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O Terror de Casca e Antenas
A manhã no triplex de Emanuel começou com uma calmaria enganosa. O sol batia nas superfícies de mármore da cozinha, onde Emanuel tomava seu café em silêncio, revisando alguns desenhos de tatuagens realistas em seu tablet. No andar de cima, o som abafado do secador de cabelo de Sara indicava que a loira já estava em sua rotina de beleza de duas horas. Eduarda, por outro lado, ainda estava em seu santuário, o quarto decorado em tons pastéis que Emanuel montara especialmente para ela.
Eduarda despertou lentamente, sentindo-se protegida entre os lençóis de fios egípcios. Ela se espreguiçou, o pijama de seda rosa deslizando suavemente por sua pele. A luz que filtrava pelas cortinas de linho criava uma atmosfera de sonho, o tipo de ambiente onde nada de ruim poderia acontecer. Ela se sentou na beira da cama, os pés pequenos procurando os chinelos de pompom, quando algo no canto do seu campo de visão se moveu.
Não foi um movimento gracioso. Foi um estalo seco, um roçar de patas quitinosas contra o rodapé branco impecável.
Eduarda congelou. Seus olhos castanhos se arregalaram enquanto ela focava no intruso. Ali, perto de sua mesa de estudos onde repousavam seus livros de História da Arte, estava uma barata. E não era uma barata comum; era um exemplar urbano de proporções pré-históricas, com antenas longas que chicoteavam o ar, parecendo farejar o medo que emanava da jovem.
O silêncio do quarto foi estilhaçado por um grito que poderia ter sido ouvido em outro código postal.
— AAAAAAAAH! EMANUEL! EMANUEL, SOCORRO! — Eduarda saltou para cima da cama, subindo na cabeceira estofada como se a altura pudesse salvá-la de um predador feroz.
Na cozinha, Emanuel quase derrubou sua caneca de cerâmica. O grito de Eduarda não era um chamado comum; era um som de puro pavor, o tipo de som que fazia seu instinto de proteção disparar como uma mola. Ele largou o tablet e correu escada acima, o coração batendo forte contra as costelas.
— Duda? O que foi? Você se machucou? — Ele invadiu o quarto, os olhos percorrendo o ambiente em busca de um invasor, de sangue, de qualquer perigo real.
— ALI! EMANUEL, ALI! — Eduarda apontava com o dedo trêmulo, as lágrimas já escorrendo pelo rosto. Ela estava encolhida, os joelhos junto ao peito, balançando-se em um estado de pânico absoluto. — ELA VAI ME PEGAR! ELA VAI VOAR EM MIM!
Emanuel seguiu a direção do dedo dela e parou. Ele esperava um sequestrador, um ladrão, ou talvez um curto-circuito. Em vez disso, encontrou o inseto, que agora permanecia imóvel, como se estivesse desafiando a autoridade do dono da casa.
— Duda... é só uma barata — disse Emanuel, soltando um suspiro longo, o corpo relaxando da tensão do combate iminente.
— SÓ UMA BARATA? — Eduarda soluçou, a voz saindo manhosa e desesperada. — Ela é enorme! Ela é um monstro! Tira ela daqui, Emanuel! Mata ela! Joga fogo! Faz alguma coisa!
— Calma, pequena. Eu vou resolver — Emanuel começou a procurar algo para usar como arma, mas o escândalo de Eduarda não cessava.
— NÃO CHEGA PERTO DELA! E se ela pular em você? E se ela entrar no meu guarda-roupa? Eu nunca mais vou poder usar minhas roupas! Eu vou ter que queimar tudo! — Ela batia o pé na cama, fazendo o colchão balançar. — MATA LOGO! POR QUE VOCÊ ESTÁ PARADO?
Nesse momento, a porta do quarto foi aberta bruscamente por Sara. Ela usava um babydoll minúsculo e tinha uma máscara de argila verde no rosto, o que a tornava uma visão quase tão assustadora quanto o inseto para quem não estivesse acostumado.
— Mas que inferno de gritaria é essa? — Sara vociferou, a voz abafada pela máscara. — Eu quase borrei meu delineado! O que aconteceu? Alguém morreu?
— Tem uma barata no quarto, Sara — explicou Emanuel, revirando os olhos enquanto pegava um chinelo de Eduarda no chão.
Sara olhou para o inseto e depois para Eduarda, que estava em prantos em cima da cama. Uma risada vulgar e estridente escapou dos lábios da loira.
— Você está brincando? Todo esse show, esse escândalo digno de filme de terror, por causa de um bicho desse tamanho? — Sara entrou no quarto, caminhando com confiança. — Pelo amor de Deus, Eduarda, deixa de ser frouxa! É só um inseto. Ele tem mais medo de você do que você dele, embora, com essa sua cara de choro, eu duvido muito.
— NÃO CHEGA PERTO, SARA! — gritou Eduarda, ignorando a provocação. — Ela vai voar! Eu sinto que ela vai voar!
