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O Abrigo do Silêncio e o Fio da Navalha

A recuperação de Emanuel transformou a mansão na Ilha Bela em um território dividido por fronteiras invisíveis e extremamente perigosas. De um lado, o quarto principal, onde Sara reinava com sua impaciência, o som constante de saltos agulha e reclamações sobre como o "clima de hospital" estava arruinando o seu bronzeado. Do outro, o escritório adaptado no andar térreo, onde Emanuel insistira em ficar para evitar as escadas, e onde o ar parecia subitamente mais leve, impregnado com o aroma suave de lavanda e livros antigos que Eduarda trazia consigo.

Eduarda levava sua tarefa de cuidar dele com uma seriedade quase devocional. Ela não falava muito, mas suas mãos eram firmes e gentis ao trocar as compressas geladas no supercílio dele ou ao ajudá-lo a se ajeitar nos travesseiros.

— Manu, você precisa tomar o remédio de horário — sussurrou ela, aproximando-se da cama com um copo de água e um comprimido.

Emanuel abriu os olhos e sorriu, sentindo a irritação crônica que o acompanhava desde o acidente se dissipar. Eduarda usava um cárdigan de tricô bege por cima de um vestido floral, o cabelo preso em um coque frouxo que deixava alguns fios caírem sobre o rosto delicado.

— Eu tomo, se você prometer ficar aqui mais um pouco — disse ele, a voz ainda um pouco rouca. — O silêncio fica vazio quando você sai do quarto, Duda.

Ela corou instantaneamente, baixando o olhar de forma manhosa enquanto entregava o copo a ele.

— Eu só ia buscar um livro na biblioteca. O Lu disse que eu não posso te cansar.

— O seu irmão se preocupa demais — Emanuel resmungou, tomando o medicamento. — Vem cá, senta aqui perto.

Eduarda acomodou-se na beirada da cama, com aquele jeito retraído que fazia Emanuel querer envolvê-la em um abraço e nunca mais soltar. Ela começou a ler em voz alta um trecho sobre a técnica de afresco de Michelangelo, sua voz suave agindo como um bálsamo para o estresse dele.

O momento de paz, contudo, foi estilhaçado pela entrada abrupta de Sara. Ela usava um biquíni de tiras douradas e uma saída de praia transparente, segurando um coquetel em uma das mãos e o celular na outra.

— Mas que gracinha, a hora da historinha! — ironizou Sara, a voz cortante como uma lâmina. — Emanuel, o pessoal ligou do estúdio de Londres. Tem um problema com o contrato do novo sócio e você está aqui, ouvindo sobre teto de igreja?

Eduarda fechou o livro abruptamente, os ombros encolhendo-se enquanto ela tentava se tornar invisível.

— Sara, eu já disse que resolvo isso mais tarde — respondeu Emanuel, o tom de voz subindo um oitavo. — E bata na porta antes de entrar.

— Bater na porta da minha própria casa? — Ela riu, uma risada seca e sem humor. — Ah, esqueci. Agora este é o santuário da pequena órfã. Olha só para ela, Emanuel. Ela nem consegue me encarar. É essa a mulher que você quer por perto? Uma menina que se assusta com a própria sombra?

— Eu... eu já vou indo — murmurou Eduarda, levantando-se apressada, as lágrimas já começando a marejar seus olhos grandes.

— Não, Duda, fica — Emanuel tentou segurá-la, mas a dor nas costelas o impediu de ser rápido o suficiente.

Eduarda saiu quase correndo, passando por Sara como se estivesse fugindo de um incêndio. Sara apenas revirou os olhos e se sentou na poltrona que Eduarda acabara de ocupar, cruzando as pernas de forma provocante.

— Você está passando dos limites, Emanuel. Todo mundo está comentando. O Lucas está furioso, eu estou sendo humilhada dentro da minha própria casa e tudo por causa dessa... coisinha.

— A casa é minha, Sara — disse ele, frio. — E a Eduarda não é "uma coisinha". Ela tem me ajudado mais do que você, que só sabe reclamar do barulho de gelo no copo.

— Eu te dou o que ela nunca vai dar! — Sara explodiu, levantando-se e aproximando-se dele, o cheiro de perfume caro e álcool inundando os sentidos de Emanuel. — Eu te dou fogo, eu te dou paixão, eu conheço cada centímetro desse seu corpo tatuado. Aquela menina não sabe nem como beijar um homem de verdade.

Emanuel olhou para Sara. Ele ainda sentia o puxão magnético daquela vulgaridade magnética, o desejo de possuí-la e ser possuído por aquele caos. Mas, ao mesmo tempo, a imagem de Eduarda chorando no corredor apertava seu peito de uma forma que o desejo físico nunca faria.

— Talvez eu precise de algo além de fogo agora, Sara — ele disse, voltando a fechar os olhos. — Agora sai. Eu quero descansar.

Sara saiu bufando, mas Emanuel sabia que aquela guerra estava longe de terminar.

Duas horas depois, o som de botas pesadas anunciou a chegada de Lucas. Ele não entrou como Sara; ele parou na porta, observando o amigo com uma expressão que Emanuel conhecia bem: a de um homem que estava prestes a tomar uma decisão difícil.

