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O Peso das Cores e o Jogo das Vaidades
A cobertura de Emanuel havia recuperado, aos poucos, sua rotina de opulência e silêncios estratégicos. Após a tormenta da perda, o tatuador impôs uma paz armada. Ele não abriu mão de nenhuma das duas: Sara continuava sendo a rainha das noites de gala e dos eventos sociais, a mulher que exibia o sucesso dele em cada curva siliconada; Eduarda, por sua vez, era o coração da casa, a presença mansa que lia livros de arte na varanda e que, cada vez mais, ocupava o lado esquerdo da cama de Emanuel e a confiança absoluta de sua família.
Sara, no entanto, não aceitava o empate. Para ela, a derrota da gravidez perdida fora um golpe em sua única moeda de troca absoluta. Agora, ela vivia em uma contagem obsessiva de ciclos, testes de ovulação espalhados pelo banheiro de mármore e uma urgência que beirava o desespero. Ela precisava de um herdeiro para expulsar a "ratinha" de vez.
— Emanuel, querido, você não esqueceu de hoje, não é? — Sara surgiu na sala, vestindo um conjunto esportivo de grife que custava mais do que um carro popular. O tecido justo realçava seus seios e a barriga chapada, mas seus olhos tinham um brilho ansioso. — O jogo com seus amigos. Eu já chamei a Paula e a Vanessa. Vamos fazer um dia de campo, levar champanhe... vai ser incrível.
Emanuel, que terminava de calçar suas chuteiras de elite, levantou o olhar. Ele parecia exausto. O trabalho nos estúdios estava intenso e a dinâmica de manter duas mulheres sob o mesmo teto exigia uma engenharia emocional que até ele, em sua frieza prática, achava desgastante.
— Eu não esqueci, Sara. Mas a Eduarda também vai. A Juju está com a Luana e elas vão nos encontrar lá no clube — disse ele, a voz num tom que não admitia réplicas.
Sara bufou, revirando os olhos azuis carregados de rímel.
— Sério? Ela vai com aqueles vestidos de camponesa e aquela cara de quem pede desculpas por respirar? Emanuel, as minhas amigas são mulheres de nível. A Eduarda vai ficar deslocada, como sempre.
— A Eduarda vai porque eu quero que ela vá — cortou Emanuel, levantando-se e pegando sua mochila. — E ela não vai ficar deslocada se você parar de tentar humilhá-la a cada cinco minutos.
Nesse momento, Eduarda apareceu no corredor. Ela usava um short jeans leve, uma camiseta branca básica e um par de tênis simples. O cabelo castanho estava preso em um rabo de cavalo alto, revelando a delicadeza de seu pescoço. Ela carregava uma cesta pequena com frutas e água.
— Estou pronta... — sussurrou ela, sentindo imediatamente o olhar predatório de Sara sobre si.
— Ótimo — disse Emanuel, caminhando até ela e depositando um beijo possessivo em sua testa. — Vamos. O motorista já está esperando.
O clube era um reduto de exclusividade em São Paulo, com campos de futebol impecáveis e áreas de lazer que pareciam saídas de um filme. Quando o grupo chegou, as amigas de Sara já estavam lá, instaladas em uma tenda de luxo à beira do campo. Paula e Vanessa eram cópias fiéis de Sara: loiras, bronzeadas artificialmente e prontas para destilar veneno.
— Amiga, finalmente! — Paula exclamou, abraçando Sara e lançando um olhar de desdém para Eduarda. — E trouxe a... assistente de novo?
— Ela mora com a gente agora, Paula, você sabe — Sara sorriu com malícia, sentando-se e já servindo uma taça de espumante. — O Emanuel tem esse coração enorme, gosta de fazer caridade.
Eduarda sentiu o rosto queimar. Ela buscou o olhar de Emanuel, que já estava no campo se aquecendo com os amigos, mas ele estava distraído. Ela se sentou em uma cadeira mais afastada, abrindo seu livro, tentando se tornar invisível.
— Então, Sara — Vanessa comentou, aumentando o tom de voz para que Eduarda ouvisse —, como estão os planos para o bebê? Soube que você está consultando aquele especialista de Miami.
O rosto de Sara vacilou por um segundo, uma sombra de dor e frustração cruzando seus traços.
— Estamos tentando. O Emanuel está muito animado, né, querido? — ela gritou para o campo, mas ele apenas acenou de longe, focado na bola. — Ele quer muito um filho homem para herdar o império das tatuagens.
— Claro — Paula alfinetou, olhando para Eduarda —, porque, no final das contas, é o sangue que mantém um homem em casa. Diversão a gente encontra em qualquer esquina, mas família é outra coisa.
