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O Silêncio da Boneca Quebrada

O sol da manhã entrava pelas frestas da persiana automatizada, desenhando linhas de luz sobre a pele de Emanuel. Ele se sentia o senhor do seu domínio. Após a noite do confinamento no closet, a ordem parecia ter sido restaurada. Sara, com sua natureza indomável e explosiva, havia testado as águas, gritado, mas no fim das contas, nada mudou para ela. Ela continuava sendo a loira exuberante que gastava milhares de reais em uma tarde e que se recusava terminantemente a pisar em um estúdio de tatuagem para "trabalhar". Emanuel, no fundo, sabia que não conseguiria domar o fogo de Sara com planilhas de administração; ele gostava daquela vulgaridade cara, daquela presença que desafiava o mundo. Para Sara, as regras foram apenas palavras ao vento, e a vida seguiu com champanhe e grifes.

Mas com Eduarda, o peso da mão dele foi diferente.

Talvez fosse pela fragilidade dela, ou pelo modo como ela despertava nele um instinto de posse que beirava a obsessão. Emanuel a queria guardada, protegida do mundo que quase a engoliu naquela estrada escura. Ele a queria como uma das pinturas que ela estudava: estática, bela e sob sua iluminação controlada.

Naquela terça-feira, o conflito estourou por algo pequeno. Eduarda, com seus olhos grandes e marejados, aproximou-se dele enquanto ele tomava café.

— Manu... as meninas da faculdade vão se reunir na biblioteca do centro e depois tomar um café. Eu preciso ir, é o trabalho final de semestre.

Emanuel nem sequer levantou os olhos do jornal digital.

— Não. Você estuda aqui. Peça para elas enviarem o que for necessário por e-mail.

— Mas eu não saio de casa há dias! — A voz de Eduarda saiu fina, embargada. — Você deixou a Sara sair ontem com a Paula. Por que eu não posso ir à biblioteca?

Emanuel largou o tablet sobre a mesa com um estalo seco.

— Porque a Sara sabe se cuidar. Você se perde em uma linha reta, Eduarda. Você é ingênua demais para andar por aí sozinha depois do que aconteceu.

— Eu não sou um objeto, Emanuel! — Ela bateu o pé, uma rara demonstração de resistência que o irritou profundamente. — Eu quero sair! Eu vou sair!

A paciência de Emanuel, já desgastada por semanas de gestão de crises em seus estúdios internacionais, rompeu-se. Ele se levantou, a figura imponente projetando uma sombra sobre a garota.

— Você quer sair? — O tom dele era gélido. — Você quer tanto assim a sua liberdade? Então vá. Mas vá agora.

Eduarda recuou um passo, confusa.

— O quê?

— Saia — disse ele, apontando para a porta. — Se você acha que a vida lá fora é tão maravilhosa e que eu sou um tirano, experimente a rua. Pegue suas coisas e vá embora. Vamos ver quanto tempo você dura sem o meu motorista, sem o meu teto e sem a minha proteção.

Ele estava blefando. No fundo da sua mente racional, Emanuel tinha certeza de que ela cairia em prantos, se ajoelharia e pediria perdão. Ele achava que ela era dependente demais, medrosa demais para aceitar o desafio. Ele queria dar uma lição nela, um susto definitivo para que ela nunca mais questionasse suas ordens.

Eduarda o encarou. Por um segundo, a timidez e a manha desapareceram, dando lugar a uma clareza dolorosa. Ela percebeu que, para ele, ela era apenas uma posse que precisava ser adestrada.

— Tudo bem — disse ela, a voz baixa, mas firme.

Ela caminhou até o quarto, pegou uma mochila simples de lona e colocou apenas o essencial: alguns livros, o carregador do celular (que ele havia mandado consertar) e algumas mudas de roupa. Ela não pegou as joias que ele deu, nem as bolsas de grife.

