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Garras de Veludo e Cinzas de um Sonho
A tensão na cobertura de Emanuel não era mais um evento esporádico; havia se tornado o oxigênio que todos respiravam. Seis meses haviam se passado desde que Eduarda se mudara para o apartamento, e o delicado equilíbrio que Emanuel imaginou ter estabelecido estava começando a ruir sob o peso de personalidades tão inconciliáveis. De um lado, Sara, que se sentia cada vez mais ameaçada pela presença silenciosa e onipresente da "vizinha", e do outro, Eduarda, que florescia sob a proteção de Emanuel, mas murchava sob os ataques verbais da loira.
Juju, a pequena pimenta, era o catalisador constante desse atrito. Naquela tarde de sábado, o ar estava especialmente carregado. Sara havia acabado de chegar de uma sessão de fotos para uma marca de biquínis — um trabalho que ela aceitara apenas para inflar o ego, já que o dinheiro de Emanuel era mais do que suficiente — e estava com os nervos à flor da pele.
— Emanuel, peça para essa garota tirar esses brinquedos do meio do caminho! — gritou Sara, tropeçando em um castelo de blocos de montar espalhado pelo corredor. — Eu quase quebrei o tornozelo!
Emanuel, que estava no escritório atendendo uma chamada de vídeo com o gerente de seu estúdio em Tóquio, sequer respondeu. O silêncio dele era o combustível que Sara precisava para explodir.
Juju, sentada no tapete da sala com Eduarda, soltou uma risadinha travessa. Ela adorava ver Sara perder a compostura.
— O castelo é para a tia Sara não passar — provocou a menina, com os olhinhos brilhando de malícia. — Bruxas não entram no reino da Duda.
Sara parou no meio da sala, o rosto vermelho de fúria. Ela jogou a bolsa de grife no sofá e caminhou em direção à criança.
— O que você disse, sua pirralha insolente? — Sara rosnou, a voz trêmula de raiva. — Você acha que pode falar assim comigo na casa do meu namorado?
— A casa é do tio Manu! E ele gosta mais da Duda do que de você! — Juju se levantou, colocando as mãos na cintura, desafiando a mulher que era o dobro do seu tamanho.
Eduarda, sentindo o perigo iminente, levantou-se rapidamente, sua postura geralmente encolhida dando lugar a um alerta instintivo.
— Juju, peça desculpas... Sara, ela é só uma criança, não leve a sério — pediu Eduarda, a voz doce tentando aplacar o incêndio.
— Não leve a sério? — Sara virou-se para Eduarda, os olhos injetados. — Você deu asas a essa garota! Ela era insuportável, mas agora ela é uma delinquente por sua causa! Você mima ela, você se enfia onde não é chamada e agora quer me dizer como agir?
Em um movimento brusco, Sara voltou sua atenção para Juju, que havia mostrado a língua. A paciência da loira, já inexistente, rompeu-se. Ela avançou, erguendo a mão com as unhas longas e bem feitas, pronta para desferir um tapa no braço da menina para "dar uma lição".
— Eu vou te ensinar a respeitar quem manda aqui! — gritou Sara.
O tapa nunca chegou ao destino.
Antes que a mão de Sara pudesse tocar a pele de Juju, Eduarda se interpôs entre as duas. Com uma agilidade que ninguém sabia que ela possuía, ela segurou o pulso de Sara no ar. A força de Eduarda não vinha de músculos, mas de um instinto protetor que transformava a corça em leoa.
— Não toque nela — disse Eduarda. A voz não era mais um sussurro tímido; era fria, cortante e absoluta.
Sara ficou paralisada, o choque de ser confrontada pela "ratinha" superando sua raiva por um momento.
— Me solte, sua infeliz! — Sara tentou puxar o braço, mas Eduarda manteve o aperto, os olhos castanhos fixos nos azuis de Sara com uma intensidade feroz.
— Você pode gritar comigo, pode me insultar e pode tentar me diminuir todos os dias, e eu vou suportar porque o Emanuel quer que eu esteja aqui — continuou Eduarda, dando um passo à frente, forçando Sara a recuar. — Mas você nunca, jamais, vai encostar a mão na Juju. Se você tentar bater nela de novo, eu juro que você vai descobrir que eu não sou tão inofensiva quanto você pensa.
Juju, atrás de Eduarda, segurava a saia da jovem, olhando para ela com pura admiração. Pela primeira vez, a menina viu sua "Duda" não como um refúgio de carinho, mas como um escudo inquebrável.
— O que está acontecendo aqui? — A voz de Emanuel ecoou pela sala, profunda e carregada de uma autoridade que fez o tempo parar.
