evitar explosões desnecessárias.
— Seja bem-vinda, Odete — disse ele, apertando a mão da mulher.
— Emanuel, querido! Cada vez mais rico e mais sério — ela comentou, antes de desviar o olhar para Eduarda, que se aproximava timidamente com Arthur no colo. — E quem é essa? A babá nova?
O silêncio que se seguiu foi cortante. Eduarda sentiu o rosto queimar, apertando Arthur contra o peito. O bebê, que tinha pouco mais de um ano e meio, mas possuía os olhos observadores e intensos do pai, fixou o olhar na mulher desconhecida.
— Esta é a Eduarda, mãe do Arthur — Emanuel corrigiu, a voz num tom baixo que indicava que não aceitaria desrespeito.
— Ah... — Odete mediu Eduarda de cima a baixo, detendo-se no vestido romântico de renda clara e na ausência de maquiagem pesada. — A tal "estudante". Sara me contou sobre a... dinâmica peculiar de vocês. Bem, espero que ela saiba o lugar dela.
Eduarda não respondeu. Ela apenas abaixou a cabeça, sentindo aquela familiar vontade de sumir. Mas Arthur, em seus braços, não desviou o olhar. Ele sentiu o corpo da mãe retesar, percebeu a frequência cardíaca dela aumentar. Os bebês são intuitivos, e Arthur, o "pequeno trovão", era um mestre em ler o ambiente. Ele não gostou do tom de voz de Odete. Ele não gostou do cheiro forte dela.
— Vamos para a sala de jantar — sugeriu Sara, guiando a mãe. — Preparei um café da tarde maravilhoso.
Durante o café, a situação só piorou. Odete agia como se fosse a dona da propriedade, criticando a decoração e fazendo comentários ácidos sobre a "suavidade excessiva" de Eduarda.
— Você é muito calada, menina — disse Odete, mexendo o café com força. — Deve ser por isso que o Emanuel gosta de você. Homens como ele precisam de um descanso entre uma mulher de verdade e outra. Mas cuidado, a passividade cansa.
Eduarda sentiu uma lágrima teimosa querer escapar. Ela olhou para Emanuel, esperando que ele interviesse, mas ele estava distraído com uma mensagem no celular, confiando que elas se entenderiam. Arthur, sentado em seu cadeirão ao lado da mãe, observava Odete com uma seriedade assustadora para uma criança. Ele pegou um pedaço de biscoito e, em vez de comer, esmagou-o na mão, os olhos fixos na "vovó" postiça.
— E esse menino? — Odete apontou para Arthur. — Parece um bicho do mato. Não sorri? A minha Valentina é um encanto, sempre sorridente. Esse aí parece que está pronto para morder alguém.
— Ele é apenas observador, Dona Odete — defendeu Eduarda, a voz saindo pequena.
— Ele é mal-educado, isso sim — retrucou a mulher. — Sara me disse que ele é um terror. Dá para ver nos olhos. Tem o sangue ruim da mãe, provavelmente.
Arthur soltou um som gutural, um "grrr" baixinho. Ele esticou a mão gordinha e, com uma precisão que ninguém esperava, derrubou o copo de suco de uva de Odete. O líquido roxo espalhou-se instantaneamente pelo casaco de pele clara da mulher.
— Ai! Meu Deus! Meu casaco! — gritou Odete, levantando-se em um salto. — Esse moleque fez de propósito!
— Foi um acidente, ele é só um bebê! — Eduarda exclamou, correndo para pegar um guardanapo.
— Acidente nada! Ele me olhou nos olhos e empurrou! — Odete estava histérica. — Veja só, Emanuel! O filho dessa sonsa arruinou minha peça de grife!
Emanuel olhou para o filho. Arthur não parecia arrependido. Ele tinha um sorrisinho de canto, quase imperceptível, que era a cópia fiel do sorriso de Emanuel quando ele vencia uma negociação difícil.
— Ele é uma criança, Odete. Acidentes acontecem — Emanuel disse, embora houvesse um brilho de divertimento oculto em seus olhos.
— Isso não vai ficar assim — resmungou a mulher, indo para o banheiro se limpar.
Mais tarde, enquanto Odete tentava tirar a mancha no quarto de hóspedes, Arthur conseguiu escapar da vigilância de Eduarda por alguns segundos. Ele engatinhava com uma velocidade impressionante, movido por uma missão clara. Ele entrou no quarto de hóspedes e viu a bolsa de grife de Odete aberta sobre a cama.
Com a destreza de um pequeno sabotador, Arthur pegou um batom vermelho vibrante que estava na borda da bolsa. Ele não o comeu. Ele abriu a tampa e começou a "decorar" o interior da bolsa de couro legítimo, riscando freneticamente o forro de seda. Depois, ele viu os óculos de sol de Odete e, com um puxão firme, entortou as hastes de ouro até que elas fizessem um estalo seco.
Satisfeito, ele deixou os itens onde estavam e saiu do quarto, voltando para o tapete da sala como se nada tivesse acontecido. Quando Odete voltou para o quarto e descobriu o desastre, o grito dela foi ouvido em toda a cobertura.
— EMANUEL! EU VOU MATAR ESSE PROJETO DE DEMÔNIO! — ela berrava, saindo do quarto com a bolsa arruinada e os óculos tortos.
