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Ventre de Seda e Punhais de Cetim

O sol da manhã entrava pelas imensas janelas da cobertura, iluminando a nova e complexa realidade de Emanuel. O que antes era um equilíbrio precário entre o fogo e o bálsamo, agora havia se tornado um campo de batalha hormonal e silencioso. O destino, com seu senso de humor irônico e cruel, decidira que o império do tatuador não teria apenas um herdeiro, mas dois.

Sara e Eduarda estavam grávidas.

Emanuel observava a cena da mesa de café da manhã. Sara, impecável em um robe de seda fúcsia, analisava catálogos de decorações extravagantes no tablet. Eduarda, vestindo uma camiseta de Emanuel que batia no meio de suas coxas, estava encolhida em uma poltrona, acariciando o ventre de cinco meses com uma expressão de cansaço doce.

— Eu já decidi, Emanuel — Sara anunciou, batendo a unha de gel contra a tela do aparelho. — O chá revelação será no heliponto do hotel Fasano. Quero fumaça rosa ou azul saindo de três helicópteros simultâneos, e o buffet terá que ser assinado por um chef estrelado. Nada de docinhos de festa infantil, quero sofisticação.

Eduarda soltou um suspiro baixo, quase imperceptível, mas que não escapou aos ouvidos atentos de Emanuel.

— O que foi, Duda? — perguntou ele, a voz suavizando instantaneamente ao se dirigir à morena.

— Nada... é só que... — Eduarda hesitou, a timidez ainda presente mesmo após meses vivendo ali. — Eu acho um pouco brega, Sara. Toda essa encenação para algo tão íntimo. Eu só queria um jantar em família, talvez um bolo simples. O bebê nem gosta de barulho, ele chuta toda vez que você fala alto sobre os helicópteros.

Sara deu uma risada seca, carregada de desdém.

— "O bebê não gosta"? Por favor, Eduarda, ele é um feto, não um crítico de eventos. Você quer um bolinho porque sua vida é medíocre e sem graça. Eu sou a mulher do Emanuel, e o meu filho — ou filha — merece um espetáculo.

— Arthur não é um crítico, mas é agitado — murmurou Eduarda, usando o nome que já havia escolhido para o seu menino, embora a confirmação oficial do sexo ainda não tivesse sido celebrada em "evento". Ela sabia que era um menino. Sentia a energia vibrante, os chutes fortes que a faziam perder o fôlego.

— Arthur? Que nome comum — Sara bufou, voltando-se para Emanuel. — O meu será Valentina se for menina, ou Enzo Gabriel se for menino. Nomes de presença, Emanuel.

— O importante é que nasçam com saúde, Sara — Emanuel cortou, sentindo a tensão começar a latejar em suas têmporas. — Mas eu concordo com a Eduarda em um ponto: menos ostentação no chá revelação. Não quero o meu nome nos tabloides por causa de fumaça colorida em heliponto.

Sara fechou o rosto, a fúria borbulhando. Para ela, a gravidez de Eduarda era uma afronta constante. Enquanto Sara tinha uma gestação "perfeita" e silenciosa — a pequena Valentina quase não se mexia, e Sara não sentia um único desejo ou enjoo, mantendo sua rotina de academia e drenagem linfática —, Eduarda era o oposto.

A gravidez de Eduarda era caótica. Arthur era um pequeno furacão.

Naquela mesma madrugada, Emanuel fora acordado por um toque suave em seu ombro. Eduarda estava sentada na beira da cama, os olhos castanhos úmidos e manhosos.

— Manu... — sussurrou ela.

— O que houve, Duda? Dor? — Ele sentou-se imediatamente, o instinto protetor em alerta máximo.

— Não... o Arthur quer comer pêssego em calda com queijo coalho. Agora. Ele não para de pular aqui dentro, olha.

Emanuel colocou a mão sobre o ventre de Eduarda e sentiu um chute tão vigoroso que sorriu involuntariamente. Era uma conexão que ele não sentia com a barriga de Sara. Com Sara, tudo era estético; com Eduarda, tudo era visceral.

— Pêssego e queijo coalho às três da manhã? — Emanuel suspirou, mas já estava se levantando. — Vou ver o que consigo na conveniência 24 horas.

