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O Eco no Corredor e a Armadilha da Atenção
O sol da manhã entrava pelas amplas janelas de vidro do triplex, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Emanuel havia passado a noite no sofá do escritório, uma escolha deliberada para evitar o calor sufocante do corpo de Sara e a fragilidade magnética de Eduarda. Ele se sentia como um motor funcionando no limite, as peças rangendo sob a pressão de manter duas vidas orbitando a sua.
Ao levantar-se, a indiferença era sua armadura. Ele tomou café puro, os olhos fixos em um relatório financeiro no tablet, ignorando os sons que vinham dos quartos. Ele não queria ser o mediador hoje. Não queria ser o protetor, nem o amante, nem o carcereiro. Queria apenas o silêncio do controle absoluto.
Ele caminhou pelo corredor em direção à suíte principal para pegar seu relógio e uma jaqueta de couro. O plano era passar o dia em um de seus estúdios de tatuagem, mergulhado na tinta e na dor controlada de seus clientes, onde as regras eram claras e ninguém chorava por colares de safira.
No entanto, ao passar pela porta entreaberta do quarto de Eduarda, um som o fez parar bruscamente.
A voz de Eduarda, geralmente mansa e hesitante, estava vibrante. Ela falava ao celular, e o tom era de pura empolgação, algo que ele não ouvia desde antes do sequestro.
— — Sim, Bia! Eu já vi o convite no grupo. É naquela casa noturna nova, não é? A "Neon Abyss". Disseram que a decoração é toda inspirada em arte contemporânea, eu preciso ver isso de perto — dizia ela, soltando uma risadinha leve que fez o sangue de Emanuel ferver instantaneamente.
Emanuel sentiu uma pontada familiar de pânico misturada com fúria. A "Neon Abyss" ficava em uma zona industrial revitalizada, um lugar escuro, barulhento e impossível de monitorar com eficiência.
— — O vestido? Ah, eu pensei naquele preto com transparências que eu comprei escondida. Ele é perfeito para uma festa assim. Eu vou dar um jeito, Bia. O Emanuel vai estar ocupado com uma convenção de tatuagem no fim de semana, ele nem vai notar que eu saí. Eu mereço me divertir um pouco, não aguento mais essas paredes.
Emanuel não esperou para ouvir o resto. Ele empurrou a porta com tanta força que ela bateu contra o batente, produzindo um estrondo que ecoou por todo o apartamento.
Eduarda deu um salto na cama, deixando o celular cair sobre os lençóis de seda. Ela olhou para ele com os olhos arregalados, a mão pequena levada ao peito como se tentasse conter o coração.
— — Emanuel! Você me assustou! — exclamou ela, a voz tremendo levemente.
— — Eu assustei você? — Emanuel entrou no quarto, sua presença preenchendo o espaço de forma opressiva. — O que me assusta, Eduarda, é a sua capacidade de ser estúpida! Você estava mesmo planejando ir a uma festa? Em uma casa noturna? Escondida de mim?
Ele caminhou até a cama e pegou o celular dela antes que ela pudesse reagir. Deu uma olhada rápida na tela, mas a chamada já havia sido encerrada.
— — Devolve, Manu! É a minha privacidade! — Eduarda tentou se levantar, mas ele colocou a mão em seu ombro, mantendo-a sentada. Não era um gesto violento, mas era carregado de uma autoridade inquestionável.
— — Privacidade? Você perdeu o direito à privacidade no momento em que provou que não tem o mínimo de instinto de preservação! — Emanuel rugiu, a indiferença da manhã evaporando-se em uma explosão de raiva. — Você esqueceu o que aconteceu? Esqueceu daqueles dois meses? Daquele homem que te olhava como se você fosse um objeto de coleção?
— — Eu não esqueci! — Eduarda gritou de volta, as lágrimas começando a brotar, mas havia algo diferente no brilho de seus olhos. — Mas eu não posso viver morta, Emanuel! Eu tenho vinte anos! Eu quero dançar, eu quero ver minhas amigas, eu quero usar um vestido bonito e não me sentir uma prisioneira de luxo!
— — Você vai usar vestidos bonitos aqui! Vai dançar na sala se quiser! — Ele gesticulava com força, o rosto ficando vermelho. — Mas você não vai colocar os pés fora desta porta para ir a um lugar chamado "Abismo". Você tem ideia do que acontece nesses lugares? Droga, Eduarda, eu passo a vida tentando te manter inteira e você faz planos para se jogar no fogo!
— — Você só quer me controlar! — Ela bateu o pé na cama, fazendo um barulho abafado. — Você não se importa com a minha felicidade, só com a sua paz de espírito! Você é egoísta!
— — Eu sou egoísta por querer que você continue viva? — Ele se inclinou sobre ela, os olhos fixos nos dela. — Então eu sou o maior egoísta do mundo. Porque eu prefiro que você me odeie dentro desta casa do que te ver desaparecida de novo. Você não vai a festa nenhuma. Eu vou dobrar a segurança. Vou confiscar esse celular se for preciso.
