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O Jogo das Sombras e Correntes
O perfume de Eduarda era suave, uma mistura de baunilha e talco que parecia flutuar pelo loft como uma promessa de paz. Ela havia planejado aquela noite com uma precisão que não condizia com sua natureza distraída: velas aromáticas, uma playlist de jazz suave e o jantar favorito de Emanuel encomendado do restaurante mais exclusivo da cidade. Era para ser o momento deles, uma celebração após uma semana exaustiva de trabalho no estúdio.
Mas Sara, como uma tempestade de neon e glitter, tinha outros planos.
— Ops! Acho que derrubei meu tônico facial na sua lasanha de lagosta, Duda. Que azar o seu, né? — Sara disse, com um sorriso cínico que não alcançava os olhos azuis frios.
Eduarda olhou para a mesa posta, onde o prato principal agora exalava um cheiro químico e ácido. Ela sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Emanuel, que acabara de sair do banho enrolado em uma toalha, observou a cena com um suspiro pesado.
— Sara, por que você não consegue passar uma noite sem provocar? — Emanuel perguntou, a voz carregada de uma exaustão que beirava a derrota.
— Eu? Provocar? Eu só estava me cuidando, Manu. A santinha aqui é que colocou o jantar no meio do meu caminho — Sara deu de ombros, caminhando até Emanuel e passando as unhas longas pelo peito tatuado dele. — Esquece essa comida estragada. Eu marquei uma mesa no clube novo. Vamos, só nós dois. Deixa a Duda com o gatinho dela.
Eduarda não gritou. Ela não avançou sobre Sara, embora a vontade de arrancar aquele aplique loiro fosse quase insuportável. Ela apenas limpou o rosto com as costas da mão, pegou o gato Artie no colo e caminhou em direção ao quarto, o silêncio sendo sua única resposta.
— Duda, espera... — Emanuel tentou chamá-la, mas Sara o puxou pelo pescoço, selando seus lábios em um beijo possessivo e vulgar que o calou.
Naquela noite, Eduarda não dormiu. Enquanto ouvia os risos de Sara e Emanuel voltando da balada altas horas da madrugada, uma semente de algo sombrio e determinado brotou em seu coração sensível. Ela percebeu que sua doçura estava sendo usada contra ela. Se Sara jogava sujo, Eduarda aprenderia a jogar com as sombras.
Dois dias depois, era a vez de Sara. Ela havia anunciado que teria uma "noite de luxúria" com Emanuel para comemorar uma nova joia que ele lhe dera. Sara comprou uma lingerie vermelha que era pouco mais que alguns fios de seda e preparou o quarto com luzes vermelhas e champanhe.
Emanuel chegou em casa esperando o furacão loiro, mas encontrou o loft imerso em uma penumbra incomum.
— Manu, é você? — A voz de Eduarda veio do quarto principal, o quarto de Emanuel. Era um tom mais baixo, mais rouco, desprovido da timidez habitual.
Emanuel caminhou até lá, estranhando o silêncio de Sara. Ao entrar, viu Eduarda sentada na beirada da cama. Ela usava uma camisola de seda preta, tão fina que parecia fumaça sobre sua pele clara. O cabelo castanho estava solto, caindo em ondas sobre os ombros.
— Onde está a Sara? — Emanuel perguntou, sentindo uma tensão elétrica subir por sua espinha.
— Ela saiu para buscar um gelo especial que esqueceu. Vai demorar um pouco — Eduarda mentiu com uma perfeição assustadora. Na verdade, ela havia enviado uma mensagem falsa do celular de Emanuel para Sara, dizendo que o gelo deveria ser de uma marca específica do outro lado da cidade. — Mas eu queria falar com você antes. Estou me sentindo tão... carente, Manu.
Ela se levantou e caminhou até ele. O jeito manhoso estava lá, mas havia uma nova camada de audácia. Ela envolveu os braços no pescoço dele e o beijou com uma urgência que o pegou de surpresa. Emanuel, sempre o controlador, sentiu-se sendo conduzido.
— Duda, a Sara vai chegar a qualquer momento... — ele murmurou entre os beijos.
— Deixa ela chegar — sussurrou Eduarda. — Eu quero te mostrar uma coisa. Deita aqui.
Emanuel, intrigado pela mudança de comportamento da sua "menina doce", obedeceu. Ele se deitou na cama de dossel, observando Eduarda se posicionar sobre ele.