— Se ela voar, eu mato ela no ar — disse Sara, cruzando os braços e exibindo o silicone generoso. — Manu, olha o estado dessa menina. Ela é uma adulta de vinte anos ou uma criança de cinco? Que coisa patética.
— Sara, não ajuda — Emanuel rosnou, aproximando-se do alvo.
— Eu não sou patética! — Eduarda rebateu entre soluços, escondendo o rosto atrás de um travesseiro. — Eu tenho fobia! Emanuel, não deixa ela falar assim comigo! Tira esse bicho daqui agora, eu imploro!
Emanuel levantou o chinelo, mas a barata, percebendo a movimentação, decidiu que era hora de bater em retirada. Com uma agilidade surpreendente, o inseto correu em direção à cama.
— ELA ESTÁ VINDO! ELA ESTÁ SUBINDO! — Eduarda entrou em um estado de histeria completa. Ela começou a pular na cama, chutando o ar, jogando os travesseiros na direção do chão. — SAI! SAI DAQUI! EMANUEL!
— Duda, para de pular! Assim eu não consigo acertar! — Emanuel tentava cercar o bicho, mas a movimentação frenética de Eduarda estava criando um caos tático.
— Ai, sai da frente, Manu! Deixa que eu resolvo essa palhaçada — Sara se meteu no meio, tentando pisar na barata com suas sandálias de salto. — Vem aqui, sua nojenta...
— NÃO! — Eduarda jogou o edredom inteiro para fora da cama, na esperança de soterrar o inimigo. O tecido pesado caiu sobre a barata, mas também quase derrubou Sara, que tropeçou e soltou um palavrão cabeludo.
— SUA IDIOTA! Olha o que você fez! — Sara recuperou o equilíbrio, a máscara de argila rachando com a expressão de fúria. — Você quase me derrubou por causa de uma barata!
— EU NÃO QUERO ELA AQUI! — Eduarda agora estava de pé na cabeceira da cama, encostada na parede, tremendo tanto que Emanuel temeu que ela fosse desmaiar. — Emanuel, faz ela sumir! Por favor! Eu faço o que você quiser, mas mata ela!
Emanuel, vendo que a situação estava escalando para um conflito entre as duas namoradas e que Eduarda estava genuinamente prestes a ter um colapso nervoso, decidiu agir com autoridade. Ele pegou o edredom do chão, sacudiu-o com força — para o horror de Eduarda — e viu o inseto correr para debaixo de uma cômoda.
— Chega! — Emanuel gritou, e o silêncio finalmente caiu sobre o quarto, interrompido apenas pelos soluços baixos de Eduarda. — Sara, sai do quarto. Agora. Vá terminar sua maquiagem.
— Mas Manu, olha o que essa sonsa fez...
— Agora, Sara! — A voz de Emanuel era um trovão.
Sara bufou, lançando um olhar de puro ódio para Eduarda antes de sair pisando duro, resmungando sobre como a casa estava se tornando um berçário de luxo.
Emanuel voltou sua atenção para a cômoda. Com um movimento rápido, ele afastou o móvel, localizou a barata e, com um golpe seco e preciso do chinelo, encerrou a ameaça. Ele pegou o cadáver do inseto com um pedaço de papel higiênico e o descartou no banheiro, dando a descarga para garantir que o "monstro" não retornaria das profundezas.
Quando ele voltou ao quarto, Eduarda ainda estava na mesma posição, encolhida na cabeceira, os olhos fixos no chão como se esperasse um exército de reforços surgir dos rodapés.
— Pronto, Duda. Ela morreu. Acabou.
Eduarda olhou para ele, os lábios tremendo. Ela estendeu os braços em um pedido mudo, e Emanuel não resistiu. Ele subiu na cama e a puxou para o seu colo, envolvendo-a em um abraço apertado. Eduarda se agarrou ao pescoço dele, escondendo o rosto em seu ombro, chorando com força.
— Ela... ela era horrível, Manu... — soluçou ela, a voz saindo abafada contra a pele dele. — Obrigada por me salvar. Eu tive tanto medo.
— Eu sei, pequena. Eu sei — Emanuel acariciava os cabelos dela, sentindo a fragilidade de seu corpo. — Mas você precisa tentar se acalmar. Foi apenas um inseto.
— Para você é apenas um inseto, mas para mim é um pesadelo — ela se afastou um pouco, olhando-o com aqueles olhos grandes e úmidos que sempre o desarmavam. — E a Sara... ela é tão má. Ela riu de mim. Ela me chamou de patética.
— A Sara é a Sara — disse Emanuel, limpando as lágrimas do rosto de Eduarda com o polegar. — Ela não entende o seu jeito. Mas eu estou aqui, não estou? Eu não deixei nada te acontecer.
Eduarda aninhou-se novamente no peito dele, sentindo-se segura.
— Você vai dedetizar a casa inteira? — perguntou ela, fazendo um biquinho manhoso. — Eu não posso morar em um lugar onde essas coisas andam livremente. Eu vou ter pesadelos.
