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Sombras e Porcelana
O crepúsculo caía sobre a cidade, tingindo o céu de um roxo profundo e melancólico que parecia se infiltrar pelas janelas do triplex. Emanuel ainda não havia retornado de uma reunião de negócios em um de seus novos estúdios, e o silêncio do apartamento era interrompido apenas pelo zumbido suave do sistema de climatização. Eduarda estava encolhida no sofá da sala de cinema privativa, envolta em uma manta de cashmere, tentando se concentrar em um livro sobre o Renascimento italiano.
A porta da sala se abriu com um estrondo desnecessário. Sara entrou, exalando um perfume forte de baunilha e notas amadeiradas, segurando um balde de pipoca e um sorriso malicioso que nunca pressagiava algo bom.
— — Ainda enterrada nesses livros de gente morta, Duda? — Sara sentou-se na poltrona ao lado, cruzando as pernas longas e torneadas. — Vamos animar essa noite. O Manu vai demorar e eu não estou a fim de ficar olhando para a sua cara de tédio.
— — Eu estou bem assim, Sara — respondeu Eduarda, sem desviar os olhos das páginas. — Gosto do silêncio.
— — Pois eu não gosto. — Sara pegou o controle remoto e, com alguns cliques rápidos, selecionou um filme na plataforma de streaming. — Vamos ver um clássico. Dizem que é sobre arte, você vai amar.
Eduarda, em sua natureza doce e um tanto ingênua, acreditou. Mas, assim que as luzes se apagaram automaticamente e a trilha sonora estridente e dissonante começou a ecoar pelas caixas de som de última geração, ela percebeu a armadilha. Não era um documentário, nem um drama histórico. Era um filme de terror psicológico visceral, repleto de imagens perturbadoras, sombras que se moviam sozinhas e sustos coreografados para causar paralisia.
— — Sara, eu não gosto disso... por favor, desliga — pediu Eduarda, a voz já começando a tremer. Ela fechou o livro com força contra o peito.
— — Ai, deixa de ser frouxa! É só um filme, bonequinha — debochou Sara, mastigando a pipoca ruidosamente. — Olha aquela cena, o sangue parece tão real, não parece?
Eduarda fechou os olhos, mas os gritos agudos que saíam das caixas de som pareciam perfurar seus ouvidos. Cada vez que um vulto aparecia na tela, Sara soltava uma risada ou dava um grito proposital para assustá-la ainda mais. Eduarda sentiu o pânico subir pela garganta. Ela se levantou, tropeçando na própria manta, e saiu correndo da sala, ouvindo a gargalhada vitoriosa de Sara ecoar pelo corredor.
— — Cuidado com o bicho-papão debaixo da cama, Dudinha! — gritou a loira, deleitando-se com a crueldade.
Eduarda trancou-se em seu quarto, o coração martelando contra as costelas. Ela odiava aquela sensação de vulnerabilidade. Sara sabia de seus traumas, sabia que, desde o sequestro, sua mente pregava peças com sombras e portas entreabertas, e usava isso como arma.
Naquela noite, enquanto tentava dormir, Eduarda sentiu uma centelha de algo que raramente experimentava: o desejo de retribuição. Ela não era agressiva, mas era observadora. Lembrou-se de uma conversa de meses atrás, quando Emanuel mencionou, rindo, que Sara — a mulher que se dizia destemida e enfrentava qualquer um — tinha uma fobia irracional e profunda de bonecas antigas. Pediophobia.
— — Você quer brincar, Sara? — sussurrou Eduarda para a escuridão do quarto, limpando uma lágrima residual. — Então vamos brincar.
No dia seguinte, aproveitando que Emanuel a levara para a faculdade e Sara saíra para uma sessão de preenchimento labial, Eduarda fez sua jogada. Ela não comprou uma boneca de filme de terror, pois isso seria óbvio demais. Ela buscou algo mais sutil e, por isso, mais aterrorizante.
Ela encontrou em um antiquário de luxo uma boneca de porcelana de estilo *coquette*. Era impecável: tinha cachos loiros perfeitos, olhos de vidro azul-claro que pareciam seguir quem passava, e um vestido de renda rosa pálido cheio de laços e fitas. Tinha um rosto doce, mas uma expressão estática que, sob a luz certa, tornava-se sinistra.
Ao chegar em casa, Eduarda esperou o momento em que Sara estava no banho. Com passos de veludo, ela entrou no quarto da rival. O ambiente era um caos de roupas de grife jogadas e perfumes caros. Eduarda colocou a boneca sentada exatamente na poltrona em frente à cama de Sara, posicionando-a de modo que seus olhos de vidro estivessem nivelados com o travesseiro.
