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Vigilância Silenciosa e o Doce Peso das Correntes

O ronco do motor da Range Rover de Emanuel parecia um batimento cardíaco metálico e constante, um reflexo da sua própria necessidade de manter tudo sob uma pulsação controlada. Ele observava pelo retrovisor enquanto o luxuoso apartamento ficava para trás. No banco de trás, Sara revisava pela décima vez seu passaporte e o itinerário de sua viagem para Ibiza com Paula e Fabi. O clima no carro era de uma eletricidade estática; Emanuel segurava o volante com tanta força que os nós de seus dedos, cobertos por tatuagens de runas nórdicas, estavam brancos.

— Emanuel, querido, relaxe os ombros — disse Sara, retocando o gloss e lançando-lhe um olhar felino pelo espelho. — São apenas dez dias. Vou gastar seu dinheiro, tomar sol em um iate e voltar mais bronzeada e muito mais disposta a te satisfazer. Não é o fim do mundo.

Emanuel não respondeu de imediato. Sua mente era um campo de batalha. A ideia de Sara, com sua vulgaridade magnética e impulsividade perigosa, solta em outro continente sem sua supervisão direta, era o seu pior pesadelo administrativo.

— Você sabe que eu odeio isso, Sara — ele finalmente disse, a voz grave vibrando no habitáculo do carro. — Ibiza é um antro de excessos. Eu não confio naquelas suas amigas. Elas não têm filtro, e você, quando bebe, esquece que tem um nome a zelar.

— Ah, lá vem o sermão do patriarca — Sara revirou os olhos, mas havia um brilho de satisfação em ver que ele estava sofrendo com a partida dela. — Eu vou me comportar. Prometo. Dentro dos meus padrões, é claro.

Eles chegaram ao terminal de aviação executiva. Emanuel desceu e ajudou com as malas de grife, mas seu gesto não era de um cavalheiro comum; era o de um guarda de prisão conferindo o inventário. Ao se despedirem, ele a puxou pela cintura com uma possessividade que quase a fez perder o fôlego.

— Se eu souber de um escândalo, Sara... um único vídeo, uma única foto comprometedora... eu juro que te busco pelos cabelos e você nunca mais sai desse país — ele sibilou contra o ouvido dela.

— Eu adoro quando você fica autoritário, Manu — ela riu, dando-lhe um beijo profundo e carregado de provocação antes de se virar e caminhar em direção ao jato, balançando os quadris de forma que todos os funcionários do hangar notassem.

Emanuel esperou o avião decolar. No momento em que as rodas deixaram o solo, ele pegou o celular. Não ligou para Sara. Ligou para um número que não estava salvo na sua agenda.

— Elas acabaram de decolar — disse Emanuel, voltando para o carro. — Quero dois homens no mesmo voo, em assentos discretos. Quero relatórios a cada seis horas. Se ela entrar em um iate, quero saber quem é o dono. Se ela exagerar no champanhe, quero que intervenham antes que ela faça algo estúpido. Paguem o que for necessário para a segurança local.

— Entendido, senhor — respondeu a voz fria do outro lado. — E quanto à outra?

Emanuel fez uma pausa, seus olhos escurecendo.

— Continue o monitoramento. Ela não desconfia de nada. Mantenha a distância, mas nunca a perca de vista.

Ao voltar para casa, o silêncio do apartamento era um alívio e, ao mesmo tempo, um desafio. Eduarda estava na sala de leitura, cercada por livros sobre o Renascimento. Ela parecia um anjo em meio ao caos que Sara deixara para trás. Emanuel aproximou-se e sentiu a tensão deixar seu corpo por um breve momento.

— Ela já foi? — perguntou Eduarda, levantando o rosto doce. Ela usava um vestido de malha fina, cinza claro, que a deixava com um aspecto ainda mais frágil e etéreo.

— Já. O céu de Ibiza que se prepare — Emanuel sentou-se ao lado dela, passando a mão pelo cabelo castanho e macio. — Agora somos só nós dois, Duda. Sem gritos, sem perfumes fortes, sem competições.

Eduarda sorriu, fechando o livro e acomodando-se no peito dele. Ela se sentia vitoriosa, embora nunca admitisse. Para ela, a ausência de Sara era uma oportunidade de ouro para solidificar seu lugar como a "favorita", a porto seguro de Emanuel.

— Eu gosto quando estamos assim, Manu. Parece que eu posso respirar melhor.

— Eu também, pequena.

Emanuel a beijou na testa, mas sua mente estava no tablet escondido na gaveta da mesa de centro. Nele, um ponto azul brilhava no mapa de São Paulo: a localização exata de Eduarda, transmitida por um rastreador militar que ele havia instalado no interior da estrutura do celular novo que dera a ela. Além disso, ele sabia que, do lado de fora do prédio, um carro descaracterizado com dois de seus melhores seguranças estava de prontidão para segui-la caso ela decidisse sair.

