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D

O Domínio do Caos e a Fragilidade do Vidro

A manhã de domingo não trouxe a redenção que Emanuel esperava. O ar no duplex estava saturado, pesado como chumbo. Ele não havia dormido; passara a noite no escritório, revisando contratos de seus estúdios em Berlim, mas seus olhos não focavam nas letras. Eles focavam na imagem das duas mulheres que, cada uma à sua maneira, haviam desafiado sua autoridade na noite anterior. Emanuel sempre acreditou que o controle era uma questão de lógica, mas com Eduarda e Sara, a lógica era um conceito abstrato que se dissolvia ao primeiro sinal de emoção ou provocação.

Emanuel saiu do escritório com os passos pesados, a camisa cinza levemente amassada e o olhar sombrio. Ele encontrou Sara na cozinha, debruçada sobre o balcão de mármore, tomando um suco verde como se nada tivesse acontecido. Ela usava um conjunto de seda branca, curto demais, que gritava desafio.

— Bom dia, querido — disse ela, sem se virar, a voz carregada de um sarcasmo que Emanuel conhecia bem. — Dormiu bem no seu exílio voluntário ou sentiu falta do calor das suas namoradas problemáticas?

Emanuel caminhou até ela, parando a poucos centímetros. O perfume caro dela não conseguia mascarar a tensão que emanava dele.

— Eu avisei para você não abrir a boca hoje, Sara — disse ele, a voz num tom perigosamente baixo. — Você desobedeceu cada ordem que eu dei ontem. Você me expôs. Você agiu como se não tivesse um pingo de dignidade.

Sara virou-se, apoiando os cotovelos no balcão e arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada.

— Diferente da sua protegida, eu não sou uma criança que você coloca de castigo, Emanuel. Eu sou uma mulher. Se eu quero dançar, eu danço. Se eu quero ser vista, eu sou vista. Você paga as contas, mas não é dono da minha vontade.

O estalo foi imediato. Emanuel perdeu o resto de paciência que guardava. Ele desferiu um soco no balcão de mármore, bem ao lado da mão de Sara, fazendo o copo de suco tremer e o som ecoar pela cozinha como um tiro.

— EU SOU O DONO DESTA CASA! — ele rugiu, aproximando o rosto do dela até que suas respirações se misturassem. — E enquanto você viver sob o meu teto e gastar o meu dinheiro, você vai seguir as minhas regras. Você quer ser livre? Ótimo. Pegue suas malas e saia agora. Vá ver quanto tempo dura sua "liberdade" sem o meu cartão de crédito para pagar suas cirurgias e seus caprichos.

Sara empalideceu. O brilho desafiador em seus olhos vacilou diante da fúria crua de Emanuel. Ela nunca o vira perder o controle daquela forma, de um jeito tão visceral e sombrio.

— Você não faria isso... — ela sussurrou, a voz trêmula.

— Tente me desobedecer de novo e descubra — ele sibilou, os olhos escurecidos pelo cansaço e pela raiva. — Agora, saia da minha frente antes que eu perca o resto da minha civilidade.

Sara recuou, tropeçando nos próprios passos, e saiu da cozinha em silêncio, o rosto vermelho de humilhação. Emanuel respirou fundo, tentando acalmar as batidas do coração, mas o silêncio durou pouco.

Eduarda apareceu na porta da cozinha logo em seguida. Ela parecia uma visão de inocência, usando um pijama de seda rosa claro, os cabelos castanhos caindo em ondas suaves sobre os ombros. Seus olhos estavam inchados, denunciando que ela passara a manhã chorando.

— Manu... — ela chamou, aproximando-se com aquele jeito manhoso, buscando o contato físico que sempre a salvava. Ela tentou abraçar a cintura dele, mas Emanuel se esquivou, o corpo rígido.

— O que foi, Eduarda? — ele perguntou, a voz fria, desprovida da ternura habitual.

— Hoje é o aniversário da Bia... — ela começou, fazendo um beicinho, os olhos já se enchendo de lágrimas. — É uma festa pequena, na casa dela, no Morumbi. Só as meninas da faculdade. Eu queria muito ir, Manu. Eu prometi que ia...

Emanuel olhou para ela com um desdém que a fez encolher-se.

— Depois do que aconteceu ontem? Depois de você se meter em um cabaré de beira de estrada porque não consegue ler um mapa ou carregar um celular? Você não vai a lugar nenhum, Eduarda.

— Mas não foi minha culpa! — ela protestou, começando a chorar de verdade, uma birra infantil que misturava desespero e manipulação. — Eu me perdi! Eu tive medo! Você não pode me prender aqui por causa de um erro! Por favor, Manu... eu imploro. Eu me comporto, eu juro!

Ela se jogou aos pés dele, agarrando suas pernas, o rosto molhado de lágrimas pressionado contra o tecido da calça dele.

— Por favor, por favor... eu preciso sair, eu me sinto sufocada aqui com a Sara me olhando daquele jeito. Deixa eu ir, só por duas horas!

