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Tinta, Laços e Papinhas

O silêncio na cobertura de Emanuel era um conceito que pertencia ao passado. Onde antes o mármore ecoava apenas o som dos saltos de Sara e o zumbido ocasional das máquinas de tatuagem nos estúdios, agora havia uma sinfonia caótica de risos infantis, choros de protesto e o som de brinquedos batendo contra o piso de madeira nobre.

Emanuel, aos 26 anos, vivia no centro de um furacão que ele mesmo ajudara a criar. Ele não havia desistido de nenhuma das duas. Sara, com sua intensidade vulcânica, continuava sendo a mulher que desafiava sua lógica; Eduarda, com sua doçura persistente, era o porto onde ele ancorava sua alma exausta. E agora, com os bebês completando oito meses, o contraste entre as duas vidas que ele levava sob o mesmo teto nunca fora tão evidente.

— Arthur! Não, garoto! Aí não! — Emanuel exclamou, largando o tablet com o faturamento mensal de seus estúdios em Londres para correr em direção ao filho.

Arthur, um bebê robusto de cabelos castanhos revoltos e olhos que brilhavam com uma inteligência travessa, estava em plena missão de exploração. Aos oito meses, ele não apenas engatinhava; ele se impulsionava com uma velocidade que desafiava as leis da física. O alvo da vez era a perna de Emanuel, ou melhor, as tatuagens pretas que subiam pela panturrilha do pai.

O pequeno furacão agarrou-se à calça de Emanuel, tentando escalar, e quando não conseguiu, decidiu que a melhor forma de possuir aquela arte era mordendo-a.

— Ele acha que o seu dragão é de chocolate, Manu — disse Eduarda, surgindo na sala com o rosto levemente suado e alguns fios de cabelo soltos do coque.

Ela usava um vestido de malha confortável e segurava uma tigela de cerâmica com uma papinha de abóbora e carne que exalava um cheiro delicioso e caseiro.

— Ele tem uma fixação com tinta, Duda. Ontem ele tentou lamber o decalque que eu deixei na mesa — Emanuel riu, pegando o filho no colo e sentindo a energia vibrante do menino, que não parava de chutar as pernas. — Ele é imparável.

— Ele é igual a você quando está focado em um projeto — Eduarda sorriu, aproximando-se e dando um beijo rápido na bochecha de Emanuel antes de tentar oferecer uma colherada a Arthur. — Vamos, pequeno? A mamãe fez com o temperinho que você gosta.

Arthur, que até um segundo atrás estava tentando arrancar o relógio do pulso de Emanuel, parou instantaneamente ao sentir o cheiro da comida. Ele abriu a boca com entusiasmo, devorando a papinha com uma satisfação que fazia Emanuel sentir um calor estranho no peito. O menino era uma força da natureza, mas bastava o toque de Eduarda ou o sabor de sua comida para que ele se rendesse.

Enquanto isso, do outro lado da imensa sala, uma cena completamente diferente se desenrolava.

Sara estava sentada em um sofá de couro branco, impecavelmente vestida com um conjunto de seda champanhe, observando Valentina. A bebê, uma miniatura perfeita de Sara, com cabelos loiros finíssimos e olhos azuis gélidos, estava sentada em um tapete de atividades que parecia mais uma passarela de moda.

Valentina usava um vestido de grife em miniatura, meias de renda e um laço de fita que era maior que sua cabeça. Ela não engatinhava. Ela permanecia sentada, brincando delicadamente com um mordedor de cristal e silicone que custara o preço de uma moto popular.

— Olhe para ela, Emanuel — disse Sara, a voz carregada de um orgulho estético. — Valentina é uma lady. Ela sabe que esse tapete é o seu reino. Diferente desse selvagem que você e a Eduarda estão criando.

— Ele não é selvagem, Sara. Ele é uma criança ativa — Emanuel defendeu, sentando-se no chão com Arthur, que agora tentava usar o nariz do pai como buzina.

— Ele é um desastre ambulante — rebateu Sara, pegando Valentina no colo com uma elegância estudada. — Valentina já entende que não se deve sujar. Ela é uma diva, não é, meu amor? Uma mini diva da mamãe.

A bebê olhou para Sara com uma expressão que, apesar da pouca idade, parecia de puro tédio aristocrático. Valentina era fácil de lidar, raramente chorava e parecia contente em ser apenas observada e fotografada para o Instagram de Sara, onde já acumulava milhares de seguidores.

— Você precisa dar a ela a vitamina, Sara — Eduarda comentou baixinho, tentando ser útil. — A pediatra disse que é importante para o ferro.

Sara lançou um olhar gélido para a morena.

— Eu sei o que a minha filha precisa, Eduarda. Não preciso de dicas de quem passa o dia cheirando a cebola e alho. A babá já cuidou disso.