— Precisamos conversar, Emanuel. E não é sobre motos — disse Lucas, fechando a porta e sentando-se na cadeira de frente para a cama.

Emanuel suspirou, ajeitando-se nos travesseiros.

— Eu sei.

— Você sabe? — Lucas inclinou-se para frente, os olhos fixos nos de Emanuel. — Eu vi o jeito que você olha para a minha irmã. Eu vi você expulsar a sua namorada do quarto para ficar com ela. Emanuel, a Duda não é como as mulheres com quem você lida. Ela é frágil. Ela sente tudo em dobro.

— Eu sei disso, Lucas. É por isso que eu a quero. Eu nunca senti nada parecido. Eu quero cuidar dela, quero que ela more aqui, quero que ela tenha tudo o que o meu dinheiro e o meu afeto puderem comprar.

Lucas soltou uma risada amarga.

— Morar aqui? Com a Sara circulando pelos corredores como um tubarão sentindo cheiro de sangue? Você enlouqueceu? Você quer colocar a minha irmã no meio desse seu jogo doente? Você não deixou a Sara. Você ainda dorme com ela, ainda a chama de namorada.

— Eu amo a Sara, Lucas. Mas eu também amo a Eduarda. São sentimentos diferentes, em gavetas diferentes da minha vida.

— A vida não tem gavetas, seu idiota! — Lucas levantou-se, começando a andar de um lado para o outro. — Se você quer a Duda, você tem que ser digno dela. Eu passei a tarde conversando com ela. Ela está encantada por você, Deus sabe o porquê. Ela diz que você a faz se sentir segura. Mal sabe ela que você é o epicentro do perigo.

Emanuel permaneceu em silêncio, esperando o veredito. Ele sabia que, se Lucas proibisse o envolvimento, Eduarda jamais desobedeceria o irmão.

— Eu vou permitir isso — disse Lucas finalmente, parando aos pés da cama. — Vou permitir que vocês namorem. Mas sob as minhas condições. E se você quebrar uma delas, eu juro que esqueço os dez anos de amizade e acabo com você.

Emanuel assentiu, o rosto sério.

— Diga.

— Primeiro: nada de ela morar aqui agora. Nem aqui, nem em qualquer apartamento seu. Ela vai continuar na nossa casa, terminando a faculdade dela. Vocês vão namorar como pessoas normais por um ano inteiro. Eu quero ver se esse seu "encantamento" sobrevive ao tempo e à rotina, e se você vai conseguir gerenciar a psicopata da sua namorada nesse período.

Emanuel tentou protestar, mas Lucas o calou com um gesto.

— Segundo: eu estarei de olho em cada passo seu. Se eu vir uma lágrima no rosto dela causada por você ou pela Sara, acabou. E terceiro: você vai ser honesto com ela. Ela sabe da Sara, mas ela não entende a natureza do que você sente pela loira. Você vai ter que lidar com a dor que isso vai causar nela.

— Um ano é muito tempo, Lucas — murmurou Emanuel. — Eu a queria aqui agora.

— Um ano é o tempo que ela precisa para não ser engolida por você — rebateu Lucas. — E então? Aceita ou eu a levo embora desta ilha agora mesmo e você nunca mais consegue o telefone dela?

Emanuel olhou para a janela, onde o sol começava a se pôr. Ele pensou na doçura de Eduarda e na fúria de Sara. Ele sabia que o caminho à frente seria um campo minado, mas a ideia de perder Eduarda era insuportável.

— Aceito — disse Emanuel. — Um ano.

Lucas relaxou os ombros, embora a tensão não tivesse deixado seu rosto completamente.

— Bom. Vou chamar ela. Ela está lá fora, preocupada se eu ia te bater.

Minutos depois, a porta se abriu e Eduarda entrou, parecendo uma miragem em meio à luz alaranjada do entardecer. Ela olhou de Lucas para Emanuel, buscando uma resposta.

— O Lu disse que... que a gente pode tentar — sussurrou ela, aproximando-se da cama com aquele passo leve, quase flutuante.

Emanuel estendeu a mão e ela a segurou, entrelaçando seus dedos pequenos nos dele, marcados por cicatrizes e tatuagens.

— Nós vamos, pequena — disse Emanuel, puxando-a para perto até que ela estivesse sentada ao seu lado. — Vai ser do jeito do seu irmão por enquanto, mas eu prometo que, no final desse tempo, você vai ser minha. Completamente minha.

Eduarda sorriu, um sorriso tímido que iluminou o quarto, e encostou o rosto no peito dele, logo acima de onde o coração batia acelerado.

— Eu já sou um pouquinho sua, Manu — murmurou ela, manhosa.

Emanuel a abraçou com o braço bom, sentindo uma satisfação profunda. No andar de cima, ele ouviu o som de algo quebrando — provavelmente Sara em mais um de seus acessos de raiva. Ele sabia que o fogo estava queimando e que o orvalho de Eduarda teria que ser muito forte para não evaporar. Mas, por enquanto, ele tinha o que queria: o começo de um império onde ele não precisaria escolher entre a luxúria e a paz. Ele teria o mundo inteiro, mesmo que tivesse que conquistá-lo centímetro por centímetro, sob o olhar vigilante de um amigo e a fúria de uma amante.