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O Labirinto de Veludo e Garras

A manhã na mansão de Emanuel começou com o som agudo de unhas batendo contra o mármore e uma voz que poderia cortar vidro. Sara estava em seu auge. Há semanas ela vinha martelando os ouvidos de Emanuel sobre como a casa era "grande demais", "vazia demais" e como ela precisava de uma companhia que estivesse à sua altura — alguém que exalasse luxo e exigisse atenção constante, assim como ela.

Emanuel, sentado à cabeceira da mesa de café da manhã, massageava as têmporas. Ele tinha acabado de fechar um contrato milionário para um novo estúdio em Tóquio, mas o estresse dos negócios não era nada comparado à persistência de Sara.

— Emanuel, eu não estou pedindo, eu estou exigindo! — Sara exclamou, jogando o cabelo loiro platinado para trás. Ela usava um robe de seda transparente com bordas de penas, e seus seios siliconados pareciam saltar a cada gesto dramático. — Eu vi uma ninhada de Lulus da Pomerânia em um canil de elite. Ela é branca, minúscula e custa mais do que o carro da sua secretária. Ela é a minha cara!

— Um cachorro, Sara? — Emanuel suspirou, abrindo os olhos e encarando a namorada. — Você não consegue nem cuidar das suas próprias plantas.

— Eu não preciso cuidar! Eu tenho empregados para isso! — Ela se aproximou, sentando-se no colo dele e passando os braços pelo seu pescoço, ignorando o fato de que ele estava tentando ler os relatórios financeiros. — Eu só quero que ela sente no meu colo enquanto eu tomo meu sol. Imagine as fotos no Instagram, Manu. Nós três. O casal poderoso e a princesa de quatro patas.

Emanuel olhou para o rosto de Sara, coberto por uma maquiagem impecável mesmo às nove da manhã. Ele sabia que, se não cedesse, ela tornaria sua vida um inferno por mais um mês. E, no fundo, ele gostava de mimá-la; era a forma mais fácil de manter o vulcão sob controle.

— Está bem, Sara. Compre a cachorra. Mande a conta para o meu financeiro.

Sara soltou um grito de alegria que ecoou pelo pé-direito alto da mansão e cobriu o rosto de Emanuel de beijos com gosto de gloss de morango.

— Você é o melhor! Vou chamá-la de Chanel!

Do outro lado da mesa, Eduarda observava a cena em silêncio. Ela usava um pijama de cetim azul-claro, romântico e delicado, com pequenas rendas nas bordas. Seus cabelos longos estavam levemente bagunçados, dando-lhe um ar de vulnerabilidade que sempre atraía o olhar de Emanuel, mesmo quando ele estava ocupado com Sara.

Eduarda sentiu uma fisgada de inveja, mas não do tipo agressivo de Sara. Era uma carência profunda. Ela se sentia tão pequena naquela casa, tão cercada por personalidades barulhentas, que a ideia de ter um ser vivo para cuidar, algo que fosse só dela, pareceu a solução para sua solidão velada.

— Manu... — a voz de Eduarda saiu pequena, manhosa, como o miado de um filhote.

Emanuel desviou o olhar de Sara para ela. Sua expressão suavizou-se instantaneamente, como sempre acontecia quando ele lidava com a "sua pequena".

— Diga, querida.

— Se a Sara vai ter uma cachorrinha... eu queria um gatinho. Um bem peludinho, cinza, para ficar comigo no quarto enquanto eu estudo História da Arte.

A expressão de Emanuel mudou na hora. A suavidade foi substituída por uma rigidez prática.

— Não. Gatos não.

Eduarda piscou, surpresa com a resposta imediata e seca.

— Por que não?

— Gatos soltam pelos em todo lugar, arranham os móveis de couro e são independentes demais — Emanuel disse, voltando sua atenção para o tablet. — Além disso, a cachorra da Sara vai ser pequena. Um gato pode se tornar um problema territorial. Não quero animais brigando na minha casa.

O lábio inferior de Eduarda começou a tremer. Para ela, aquele "não" soou como uma rejeição de sua própria existência. Ela não era barulhenta como Sara, não exigia joias de diamantes todos os dias, e o único pedido simples que fazia era negado?

— Mas não é justo! — Eduarda disse, a voz subindo uma oitava, carregada de emoção. — Ela ganha tudo o que quer porque faz escândalo! Eu só queria um gatinho para me fazer companhia quando você está nos estúdios...

— A resposta é não, Eduarda. Não insista — Emanuel disse, sem levantar a cabeça. Ele estava estressado e sua paciência para dramas matinais estava se esgotando.

Foi o erro dele. Ele esqueceu que, se Sara era o fogo que queimava por fora, Eduarda era a água que podia causar uma inundação silenciosa e devastadora.

Eduarda levantou-se da mesa bruscamente.

— Tudo bem! Se eu não posso ter nada que é meu nesta casa, então eu não tenho motivo para estar aqui!