Ao passar pela sala, Sara assistia a tudo do sofá, em silêncio, segurando uma taça de mimosa. Pela primeira vez, não havia deboche no olhar da loira; havia uma curiosidade sombria.

Eduarda parou diante de Emanuel.

— Eu estou indo.

— Ótimo — respondeu ele, cruzando os braços, mantendo a máscara de indiferença. — Não me ligue quando perceber que o mundo não é um livro de arte.

Eduarda não respondeu. Ela abriu a porta do apartamento e saiu sem olhar para trás.

Emanuel deu um gole no seu café, agora frio.

— Ela volta em duas horas — comentou ele para Sara, tentando convencer a si mesmo. — No máximo no jantar, quando a fome apertar e ela perceber que não tem onde cair morta.

Sara deu de ombros, mas não disse nada.

As duas horas se transformaram em quatro. As quatro em oito.

O sol se pôs sobre a selva de pedra de São Paulo, e o apartamento de Emanuel começou a parecer vasto demais, silencioso demais. Ele tentou trabalhar, mas seus olhos voltavam obsessivamente para o hall de entrada. Ele checou as câmeras do prédio. Ela havia saído às dez da manhã. Não havia voltado.

— Ela deve estar na casa de alguma amiguinha da faculdade — murmurou ele, andando de um lado para o outro na sala. — Querendo fazer drama. Querendo que eu vá atrás dela.

— Emanuel — chamou Sara, saindo do quarto com um semblante estranhamente sério —, eu tentei ligar para a tal Bia, a amiga dela.

Emanuel parou, o coração dando um solavanco.

— E então?

— Ela disse que a Eduarda nunca apareceu na biblioteca. E disse que, se eu ligasse de novo, ela chamaria a polícia porque você é um "psicopata controlador".

O sangue de Emanuel gelou. Onde ela estava? Eduarda não tinha dinheiro guardado, não tinha parentes na cidade. Ela era uma menina de vinte anos, sensível e intuitiva, mas fisicamente frágil.

Enquanto isso, em um pequeno pensionato de estudantes no bairro da Liberdade, Eduarda estava sentada em uma cama estreita e rangente. O quarto cheirava a produtos de limpeza baratos e mofo, um contraste violento com o perfume de sândalo e o linho egípcio do apartamento de Emanuel.

Ela chorava. Suas lágrimas molhavam as páginas de um livro de História da Arte, mas ela não soluçava de forma manhosa para ser ouvida. Era um choro de luto. Ela sentia falta do cheiro dele, do toque das mãos tatuadas e grandes que, apesar da bruteza ocasional, sabiam ser tão gentis. Ela queria se aninhar no peito dele e pedir desculpas por ser "difícil".

Mas Eduarda não era burra.

Ela sabia que, se voltasse agora, seria para sempre a boneca no closet. Ela sabia que Emanuel a amava de uma forma possessiva e doentia, e que a única forma de ser respeitada era mostrando que ela podia sobreviver sem ele, mesmo que seu coração estivesse em pedaços. Ela havia usado o pouco dinheiro que ganhava de uma monitoria na faculdade — que ela escondia dele — para pagar uma semana naquele lugar.

— Ele vai vir — sussurrou ela para si mesma, abraçando os próprios joelhos. — Ele vai enlouquecer porque não tem o controle. E só aí ele vai entender.

Três dias se passaram.

Emanuel era a personificação do caos. Ele não ia aos estúdios. Ele não comia. Ele havia contratado três investigadores particulares, mas Eduarda parecia ter evaporado. Ela não usou o cartão de crédito (que ele bloqueou e depois desbloqueou em um acesso de desespero), não postou nada nas redes sociais e não atendeu nenhuma das duzentas chamadas que ele fez.

Ele estava sentado no chão do quarto dela, segurando um cardigã bege que ainda tinha o cheiro dela. A raiva havia sido substituída por um terror abjeto.

— Onde ela está, Sara? — ele perguntou, a voz rouca, os olhos vermelhos de insônia. — Se algo acontecer com ela... se alguém encostar nela...