— O que você está fazendo? — perguntou ele, soltando uma risada curta quando ela pegou algo na gaveta da cabeceira.
— Brincando de lealdade — respondeu ela.
Antes que Emanuel pudesse processar o movimento, ouviu-se o clique metálico. Eduarda havia prendido o pulso esquerdo dele na cabeceira de ferro da cama com um par de algemas de aço, forradas com veludo negro.
— Eduarda? — O tom de Emanuel mudou de diversão para alerta. — Que brincadeira é essa? Tira isso.
— Ainda não — disse ela, prendendo o pulso direito com rapidez cirúrgica.
Emanuel tentou puxar as mãos, mas as correntes eram curtas e firmes. Ele estava preso, de braços abertos, completamente à mercê dela.
— A chave, Eduarda. Agora — Emanuel ordenou, sua voz de comando voltando a ecoar.
Eduarda não se intimidou. Ela caminhou até a porta do quarto, girou a chave na fechadura e a guardou dentro do decote da camisola. Depois, voltou para a cama e sentou-se sobre o quadril dele, encarando-o com um olhar que misturava adoração e triunfo.
— Você não vai a lugar nenhum, Manu. E a Sara também não vai entrar.
Nesse exato momento, o som da porta do loft se abrindo ecoou pelo corredor. Passos pesados de salto alto subiram o piso de madeira.
— Manu? Cheguei! E você não acredita na fila que peguei para esse gelo... — A voz de Sara era alta e impaciente.
Ela caminhou direto para o quarto de Emanuel, mas a maçaneta não girou.
— Que porra é essa? — Sara gritou, batendo na porta. — Manu, abre essa porta! Por que está trancado?
Lá dentro, Emanuel olhou para Eduarda, os olhos arregalados.
— Duda, solta isso. A Sara vai surtar.
— Deixa ela surtar — Eduarda sussurrou, aproximando o rosto do dele. — Ela sabotou o meu jantar. Ela riu do meu choro. Agora, ela vai ouvir como é passar uma noite inteira do lado de fora enquanto eu tenho você só para mim.
— ABRE ESSA PORTA, EDUARDA! EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ AÍ DENTRO, SUA SONSINHA! — Sara começou a esmurrar a madeira maciça. — MANU, MANDA ELA ABRIR!
Emanuel sentiu uma mistura de irritação e uma excitação proibida. O controle fora tirado dele por quem ele menos esperava.
— Sara! — Emanuel gritou. — Vai para o seu quarto! Agora!
— EU NÃO VOU A LUGAR NENHUM! ELA TE ALGEMOU? EU OUVI O BARULHO DAS CORRENTES! — Sara estava histérica. — EDUARDA, SE EU ENTRAR AÍ, EU VOU ARRANCAR CADA FIO DESSE SEU CABELO DE RATA!
Eduarda ignorou os gritos e as ameaças. Ela começou a distribuir beijos lentos pelo pescoço de Emanuel, subindo pela mandíbula até chegar à orelha dele.
— Ignora ela, Manu — sussurrou Eduarda. — Foca em mim. Você não disse que eu era muito passiva? Que eu precisava de atitude? Aqui está a minha atitude.
— Você está sendo louca, Duda — Emanuel disse, embora sua respiração estivesse ficando pesada. — Isso vai acabar em guerra amanhã.
— Amanhã eu lido com a guerra. Hoje, eu só quero o meu homem — Eduarda desceu as mãos pelo abdômen dele, sentindo os músculos retesados.
Do lado de fora, Sara tentava arrombar a porta com o ombro, soltando palavrões que fariam um marinheiro corar.
— VOCÊS ESTÃO SE DIVERTINDO, NÉ? EU VOU QUEBRAR TUDO NESTE LOFT! EU VOU JOGAR AS COISAS DA HISTÓRIA DA ARTE PELA JANELA! — Sara berrava, a voz falhando de tanto ódio.
— Se você tocar em um livro meu, Sara — Eduarda gritou de volta, sem parar o que estava fazendo com Emanuel —, eu conto para o meu pai o que você fez com o carro dele na semana passada!
O silêncio de Sara foi imediato, seguido por um rosnado de frustração. Ela sabia que Ricardo era o único homem que Emanuel respeitava e que ela mesma temia.
