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O Labirinto do Mau Humor
A luz da manhã de quinta-feira invadiu a suíte master do triplex com uma agressividade que Emanuel não sentia que merecia. Ele abriu os olhos lentamente, sentindo o peso familiar de dois corpos ao seu redor. O apartamento estava silencioso, mas era aquele tipo de silêncio denso, carregado de eletricidade estática, que geralmente precedia uma tempestade nos trópicos — ou um colapso nervoso no seu relacionamento.
Emanuel sentou-se na cama, passando a mão pelo rosto tatuado e tentando organizar os pensamentos. À sua direita, Sara estava enrolada em um lençol de seda preta, a respiração pesada, mas o cenho franzido mesmo durante o sono. À sua esquerda, Eduarda parecia uma boneca de porcelana caída, mas havia algo na rigidez de seus ombros que indicava que ela já estava acordada.
Ele se levantou com cuidado, tentando não fazer barulho, e caminhou até o banheiro. Quando voltou, dez minutos depois, a cena havia mudado. As duas estavam sentadas na cama, em extremidades opostas, como se houvesse um campo de força invisível impedindo qualquer contato.
— Bom dia, flores do dia — arriscou Emanuel, forçando um tom leve enquanto vestia sua calça de moletom.
O silêncio que recebeu foi absoluto.
Eduarda não olhou para ele. Ela estava com um bico tão proeminente que quase parecia uma caricatura. Seus olhos castanhos estavam fixos em um ponto aleatório do tapete de pele sintética, e ela abraçava um travesseiro com uma força desnecessária.
— Duda? Tudo bem, pequena? — Emanuel aproximou-se e tentou tocar o topo da cabeça dela.
Eduarda se esquivou com a agilidade de um gato arisco.
— Não fala comigo — sussurrou ela, a voz carregada de uma mágoa infantil e profunda.
Emanuel piscou, confuso. Ele olhou para o outro lado da cama, buscando algum apoio ou explicação em Sara.
— Sara, o que aconteceu? Por que ela está assim?
Sara soltou uma risada seca, curta e carregada de veneno. Ela se levantou, jogando o cabelo loiro platinado para trás, e caminhou em direção ao closet, desfilando sua vulgaridade habitual mesmo em trajes de dormir.
— Não me pergunte nada, Emanuel. Você é um idiota completo — disparou ela, sem parar para olhá-lo.
— Eu sou um idiota por quê? — Emanuel perguntou, agora genuinamente perdido. — O que foi que eu fiz? Eu dormi! Eu literalmente só dormi nas últimas oito horas!
— Exatamente! — gritaram as duas em uníssono, embora com tons diferentes. Eduarda soou como um choro contido; Sara, como um tiro de fuzil.
Emanuel parou no meio do quarto, as mãos na cintura.
— Espera aí. Vocês estão bravas porque eu... dormi?
— Você é insensível — murmurou Eduarda, finalmente olhando para ele com os olhos marejados. — Você sabe que eu tive um pesadelo com aquele homem... com o sequestro. Eu tentei segurar sua mão e você simplesmente se virou para o outro lado e começou a roncar.
— Eu não ronco, Eduarda — defendeu-se ele, sentindo a culpa começar a cutucar seu estômago. — E eu estava exausto. Passei o dia inteiro fechando contratos para o novo estúdio na Europa.
— Ah, claro! O trabalho sempre em primeiro lugar — interrompeu Sara, saindo do closet com um robe de oncinha. — E quanto a mim? Você prometeu que íamos conversar sobre a viagem para Ibiza antes de apagar as luzes. Eu comecei a falar e, no meio da frase, você simplesmente "desligou". Você me ignorou como se eu fosse o papel de parede deste quarto!
Emanuel esfregou as têmporas. O cenário era tragicômico. De um lado, a timidez manhosa de Eduarda exigia um acolhimento emocional que ele, em seu cansaço mortal, não conseguira prover. Do outro, o ego inflamado de Sara exigia uma atenção logística e social que ele simplesmente não tivera energia para sustentar.
— Meninas, por favor — começou ele, tentando usar sua voz de "negociador de crises" — , eu não fiz por mal. Eu sou um ser humano, eu preciso de sono.
— Você não me ama mais — sentenciou Eduarda, enterrando o rosto no travesseiro e começando a soluçar de forma dramática.
— E você não me respeita — acrescentou Sara, cruzando os braços e batendo o pé no chão. — Você me trata como se eu fosse um acessório que você liga e desliga quando quer.
Emanuel olhou de uma para a outra. Ele era um homem rico, poderoso, respeitado no submundo e no mundo das artes, mas ali, naquele quarto, ele se sentia como um aluno de escola primária que esqueceu o dever de casa.