Emanuel sentiu uma repulsa súbita. A fragilidade de Eduarda, que antes o encantava, agora parecia uma âncora tentando puxá-lo para o fundo de um oceano de drama desnecessário. Ele a segurou pelos braços e a levantou com força, obrigando-a a ficar de pé.

— Chega de teatro, Eduarda — disse ele, a voz soando como o gume de uma faca. — Você quer saber quem manda aqui? Você quer ver o que acontece quando você tenta me manipular com esse choro de criança?

— Manu, você está me machucando... — ela soluçou, assustada com o brilho sombrio nos olhos dele.

— Venha comigo — ele ordenou, arrastando-a pelo corredor.

Ele a levou até o grande closet que dividia os quartos. Sara estava lá, sentada em um pufe, ainda abalada. Emanuel empurrou Eduarda para dentro e fechou a porta principal, trancando-a. O closet era espaçoso, luxuoso, mas sem janelas, iluminado apenas por luzes de LED frias.

— O que você está fazendo? — perguntou Sara, levantando-se, o medo voltando a estampar seu rosto.

Emanuel ignorou a pergunta. Ele caminhou até um cofre embutido na parede, digitou a senha e retirou um molho de chaves que as duas nunca tinham visto.

— Vocês duas acham que a vida é um jogo de quem consegue me estressar mais — começou ele, a voz agora calma, porém carregada de uma autoridade absoluta que gelava o sangue. — Sara acha que pode ser vulgar e pública sem consequências. Eduarda acha que pode ser irresponsável e manhosa para conseguir o que quer.

Ele olhou para Eduarda, que tremia visivelmente, as mãos juntas em frente ao peito.

— Você quer ir a uma festa, Duda? Você quer ver o mundo lá fora sem a minha proteção? — Ele caminhou até ela, parando tão perto que ela podia sentir o calor que emanava de sua fúria contida. — Pois eu vou te mostrar o que é estar sozinha. Eu vou te mostrar o que acontece quando o homem que te sustenta e te protege resolve que você não merece mais essa segurança.

Emanuel pegou o celular de Eduarda, que estava sobre uma prateleira, e o jogou no chão, esmagando-o com o calcanhar da bota. O som do vidro quebrando fez Eduarda soltar um grito abafado.

— Manu, por que você fez isso? — ela chorou, caindo de joelhos ao lado dos destroços do aparelho.

— Porque a partir de agora, o seu único contato com o mundo sou eu — declarou ele. — Vocês duas vão ficar aqui. Sem redes sociais, sem amigas, sem festas. Eu vou trabalhar. Vou cuidar dos meus negócios. E quando eu voltar, espero encontrar duas mulheres que entendam o lugar que ocupam nesta casa.

— Você não pode nos trancar aqui! — gritou Sara, avançando para a porta. — Isso é loucura, Emanuel! É sequestro!

Emanuel a segurou pelo pescoço, não para apertar, mas para fixar sua atenção. Ele a encostou contra a parede de espelhos.

— Chame do que quiser, Sara. Mas lembre-se de quem paga os advogados, quem é dono da segurança deste prédio e quem tem o nome que ninguém ousa questionar nesta cidade. Você quer ser vulgar? Pois agora você será vulgar apenas para mim, no escuro, quando eu decidir que você merece minha atenção.

Ele se soltou dela e voltou-se para Eduarda, que ainda soluçava no chão. O Emanuel carinhoso e protetor havia desaparecido, dando lugar a uma versão sombria do tatuador rico e poderoso que construíra um império do nada.

— E você, Duda... — ele se inclinou, sussurrando perto do ouvido dela — ...pare de chorar. O choro não funciona mais. Se você quer ser tratada como uma boneca, aprenda que bonecas ficam na caixa quando o dono não quer brincar.

Emanuel caminhou até a porta do closet, saindo e trancando-a por fora. O som da tranca girando pareceu um trovão no silêncio que se seguiu.

Lá dentro, o pânico começou a se instalar.

— Emanuel! Abra essa porta! — gritava Sara, socando a madeira maciça.

Eduarda estava em estado de choque, as lágrimas secando no rosto pálido. Ela olhou para os sapatos de grife alinhados nas prateleiras, para as bolsas de milhares de dólares, e percebeu que tudo aquilo eram apenas barras de uma gaiola que ela mesma ajudara a construir com sua dependência.

— Ele ficou louco... — murmurou Eduarda, a voz sumindo. — Ele nunca falou assim comigo... ele sempre me perdoou...

— Ele não está louco, Eduarda — disse Sara, sentando-se no chão, a voz agora desprovida de sua arrogância habitual. — Ele está cansado. E ele resolveu mostrar que o poder que ele tem sobre nossas vidas não é uma brincadeira.

As horas se passaram. O closet, antes um símbolo de luxo e vaidade, tornou-se um purgatório. Sem janelas para ver o passar do tempo, as duas mulheres foram forçadas a encarar uma à outra sem as máscaras que costumavam usar.

— Isso é culpa sua — disse Sara, quebrando o silêncio após o que pareceram horas. — Se você não tivesse feito aquela cena ridícula na boate do caminhoneiro, ele não teria explodido.