Eduarda voltou para o seu quarto e esperou.
Meia hora depois, o grito que rasgou o silêncio do apartamento foi muito mais alto e real do que qualquer som do filme de terror da noite anterior.
— — EMANUEL! EMANUEL, TIRA ISSO DAQUI! — Sara berrava, a voz carregada de um terror genuíno e histérico.
Eduarda saiu do quarto, adotando sua expressão mais inocente e preocupada. Emanuel, que acabara de chegar e ainda estava tirando o paletó na sala, correu em direção ao quarto de Sara, com Eduarda logo atrás.
Ao entrarem, encontraram Sara encolhida no canto mais distante do quarto, enrolada apenas em uma toalha, apontando com a mão trêmula para a boneca de porcelana.
— — O que é isso, Sara? O que aconteceu? — perguntou Emanuel, confuso, olhando para o brinquedo inofensivo na poltrona.
— — Aquela coisa! — Sara soluçava, a maquiagem borrada pelo pânico súbito. — Tira essa maldita boneca daqui! Você sabe que eu não suporto! Quem colocou isso no meu quarto? Foi ela! Foi aquela sonsa!
Emanuel olhou para Eduarda, que mantinha as mãos entrelaçadas à frente do corpo, os olhos castanhos bem abertos, transmitindo uma doçura infinita.
— — Eu não fiz nada, Manu... — disse Eduarda com a voz manhosa e suave. — Eu só vi a boneca no antiquário hoje e achei tão linda. Pensei que, como a Sara gosta de coisas caras e loiras, ela fosse gostar de um presente para decorar o quarto. Eu queria fazer as pazes depois de ontem... eu não sabia que ela tinha medo.
— — Mentira! Ela sabia! — gritou Sara, os dentes batendo. — Ela fez de propósito para se vingar do filme! Manu, olha para os olhos dessa coisa... ela está me olhando! Tira ela daqui agora!
Emanuel suspirou, sentindo a exaustão habitual de lidar com as duas. Ele caminhou até a boneca, pegou-a pelo tronco e a entregou para Eduarda.
— — Duda, leve isso para o seu quarto. Agora.
— — Desculpa, Manu... eu só queria ser gentil — murmurou Eduarda, pegando a boneca e abraçando-a contra o peito, o que fez Sara soltar um ganido de horror.
Emanuel aproximou-se de Sara e a puxou para um abraço. A loira, geralmente tão altiva e vulgar, tremia como uma folha em seus braços, escondendo o rosto em seu peito.
— — Calma, Sara. Já saiu do quarto. Foi só um mal-entendido — disse ele, a voz firme e protetora, enquanto afagava as costas dela.
— — Ela quer me enlouquecer, Manu... aquela garota é um demônio disfarçado de anjo — soluçava Sara, agarrando-se à camisa dele como se sua vida dependesse disso.
Eduarda saiu do quarto em silêncio. Ao chegar no corredor, longe da vista de Emanuel, ela olhou para a boneca em seus braços. Um pequeno sorriso de satisfação surgiu em seus lábios. Ela sentia a adrenalina da pequena vitória. Sara a havia feito chorar de terror real com sombras projetadas; ela apenas havia retribuído com um objeto de porcelana imóvel.
No entanto, ao entrar em seu próprio quarto e fechar a porta, a natureza de Eduarda começou a falar mais alto. Ela se sentou na cama, observando a boneca. O choro de Sara lá fora não parava, e a forma como Emanuel a consolava — com uma ternura que ele raramente demonstrava para a loira — trazia um misto de sentimentos.
— — Eu fui má? — sussurrou ela para a boneca.
Eduarda sentiu uma pontada de empatia. Ela sabia o que era sentir medo. Sabia como era a sensação de o coração querer saltar pela boca e o mundo parecer um lugar hostil. Por um momento, sentiu-se culpada por ter usado a fobia de outra pessoa como ferramenta de vingança. Ela era sensível demais para ser verdadeiramente cruel, e o peso daquela ação começou a pressionar seu peito.
Ela se levantou e foi até a porta, ouvindo o murmúrio baixo de Emanuel tentando acalmar Sara.
— — Shhh, já passou. Eu estou aqui. Ninguém vai te machucar.
