Voltar ao resumo

D

O Banquete dos Opostos

O loft de Emanuel não parecia mais a mesma galeria fria e impessoal de meses atrás. Onde antes reinavam apenas o concreto e o couro preto, agora havia toques de suavidade: uma manta de linho sobre a poltrona, vasos de flores frescas que Eduarda escolhia com cuidado e, claro, os brinquedos de Artie espalhados estrategicamente pelo chão. Emanuel mudara. A ameaça silenciosa de Ricardo e a quase perda de Eduarda o fizeram recalibrar sua bússola. Ele impusera limites severos a Sara, exigindo um convívio respeitoso, e passara a valorizar a presença silenciosa e doce de sua namorada mais jovem como o verdadeiro alicerce de sua sanidade.

Naquela tarde de domingo, o clima era de uma paz quase inacreditável. Emanuel decidira oferecer um almoço para celebrar a harmonia recuperada. Eduarda estava radiante, usando um vestido de seda rosa pálido, movendo-se pela cozinha com uma leveza que fazia o coração do tatuador errar a batida. Ricardo e sua esposa, Helena, estavam presentes, sentados no sofá e conversando com Emanuel sobre os novos estúdios que ele planejava abrir na Ásia. Ricardo parecia, finalmente, ter guardado as garras; ele observava o genro com um respeito renovado, vendo que o homem de 25 anos realmente amadurecera sob pressão.

No entanto, o equilíbrio de um relacionamento a três é sempre uma corda bamba, e o fator de desequilíbrio daquele dia tinha nome e sobrenome: Shirley, a mãe de Sara.

Se Sara era a versão "vulgar e siliconada" que chocava a tia Odete, Shirley era a matriz original, sem filtros e com o dobro de audácia. Ela chegara ao loft usando um vestido de oncinha tão justo que parecia pintado a vácuo, saltos altíssimos e um decote que desafiava as leis da gravidade e do bom senso.

— Mas que luxo de apartamento, Emanuel! — exclamou Shirley, balançando os cabelos loiros oxigenados enquanto segurava uma taça de espumante. — Minha filha sempre teve bom gosto para homens, mas você se superou. Esse porte de homem sério e tatuado... ai, me dá até um calor!

Sara, sentada ao lado da mãe, soltou uma risada orgulhosa, enquanto Emanuel apenas forçou um sorriso educado, sentindo o olhar de Ricardo pesar sobre ele.

— Obrigado, Shirley. Fico feliz que tenha vindo — disse Emanuel, tentando manter o tom diplomático.

Eduarda aproximou-se com uma bandeja de entradas, sorrindo timidamente para a sogra "emprestada".

— Aceita um canapé, Dona Shirley? — perguntou Eduarda com seu jeito manhoso e doce.

— Aceito sim, boneca — Shirley pegou o salgadinho, mas seus olhos já estavam em outro lugar. Mais especificamente, em Ricardo. — E quem é esse garanhão grisalho aqui no sofá? Sara não me disse que o pai da "outra" era um pão desse tamanho.

Um silêncio súbito caiu sobre a sala. Helena, a mãe de Eduarda, uma mulher elegante, de postura impecável e cabelos castanhos perfeitamente alinhados, estreitou os olhos. Ela segurou o braço de Ricardo com uma firmeza possessiva.

— Este é o meu marido, Ricardo — disse Helena, a voz gélida como uma manhã de inverno.

— Marido? — Shirley deu um passo à frente, balançando os quadris de forma nada sutil. — Ora, Helena, não seja egoísta. Um homem desses é patrimônio histórico, deveria ser compartilhado. Prazer, Ricardo, eu sou a Shirley, a parte divertida desta família.

Ricardo, sempre moderno e educado, levantou-se para cumprimentá-la, mas visivelmente desconfortável.

— Prazer, Shirley. Emanuel nos falou muito de você.

— Falou? — Shirley tocou o braço de Ricardo, deixando as unhas longas e vermelhas repousarem sobre o tecido da camisa dele. — Espero que ele tenha dito que eu sou muito melhor pessoalmente. Você faz academia, Ricardo? Esse ombro parece tão firme...

Eduarda arregalou os olhos, olhando para Emanuel em busca de socorro. Emanuel, por sua vez, sentiu uma vontade incontrolável de rir da situação absurda, mas o rosto de Helena estava ficando de uma tonalidade perigosa de vermelho.