Ele estava parado na porta do escritório, os braços cruzados sobre o peito largo, as tatuagens nos antebraços parecendo mais escuras sob a luz da tarde. Ele observou a cena: Eduarda ainda segurando o pulso de Sara, Juju escondida atrás dela, e Sara com uma expressão de ultraje absoluto.
— Emanuel! Essa louca me agrediu! — mentiu Sara, finalmente conseguindo soltar o braço e correndo para o lado dele, fingindo um choro que não convencia ninguém. — Ela me atacou porque eu ia apenas corrigir a Juju! Essa menina é um perigo, ela vai colocar a sua sobrinha contra mim!
Emanuel olhou para Eduarda. Ela estava ofegante, o rosto pálido agora manchado por duas marcas vermelhas de adrenalina nas bochechas. Ela não recuou. Ela não baixou o olhar.
— Ela ia bater na Juju, Emanuel — disse Eduarda, a voz agora voltando ao tom suave, mas mantendo a firmeza. — Eu não podia deixar.
Emanuel caminhou lentamente até o centro da sala. Ele olhou para a sobrinha, que assentiu com a cabeça, confirmando a versão de Eduarda. Depois, ele voltou-se para Sara. O olhar dele não era de raiva, mas de uma decepção fria que doía muito mais.
— Sara, eu avisei que não toleraria violência nesta casa — disse ele, a voz baixa. — Especialmente com a minha família.
— Mas ela é uma peste, Emanuel! — Sara tentou se defender, a voz subindo uma oitava. — Você vai acreditar nessa sonsa?
— Eu acredito no que eu vi e no que eu sei sobre o caráter de cada uma — respondeu ele. — Peça desculpas à Eduarda. Agora.
— O quê? Você enlouqueceu? — Sara riu, uma risada nervosa. — Eu não vou pedir desculpas para essa... essa intrusa!
— Então saia — disse Emanuel, com uma calma assustadora. — Vá para o seu flat por uns dias. Eu preciso de silêncio, e você claramente não consegue conviver em paz.
Sara abriu a boca para protestar, mas o olhar de Emanuel era um muro de concreto. Ela pegou a bolsa, os saltos batendo com fúria contra o piso de madeira, e saiu da cobertura sem olhar para trás.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Juju correu para o quarto de brinquedos, sentindo que o clima entre os adultos precisava de espaço. Emanuel aproximou-se de Eduarda, que agora começava a tremer, a descarga de adrenalina dando lugar à sua natureza sensível.
— Você foi corajosa — murmurou ele, puxando-a para um abraço apertado.
— Eu tive medo... — confessou ela, escondendo o rosto no peito dele, aspirando o cheiro de madeira e tinta. — Mas eu não podia deixar ela machucar a Juju.
Emanuel a beijou no topo da cabeça, sentindo uma onda de possessividade que o assustava. Ele queria aquela mulher. Queria a força oculta dela tanto quanto queria sua doçura.
No entanto, o destino tinha uma reviravolta planejada para selar aquele triângulo de forma ainda mais dramática.
Três dias depois, Sara voltou. Mas ela não voltou com gritos ou insultos. Ela voltou silenciosa, com um envelope na mão e um brilho de triunfo nos olhos que Eduarda reconheceu imediatamente como uma ameaça.
— Eu não vou embora, Emanuel — disse Sara, entregando o papel a ele na cozinha. — E você não vai me expulsar. Nunca mais.
Emanuel abriu o envelope. O exame de sangue era claro: positivo. Sara estava grávida de oito semanas.
A notícia caiu como uma bomba. Para Emanuel, era a realização de um vínculo que ele não planejava, mas que sua natureza prática aceitava como uma responsabilidade absoluta. Para Eduarda, foi um golpe no coração. Ela se sentiu subitamente descartável, uma intrusa em uma família que agora teria um laço de sangue legítimo.
— Um filho... — murmurou Emanuel, olhando para Sara com uma mistura de choque e uma nova forma de respeito.
— Nosso filho, querido — disse Sara, lançando um olhar de vitória para Eduarda, que assistia a tudo da porta da cozinha. — Agora as coisas vão mudar por aqui. A "babá" pode continuar ajudando, se quiser, mas eu sou a mãe do herdeiro.
Os meses seguintes foram um inferno silencioso para Eduarda. Sara usava a gravidez como uma arma de destruição em massa. Ela exigia atenção integral de Emanuel, forçava Eduarda a realizar tarefas humilhantes sob o pretexto de que "não podia se esforçar" e fazia questão de planejar o quarto do bebê com um luxo ostensivo, sempre lembrando à morena que ela era apenas uma coadjuvante.