— Onde você vai? — Emanuel perguntou, finalmente olhando para ela, vendo-a caminhar em direção às escadas.

— Vou arrumar minhas malas! — ela gritou, a voz embargada pelo choro. — Vou voltar para a casa do meu pai! Ele me deixa ter o que eu quiser! Você não me ama, você só quer me controlar como se eu fosse um dos seus quadros!

Emanuel bufou, irritado.

— Deixe de ser infantil, Eduarda. Você não vai a lugar nenhum.

— Ah, eu vou! — Ela parou no meio da escada e olhou para baixo, as lágrimas escorrendo pelo rosto doce. — Você me trata como uma criança, mas não me dá o carinho que uma criança recebe! Você prefere a Sara porque ela é vulgar e fácil de entender! Eu sou um fardo para você, não é? Pois eu vou sumir! Você nunca mais vai me ver!

Ela correu para o andar de cima e o som da porta do quarto batendo foi como um tiro. Sara, que assistia a tudo com um sorriso de satisfação enquanto lixava uma unha, deu de ombros.

— Deixe a sonsa ir, Manu. Ela só está fazendo cena. Vem cá, me ajude a escolher a coleira da Chanel...

— Cala a boca, Sara! — Emanuel rugiu, levantando-se.

Ele subiu as escadas com passos pesados. Estava furioso, mas por trás da raiva, havia o medo. O aviso do pai de Eduarda ainda ecoava em sua mente: "Se eu ver um único arranhão na alma da Eduarda... eu a levarei para um lugar que você nunca vai achar". E Emanuel sabia que, se ela fugisse agora, ele teria que enfrentar uma guerra que não tinha certeza se venceria.

Ele abriu a porta do quarto de Eduarda sem bater. Ela estava no chão, ao lado de uma mala aberta, jogando vestidos de seda de qualquer jeito lá dentro, soluçando alto.

— Pare com isso agora — ele ordenou, fechando a porta atrás de si.

— Não! Me solta! — ela gritou quando ele tentou segurá-la pelos braços. Eduarda se debateu, mas sua força era mínima comparada à dele. Ela acabou se jogando na cama, escondendo o rosto nos travesseiros, chorando de forma convulsiva. — Você é mau! Você é um monstro controlador!

Emanuel sentou-se na beira da cama, tentando recuperar o fôlego.

— Eduarda, escute. É só um gato. Por que todo esse drama?

— Não é o gato! — ela gritou contra o travesseiro, virando o rosto vermelho e inchado para ele. — É o fato de que você não confia em mim! Você acha que eu sou incapaz de cuidar de qualquer coisa! Você me quer aqui, trancada, enquanto você sai com ela, enquanto você dá presentes para ela...

— Eu te dou tudo, Eduarda. Olhe para este quarto, olhe para as suas roupas...

— Eu não quero roupas! — ela se sentou, abraçando os próprios joelhos, fazendo-se parecer ainda menor. — Eu queria algo que dependesse de mim. Algo para amar e que me amasse de volta sem me julgar por ser "tímida" ou "manhosa". Mas eu já entendi...

Ela olhou para ele com um olhar tão profundo e magoado que Emanuel sentiu um desconforto no peito que a lógica não conseguia explicar.

— Entendeu o quê? — ele perguntou, a voz baixando.

— Você não quer um gato porque tem medo de que eu me apegue a outra coisa que não seja você — ela disse, com uma intuição emocional que o atingiu em cheio. — E tem mais... eu sei por que você não quer animais ou responsabilidades comigo.

— E por que seria?

— Porque você não quer ter um filho comigo! — ela disparou, e a acusação pairou no ar como uma granada. — Você quer a Sara para o prazer e para aparecer, e me quer aqui como uma boneca de porcelana. Você tem medo de que, se eu tiver um filho, ou até um gato, eu pare de ser a sua "pequena" e vire uma mulher de verdade. Você quer me manter pequena para sempre!

Emanuel sentiu a irritação subir. Aquilo era manipulação pura, e o pior era que Eduarda sabia exatamente onde apertar. O assunto "filhos" era algo que ele evitava a todo custo, dada a complexidade de sua vida amorosa.

— Isso não tem nada a ver com o assunto, Eduarda! — ele exclamou, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro no quarto. — Você tem vinte anos! Está na faculdade! Um filho agora seria uma loucura!

— Viu? — ela apontou para ele, com um sorriso triste e vitorioso entre as lágrimas. — Você admitiu. Você não planeja um futuro comigo. Você só quer o meu presente, enquanto for conveniente. Pois eu não vou esperar você cansar de mim. Eu vou embora hoje!

Ela se levantou e voltou para a mala, mas Emanuel a segurou pela cintura, prensando-a contra o seu corpo. Ele podia sentir o coração dela batendo rápido, como o de um pássaro capturado.

— Você não vai a lugar nenhum — ele rosnou perto do ouvido dela. — Você é minha, Eduarda. Entenda isso de uma vez por todas. Se eu tiver que trancar esta porta e levar a chave comigo, eu farei.