Eduarda começou a soluçar, escondendo o rosto nas mãos. Era a imagem perfeita da fragilidade quebrada. Emanuel sentiu a raiva ser lentamente substituída por aquela culpa corrosiva que sempre o vencia. Ele se sentou na beira da cama e passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para perto.
— — Duda... entenda... eu não aguentaria passar por aquilo de novo. Eu fiquei enlouquecido. Eu quase destruí tudo o que construí para te achar.
Eduarda se aninhou no peito dele, o choro diminuindo para pequenos espasmos. Ela levantou o rosto, olhando para ele por entre os cílios molhados.
— — Você promete que não vai mais me ignorar como fez hoje de manhã? — perguntou ela com a voz manhosa, os dedos brincando com os botões da camisa dele. — Você passou por mim no corredor como se eu fosse um móvel. Eu prefiro que você brigue comigo do que esse seu silêncio frio.
Emanuel congelou por um segundo. Ele olhou para o rosto doce de Eduarda, para a forma como as lágrimas haviam parado de cair tão subitamente. Um pensamento atravessou sua mente: o convite, a conversa alta perto da porta, o tom de voz "empolgado" demais...
— — Espera um pouco — disse ele, a voz voltando ao tom baixo e perigoso. — Que festa é essa, Eduarda? Quem é Bia?
Eduarda hesitou, um pequeno sorriso involuntário ameaçando surgir no canto de seus lábios.
— — Bia é... uma colega do primeiro semestre. Mas a festa... bom, a festa era só uma ideia.
Emanuel pegou o celular novamente e abriu a lista de contatos. Não havia nenhuma "Bia" nas chamadas recentes. Havia apenas um número salvo como "Mãe", e a última chamada tinha durado três segundos.
Ele soltou um suspiro pesado, uma mistura de alívio e uma irritação profunda.
— — Você armou isso — afirmou ele, olhando-a nos olhos. — Não tem festa nenhuma. Não tem Bia. Você estava falando com o sinal de discagem só para eu ouvir.
Eduarda deu um sorrisinho tímido, a timidez voltando a mascarar sua astúcia. Ela se aproximou mais, passando os braços pelo pescoço dele, colando o corpo macio ao dele.
— — Você estava sendo tão frio, Manu... — murmurou ela, roçando o nariz no dele. — Eu sabia que se você achasse que eu estava em perigo, ou que ia te desobedecer, você voltaria a olhar para mim. Eu só queria a sua atenção. Eu senti sua falta a noite toda.
Emanuel sentiu uma vontade absurda de rir e, ao mesmo tempo, de sacudi-la pelos ombros. A manipulação de Eduarda era emocional, baseada na sua fragilidade, e era tão eficaz quanto a agressividade direta de Sara.
— — Você é inacreditável — disse ele, a voz rouca. — Você tem ideia do que fez com o meu coração agora? Eu quase tive um infarto achando que você ia fugir de novo.
— — Então prova que se importa — desafiou ela, puxando-o para mais perto. — Fica aqui comigo hoje. Esquece o estúdio. Esquece a Sara. Só nós dois.
Antes que Emanuel pudesse responder, a porta do quarto, que já estava aberta, foi empurrada por um salto agulha. Sara estava parada ali, usando um conjunto de lingerie vermelha por baixo de um robe de seda transparente, segurando uma lixa de unha.
— — Que cena tocante — debochou Sara, encostando-se no portal. — A pequena atriz ganhou o Oscar de Melhor Drama? Eu ouvi os gritos lá da cozinha. Parabéns, Eduarda, você realmente sabe como puxar a coleira dele.
Emanuel fechou os olhos por um momento, sentindo a dor de cabeça retornar com força total.
— — Sara, agora não — disse ele, sem soltar Eduarda.
— — "Agora não"? — Sara entrou no quarto, o perfume forte inundando o ambiente. — Manu, você caiu no truque mais velho do mundo. Ela finge que vai fugir, você faz o papel de herói possessivo, e ela ganha um dia inteiro de mimos. Enquanto isso, eu estou aqui esperando para a gente decidir o que vai fazer no feriado.
— — Eu não estou fazendo truque nenhum! — Eduarda se virou para Sara, ainda nos braços de Emanuel, a voz voltando a ser ríspida. — Eu só quero o meu namorado perto de mim! Coisa que você não entende, porque você só quer o cartão de crédito dele!
— — Ah, querida, o cartão de crédito é só um bônus pelo serviço bem prestado — Sara piscou para Emanuel, um olhar carregado de segundas intenções. — O Manu sabe que comigo o papo é outro. Eu não preciso fingir que sou uma criança perdida para ele me desejar.