— Tudo bem, eu entendi. Eu errei por... ter necessidades biológicas — disse ele, com um toque de sarcasmo que se arrependeu no segundo seguinte.
— Está vendo? — Sara apontou para ele, olhando para Eduarda. — Ele ainda faz piada! Ele acha que o nosso sentimento é brincadeira.
Pela primeira vez em semanas, as duas pareciam concordar em algo: Emanuel era o vilão da história.
— Sabe de uma coisa? — Eduarda levantou-se da cama, limpando as lágrimas com as costas das mãos de um jeito que a deixava ainda mais vulnerável e irritante para os nervos de Emanuel. — Eu vou tomar café sozinha. Não quero olhar para esse seu rosto de "eu não fiz nada".
— Eu vou com você, Duda — disse Sara, surpreendendo a todos, inclusive a si mesma. — Pelo menos a gente sabe o que a outra está sentindo. Esse aí não tem alma.
As duas saíram do quarto em uma procissão de indignação. Emanuel ficou parado ali, olhando para a porta aberta, sentindo-se o homem mais confuso do planeta.
— Mas que diabos... — sussurrou ele para as paredes.
Ele desceu para a cozinha vinte minutos depois, esperando encontrar o caos. Em vez disso, encontrou um silêncio ainda mais estranho. As duas estavam sentadas à ilha de mármore. Eduarda comia um croissant com pequenas mordidas, parecendo um hamster magoado. Sara bebia um café preto, olhando para o nada com uma expressão gélida.
Emanuel aproximou-se cautelosamente, como quem entra em uma jaula de leões.
— Fiz panquecas — mentiu ele, pegando o que a cozinheira havia deixado pronto. — Alguém quer?
— Não — disse Eduarda, sem olhar para ele.
— Perdi o apetite — completou Sara, lixando uma unha perfeitamente esculpida.
Emanuel sentou-se entre as duas. O clima era tão pesado que ele sentia que precisaria de uma serra elétrica para cortar o ar.
— Escutem aqui. Eu peço desculpas. Mil desculpas. Eu vou compensar vocês. Eduarda, a gente pode ir naquela galeria que você queria hoje à tarde. Sara, a gente reserva as passagens para Ibiza agora mesmo. O que acham?
Eduarda soltou um suspiro longo, aquele suspiro que ela usava para mostrar que, embora pudesse perdoar, a cicatriz ficaria ali para sempre.
— Eu não quero ir à galeria por obrigação, Emanuel. Eu queria que você quisesse ir porque se importa com o que eu sinto. Agora perdeu a graça.
— E eu não quero ir para Ibiza se você vai passar o tempo todo dormindo ou falando de tatuagem no celular — Sara jogou a lixa de unha sobre o balcão. — Você está perdendo o jeito, Manu. Está ficando chato.
Emanuel sentiu uma pontada de irritação genuína. Ele fazia tudo por elas. Dinheiro, proteção, luxo, uma vida que a maioria das pessoas só via em filmes. Mas, aparentemente, nada disso valia nada se ele fechasse os olhos antes da meia-noite.
— Sabe o que eu acho? — Emanuel levantou-se, a voz subindo de tom. — Eu acho que vocês duas estão combinando isso para me enlouquecer. Ontem vocês estavam se matando por causa de uma boneca de porcelana e hoje são as melhores amigas do clube do "Odeio o Emanuel"?
Eduarda fez um bico ainda maior, os olhos brilhando de novo.
— Você está gritando comigo? — perguntou ela, a voz falhando. — Logo hoje que eu acordei com uma dorzinha de cabeça?
— Oh, meu Deus, lá vem o drama — Sara revirou os olhos, mas logo voltou sua fúria para Emanuel. — E você, pare de gritar! Você não tem autoridade nenhuma aqui hoje. Você está no "castigo".
Emanuel soltou uma risada incrédula.
— No castigo? Eu tenho vinte e cinco anos, Sara! Eu sou dono de metade dos estúdios desta cidade!
— E é dono de zero atenção feminina neste momento — retrucou ela, levantando-se com elegância. — Vamos, Duda. Vamos para o spa. Deixemos o "Sr. Importante" aqui com o seu café e a sua ignorância.
Eduarda levantou-se, secando uma lágrima solitária, e seguiu Sara. Antes de sair da cozinha, ela olhou para trás por um segundo, esperando talvez que Emanuel corresse e a pegasse no colo, mas ele estava ocupado demais tentando entender em que momento da vida ele havia perdido o controle da situação.