Eduarda amoleceu contra ele, seus soluços tornando-se mais suaves, mais manhosos. Ela sabia que tinha vencido quando sentiu a tensão nos braços dele.

— Então me deixa ter o gatinho... — ela sussurrou, roçando o rosto no peito dele. — Por favor, Manu... eu prometo que ele não vai incomodar. Eu cuido de tudo. Eu só quero um amigo...

Emanuel fechou os olhos, sentindo-se completamente manipulado por aquela criatura frágil em seus braços. Ele era um homem que comandava centenas de funcionários, que intimidava rivais de negócios, mas ali, naquele quarto com cheiro de baunilha, ele estava sendo derrotado por um par de olhos marejados e um pedido de estimação.

— Se esse gato arranhar um único sofá de couro da sala de estar... — ele começou, a voz carregada de uma falsa severidade.

Eduarda se afastou um pouco, os olhos brilhando com uma esperança súbita.

— Você deixa?

— Vou mandar buscar um — ele disse, soltando um suspiro de derrota. — Um daqueles que não crescem muito. E ele fica restrito ao seu quarto e à biblioteca. Estamos entendidos?

Eduarda deu um grito de alegria abafado e pulou no pescoço dele, envolvendo as pernas em sua cintura. Emanuel a segurou por instinto, sentindo o calor do corpo dela contra o seu.

— Obrigada, obrigada, obrigada! Você é o homem mais maravilhoso do mundo! — ela dizia, beijando todo o seu rosto.

— Você é uma manipuladora de primeira categoria, sabia disso? — Emanuel disse, embora houvesse um traço de sorriso em seus lábios enquanto ele a apertava contra si.

— Eu só luto pelo que eu amo — ela respondeu, escondendo o rosto no pescoço dele, vitoriosa.

...

À tarde, a mansão de Emanuel parecia um zoológico de luxo.

Sara estava na sala de estar, sentada em um trono de veludo, segurando uma Lulu da Pomerânia que parecia uma bola de algodão com olhos de jabuticaba. A cachorra usava uma coleira cravejada de cristais Swarovski.

— Olhe para ela, Manu! — Sara exclamava, tirando centenas de fotos. — Ela é perfeita! Chanel, diga "oi" para o papai rico!

No andar de cima, Eduarda estava deitada em sua cama, com um gatinho cinza de raça pura, extremamente peludo e de olhos azuis, dormindo em seu peito. Ela o chamara de "Artie", em homenagem à sua faculdade.

Emanuel estava de pé no corredor, olhando para a porta de Sara e depois para a de Eduarda. Ele sentia uma dor de cabeça latejante. Ele tinha cedido a ambas, e agora o equilíbrio da casa estava ainda mais precário.

Ele desceu para o seu escritório particular, buscando refúgio no silêncio. No entanto, não demorou dez minutos para que a porta se abrisse.

Sara entrou, com a cachorra latindo um som agudo e irritante.

— Emanuel, a Chanel precisa de um cercadinho de ouro no jardim. Eu vi um em uma revista de Dubai...

Antes que ele pudesse responder, Eduarda apareceu na porta, segurando o gatinho com delicadeza, usando um vestido floral que a deixava com um ar de camponesa sofisticada.

— Manu... o Artie não quer comer a ração que o motorista trouxe. Acho que ele precisa daquela marca orgânica que você comentou... e ele está com frio, você pode aumentar a calefação do meu quarto?

Emanuel olhou para as duas. Sara, exuberante e exigente; Eduarda, doce e manhosa, mas igualmente implacável em suas necessidades. Ele percebeu, com uma clareza tardia, que ao dar os animais, ele não tinha resolvido o problema da solidão ou do tédio delas. Ele apenas tinha dado a ambas novas armas para disputarem sua atenção.

— Saiam — disse Emanuel, a voz soando como um comando final.

— Mas Manu... — começaram as duas em coro.

— SAIAM! — ele rugiu, batendo a mão na mesa.

As duas recuaram, surpresas com a explosão. Sara saiu bufando, batendo os saltos com força, enquanto Eduarda fez um beicinho e saiu com os olhos marejados, fazendo-o se sentir o pior homem do mundo por cinco segundos.

Emanuel afundou em sua cadeira de couro, fechando os olhos. Ele tinha o império, tinha o dinheiro, tinha as duas mulheres mais bonitas que já conhecera. Mas ali, cercado por latidos, miados e exigências constantes, ele percebeu que o controle que tanto prezava era uma ilusão. Ele não era o mestre do labirinto; ele era o prisioneiro central, sendo devorado lentamente pela paixão, pela manha e pelo caos que ele mesmo escolhera cultivar.

E o pior de tudo? Ele sabia que, no dia seguinte, ele compraria o cercadinho de ouro e a ração orgânica. Porque Emanuel não sabia mais como viver sem o fogo de uma e a doçura manipuladora da outra.