— Shirley, acho que o almoço já vai ser servido — interveio Emanuel, tentando afastar a mulher de Ricardo.

— Ah, mas eu não estou com fome de comida ainda, querido — Shirley piscou para Ricardo, ignorando Helena completamente. — Ricardo, você tem cara de quem gosta de aventuras. Já pensou em fazer uma tatuagem? O Emanuel podia te riscar, e eu podia ajudar a escolher o lugar... um lugar bem escondidinho.

Helena levantou-se num salto, a paciência de "mulher de classe" explodindo em mil pedaços.

— Mas será possível que não se pode ter um almoço de família sem que essa mulher se comporte como uma cadela no cio? — gritou Helena, perdendo a compostura pela primeira vez em décadas.

— Mãe! — Eduarda exclamou, chocada com a palavra usada pela mãe sempre tão polida.

— Cadela? Quem você está chamando de cadela, sua múmia de museu? — Shirley retrucou, colocando as mãos nos quadris e empinando o busto. — Só porque seu marido está me comendo com os olhos enquanto você está aí, seca como uma uva passa?

— Comendo com os olhos?! — Helena soltou uma gargalhada histérica. — Ele está é horrorizado com tanta vulgaridade! Ricardo, diga a ela que você está sentindo náuseas!

Ricardo olhou de uma para a outra, parecendo o homem mais arrependido do mundo por ter saído de casa naquele dia.

— Meus amores, por favor... — tentou Ricardo, mas foi atropelado.

— Não venha com "meus amores"! — Helena apontou o dedo para Shirley. — Essa mulher está tentando dar em cima de você na frente da sua filha e do seu genro! Emanuel, como você permite que essa... essa criatura entre aqui?

Sara, que até então estava adorando o caos, resolveu defender a linhagem.

— Ei! Não fala assim da minha mãe! Ela só é espontânea. Você que é uma recalcada que dorme de laquê no cabelo!

— Espontânea? — Helena bufou. — Ela é um perigo público! Ela tocou no bíceps do meu marido!

— E que bíceps, hein? — Shirley acrescentou, rindo da fúria de Helena. — Se você não der conta, Helena, me passa o contato que eu resolvo o problema em dez minutos.

Nesse momento, Helena não aguentou. Ela pegou uma almofada de seda do sofá e arremessou com toda a força em direção a Shirley. A loira se abaixou com uma agilidade surpreendente para quem usava saltos de quinze centímetros, e a almofada atingiu em cheio o prato de canapés que Eduarda ainda segurava.

Mini-torradas e patê de salmão voaram para todos os lados. Um dos canapés aterrissou exatamente no decote de Shirley, escorregando para dentro do vestido.

— Ai! Está gelado! — gritou Shirley, começando a pular e a sacudir o vestido, o que resultou em uma dança involuntária e altamente sugestiva. — Tira, Ricardo! Tira daqui!

Helena avançou para cima de Shirley, não para ajudar, mas para impedir que o marido chegasse perto.

— Eu vou tirar é você da face da terra!

Emanuel finalmente decidiu agir. Ele se colocou entre as duas mulheres, usando sua envergadura para mantê-las afastadas.

— Chega! — a voz dele ecoou pelo loft, profunda e inquestionável. — Helena, sente-se. Shirley, vá ao banheiro se limpar. Agora!

O tom de Emanuel era o mesmo que ele usava para controlar multidões em convenções de tatuagem. Surpreendentemente, funcionou. Helena sentou-se, bufando e tentando recompor o cabelo, enquanto Shirley, ainda rindo e rebolando, caminhou em direção ao banheiro.

— Você viu isso, Ricardo? — Helena disse, a voz trêmula de indignação. — Ela é um monstro!

Ricardo sentou-se ao lado da esposa, passando o braço pelos ombros dela e tentando esconder um sorriso que teimava em aparecer.

— Calma, Helena. Ela é só... diferente. Ninguém vai me roubar de você, meu amor. Especialmente não uma mulher que usa oncinha com glitter no almoço de domingo.

Eduarda aproximou-se do pai, abraçando-o pelo outro lado, ainda segurando o gato Artie, que assistia a tudo com os olhos arregalados.