Sara estava encostada na porta, observando o homem poderoso que ela conhecia se desintegrar diante de seus olhos. Por incrível que pareça, ela não sentia vitória. O apartamento sem Eduarda era sem graça. Não havia ninguém para ela provocar, ninguém para Emanuel proteger. O equilíbrio havia sido quebrado, e o que sobrou foi apenas um vazio estéril.

— Você a expulsou, Emanuel — disse Sara, a voz sem o habitual sarcasmo. — Você achou que ela era uma criança, mas ela é uma mulher. E mulheres como a Eduarda... elas aguentam muito, mas quando quebram, os cacos cortam fundo.

Emanuel enterrou o rosto no cardigã e soltou um som que era metade rosnado, metade soluço.

— Eu vou encontrá-la. Eu vou encontrar e vou trazer ela de volta, nem que eu tenha que queimar esta cidade inteira.

— E quando encontrar? — perguntou Sara. — Vai trancá-la de novo? Porque, se fizer isso, ela vai fugir de novo. Ou pior, ela vai morrer por dentro. E aí não vai sobrar nada para você amar.

Emanuel não respondeu. Ele se levantou, pegou as chaves do carro e saiu. Ele começou a dirigir pelos lugares que ela gostava: museus, bibliotecas, parques. Ele entrou em cada café barato perto da faculdade, mostrando a foto dela no celular, agindo como um louco.

— Você viu essa garota? O nome dela é Eduarda. Ela é... ela é minha namorada. Por favor.

As pessoas balançavam a cabeça negativamente. Para o mundo, ela era apenas mais uma estudante. Para ele, ela era o ar que ele respirava sem perceber que precisava.

No quinto dia, Emanuel recebeu uma mensagem de um número desconhecido. Era apenas uma localização GPS e uma frase curta: "Ela está bem, mas não quer te ver."

Ele não pensou. Ele dirigiu como um possuído até o endereço na Liberdade.

Quando ele chegou ao pensionato decadente, ele quase não conseguiu respirar. Como ela podia estar vivendo ali? Ele subiu as escadas de madeira que rangiam sob seu peso, o coração batendo contra as costelas como um animal enjaulado.

Ele parou diante da porta número 12. Ele não bateu com força. Ele não arrombou. Ele encostou a testa na madeira fria, as mãos tremendo.

— Duda... — ele chamou, a voz falhando. — Duda, por favor. Abre a porta.

Lá dentro, Eduarda estava em pé, a poucos centímetros da porta. Ela podia ouvir a respiração pesada dele. Ela podia sentir a angústia dele atravessando a madeira. Seu instinto era abrir, se jogar nos braços dele e perdoar tudo. Mas ela se manteve firme.

— Vá embora, Emanuel — disse ela, a voz firme, embora as lágrimas corressem silenciosas pelo seu rosto.

— Eu não vou embora sem você! — ele gritou, a voz carregada de desespero. — Eu sinto muito, Duda. Eu errei. Eu não devia ter dito aquelas coisas. Eu não devia ter te expulsado. Por favor, volta para casa. O apartamento está frio. Eu estou morrendo sem você.

— Você não quer uma namorada, Manu — disse ela, encostando a mão na porta, imaginando que estava tocando o peito dele. — Você quer uma boneca que diga "sim" e que fique onde você mandar. Eu não posso ser essa pessoa. Eu prefiro este quarto mofado do que o seu closet de ouro se eu não puder respirar.

Houve um longo silêncio no corredor. Emanuel sentiu o peso de suas escolhas. Ele percebeu que sua necessidade de controle havia quase destruído a única coisa pura que ele tinha.

Lentamente, Emanuel se ajoelhou no corredor sujo do pensionato. O grande Emanuel, o tatuador rico, o dono de estúdios pelo mundo, estava de joelhos diante de uma porta de madeira compensada.