Eduarda encolheu-se levemente, o brilho nos olhos diminuindo por um segundo. Emanuel percebeu e, num gesto rápido, puxou Eduarda para sentar-se ao seu lado no chão, mantendo Arthur entre eles.

— O Arthur só se acalma com a comida da Duda, Sara. E eu também prefiro o cheiro da cozinha dela ao dos perfumes caros que você usa para esconder que não troca uma fralda há semanas — Emanuel disse, a voz dura.

— Eu não fui feita para trocar fraldas, Emanuel! Eu fui feita para gerir a imagem desta família! — Sara levantou-se, irritada, ajeitando Valentina no quadril. — Vamos, Valentina. Vamos para o seu quarto. O ar aqui está ficando... popular demais.

Sara saiu da sala com a postura de uma rainha ofendida. Emanuel suspirou, sentindo a tensão de sempre. Ele amava Sara; amava o fogo que ela trazia, a ambição e a beleza impactante que o lembrava de onde ele viera e do que conquistara. Mas, cada vez mais, ele se via gravitando para o tapete da sala, para o cheiro de papinha e para o caos de Arthur.

— Você não devia falar assim com ela, Manu — sussurrou Eduarda, encostando a cabeça no ombro dele. — Ela se sente ameaçada.

— Ela se ameaça sozinha com essa futilidade, Duda. Ela está transformando a Valentina em um acessório.

Arthur, percebendo que a atenção não estava mais nele, soltou um grito agudo de protesto e começou a puxar a gola da camiseta de Eduarda.

— Alguém quer sobremesa — ela riu, a voz manhosa voltando ao normal.

— Eu levo vocês para o quarto — Emanuel disse, levantando-se com o filho no colo.

No quarto de Eduarda, o ambiente era de paz. Tons de azul claro, madeira natural e muitos livros. Emanuel observou enquanto Eduarda se acomodava na poltrona de amamentação e Arthur, o pequeno furacão que quase derrubara a sala minutos antes, rendia-se ao peito da mãe com uma urgência adorável.

— Ele é louco por você — Emanuel comentou, encostado no batente da porta.

— Ele é louco por nós — ela corrigiu, olhando para o bebê. — Manu, você sente... diferença entre eles?

Emanuel hesitou. Ele era um homem prático, mas a paternidade o mudara de formas que ele ainda não sabia tatuar em palavras.

— Eu amo a Valentina. Ela é linda, é calma, é a minha princesa. Mas o Arthur... — Ele olhou para o menino, que agora segurava o dedo de Eduarda com força enquanto mamava. — O Arthur tem a minha alma, Duda. Ele tem essa inquietude, essa busca por algo mais. Eu olho para ele e vejo o futuro dos meus estúdios. Eu vejo alguém que vai quebrar as regras.

— Eu só quero que ele seja feliz — disse ela, acariciando os cabelos do filho.

— Ele será. Com você cuidando dele, ele será o homem mais equilibrado do mundo.

Mais tarde naquela noite, após os bebês dormirem, Emanuel encontrou Sara na varanda principal. Ela estava tomando uma taça de vinho tinto, observando as luzes de São Paulo. O vento soprava seus cabelos loiros, e ela parecia, por um momento, vulnerável.

Emanuel aproximou-se e a abraçou por trás, as mãos repousando sobre o ventre que outrora carregara Valentina.

— Você está sendo muito dura com a Eduarda, Sara.

— E você está sendo muito mole com ela, Emanuel — ela respondeu, sem se virar. — Você acha que eu não vejo? O jeito que você olha para aquele menino? Você o ama mais do que ama a Valentina.

— Isso não é verdade. Eu amo os dois de formas diferentes.

— É verdade sim! — Ela virou-se, os olhos brilhando com uma fúria triste. — A Valentina é o meu espelho, e você odeia o espelho porque ele te lembra das suas próprias ambições. Você prefere a Eduarda e o Arthur porque eles são o seu refúgio da realidade. Mas adivinha? A realidade sou eu. É o luxo, é o nome que nós construímos.

— Você está enganada, Sara. A realidade é essa casa. São as duas mulheres que eu escolhi. Eu não vou abrir mão de nenhuma de vocês.

— Então aja como tal — ela exigiu, puxando-o pela gola da camisa. — Amanhã temos o evento da galeria. Eu quero a Valentina lá. Quero que todos vejam a herdeira de Emanuel.

— O Arthur também vai — ele afirmou.

— O Arthur vai passar a noite derrubando as esculturas de vidro, Emanuel!

— Então nós o seguraremos. Ele faz parte da família.

O evento na galeria de arte no dia seguinte foi um teste de resistência. Sara estava radiante, com Valentina em um carrinho de bebê cravejado de cristais, atraindo todos os flashes. A bebê permanecia imóvel, quase como uma estátua de porcelana, recebendo os elogios com uma indiferença que encantava os convidados.