— Minha culpa? — Eduarda rebateu, uma faísca de resistência surgindo em seus olhos sensíveis. — Você foi para um palco de strip-tease, Sara! Você humilhou o nome dele! Eu só me perdi... eu sou apenas...

— Você é apenas uma manipuladora, Eduarda — cortou Sara. — Você usa essa cara de santa e esse jeito manhoso para fazer ele se sentir um herói, mas você é tão egoísta quanto eu. Você só quer a paz dele para que ele continue te tratando como uma princesa enquanto você não faz nada da vida.

Eduarda abriu a boca para responder, mas as palavras morreram na garganta. Ela olhou para as próprias mãos, pequenas e delicadas. Ela percebeu que Sara tinha um ponto. Sua "timidez" e seu "jeito mimoso" eram as ferramentas que ela usava para manter Emanuel preso a ela, mas agora, essas mesmas ferramentas haviam despertado um lado dele que ela não sabia como controlar.

Enquanto isso, na sala do apartamento, Emanuel bebia um uísque, observando as câmeras de segurança do closet através de seu tablet. Ele via as duas sentadas no chão, o contraste entre a loira siliconada e a morena delicada, agora unidas pelo mesmo medo. Ele sentia uma satisfação sombria. O estresse de meses parecia ter encontrado uma válvula de escape naquela demonstração de domínio absoluto.

Ele não queria machucá-las fisicamente, mas precisava quebrá-las psicologicamente. Precisava que elas entendessem que o equilíbrio daquela relação não era um triângulo de igualdades, mas uma pirâmide onde ele estava no topo, inabalável.

Por volta das dez da noite, Emanuel finalmente caminhou até a porta do closet e a destrancou.

O som da porta abrindo fez as duas se levantarem instantaneamente. A luz do corredor entrou no ambiente, projetando a sombra imponente de Emanuel sobre elas.

— Saiam — ordenou ele.

Elas saíram em silêncio, de cabeça baixa. Não havia mais espaço para birras ou provocações.

Emanuel sentou-se no sofá principal da sala e apontou para o chão à sua frente.

— Sentem-se.

Sara e Eduarda obedeceram, sentando-se no tapete persa, aos pés dele. O cenário era uma representação visual perfeita da nova dinâmica que Emanuel impusera.

— Eu vou dizer isso apenas uma vez — começou ele, a voz calma, mas com um peso arrepiante. — Eu amo o que vocês me dão. Eu amo a energia da Sara e a doçura da Eduarda. Mas eu odeio o desrespeito. A partir de amanhã, a vida de vocês vai mudar. Sara, você vai começar a trabalhar em um dos meus escritórios de administração. Chega de festas e de vida ociosa. Você vai aprender o valor do dinheiro que gasta.

Sara abriu a boca para protestar, mas um olhar de Emanuel a calou imediatamente.

— E você, Eduarda — ele continuou, voltando o olhar para a morena, que tremia — você vai terminar sua faculdade, mas suas saídas serão monitoradas. Você não vai a festas de "amigas" sem a minha permissão expressa e sem um motorista meu te levando e trazendo. Sua "manhosidade" não vai mais servir de desculpa para irresponsabilidade.

Eduarda soluçou, mas assentiu com a cabeça, buscando a mão de Emanuel. Desta vez, ele permitiu que ela a segurasse, mas não retribuiu o aperto.

— Vocês querem viver comigo? Querem o luxo, a proteção e o amor que eu ofereço? — ele perguntou, olhando para ambas. — Pois este é o preço. O preço é a minha palavra final. Sempre.

— Sim, Manu... — sussurrou Eduarda.

— Entendido — murmurou Sara, a voz baixa, a derrota finalmente aceita.

Emanuel levantou o queixo de Eduarda, forçando-a a olhar em seus olhos. Por um momento, a sombra desapareceu e um brilho de proteção voltou, mas era uma proteção possessiva, quase predatória.

— Eu faço isso porque vocês são minhas — disse ele, a voz suavizando levemente. — E eu cuido do que é meu. Mas nunca mais testem os meus limites. O susto de hoje foi apenas um aviso. Da próxima vez, não haverá closet luxuoso para vocês esperarem.

Ele se levantou, deixando as duas ali no chão, processando a nova realidade. Emanuel caminhou em direção à varanda, olhando para as luzes de São Paulo. Ele ainda não tinha a paz que desejava, mas agora tinha algo que, para um homem como ele, era muito mais valioso: a certeza de que, naquela casa, o caos tinha um dono, e o dono tinha o controle total das rédeas.

Ao fundo, ele ouviu o som de Eduarda e Sara se levantando. Elas não brigaram. Pela primeira vez em meses, elas caminharam juntas para os quartos, unidas pelo choque e pela compreensão de que o homem que elas amavam era muito mais perigoso do que qualquer uma delas jamais imaginara.

Emanuel sorriu para a noite. A guerra civil em seu apartamento havia terminado, e ele era o único vencedor no campo de batalha de seda e sombras.