— Duda... eu estou de joelhos — disse ele, o choro finalmente rompendo sua barreira de orgulho. — Eu estou de joelhos pedindo perdão. Eu nunca mais vou te trancar. Eu nunca mais vou te tratar como se você não tivesse vontade própria. Eu só quero que você volte. Eu te amo mais do que o meu controle. Eu te amo mais do que a minha paz.

Eduarda congelou. Ela conhecia o orgulho de Emanuel. Saber que ele estava ali, no chão, humilhando-se por ela, era a prova que ela precisava. Não era sobre vitória; era sobre equilíbrio.

Ela girou a chave lentamente.

Quando a porta se abriu, a visão foi devastadora para ambos. Emanuel, desgrenhado e com os olhos vermelhos, olhou para cima e viu sua Eduarda. Ela parecia mais magra, com olheiras profundas, mas havia uma força em seu olhar que ele nunca tinha visto antes.

Ele não se levantou. Ele abraçou as pernas dela, escondendo o rosto em sua barriga, soluçando como a criança que ele sempre achou que ela era.

— Me perdoa... me perdoa, pequena... — ele implorava.

Eduarda acariciou o cabelo curto dele, sentindo uma mistura de dor e alívio.

— Eu volto, Manu — ela sussurrou, inclinando-se para beijar o topo da cabeça dele. — Mas as coisas vão mudar. Eu não sou mais a sua prisioneira.

— O que você quiser — disse ele, levantando-se e envolvendo-a em um abraço tão apertado que parecia que ele queria fundir os dois corpos. — O que você quiser, Duda. Só não me deixa mais. Nunca mais.

Eles saíram do pensionato sob o olhar curioso da dona do local. No carro, o silêncio era preenchido apenas pelo som das respirações que voltavam ao normal.

Ao chegarem no apartamento, Sara estava na sala. Ela viu Emanuel entrar segurando a mão de Eduarda como se fosse um tesouro sagrado. Ela viu a mochila de lona e o estado de ambos.

Sara se levantou e, pela primeira vez na vida, caminhou até Eduarda e lhe estendeu a mão. Não para um aperto de mão, mas para um toque breve no ombro.

— Que bom que você voltou, mosquita morta — disse Sara, e embora as palavras fossem as mesmas de sempre, o tom era de um respeito relutante. — O café aqui estava com gosto de enterro.

Eduarda deu um pequeno sorriso, cansado, mas real.

Emanuel levou Eduarda para o quarto, mas não para o closet. Ele a levou para a varanda, onde o vento da noite soprava. Ele a sentou em seu colo e ficou ali, apenas sentindo o coração dela bater contra o seu.

Ele sabia que o triângulo ainda era imperfeito. Sabia que Sara continuaria sendo um desafio e que Eduarda exigiria agora um espaço que ele teria dificuldade em dar. Mas, enquanto olhava para a garota em seus braços, Emanuel entendeu que a verdadeira paz não vinha do controle total, mas da aceitação de que o amor, assim como a arte, precisa de liberdade para não se tornar apenas uma imagem morta na parede.

— Manu? — chamou ela, quase dormindo.

— Sim, meu amor?

— Amanhã... eu vou à biblioteca.

Emanuel fechou os olhos, sentindo uma última pontada de ansiedade, mas a engoliu.

— O motorista te leva. E ele vai te esperar o tempo que for preciso, Duda.

— Não — disse ela, abrindo os olhos castanhos e firmes. — Eu vou de metrô. Eu preciso aprender o caminho.

Emanuel respirou fundo, apertando-a um pouco mais.

— Tudo bem. De metrô. Mas me mande uma mensagem quando chegar?

— Eu mando — sorriu ela, aninhando-se novamente.

Naquela noite, o tatuador rico dormiu sem pesadelos. Ele havia perdido o controle, mas finalmente havia encontrado a sua namorada. E, no sofá da sala, Sara tomava seu champanhe, sabendo que, a partir dali, o jogo no apartamento seria muito mais interessante.