— Desculpa, pai. Desculpa, mãe. Eu não sabia que a mãe da Sara era tão... animada — disse Eduarda, fazendo aquele biquinho que sempre resolvia tudo.

— Animada é apelido, Duda — comentou Sara, sentando-se no braço do sofá. — Minha mãe é um evento da natureza. Mas convenhamos, Helena, seu marido é um gato. Você devia levar como um elogio.

— Elogio será o processo por danos morais que eu vou abrir! — retrucou Helena, embora o tom já estivesse mais baixo.

Emanuel suspirou, olhando para a bagunça de salmão no tapete persa. Ele olhou para Eduarda, que lhe lançou um olhar suplicante e doce, e depois para Sara, que piscava para ele de forma cúmplice. O tatuador percebeu que, apesar de ter mudado sua casa, suas regras e sua postura, a vida com aquelas duas mulheres nunca seria monótona.

— Bom — disse Emanuel, tentando aliviar a tensão —, já que a entrada foi servida no decote da Shirley e no meu tapete, acho que podemos passar direto para o prato principal. Ricardo, me ajude com o vinho?

— Com todo prazer, Emanuel — disse Ricardo, levantando-se apressadamente, feliz por escapar do raio de alcance de Helena por alguns instantes.

Minutos depois, Shirley voltou do banheiro, com o vestido devidamente limpo, mas com ainda mais batom. Ela sentou-se à mesa como se nada tivesse acontecido.

— Então, Ricardo — começou ela, pegando o garfo —, me conte mais sobre essa fazenda de vocês. Tem piscina? Eu adoro nadar... e olha que eu quase não ocupo espaço na água, meu biquíni é minúsculo.

Helena engasgou com a água, e Eduarda rapidamente começou a falar sobre a última exposição de arte que visitara, tentando desesperadamente mudar de assunto. Emanuel olhou para o sogro e viu que Ricardo estava fazendo um esforço hercúleo para manter a face neutra, enquanto Helena apertava o garfo com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

Emanuel sorriu para si mesmo. Ele olhou para Eduarda, que buscou sua mão por baixo da mesa, apertando-a com carinho. Depois, olhou para Sara, que lhe lançou um olhar de "eu te avisei que minha família era louca".

Apesar do caos, das ameaças de Helena e das investidas de Shirley, Emanuel sentia-se estranhamente em casa. Ele mudara tudo para manter Eduarda ao seu lado, e ver que ela estava feliz, segura e integrada — mesmo em meio àquele hospício — era a prova de que ele fizera a escolha certa.

— Um brinde — propôs Emanuel, levantando sua taça. — À família. A todas as formas de família.

— À família! — repetiram todos, embora Helena tenha acrescentado um "com algumas ressalvas" em voz baixa.

O almoço prosseguiu entre risadas, algumas patadas de Helena e as histórias absurdas de Shirley. Artie, o gato, pulou no colo de Ricardo, recebendo um carinho que fez o homem relaxar. Emanuel percebeu que, no fim das contas, a vulgaridade de uns e a timidez de outros eram apenas as cores de uma tatuagem muito complexa que ele estava ajudando a desenhar. Era imperfeita, barulhenta e, às vezes, dolorosa, mas era a vida dele. E ele não a trocaria por nada.

— Manu — sussurrou Eduarda em seu ouvido, enquanto os outros discutiam sobre a sobremesa —, obrigada por não expulsar a Shirley.

— Eu não poderia — Emanuel respondeu, beijando a têmpora dela. — Ela é o único motivo pelo qual sua mãe está prestando atenção no seu pai e não no meu controle sobre você.

Eduarda riu, aquela risada de veludo que era o som favorito de Emanuel.

— Você é um estrategista, Emanuel.

— Eu sou apenas um homem tentando sobreviver a um domingo com vocês — ele concluiu, sorrindo, enquanto via Shirley tentar ensinar Ricardo a tirar uma "selfie sexy" para o Instagram, sob o olhar vigilante e mortal de Helena.

O Banquete dos Opostos terminava com o estômago cheio e o coração leve, provando que, no mundo de Emanuel, o amor não precisava ser lógico, ele só precisava ser leal — mesmo que essa lealdade viesse acompanhada de estampas de oncinha e canapés voadores.