— Eu te odeio, Eduarda! Eu te odeio com todas as minhas forças! — Sara deu um último chute na porta e, pelo som dos passos, parecia ter se jogado no sofá da sala, bufando.
Emanuel olhou para Eduarda, impressionado.
— Você chantageou a Sara?
— Eu aprendi com o melhor — Eduarda sorriu, um sorriso pequeno e perigoso. — Agora, chega de falar de outras pessoas.
A noite que se seguiu foi uma inversão total de poder. Emanuel, acostumado a ditar o ritmo de tudo, viu-se forçado a aceitar a condução de Eduarda. Ela foi lenta, torturante e infinitamente manhosa, usando sua vulnerabilidade como uma arma de sedução em massa. Cada vez que Emanuel tentava recuperar o comando verbal, ela o calava com beijos que prometiam tudo e não entregavam nada até que ele estivesse implorando.
As correntes tilintavam contra o ferro da cama, um lembrete constante da sua imobilidade. Pela primeira vez, o grande tatuador rico e poderoso era apenas um homem sob o domínio de uma mulher que todos julgavam frágil.
De madrugada, o loft estava silencioso, exceto pelo som da respiração descompassada dos dois. Eduarda estava deitada sobre o peito de Emanuel, a cabeça descansando sobre suas tatuagens. Ela parecia a mesma menina doce de sempre, mas Emanuel sabia que algo havia mudado permanentemente.
— Você vai me soltar agora? — perguntou ele, a voz rouca de cansaço e satisfação.
Eduarda levantou a cabeça e o olhou nos olhos.
— Você vai me defender da próxima vez que ela tentar me humilhar? — perguntou ela. — Ou eu vou precisar comprar correntes mais fortes?
Emanuel soltou uma risada baixa, uma mistura de derrota e admiração.
— Eu acho que você já provou que sabe se defender sozinha, Duda. Mas sim... eu entendi o recado.
Eduarda pegou a chave no decote e, com um movimento lento, libertou os pulsos dele. Emanuel massageou a pele marcada pelo veludo, olhando para as marcas vermelhas que as algemas deixaram. Eram tatuagens temporárias de uma noite em que ele perdeu o controle e ganhou uma nova perspectiva sobre a mulher que amava.
Ao saírem do quarto pela manhã, encontraram Sara dormindo no sofá, ainda usando a lingerie vermelha, com uma garrafa de champanhe vazia ao lado. Ela acordou com o som da porta, os olhos inchados e a maquiagem borrada.
— Eu vou te matar, Eduarda — Sara murmurou, sem forças para levantar.
Eduarda passou por ela, caminhando até a cozinha com a elegância de uma rainha.
— Café, Sara? — perguntou Eduarda, com a voz mais doce do mundo. — Eu ia fazer panquecas. O Manu adora as minhas panquecas.
Sara olhou para Emanuel, esperando que ele dissesse algo, que ele a defendesse ou que brigasse com Eduarda. Mas Emanuel apenas caminhou até a cozinha, deu um beijo na nuca de Eduarda e começou a pegar os pratos.
— Panquecas parecem ótimas, Duda — disse Emanuel.
Sara percebeu, com um aperto no peito, que o jogo havia mudado. A "santinha" não era mais um alvo fácil. Ela era uma jogadora que conhecia as regras do loft melhor do que qualquer um.
Naquela manhã, enquanto tomavam café em um silêncio tenso, Artie pulou no colo de Emanuel. O tatuador acariciou o gato, olhando de uma namorada para a outra. Ele sabia que a paz era temporária, que a guerra entre o sagrado e o profano continuaria a queimar sob a superfície do seu relacionamento poliamoroso. Mas, enquanto observava Eduarda servir o café com seu jeito manhoso, Emanuel sentiu que, pela primeira vez, as peças do tabuleiro estavam exatamente onde deveriam estar.
Eduarda venceu a batalha daquela noite não com gritos, mas com o silêncio das correntes. E Sara, observando a marca das algemas nos pulsos de Emanuel, entendeu que a vulgaridade era uma arma barulhenta, mas a timidez, quando armada com lealdade e audácia, era um veneno silencioso e letal.
Emanuel sorriu para si mesmo, sentindo o peso da chave que Eduarda agora deixara sobre a mesa. O loft era o seu império, mas naquela manhã, ele sabia quem realmente usava a coroa. E a coroa tinha o perfume de baunilha e o toque frio do aço.