Eduarda encostou a testa na madeira fria da porta. Ela sentia empatia pela vulnerabilidade de Sara, mas, ao mesmo tempo, uma parte dela — a parte que ainda guardava as cicatrizes dos dois meses de cativeiro e das constantes humilhações da loira — sentia que o equilíbrio havia sido restaurado.
— — Ela mereceu — disse a si mesma, embora a voz não estivesse totalmente firme. — Ela precisava entender que eu não sou um brinquedo que ela pode quebrar quando está entediada.
Alguns minutos depois, Emanuel bateu à porta de Eduarda. Ela abriu, adotando imediatamente sua postura mais frágil e carinhosa.
— — Ela se acalmou? — perguntou Eduarda, os olhos brilhando com uma preocupação que era metade real, metade estratégica.
— — Sim, ela está tomando um calmante — Emanuel entrou e fechou a porta, olhando para Eduarda com uma expressão severa, mas cansada. — Duda, me diga a verdade. Você sabia do medo dela?
Eduarda baixou o olhar, brincando com a renda de seu vestido. Ela sabia que não podia mentir totalmente para Emanuel; ele era observador demais.
— — Eu... eu lembrei de algo que você comentou uma vez, Manu — confessou ela, a voz saindo pequena e manhosa. — Mas ontem ela foi tão maldosa comigo. Ela me fez ver aquelas coisas horríveis e riu do meu medo. Eu só queria que ela sentisse um pouquinho do que eu sinto quando ela me ataca. Eu me sinto tão pequena perto dela, e ela sempre usa o que eu sinto contra mim.
Emanuel soltou um suspiro pesado e sentou-se na cama, puxando Eduarda para sentar-se entre suas pernas. Ele a envolveu pela cintura, apoiando o queixo em seu ombro.
— — Você sabe que eu não gosto desses jogos, pequena. O apartamento já é tenso o suficiente sem vocês duas planejando ataques psicológicos uma contra a outra.
— — Eu sei, Manu. Desculpa... — Ela virou-se nos braços dele e escondeu o rosto em seu pescoço. — Eu me sinto mal agora. Eu não gosto de ver ninguém chorar, nem mesmo ela. Eu sou uma pessoa ruim por ter feito isso?
Emanuel a apertou mais forte, inalando o cheiro de baunilha que sempre o acalmava. A doçura de Eduarda era o seu refúgio, mesmo quando ele desconfiava que essa doçura tinha espinhos escondidos.
— — Você não é ruim, Duda. Você só está aprendendo a se defender. Mas tente fazer isso de um jeito que não me dê um ataque cardíaco também, está bem?
— — Está bem — prometeu ela, dando um beijo casto na bochecha dele. — Eu vou pedir desculpas para ela amanhã. Do meu jeito.
— — Ótimo. Agora, livre-se dessa boneca. Eu não quero ver essa coisa circulando pela casa.
— — Eu vou dar para a filha da zeladora — disse Eduarda, sorrindo.
Emanuel saiu do quarto para verificar Sara uma última vez antes de dormir. Eduarda ficou sozinha novamente. Ela pegou a boneca de porcelana e a colocou dentro de uma caixa de papelão, cobrindo-a com papel seda.
Ela sentia empatia? Sim. Ela se sentia um pouco culpada? Sim. Mas, enquanto fechava a caixa, Eduarda sentiu uma paz estranha. Pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentia apenas como a "vítima" ou a "bonequinha de porcelana" da casa. Ela provara que até as criaturas mais gentis podem morder se forem acuadas no canto por tempo demais.
— — Durma bem, Sara — sussurrou ela, com uma doçura que agora carregava um novo tipo de poder. — E lembre-se de que as bonecas nem sempre são o que parecem.
Naquela noite, o triplex mergulhou em um silêncio tenso. Sara dormiu sob o efeito de remédios, agarrada ao braço de Emanuel. Emanuel dormiu com a mente dividida, tentando entender como sua vida se tornara um campo de batalha entre a vulgaridade e a delicadeza. E Eduarda dormiu o sono dos justos, com a consciência leve de quem, finalmente, aprendera a jogar o jogo, mantendo sua aura de anjo intacta enquanto as sombras da porcelana ainda dançavam nos pesadelos da mulher que tentara quebrá-la.
A guerra fria entre as duas namoradas de Emanuel havia atingido um novo patamar. Não era mais apenas sobre atenção ou dinheiro; era sobre quem conhecia melhor os monstros que habitavam o armário da outra. E, naquela rodada, a timidez de Eduarda havia se mostrado muito mais perigosa do que o silicone e a vulgaridade de Sara.