Já Eduarda tentava manter Arthur no colo, mas o menino queria o chão. Ele queria as luzes, queria as cores das pinturas modernas e, acima de tudo, queria as pessoas.

— Olha, Manu! — Arthur gritou (ou algo próximo disso na linguagem de bebê), apontando para uma tela abstrata em tons de vermelho e preto.

— Ele gostou daquela, Duda — Emanuel riu, aproximando-se. — Tem traços fortes.

— Ele tem bom gosto — disse uma crítica de arte influente, aproximando-se do casal. — E que energia maravilhosa esse menino tem. Ele parece querer absorver a arte com os olhos.

Sara, que estava a poucos metros sendo entrevistada por uma revista de celebridades, sentiu o estômago revirar. Mais uma vez, o "selvagem" estava roubando o brilho de sua "diva".

A noite terminou com um pequeno desastre: Arthur conseguiu se soltar do colo de Eduarda por um segundo e, com sua velocidade habitual, engatinhou até uma instalação de luzes no chão, puxando um fio que desligou metade da iluminação do salão.

Houve um silêncio chocado, seguido por uma risada curta e grossa de Emanuel.

— Esse é o meu garoto — ele murmurou, pegando o filho nos braços sob os olhares horrorizados de Sara e os risos tímidos de Eduarda.

De volta à cobertura, a discussão foi inevitável.

— Foi uma humilhação! — Sara gritava enquanto tirava as joias com violência. — Ele apagou a luz do evento mais importante do ano!

— Foi um acidente, Sara! Ele é um bebê! — Eduarda defendeu, já com Arthur no colo, o menino esfregando os olhos de sono.

— Um bebê que você não sabe controlar! — Sara avançou para cima de Eduarda, mas Emanuel entrou no meio.

— Chega! — O grito de Emanuel ecoou, fazendo até Valentina acordar e soltar um choro curto e agudo de susto.

Emanuel olhou para as duas. Sara, a loira siliconada e deslumbrante que representava seu sucesso; Eduarda, a morena sensível e doce que representava sua paz. Ele viu o contraste absoluto entre os bebês: Valentina, a mini diva que já aprendia a exigir o mundo, e Arthur, o pequeno furacão que só queria explorá-lo.

— Eu amo as duas — Emanuel disse, a voz agora baixa e perigosa. — Mas eu não vou permitir que essa casa se torne um ringue. Arthur é meu filho. Valentina é minha filha. Se vocês não conseguem conviver, eu darei um jeito. Mas ninguém sai daqui.

Ele caminhou até Eduarda e pegou Arthur, que imediatamente se aninhou no pescoço do pai, procurando as tatuagens para apertar. Depois, ele caminhou até o berço de Valentina e a pegou também, equilibrando um bebê em cada braço.

— Eles são irmãos — Emanuel disse, olhando para Sara. — E eles vão crescer juntos.

Sara desviou o olhar, a derrota amarga na boca. Ela sabia que, enquanto Arthur tivesse aquele brilho nos olhos e Eduarda tivesse aquele tempero nas mãos, ela nunca teria Emanuel por inteiro.

Eduarda aproximou-se de Emanuel e tocou o braço dele, o gesto manhoso de sempre.

— Vamos dormir, Manu. O dia foi longo.

Emanuel assentiu. Ele levou os bebês para seus respectivos quartos. Primeiro Valentina, que adormeceu assim que tocou os lençóis de seda egípcia. Depois Arthur, que lutou contra o sono até o último segundo, tentando agarrar a mão de Emanuel.

Quando Emanuel finalmente se deitou, ele sentiu o peso de sua vida. Ele era um tatuador de renome, um homem rico, um pai de dois e namorado de duas. Sua vida era uma tatuagem complexa, cheia de sombras e cores vibrantes, impossível de apagar.

Ele sabia que Arthur cresceria para ser seu braço direito, o menino que entenderia o peso da agulha e a profundidade da tinta. E sabia que Valentina seria a rainha que comandaria os salões que ele conquistara.

— Você está bem? — perguntou Eduarda, entrando no quarto principal e deitando-se ao lado dele.

— Estou — ele respondeu, puxando-a para perto. — Só pensando que o Arthur vai precisar de um estúdio só dele daqui a uns anos.

— E a Valentina vai precisar de uma galeria — Eduarda riu baixinho.

— É — Emanuel sorriu para o teto. — Eu acho que vou precisar de mais tinta.

A paz voltou à cobertura, pelo menos até a manhã seguinte, quando Arthur acordaria cedo para tentar escalar a estante de livros e Valentina exigiria seu café da manhã servido em sua cadeira de ouro. Emanuel fechou os olhos, sabendo que, entre o furacão e a diva, ele finalmente encontrara o seu desenho perfeito.