Emanuel e Eduarda correram para o corredor.
— O que foi agora? — Emanuel perguntou, perdendo a paciência.
— Olhe o que ele fez! Ele destruiu minha bolsa de cinco mil dólares! E meus óculos! — Odete tremia de raiva. — Essa menina não dá educação para o filho? Ele é um selvagem!
Eduarda olhou para Arthur, que estava sentado no chão, brincando calmamente com um carrinho de madeira, a imagem da inocência.
— Ele estava comigo o tempo todo, Dona Odete... eu acho... — Eduarda começou, mas a dúvida estava em sua voz.
— Ele não estava! Ele é um monstro igual à mãe! — Odete avançou um passo na direção de Eduarda, apontando o dedo no rosto dela. — Você é uma oportunista, uma garota de quinta categoria que usa esse bebê para se segurar aqui! Você não passa de uma...
Antes que Odete pudesse terminar o insulto, Arthur, que até então parecia alheio, levantou-se. Ele caminhou até a mulher e, com uma força surpreendente para o seu tamanho, deu um chute certeiro na canela de Odete.
— Ai! — ela gritou, perdendo o equilíbrio e caindo sentada no sofá.
— Arthur! — Eduarda exclamou, pegando o filho no colo.
Arthur não chorou. Ele começou a balbuciar alto, apontando para Odete e fazendo sons de reprovação, como se estivesse dando uma bronca na mulher. Ele se aninhou no pescoço de Eduarda, lançando um olhar de puro desafio para a avó de Valentina.
— Ele me agrediu! Emanuel, você viu? — Odete estava em choque. — Ele me chutou!
Emanuel cruzou os braços, observando a cena. Ele conhecia bem o temperamento do filho. Arthur era calmo, mas era protetor. Ele percebeu que o menino estava reagindo à hostilidade que Odete exalava contra Eduarda.
— Odete — disse Emanuel, a voz fria e cortante —, eu acho que você está cansada da viagem. Talvez seja melhor você ir para um hotel.
— O quê? Emanuel, você está me expulsando por causa desse... desse pirralho? — Sara interveio, chocada. — Ela é minha mãe!
— E ele é meu filho — Emanuel retrucou. — E a Eduarda é a mãe dele. Se a sua mãe não consegue se comportar nesta casa e respeitar quem mora nela, ela não é bem-vinda. O Arthur só reagiu ao veneno que ela está destilando desde que chegou.
Odete estava boquiaberta.
— Você prefere essa... essa mosca morta e esse menino agressivo à sua família?
— Eles SÃO minha família — Emanuel disse, caminhando até Eduarda e colocando a mão em seu ombro, um gesto de posse e proteção que fez o coração da jovem disparar. — Eduarda traz paz para esta casa. O Arthur traz vida. Você e a Sara só trazem estresse.
Sara percebeu que a situação estava fugindo do controle. Ela puxou a mãe pelo braço.
— Vamos, mãe. Vamos para o quarto. O Emanuel está estressado. Amanhã conversamos.
— Amanhã você vai para um hotel, Odete — finalizou Emanuel, sem dar margem para discussão.
Quando as duas saíram de cena, Eduarda sentou-se no sofá, ainda trêmula. Arthur desceu do colo dela e começou a dar tapinhas carinhosos no rosto da mãe, como se estivesse limpando a tristeza que ele sentira nela.
— Ele me defendeu, Manu... — Eduarda sussurrou, as lágrimas finalmente caindo. — Ele é tão pequeno e já sente essas coisas.
Emanuel sentou-se ao lado dela e pegou Arthur no colo, levantando o menino para o alto. Arthur deu uma risada vitoriosa, puxando levemente a barba do pai.
— Ele é um leãozinho, Duda — disse Emanuel, com um orgulho que não conseguia esconder. — Ele sabe quem é a pessoa mais importante para ele. E ele não vai deixar ninguém te machucar. Nem eu vou.
Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel, sentindo-se, pela primeira vez, verdadeiramente parte daquela fortaleza. Ela ainda era tímida, ainda era manhosa e sensível, mas sabia que tinha ao seu lado dois guardiões: um homem que dominava o mundo com suas máquinas de tatuagem e um pequeno herdeiro que, mesmo sem falar frases completas, já sabia que o amor da sua mãe era algo sagrado que deveria ser defendido com chutes, suco de uva e batons destruídos.
Naquela noite, o silêncio na cobertura foi diferente. Não era o silêncio da tensão, mas o da vitória. Odete passou a noite resmungando enquanto tentava salvar sua bolsa, e Sara percebeu, com um amargor na boca, que nem mesmo o reforço da mãe seria capaz de derrubar o pedestal onde Emanuel havia colocado Eduarda. O "maior erro da vida" de Sara, como ela costumava chamar a entrada de Eduarda na relação, havia se tornado o alicerce de uma nova vida para Emanuel — uma vida onde o carinho e a proteção valiam muito mais do que o silicone e a vulgaridade.
E Arthur, o pequeno guardião, dormiu o sono dos justos, com um pedacinho de renda do vestido da mãe agarrado em sua mãozinha, pronto para enfrentar qualquer outra "vovó" que ousasse cruzar o caminho da sua rainha manhosa.