Eduarda apertou as páginas do livro. O comentário doeu porque tocava em sua maior insegurança: ela não tinha um vínculo de sangue com Emanuel, apenas um vínculo de alma que, naquele ambiente fútil, parecia frágil como vidro.
O jogo começou. Emanuel era um jogador agressivo e técnico, movendo-se com uma potência que atraía todos os olhares. Ele era rico, talentoso e exalava uma masculinidade crua que fazia as amigas de Sara suspirarem.
— Nossa, o Emanuel está cada dia mais gostoso — comentou Vanessa, sem nenhum pudor. — Sara, você tem sorte. Eu não deixaria um homem desses solto com tanta "tentação" por perto.
— Eu não me preocupo — Sara tomou um gole generoso de champanhe. — Eu conheço o meu homem. Ele sabe onde é o lugar de cada uma.
A manhã seguiu com provocações veladas. Toda vez que Emanuel fazia um gol ou uma jogada bonita, Sara gritava, levantava-se e fazia questão de ser notada, exibindo o corpo. Eduarda apenas sorria timidamente quando ele olhava para a tenda, um sorriso que Emanuel retribuía com um brilho diferente nos olhos, algo que Sara notava e odiava.
No intervalo do jogo, Emanuel veio até a tenda, suado e ofegante. Sara correu até ele com uma toalha e uma garrafa de água premium.
— Você foi maravilhoso, amor! — Ela passou os braços pelo pescoço dele, ignorando o suor, e o beijou de forma cinematográfica na frente das amigas.
Emanuel retribuiu o beijo com a intensidade que sempre teve por Sara, mas logo se afastou, seus olhos procurando a figura silenciosa no canto.
— Tudo bem por aqui, Duda? — perguntou ele, aproximando-se da jovem.
— Tudo bem, Emanuel. Você joga muito bem — disse ela, estendendo uma garrafa de água gelada que ela mesma havia preparado com hortelã.
Emanuel aceitou a água dela, bebendo-a com gosto, o que fez Sara morder o lábio de raiva.
— Emanuel, a Paula estava dizendo que o marido dela vai abrir uma galeria em Nova York. Você devia levar a gente para a inauguração — Sara interrompeu, tentando retomar o controle da atenção.
— Veremos, Sara. Agora preciso voltar para o segundo tempo.
O jogo recomeçou, mas o clima na tenda azedou. Sara, frustrada pela atenção que Emanuel dera a Eduarda, decidiu escalar o ataque.
— Sabe, Eduarda — começou Sara, com uma voz falsamente casual —, eu fico pensando... o que você vai fazer da vida quando se formar? Porque essa coisa de morar com a gente é temporária, você sabe. O Emanuel é um homem de fases.
Eduarda fechou o livro, sentindo que não podia mais se esconder.
— Eu pretendo trabalhar com curadoria, Sara. E sobre eu morar lá... isso é uma decisão do Emanuel. Eu estou onde ele quer que eu esteja.
— Que bonitinha — Paula riu. — Ela acha que tem voz ativa. Querida, olhe para a Sara. Olhe para o corpo dela, para a presença dela. Você é apenas um descanso para os olhos dele. Homens como o Emanuel precisam de mulheres que brilhem, não de sombras que se escondem atrás de livros.
— Talvez — disse Eduarda, a voz ganhando uma firmeza manhosa que surpreendeu as três loiras —, mas sombras são frescas, e o brilho excessivo às vezes cega e cansa. O Emanuel parece gostar bastante do meu silêncio.
Sara se levantou, a taça de champanhe tremendo na mão.
— Você está se achando muito, não é? Só porque ele te defendeu uma vez? Você não é nada aqui. Você é a vizinha que faz favor. Eu sou a mulher que ele escolheu para carregar o nome dele.
— E no entanto — retrucou Eduarda, levantando-se também, ficando cara a cara com Sara —, você está desesperada para engravidar de novo porque sabe que é a única forma de se sentir segura. Se o amor dele por você fosse tão absoluto, você não estaria contando os dias no calendário para tentar prendê-lo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Paula e Vanessa trocaram olhares de choque. Ninguém esperava que a "ratinha" tivesse dentes. Sara ficou pálida, a verdade daquelas palavras atingindo-a como um tapa.
— Sua... — Sara começou a levantar a mão, mas parou ao ver Emanuel se aproximando do campo após o apito final.
Emanuel chegou à tenda e percebeu imediatamente o clima pesado. Ele olhou de Sara para Eduarda.
— O que houve? — perguntou ele, a voz soando como um trovão.
— Nada, Emanuel — disse Eduarda, voltando ao seu tom suave e pegando a cesta. — Eu só cansei um pouco do sol. Vou esperar você no carro, pode ser?