Para o mundo, Emanuel estava "afrouxando" as rédeas com Eduarda. Ele permitia que ela fosse à faculdade sozinha, que visitasse museus e tomasse café com as colegas. Mas, na realidade, ele nunca estivera tão presente. Ele via as fotos que os seguranças tiravam de longe; ele sabia exatamente quanto tempo ela passava em cada galeria; ele sabia até qual era o sabor do café que ela pedia.

— Manu? — ela chamou, tirando-o de seus pensamentos.

— Sim?

— Amanhã eu tenho uma aula prática no Museu de Arte Contemporânea. É um pouco longe, e termina tarde. Eu... eu queria saber se você me deixa ir.

Emanuel a observou. Ele adorava aquele momento. Eduarda já era adulta, tinha seus próprios meios, mas a necessidade dela de pedir permissão era o que mantinha a engrenagem daquela relação girando. Era o reconhecimento da autoridade dele, o tributo que ela pagava por ser cuidada.

— Você quer muito ir, Duda?

— Quero. É importante para a minha nota final. Mas se você achar perigoso, ou se preferir que eu fique aqui com você... eu entendo.

— Eu deixo você ir — disse ele, fazendo um carinho lento em seu pescoço, sentindo o pulso dela acelerar. — Mas com uma condição. Você me liga assim que sair da aula e não aceita carona de ninguém. Eu quero que você use o motorista que eu designar para amanhã.

Eduarda sentiu um calafrio de prazer percorrer sua espinha. Ela sabia que o "motorista" era, na verdade, um segurança. Ela não era tão ingênua quanto Emanuel pensava; ela já havia notado o mesmo carro preto estacionado perto da faculdade em dias diferentes. Ela sabia que o celular novo era pesado demais para ser apenas tecnologia comum.

E ela amava isso.

Para Eduarda, ser monitorada não era uma invasão de privacidade; era a prova máxima de que ela era preciosa. No mundo de História da Arte, as obras mais valiosas eram mantidas sob vidros blindados, alarmes e vigilância constante. Eduarda se sentia exatamente assim: uma obra-prima que Emanuel não podia se dar ao luxo de perder.

— Obrigada, Manu — ela sussurrou, beijando o pescoço dele, onde uma tatuagem de serpente subia em direção à mandíbula. — Eu gosto que você se preocupe. Eu me sinto segura quando sei que você está cuidando de cada passo meu.

Emanuel apertou-a contra si, surpreso com a confissão, mas satisfeito.

— Você é minha responsabilidade, Duda. O mundo lá fora é cruel e bagunçado. Aqui dentro, e sob os meus olhos, nada de ruim vai te acontecer.

No dia seguinte, a rotina de vigilância funcionou como um relógio suíço. Enquanto Emanuel gerenciava seus estúdios de Londres por videochamada, ele mantinha uma aba aberta com o rastreamento de Eduarda. Ele a viu chegar ao museu. Viu o ponto parado por três horas.

Enquanto isso, em Ibiza, o relatório de Sara chegava em forma de fotos enviadas por seus homens. Sara em um biquíni minúsculo, cercada por garrafas de vodka premium; Sara rindo com um grupo de promotores de eventos; Sara sendo Sara. Emanuel sentia a raiva borbulhar, mas era uma raiva controlada. Ele sabia que ela voltaria. Ela sempre voltava para o luxo e para o peso da sua mão.

Mas o foco dele era a calmaria de Eduarda. Por volta das nove da noite, o celular dele tocou.

— Oi, Manu. A aula acabou agora. Estou saindo do museu.

— O motorista já está na porta, Duda. Entre direto no carro.

— Já estou vendo ele. Manu... as meninas chamaram para comer pizza aqui perto. Eu disse que não podia porque você estava me esperando. Fiz bem?

Emanuel sorriu para a tela do computador, uma expressão de triunfo absoluto.

— Fez muito bem, pequena. Venha direto para casa. Tenho uma surpresa para o nosso jantar.

— Estou indo. Te amo.

— Também te amo.

Quando ela desligou, Emanuel sentiu uma onda de poder. Ele era o mestre das marionetes. Ele dava a corda necessária para Sara se enforcar ou se divertir, sabendo que ela estava cercada por seus olhos. E ele dava a Eduarda a ilusão de liberdade, enquanto a envolvia em uma teia de proteção tão densa que ela nunca mais se perderia.