— Obrigada, Manu... você é o melhor — ela disse, deitando-se no lugar dele, abraçando o travesseiro com o cheiro do homem que, apesar de tudo, era o seu porto seguro.

Essas cenas se repetiam quase todas as noites, alimentando o ódio silencioso de Sara, que assistia das sombras do corredor o namorado sair de madrugada para satisfazer os caprichos da "sonsa".

No final de semana, Emanuel decidiu que todos precisavam de ar puro. Ele as levou para o clube de campo, um refúgio de gramados impecáveis e brisa fresca. Sara, claro, convidou suas amigas, Paula e Vanessa, que chegaram prontas para o combate.

A tenda de luxo estava montada perto da piscina privativa. Sara usava um biquíni de grife que exibia sua barriga de seis meses, ainda firme e adornada por joias corporais. Eduarda usava um vestido de algodão leve, longo e fluido, preferindo a sombra e a tranquilidade.

— Amiga, você está maravilhosa! — Paula exclamou, abraçando Sara. — Nem parece grávida de costas. Já a outra ali... parece que engoliu uma melancia inteira.

— É o menino dela — Sara disse, a voz destilando veneno enquanto tomava um gole de água de coco. — É um pequeno selvagem. O meu bebê é educado, uma lady. Tenho certeza de que é a Valentina.

— Tomara, Sara — Vanessa comentou, retocando o batom. — Porque imagine o escândalo se a vizinha der o herdeiro homem ao Emanuel e você ficar com a "segunda opção".

Sara apertou o copo com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Aquilo era o seu maior pesadelo. Na cultura de poder em que vivia, o primeiro filho homem era o troféu definitivo.

— O Emanuel vai amar a Valentina — Sara afirmou, embora a dúvida a corroesse. — Homens adoram meninas. Ele vai ser um pai babão.

Enquanto as loiras conspiravam, Emanuel estava sentado ao lado de Eduarda, a alguns metros de distância. Ele observava a morena desenhar em um caderno, os traços suaves capturando a paisagem.

— Ele está quieto hoje? — Emanuel perguntou, colocando a mão sobre a barriga dela.

— Acho que ele gostou do sol — Eduarda sorriu, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — Manu, a Sara está me olhando como se quisesse me matar. Eu me sinto mal por estar aqui incomodando.

— Você não incomoda, Duda. Esta é a minha vida agora. Vocês duas são a minha família.

— Mas ela quer um menino, Manu. Ela desabafou com as amigas que seria uma humilhação se eu tivesse o Arthur e ela não.

Emanuel olhou para o grupo de loiras na tenda. Ele via a futilidade, a competição e o vazio. Depois olhou para Eduarda, a sensibilidade e o amor genuíno. Ele sabia o que o resultado do ultrassom diria. Ele já tinha visto os exames em segredo.

— Deixe que ela fale, Duda. A Sara vive de aparências. Você vive de verdade.

O almoço foi servido sob a tenda. Sara fazia questão de monopolizar a conversa, falando sobre o enxoval que compraria em Paris e como a festa de revelação seria o evento do ano no high society paulistano.

— E você, Eduarda? Já comprou o berço de vime da feirinha? — Paula debochou, arrancando risos de Vanessa.

Eduarda apenas baixou os olhos, mas sentiu um chute tão forte de Arthur que soltou um pequeno "ai".

— O que foi? — Emanuel perguntou, preocupado.

— Ele chutou... acho que ele não gostou do tom de voz da Paula — Eduarda disse, com uma pontinha de malícia que raramente mostrava.

Emanuel riu alto, uma risada franca que irritou Sara profundamente.

— Chega dessa palhaçada de "bebê agitado" — Sara explodiu, levantando-se. — Emanuel, vamos para a água. Quero nadar um pouco.

— Vá você, Sara. Eu vou ficar aqui com a Duda, ela está se sentindo um pouco pesada hoje.

Sara saiu pisando fundo, os saltos das plataformas afundando na grama. Suas amigas a seguiram, cochichando sobre como o "feitiço da sonsa" estava funcionando bem demais.

— Eu não aguento mais, meninas — Sara desabafou, assim que se afastaram. — Eu rezo todas as noites para que o meu seja um menino. Se eu tiver uma menina e aquela ali tiver o Arthur, eu vou ser a piada do grupo. O Emanuel vai dar o mundo para ela.

— Mas a Valentina é um nome tão lindo... — Vanessa tentou consolar.