— — Parem as duas! — Emanuel levantou-se, a paciência esgotada. — Eduarda, você mentiu para me manipular. Sara, você está provocando só para gerar conflito. Eu não sou um prêmio de consolação para ser disputado desse jeito.
Ele caminhou até o centro do quarto, olhando para as duas mulheres que representavam os dois extremos de sua psique: a necessidade de proteger e o desejo de ser desafiado.
— — Eu vou para o estúdio — declarou ele, pegando sua jaqueta. — Vou trabalhar. E quando eu voltar, espero que este apartamento esteja em silêncio. Se eu ouvir mais um grito, mais uma mentira ou mais uma provocação, eu juro que tranco as duas em quartos separados e jogo a chave fora.
— — Manu, espera! — Eduarda se levantou, tentando alcançá-lo. — Eu só queria ficar com você...
— — Você conseguiu minha atenção, Duda — disse ele, parando à porta e olhando para trás. — Mas não do jeito que você queria. Agora eu estou irritado e desconfiado. Parabéns pelo plano.
Ele olhou para Sara, que exibia um sorriso de triunfo por ter estragado o momento de Eduarda.
— — E você, Sara... se tocar no assunto do colar ou da festa de novo, eu cancelo a viagem de feriado. Estamos entendidos?
O sorriso de Sara desapareceu instantaneamente.
Emanuel saiu do quarto, os passos pesados ecoando pelo corredor. Ele passou pela sala, pegou as chaves do carro e saiu do apartamento sem olhar para trás.
Dentro do elevador, ele encostou a cabeça na parede espelhada. O reflexo mostrava um homem de 25 anos que parecia ter 40. A riqueza, os estúdios, o sucesso... nada disso parecia tão difícil quanto o equilíbrio precário daquela casa.
Enquanto o elevador descia, ele pegou o celular e ligou para o seu chefe de segurança.
— — Marcos? Sim, sou eu. Quero um relatório detalhado de todas as chamadas feitas e recebidas pelo telefone da Eduarda nas últimas 24 horas. E reforce a guarda na entrada do prédio. Se qualquer "Bia" aparecer procurando por ela, eu quero saber quem é antes que ela passe pelo lobby.
Ele desligou o aparelho, sentindo um gosto amargo na boca. Ele sabia que Eduarda havia mentido sobre a festa, mas a semente da dúvida fora plantada. E no mundo de Emanuel, a dúvida era o primeiro passo para a obsessão.
Lá em cima, no apartamento, o silêncio durou apenas alguns segundos após a porta principal bater.
— — Viu só o que você fez? — Sara disparou, olhando para Eduarda com desprezo. — Agora ele está furioso com as duas. Você é burra, garota. Não se cutuca um homem como o Emanuel com mentiras bobas. Ele vive de fatos.
Eduarda sentou-se na cama, limpando as últimas lágrimas com as costas das mãos. Ela olhou para Sara, e por um breve momento, a timidez desapareceu, dando lugar a uma frieza calculista que raramente mostrava.
— — Ele pode estar furioso, Sara. Mas ele está pensando em mim. Ele passou a manhã inteira tentando me ignorar, e agora ele vai passar o dia inteiro no estúdio pensando no que eu disse, no que eu quase fiz e no quanto ele tem medo de me perder.
Eduarda levantou-se e caminhou até o espelho, ajeitando o colar de safiras que ainda brilhava em seu pescoço.
— — No final do dia, ele sempre volta para me proteger. E você? Ele só volta para você quando quer esquecer os problemas. Eu sou o problema que ele nunca quer resolver.
Sara abriu a boca para retrucar, mas Eduarda passou por ela em direção ao banheiro, fechando a porta com um clique suave e definitivo.
Sara ficou sozinha no quarto, sentindo uma pontada de incômodo. Ela sempre viu Eduarda como uma boneca de porcelana, fácil de quebrar e sem substância. Mas, pela primeira vez, ela percebeu que a porcelana poderia ser afiada.
No estúdio, Emanuel mergulhou o bico da máquina de tatuar no batoque de tinta preta. O som vibrante do motorzinho era o único consolo para sua mente agitada. Ele começou a desenhar um labirinto na pele de um cliente, as linhas precisas e complexas.
"Eu sou o dono do baralho", ele pensara na noite anterior.
Mas, enquanto a agulha perfurava a pele, ele se perguntava se não era ele quem estava sendo marcado, dia após dia, pelas mãos delicadas de uma e pelas unhas afiadas da outra. O labirinto que ele tatuava parecia muito com a sua própria vida: muitas entradas, um centro inalcançável e a sensação constante de que, não importa para onde corresse, ele ainda estaria cercado por paredes que ele mesmo ajudara a erguer.
E no fundo de sua mente, a voz manhosa de Eduarda continuava repetindo: "Você promete que não vai mais me ignorar?".
Ele sabia a resposta. Ele nunca poderia ignorá-la. E esse era o seu maior triunfo e a sua ruína final.