— Vou ligar para uma empresa de dedetização agora mesmo — prometeu Emanuel, embora soubesse que seria um exagero para uma única barata. — Eles vão vir aqui e colocar veneno em cada fresta deste apartamento. Satisfeita?
— Sim... — ela suspirou, dando um beijo suave no pescoço dele. — Você é o meu herói, Manu. O que eu faria sem você?
Emanuel sorriu, sentindo o peso da responsabilidade que era cuidar de alguém tão sensível. Ele gostava de ser o porto seguro dela, embora às vezes a intensidade das reações de Eduarda o deixasse exausto.
— Agora, que tal você tomar um banho e descer para tomar café? Eu peço para a empregada trocar todo o seu jogo de cama, só para você ter certeza de que está tudo limpo.
— Você faz isso por mim? — ela perguntou, brilhando os olhos.
— Faço, Duda. Faço tudo por você.
Enquanto Eduarda ia para o banheiro, ainda olhando para o chão com desconfiança, Emanuel desceu para a cozinha. Sara estava lá, já sem a máscara, retocando o batom vermelho no reflexo de uma colher de prata.
— A princesinha já parou de chorar porque o dragão de seis patas foi derrotado? — ironizou Sara sem olhar para ele.
— Sara, eu já te disse para pegar leve com ela — Emanuel serviu-se de mais café, a voz fria. — Ela tem fobias. O que para você é bobagem, para ela é um trauma real.
— O que ela tem é uma manipulação de mestre, isso sim — Sara virou-se, os olhos brilhando com irritação. — Ela usa essa fragilidade para te manter na palma da mão, Manu. E você cai como um patinho. "Oh, mate a barata para mim, meu cavaleiro de armadura tatuada!". Me poupe.
— Eu não caio em nada, Sara. Eu apenas cuido de quem eu gosto. E se você não consegue conviver com o jeito dela sem ser agressiva, talvez a gente precise rever algumas coisas.
Sara estreitou os olhos. Ela sabia até onde podia esticar a corda com Emanuel.
— Tudo bem. Eu vou ignorar a existência dela por hoje. Mas eu quero que você me leve para jantar naquele lugar novo nos Jardins. Eu mereço uma compensação por ter sido acordada com gritos de guerra matinais.
— Veremos — respondeu Emanuel, voltando para o seu tablet.
Lá em cima, Eduarda estava sob o chuveiro, deixando a água quente lavar a tensão do encontro com o inseto. Ela se sentia vitoriosa, de certa forma. Sim, ela tivera medo, um medo real e paralisante, mas a forma como Emanuel correra para socorrê-la e como ele expulsara Sara do quarto para confortá-la... aquilo era a prova de que ela era a prioridade.
Ela saiu do banho e vestiu um vestido leve de seda branca, o colar de safiras que Emanuel lhe dera brilhando discretamente em seu pescoço. Ela desceu as escadas com sua habitual leveza, entrando na cozinha com um sorriso doce.
— Bom dia, Manu — disse ela, sentando-se à mesa e evitando olhar para o lado onde Sara estava.
— Bom dia, Duda. Sente-se melhor?
— Sim. Só um pouco trêmula ainda.
Sara soltou um ruído de desdém, mas manteve o silêncio conforme a ordem de Emanuel. O café seguiu em uma tensão velada, um equilíbrio precário entre a agressividade contida de uma e a doçura estratégica da outra.
Emanuel observava as duas. Ele sabia que a vida naquele triplex era como caminhar em um campo minado. Uma barata, um colar, um comentário sarcástico... qualquer coisa era motivo para uma explosão. Mas, enquanto ele pudesse ser o centro daquele caos, o juiz que decidia quem ganharia o afeto e quem ganharia a reprimenda, ele sentia que tinha o controle.
No entanto, o que ele não percebeu foi que, enquanto ele ligava para a empresa de dedetização, Eduarda e Sara trocaram um olhar rápido por cima da mesa. O de Sara era de puro desprezo; o de Eduarda era um brilho sutil de desafio. A barata fora eliminada, mas a infestação de ciúme e rivalidade naquele apartamento era algo que nenhum veneno no mundo seria capaz de exterminar.
— — Manu — chamou Eduarda, sua voz soando como música — você pode conferir debaixo da mesa antes de eu colocar meus pés ali? Só para eu ter certeza?
Sara revirou os olhos com tanta força que quase pôde ver o próprio cérebro. Emanuel, com um suspiro resignado, abaixou-se e olhou debaixo da mesa de mármore.
— — Está limpo, Duda. Pode sentar.
— — Obrigada, meu amor. Você é o melhor.
Eduarda tomou seu suco de laranja com uma elegância serena. Ela sabia que, para Emanuel, sua fragilidade era o seu maior charme. E se ela precisasse gritar por causa de cada inseto que cruzasse seu caminho para garantir que ele continuasse sendo seu protetor exclusivo, ela o faria. Afinal, em um mundo de tubarões como Sara, às vezes era preciso ser a criatura mais inofensiva do jardim para conquistar o dono da casa.