— Nome não segura homem, Vanessa! O que segura homem como o Emanuel é linhagem! E se eu não der o herdeiro a ele, eu perco o trono.

A tarde caiu, trazendo uma luz dourada sobre o clube. Emanuel levou as duas para o carro. O clima era de uma trégua frágil. Sara estava exausta de fingir que não se importava, e Eduarda estava exausta de simplesmente existir sob aquele escrutínio.

No caminho de volta, o silêncio foi quebrado pelas demandas de Arthur.

— Manu... podemos parar naquela padaria que tem o sonho de creme? — Eduarda pediu, a voz manhosa. — O Arthur está pedindo açúcar.

— De novo, Eduarda? — Sara reclamou do banco da frente. — Você vai ficar imensa desse jeito. O Emanuel não vai querer uma mulher que parece um dirigível.

— Eu gosto das curvas dela, Sara — Emanuel disse, a voz fria. — E se o meu filho quer um sonho, ele vai ter um sonho.

Sara virou o rosto para a janela, as lágrimas de frustração queimando seus olhos. Ela sentia-se uma estranha no próprio relacionamento. Sua gravidez era perfeita, esteticamente impecável, mas era vazia de conexão. Emanuel a tocava, sim, mas era um toque de hábito, de luxúria residual. Quando ele tocava Eduarda, era um toque de reverência.

Ao chegarem na cobertura, Emanuel ajudou Eduarda a subir, deixando Sara para trás com suas sacolas e seu mau humor.

— Você quer que eu prepare um banho para você, Duda? — Emanuel perguntou, enquanto entravam no quarto da morena.

— Quero... e quero que você fique aqui um pouco. O Arthur se acalma quando ouve a sua voz.

Emanuel sentou-se na cama e começou a falar sobre os planos para o novo estúdio em Roma, enquanto massageava os pés inchados de Eduarda. O bebê, como se entendesse, começou a se mexer de forma mais suave, ondas aparecendo na barriga de Eduarda.

— Ele te ama, Manu — sussurrou ela.

— Eu também amo ele, Duda. E amo você.

No quarto ao lado, Sara ouvia tudo através da parede. Ela sentou-se diante do espelho da penteadeira, observando sua barriga imóvel. Ela tentou falar com Valentina, tentou sentir uma conexão, mas tudo o que sentia era uma necessidade desesperada de controle.

— Você tem que ser um menino — sussurrou Sara para o próprio ventre. — Você tem que ser o Arthur dela, mas melhor. Se você for uma menina, Valentina... eu não sei o que vou fazer.

A verdade, porém, já estava escrita nos exames guardados na gaveta de Emanuel. O destino não entregaria a Sara o que ela queria por vaidade. O herdeiro, o menino agitado que acordava o pai de madrugada e que exigia pêssegos e sonhos, pertencia à mulher que não queria tronos, mas apenas um lugar no coração do homem que amava.

A guerra estava longe de terminar. O chá revelação de Sara, com seus helicópteros e luxos, seria o palco de sua maior glória ou de sua queda definitiva. E Emanuel, o homem que queria tudo, estava prestes a descobrir que ter dois filhos de duas mulheres diferentes era o desenho mais complexo e permanente que ele já havia feito em sua vida. Não era apenas nanquim na pele; era sangue, vida e a percepção de que, no final, a doçura de Eduarda era a única tinta que realmente não desbotava com o tempo.

— Durma, Duda — Emanuel sussurrou, apagando a luz do abajur. — Amanhã será um longo dia.

— Manu? — ela chamou, já quase dormindo.

— Oi?

— O Arthur disse que te ama.

Emanuel sorriu no escuro, sentindo uma paz que nenhuma das joias de Sara poderia comprar. Ele saiu do quarto e encontrou Sara no corredor, a expressão endurecida.

— Amanhã eu quero ir ao médico, Emanuel. Quero ver a Valentina. Quero ter certeza de que ela é... o que eu preciso que ela seja.

— Ela é o que é, Sara. Aceite isso antes que seja tarde demais.

Emanuel passou por ela, deixando-a sozinha no corredor frio, enquanto no quarto de Eduarda, o pequeno Arthur finalmente descansava, pronto para mais um dia de chutes, desejos e a conquista silenciosa de um império que, por direito de amor, já era dele.