Emanuel passou o resto da manhã no escritório do triplex, fingindo trabalhar. Ele olhava para os monitores das câmeras de segurança e via as duas no andar de baixo. Elas não estavam se ignorando. Estavam... conversando? Aquilo era um sinal do apocalipse.
Perto do almoço, ele decidiu fazer uma última tentativa. Ele não era um homem de desistir. Ele era um protetor, um provedor, um tatuador que sabia que a dor era necessária para se obter algo belo.
Ele desceu as escadas e as encontrou na sala de estar. Eduarda estava sentada no chão, cercada por catálogos de moda, e Sara estava no sofá, apontando para algumas fotos.
— Oi — disse ele, parando na entrada da sala.
As duas olharam para ele simultaneamente e depois voltaram para os catálogos.
— Ainda aqui? — perguntou Sara, sem interesse.
Emanuel caminhou até Eduarda e ajoelhou-se ao lado dela.
— Duda, olha para mim.
Ela relutou, mas acabou cedendo. O bico ainda estava lá, mas os olhos não estavam mais tão tristes.
— Eu sinto muito pelo pesadelo. De verdade. Eu devia ter ficado acordado com você. Eu fui um ogro.
Eduarda suavizou a expressão. Ela adorava quando ele admitia fraqueza.
— Você foi mesmo — murmurou ela, inclinando a cabeça para o ombro dele. — Eu me senti tão sozinha...
— Eu sei. E Sara... — Emanuel olhou para a loira — , Ibiza vai ser a melhor viagem das nossas vidas. Eu vou desligar o celular. Eu juro.
Sara soltou um suspiro, a barreira de gelo começando a derreter, embora ela nunca fosse admitir tão rápido.
— Você diz isso agora. Quero ver quando chegarmos lá.
— Eu provo para você — Emanuel estendeu a mão para Sara, enquanto a outra envolvia a cintura de Eduarda. — Mas, por favor, parem de me olhar como se eu tivesse cometido um crime de guerra. Eu só dormi!
— Dormir é uma negação da nossa existência — disse Eduarda, com aquela lógica poética que só ela tinha.
— Dormir é chato — concluiu Sara, com sua lógica pragmática.
Emanuel riu, puxando as duas para um abraço desajeitado no meio da sala. Por um momento, a paz parecia ter retornado.
— Então, estamos bem? — perguntou ele, beijando a testa de Eduarda e depois a bochecha de Sara.
— Estamos em observação — disse Sara, levantando-se e ajeitando o robe. — Agora, eu quero almoçar. E quero lagosta.
— Eu quero massa — disse Eduarda, recuperando sua doçura manhosa. — Com muito queijo.
Emanuel levantou-se, sentindo que havia sobrevivido a mais um dia no labirinto.
— Lagosta e massa. O que as patroas quiserem.
Enquanto ele caminhava para a cozinha para dar ordens aos funcionários, ouviu Sara comentar baixinho com Eduarda:
— — Viu só? Se a gente não apertar, eles acham que a vida é fácil.
— — É verdade — respondeu Eduarda, com uma risadinha — , ele fica tão fofo quando está desesperado tentando agradar.
Emanuel parou no corredor, balançando a cabeça. Ele sabia que estava sendo manipulado, sabia que aquele mau humor matinal fora, em parte, uma coreografia bem ensaiada para lembrá-lo de quem realmente mandava naquele triplex. Mas, enquanto olhava para as duas, percebeu que não trocaria aquele caos por nenhuma paz no mundo.
Ele era o mestre das agulhas e da tinta, o homem que dominava a dor alheia para criar arte. Mas ali, entre a loira vulcânica e a morena delicada, ele era apenas o papel, sendo marcado e redesenhado todos os dias pelos caprichos de um amor que ele nunca conseguiria controlar totalmente.
— — Ei! — gritou ele da cozinha. — Eu ouvi isso!
— — Ouviu o quê, Manu? — as duas responderam em coro, com uma inocência que ele sabia ser a mais pura mentira.
Emanuel sorriu para as panelas de cobre. O bico de Eduarda havia sumido, a irritação de Sara havia se transformado em apetite, e ele... bom, ele teria que tomar muito café se quisesse sobreviver à noite que as duas certamente estavam planejando para "puni-lo" por seu sono intempestivo.
Afinal, no mundo de Emanuel, dormir era um luxo que ele raramente podia se dar ao luxo de ter sem pagar um preço alto em diamantes, desculpas e jantares de luxo. Mas, olhando pelo lado positivo, pelo menos elas não estavam brigando uma com a outra. O alvo agora era ele, e ele aceitava o posto de bom grado, contanto que o silêncio da manhã nunca mais fosse tão assustador quanto aquele bico de Eduarda.