— Eu vou com você — disse ele, surpreendendo a todos. — Sara, leve suas amigas para almoçar no restaurante do clube. Eu encontro vocês mais tarde.
— Emanuel! Você vai me deixar aqui com elas? — Sara protestou, a voz beirando o histérico.
— Eu já joguei, já fiz social. Agora quero um pouco de paz — disse ele, pegando a mão de Eduarda e começando a caminhar em direção ao estacionamento.
No carro, o silêncio era confortável. Emanuel dirigia com uma mão no volante e a outra repousando sobre a coxa de Eduarda.
— Elas foram maldosas com você, não foram? — perguntou ele, sem tirar os olhos da estrada.
— Elas são apenas inseguras, Emanuel. Especialmente a Sara.
— A Sara é um vulcão, Duda. Eu sempre soube disso. Mas eu não quero que você se sinta diminuída. Eu te trouxe para a minha vida porque eu precisava de você.
— Você ainda quer as duas? — perguntou ela, a voz pequena, olhando para a paisagem que passava.
Emanuel suspirou. Era a pergunta de um milhão de dólares.
— Eu não sei viver sem o fogo da Sara, mas eu não quero mais viver sem a sua luz. Eu sou um homem egoísta, Eduarda. Eu quero o mundo inteiro, e o meu mundo agora tem dois polos.
Eduarda encostou a cabeça no ombro dele, sentindo-se protegida, mas ciente de que a batalha estava longe de acabar.
Enquanto isso, no clube, Sara bebia sua quarta taça de champanhe, cercada pelas amigas que tentavam, sem sucesso, consolá-la.
— Ela vai me pagar — murmurou Sara, os olhos fixos no nada. — Eu vou ter esse filho, e quando eu tiver, aquela morena vai voltar para o buraco de onde saiu.
A obsessão de Sara por uma nova gravidez tornou-se o centro de sua existência. Nos dias que se seguiram, ela forçou Emanuel a rotinas exaustivas, transformando o sexo em uma tarefa mecânica e desesperada. Emanuel, sentindo-se usado e pressionado, buscava refúgio cada vez mais no quarto de Eduarda, onde o sexo era afeto, onde o silêncio era preenchido por carinhos e onde ele não era apenas um doador de sêmen para um plano de poder.
Uma noite, após uma discussão acalorada com Sara sobre um novo tratamento de fertilidade, Emanuel entrou no quarto de Eduarda. Ela estava sentada na cama, lendo sob a luz de um abajur suave.
— Ela não para, Duda — disse ele, sentando-se aos pés da cama e enterrando o rosto nas mãos. — Ela transformou nossa relação em um laboratório.
Eduarda aproximou-se e começou a massagear os ombros dele.
— Ela está com medo, Emanuel. O medo faz as pessoas agirem de forma estranha.
— E você? Você não tem medo? — Ele olhou para ela, os olhos cansados.
— Eu tenho medo todos os dias — confessou ela, a voz manhosa. — Tenho medo de que um dia você acorde e decida que eu sou sem graça demais para o seu mundo. Tenho medo de que a Sara consiga o que quer e me expulse da sua vida.
Emanuel a puxou para o seu colo, abraçando-a com uma força que quase a sufocava.
— Ninguém te expulsa daqui. Você é minha, Eduarda. Tanto quanto a Sara é. Eu criei este império para ter o que eu quisesse, e eu quero você aqui.
Naquela noite, Emanuel não voltou para o quarto principal. Ele dormiu entre os lençóis com cheiro de baunilha de Eduarda, encontrando a paz que o dinheiro não podia comprar.
No dia seguinte, a notícia de que a irmã de Emanuel, Luana, daria uma festa de aniversário para Juju agitou a casa. Seria um evento familiar, longe das amigas de Sara e dos investidores de Emanuel. Um terreno onde Eduarda se sentia em casa e onde Sara se sentia uma estrangeira.
— Eu quero que tudo seja perfeito — dizia Sara, ao telefone com uma decoradora de luxo. — Quero que a Juju tenha a melhor festa que o dinheiro do tio dela pode pagar.
— Sara, a Luana já organizou tudo — disse Emanuel, entrando na sala. — Vai ser algo simples, no jardim da casa dela. A Eduarda está ajudando com as oficinas de arte para as crianças.
Sara desligou o telefone lentamente, o rosto transfigurado.
— Oficinas de arte? Simples? Emanuel, sua irmã não tem noção. E você deixa essa garota se meter em tudo!
— A Eduarda conhece a Juju melhor do que você, Sara. Aceite isso.