Emanuel, dividido entre o dever com o filho que estava por vir e o amor protetor que sentia por Eduarda, tornava-se cada vez mais rígido e estressado. Ele tentava compensar Eduarda com presentes caros e joias, mas o que ela queria era a segurança emocional que Sara estava drenando.
No entanto, a vida é frágil, e o destino é muitas vezes cruel com quem usa a vida como ferramenta de poder.
Eduarda estava na biblioteca estudando para uma prova de História da Arte quando ouviu o grito. Não era um grito de raiva, como os que Sara costumava dar. Era um grito de dor, agudo e aterrorizado.
Ela correu para a sala e encontrou Sara caída perto do sofá, as mãos pressionando o ventre, o rosto pálido como cera. No chão, uma mancha escura começava a se espalhar pelo tapete claro.
— Eduarda... me ajuda... — soluçou Sara, a arrogância desaparecendo instantaneamente, dando lugar a uma vulnerabilidade humana que Eduarda nunca vira nela.
Mesmo com todo o mal que Sara lhe fizera, Eduarda não hesitou. Ela se ajoelhou ao lado da rival, segurando sua mão com força.
— Calma, Sara. Eu estou aqui. Respira. Emanuel! — gritou ela, chamando o homem que estava no banho.
Emanuel apareceu segundos depois, enrolado em uma toalha, o rosto transformando-se em uma máscara de horror ao ver a cena. Ele pegou Sara nos braços, a força de seus músculos saltando enquanto ele corria para o elevador, com Eduarda logo atrás, segurando a bolsa com os documentos de Sara.
As horas no hospital foram as mais longas da vida de Emanuel. Ele caminhava de um lado para o outro na sala de espera, as mãos tatuadas tremendo levemente. Eduarda estava sentada em uma das cadeiras de plástico, rezando em silêncio, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Quando o médico finalmente apareceu, a expressão em seu rosto dizia tudo antes mesmo de ele abrir a boca.
— Sinto muito, Sr. Emanuel. Fizemos tudo o que podíamos, mas o descolamento foi total. Perdemos o bebê.
Emanuel fechou os olhos e encostou a cabeça na parede fria do hospital. O sonho de um herdeiro, o laço de sangue que ele começara a aceitar, havia se transformado em cinzas em questão de minutos.
Eduarda levantou-se e caminhou até ele, envolvendo-o em um abraço silencioso. Ela não disse nada; não havia palavras para aquele momento. Ela apenas ofereceu seu corpo como um apoio, permitindo que ele descarregasse ali a tensão e a tristeza.
Semanas depois, o apartamento estava mergulhado em um luto estranho. Sara não era mais a mesma. A perda do bebê, aos dois meses de gestação, parecia ter quebrado algo dentro dela que o silicone e o botox não podiam consertar. Ela passava a maior parte do tempo trancada no quarto, recusando-se a comer ou a falar.
Emanuel tentava ser presente, mas o ressentimento pela forma como ela usara a gravidez ainda pairava no ar, misturado à culpa pela perda.
Uma noite, Emanuel encontrou Eduarda na varanda, observando as luzes de São Paulo. Ele se aproximou e a abraçou por trás, sentindo o calor reconfortante que só ela lhe dava.
— Ela está dormindo? — perguntou Eduarda, a voz cheia de compaixão.
— Sim. À base de remédios — respondeu Emanuel, suspirando. — Eu não sei o que vai ser de nós, Duda. Eu queria as duas, queria uma família... e agora parece que tudo está desmoronando.
Eduarda virou-se nos braços dele, os olhos brilhando com uma sabedoria que vinha da dor.
— O amor não é algo que você controla com contratos ou planos, Emanuel. A Sara precisa de tempo para se encontrar... e eu preciso saber se você me quer por quem eu sou, e não apenas porque eu sou a paz que equilibra o caos dela.
Emanuel segurou o rosto de Eduarda, olhando profundamente em seus olhos.
— Eu te quero porque você é a única pessoa que me faz querer ser um homem melhor, e não apenas um homem poderoso.
Ele a beijou, um beijo que carregava o peso da perda e a esperança de um recomeço. Ao longe, no quarto escuro, Sara observava a silhueta dos dois através da fresta da porta. Ela não sentia raiva naquele momento, apenas um vazio imenso. Ela havia perdido o filho e, em sua mente distorcida, sentia que estava perdendo Emanuel.
O triângulo ainda existia, mas as arestas estavam desgastadas. O futuro era incerto, mas uma coisa era clara: na cobertura de Emanuel, a doçura de Eduarda havia provado ser mais resistente do que a vulgaridade de Sara. E, no jogo do desejo e do poder, a leoa que habitava a alma da menina tímida estava apenas começando a mostrar suas garras.