Eduarda chegou em casa trinta minutos depois. Ela entrou no apartamento e encontrou a mesa posta com bife e batatas fritas, exatamente como ela gostava. Emanuel estava sem camisa, exibindo as tatuagens que cobriam seus braços e peito, servindo um vinho tinto suave.

— Como foi a aula? — perguntou ele, puxando a cadeira para ela.

— Foi maravilhosa. Vimos algumas instalações modernas, mas nada se compara ao clássico — ela disse, sentando-se e olhando para ele com adoração. — Senti sua falta. O museu era grande demais, me senti um pouco perdida antes de ver o seu motorista lá fora.

— Você nunca está perdida, Duda — disse Emanuel, sentando-se à frente dela e fixando seu olhar observador. — Eu sempre sei onde você está.

Houve um silêncio carregado de significado. Eduarda sustentou o olhar dele. Ela queria que ele soubesse que ela sabia. Ela queria que ele entendesse que aquele jogo de controle era o que a mantinha apaixonada.

— Eu sei que sabe, Manu — ela disse, a voz num tom de confidência. — Eu vi o carro preto hoje de novo. E notei que o ícone do GPS no meu celular nunca desliga, mesmo quando eu tento desativar.

Emanuel parou com o garfo no meio do caminho. Sua expressão endureceu por um milésimo de segundo, a racionalidade calculando a resposta. Ele não esperava que ela fosse tão observadora.

— E isso te incomoda? — perguntou ele, a voz fria, testando o terreno. — Se incomodar, eu posso mandar retirar. Você sabe que eu só quero a sua segurança.

Eduarda esticou a mão sobre a mesa, tocando a pele quente e tatuada da mão de Emanuel. Ela deu um sorriso manhoso, aquele que sempre o fazia querer protegê-la de tudo e de todos.

— Não tira, Manu. Eu confesso... eu gosto disso. Gosto de saber que, se eu tropeçar ou se alguém me olhar do jeito errado, você vai saber antes mesmo de eu gritar. Eu gosto de pertencer a você desse jeito. De corpo, alma e localização.

Emanuel soltou o ar que nem percebeu que estava segurando. Ele sentiu uma conexão sombria e profunda com ela naquele momento. Sara era o desafio físico, a luta por dominância. Mas Eduarda... Eduarda era a rendição total, a aceitação do seu lado mais controlador como uma forma de devoção.

— Você é uma criatura fascinante, Eduarda — ele murmurou, levantando-se e caminhando até ela. Ele a puxou pela nuca, forçando-a a olhar para cima. — A maioria das mulheres chamaria a polícia ou fugiria. Você me pede para continuar.

— Porque eu sei que você faz isso por amor — ela sussurrou, fechando os olhos quando sentiu os lábios dele tocarem sua testa. — E porque eu sou sua, não sou?

— Sim. Você é minha. Completamente.

O jantar prosseguiu em uma harmonia perturbadora. Eles conversaram sobre arte, sobre os estúdios de tatuagem e sobre o futuro. Emanuel sentia-se em paz pela primeira vez em semanas. O "afrouxamento" das rédeas era, na verdade, o nó mais apertado que ele já dera.

Tarde da noite, enquanto Eduarda dormia profundamente em seus braços, Emanuel pegou o celular para conferir o último relatório de Ibiza.

"Sara entrou em um clube fechado às 02:00. Está acompanhada apenas das amigas. Nenhuma interação suspeita com homens até agora. Estamos na porta."

Emanuel bloqueou a tela. Ele tinha tudo sob controle. O fogo de Sara estava cercado por seus guardas, e a doçura de Eduarda estava trancada em seu abraço, feliz por ser sua prisioneira.

Ele fechou os olhos, sentindo o peso leve de Eduarda contra seu peito. Ele era um tatuador de sucesso, um empresário rico, um homem que desenhava destinos na pele dos outros. Mas ali, no silêncio do seu quarto, ele percebeu que a sua maior obra de arte não era feita de tinta, mas de fios invisíveis de vigilância e dependência que ele tecia ao redor das duas mulheres de sua vida.

A paz, ele descobriu, não era a ausência de conflito. Era a certeza de que, não importa para onde elas fossem ou o quanto tentassem fugir, todos os caminhos as traziam de volta para ele. E, no caso de Eduarda, ela nem sequer queria encontrar a saída.

Enquanto o sono finalmente o vencia, Emanuel teve um último pensamento: amanhã ele instalaria um sistema de câmeras novas no corredor da faculdade de Eduarda. Apenas por precaução. Apenas porque ele a amava demais para deixá-la ser apenas um ponto azul em um mapa quando ela podia ser uma imagem em alta definição em seus olhos.

A vigilância era o seu oxigênio, e Eduarda acabara de lhe dar permissão para respirar fundo.