A festa de Juju foi o cenário do confronto final de vontades. Eduarda estava radiante, cercada por crianças, com as mãos sujas de tinta guache, rindo e brincando. Emanuel a observava de longe, com um sorriso que ele nunca dedicava a ninguém. Juju corria de um lado para o outro, gritando que "a Duda era a melhor tia do mundo".
Sara, vestida com um macacão de seda branca e saltos agulha totalmente inapropriados para um jardim, sentia-se um peixe fora d'água. Ela tentava se aproximar de Juju, oferecendo presentes caros, mas a menina apenas agradecia e voltava para perto de Eduarda.
— Você viu? — Sara sibilou para Emanuel, em um canto do jardim. — Ela está fazendo a cabeça da sua sobrinha. Ela está roubando a sua família de mim!
— Ninguém está roubando nada, Sara. Você é quem se afasta com essa sua atitude — respondeu Emanuel, já sem paciência.
No ápice da festa, Sara decidiu que precisava de um momento de impacto. Ela subiu no pequeno palco onde as crianças fariam uma apresentação.
— Atenção todos! — gritou ela, pegando o microfone. — Eu quero fazer um brinde à Juju e dar uma notícia maravilhosa para a família!
Emanuel franziu o cenho. Eduarda parou de pintar, sentindo um frio na espinha.
— Eu e o Emanuel estamos tentando aumentar a família! — anunciou Sara, com um sorriso triunfante. — E logo, logo, a Juju terá um priminho para brincar!
O silêncio foi constrangedor. Luana olhou para o irmão com reprovação, sabendo da situação delicada em casa. Emanuel sentiu uma fúria fria subir por sua espinha. Sara estava usando um desejo íntimo e uma situação de saúde para marcar território de forma vulgar.
Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela se levantou silenciosamente e caminhou para dentro da casa de Luana, precisando de ar.
Emanuel não esperou. Ele subiu no palco, tirou o microfone da mão de Sara e, sem dizer uma palavra, desceu e foi atrás de Eduarda.
Ele a encontrou na cozinha, lavando as mãos com pressa, tentando conter o choro.
— Duda... — chamou ele.
— Por que ela faz isso, Emanuel? Por que ela precisa transformar tudo em uma competição? — Eduarda se virou, o rosto molhado. — Eu não aguento mais ser a "outra" em público. Eu não aguento mais ver você dividido desse jeito.
Emanuel a prensou contra a pia, o olhar ardendo de uma determinação nova.
— Chega. Eu tentei manter o equilíbrio, tentei dar a cada uma o seu espaço, mas a Sara passou dos limites.
— O que você vai fazer? — sussurrou ela.
— Eu vou colocar as cartas na mesa. Amanhã, nós vamos ter uma conversa definitiva. Eu amo a Sara, mas eu não vou permitir que ela destrua a sua paz para alimentar o ego dela.
Naquela noite, a volta para casa foi silenciosa e mortal. Sara tentou falar sobre a festa, sobre como as pessoas "adoraram" a notícia, mas Emanuel não disse uma palavra.
Ao chegarem na cobertura, ele mandou Eduarda para o quarto e chamou Sara para o escritório.
— O que foi, amor? — Sara perguntou, tentando soar doce, mas percebendo a tempestade nos olhos dele.
— Você nunca mais vai usar a nossa vida íntima para humilhar a Eduarda ou para se promover — disse ele, a voz baixa e perigosa. — A gravidez que perdemos foi uma tragédia, não um troféu. E se você não conseguir aceitar que a Eduarda faz parte desta casa e da minha vida, então talvez o seu lugar não seja mais aqui.
Sara recuou, o choque estampado no rosto.
— Você está me ameaçando? Por causa dela?
— Estou estabelecendo limites. Eu quero as duas, Sara. Eu sempre fui claro sobre isso. Mas se você me forçar a escolher entre o seu caos e a paz dela... você pode não gostar da resposta.
Sara saiu do escritório em prantos, mas no fundo de sua mente, a semente da vingança apenas crescia. Ela sabia que precisava daquele filho. Mais do que nunca.
Eduarda, em seu quarto, ouvia o som abafado da discussão. Ela sabia que Emanuel a amava, mas sabia que o laço dele com Sara era feito de uma fibra diferente, uma fibra de anos e de uma paixão carnal que ela ainda estava aprendendo a dominar.
O triângulo continuava, mais tenso e perigoso do que nunca. Emanuel tinha o controle, ou achava que tinha. Mas entre o silicone de Sara e a doçura de Eduarda, o tatuador estava prestes a descobrir que, às vezes, nem a tinta mais forte consegue esconder as cicatrizes de um coração dividido. E que, no jogo da vida, quando se tenta ter tudo, corre-se o risco de acabar com as mãos cheias de nada além de sombras e memórias.