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Ouro, Glitter e Papinhas de Abóbora

A cobertura de Emanuel parecia ter sido atingida por uma explosão de tule rosa, balões metalizados e o cheiro enjoativo de peônias importadas. Sara estava em seu elemento. Aos vinte e cinco anos, formada em administração, ela nunca havia exercido a profissão em um escritório, mas gerenciava a vida social e a imagem da família com uma eficiência implacável e um gosto pelo exagero que beirava o cafona. Hoje era o mesversário de oito meses de Valentina, e para Sara, isso era mais importante do que qualquer fechamento de contrato nos estúdios de tatuagem de Emanuel.

— Não, não, não! — gritou Sara, batendo o salto agulha no mármore da sala. — Eu disse que os macarons deveriam seguir o pantone exato do vestido da Valentina! Isso aqui está puxando para um pêssego vulgar, eu quero rosa-quartzo!

As duas amigas de Sara, Paula e Vanessa, seguravam taças de champanhe às duas da tarde, observando a cena com sorrisos cínicos. Elas eram o reflexo de Sara: loiras, impecáveis e prontas para destilar veneno sobre qualquer coisa que não brilhasse tanto quanto elas.

— Calma, amiga — disse Paula, ajeitando o cabelo platinado. — A decoradora vai dar um jeito. O que importa é que a Valentina vai estar divina naquela mini carruagem de acrílico. Já postou o teaser no Instagram?

— Já, e os números estão ótimos — respondeu Sara, suavizando a expressão ao pensar nos likes. — Valentina é uma marca. Ela não é apenas uma bebê, é a herdeira do império do Emanuel. Ela precisa exalar poder desde o berço.

Enquanto o "QG da Vaidade" operava na sala principal, a cozinha era um refúgio de sanidade, ou quase isso. Eduarda estava sentada no chão de granito, com o cabelo castanho preso em um coque desleixado e as mangas da blusa leve dobradas. À sua frente, Arthur, o pequeno furacão de oito meses, estava sentado em seu tapetinho de borracha, coberto de cima a baixo por uma substância laranja vibrante.

— Arthur, meu amor, a comida é para a boca, não para a sobrancelha — riu Eduarda, tentando limpar o rosto do filho com um pano úmido.

O menino deu uma risada alta, um som puro que reverberou pela cozinha, e bateu as mãos gordinhas em um pote de papinha de abóbora, espalhando respingos cor-de-laranja pelo vestido romântico de Eduarda e pelo chão impecável. Arthur não tinha a passividade de Valentina; ele era pura energia, um explorador nato que parecia ter herdado a intensidade do pai, mas filtrada pela doçura da mãe.

— Ele é imparável, Duda — disse Emanuel, encostado no batente da porta, observando a cena com um sorriso raro e genuíno que nunca mostrava para os fotógrafos ou clientes.

— Ele quer participar da festa, Manu — respondeu Eduarda, olhando para cima com seus olhos expressivos e manhosos. — Mas acho que a Sara não vai gostar muito do convidado de honra estar fantasiado de abóbora.

Emanuel caminhou até eles e agachou-se, ignorando o fato de que seu terno sob medida poderia ser manchado. Ele pegou Arthur no colo, e o bebê imediatamente agarrou o nariz do pai com as mãos sujas.

— Ele tem a minha força, mas o seu jeito de pedir as coisas — comentou Emanuel, beijando a testa de Eduarda. — Como você está? A Sara está impossível hoje.

— Estou bem, só... um pouco deslocada. Paula e Vanessa ficam me olhando como se eu fosse a empregada que esqueceu de tirar o uniforme.

— Você é a mãe do meu filho e a mulher que me traz paz — Emanuel disse, a voz grave e firme. — Deixe que elas brilhem com o glitter delas. A nossa luz é diferente.

O momento de ternura foi interrompido pelo som estridente de um apito. Sara entrou na cozinha como um furacão de seda e perfume caro.

— Emanuel! O que você está fazendo aqui no chão? E por que esse... esse menino está sujo desse jeito? — Sara apontou para Arthur com horror. — Os convidados estão chegando! A imprensa de celebridades vai estar lá fora! Eu não quero o Arthur estragando as fotos da Valentina com esse cheiro de legumes!

— O Arthur é meu filho tanto quanto a Valentina, Sara — retrucou Emanuel, levantando-se com o menino no colo. — Ele vai estar na sala.

— Ele pode ficar na sala, desde que fique no cercadinho, longe da mesa de doces e da carruagem! — Sara bufou, virando-se para Eduarda. — E você, limpe esse chão. A decoradora quase escorregou em um pedaço de... isso é brócolis? Que horror.

Eduarda apenas assentiu, abaixando a cabeça. Emanuel sentiu a irritação subir, mas antes que pudesse explodir, Arthur soltou um grito de alegria e jogou o que restava da papinha em sua mão na direção de Sara. Uma mancha laranja perfeita aterrissou bem no centro do peito do vestido de seda champanhe dela.

Houve um silêncio mortal.

— O MEU VESTIDO! — gritou Sara, a voz atingindo notas agudas que fizeram os copos de cristal vibrarem. — ELE ME MANCHOU! ESSE PEQUENO MONSTRO ME MANCHOU!

— Foi um acidente, Sara — disse Emanuel, tentando segurar o riso enquanto Arthur batia palmas, achando a reação da loira a melhor brincadeira do dia.

— Acidente? Ele fez de propósito! Ele é igual à mãe, quer estragar o meu momento! — Sara saiu correndo em direção ao quarto, soltando impropérios, seguida pelas amigas que tentavam, sem sucesso, limpar a mancha com champanhe.

A festa começou oficialmente uma hora depois. A sala estava lotada de pessoas influentes, modelos, outros tatuadores ricos e a elite paulistana. Valentina estava posicionada em sua carruagem, usando um vestido que custava o preço de um carro popular, olhando para o vazio com uma indiferença aristocrática que Sara jurava ser "classe".

Eduarda estava em um canto discreto, usando um vestido simples de cor neutra, mantendo Arthur em um cercadinho elegante, mas cheio de brinquedos barulhentos. O menino, porém, não estava satisfeito em ser um espectador.

— Duda, ele quer sair — sussurrou Emanuel, aproximando-se dela com uma taça de whisky. — Ele não tira os olhos daqueles balões.

— Se eu soltar ele, Manu, ele vai direto para a mesa da Sara. Ele adora coisas brilhantes.

— Deixe o garoto explorar. É a casa dele também.

Eduarda hesitou, mas a natureza manhosa de Arthur venceu. Ele começou a fazer um biquinho e a soltar pequenos resmungos que ela sabia que logo se transformariam em um berro de protesto. Ela abriu o cercadinho.

Foi como soltar um pequeno animal selvagem em uma loja de cristais.

Arthur engatinhava com uma velocidade impressionante. Enquanto Sara estava ocupada dando uma entrevista para um blog de moda, Arthur avistou o seu alvo: a imensa torre de macarons rosa-quartzo que Sara tanto exigira.

— E aqui, podem ver a delicadeza dos detalhes... — dizia Sara para a câmera, apontando para a mesa.

Nesse exato momento, Arthur agarrou a toalha de mesa de renda renascença e deu um puxão vigoroso para tentar se levantar. O efeito foi uma reação em cadeia. A torre de macarons oscilou e desabou, espalhando doces finos pelo chão como se fossem confetes. Um dos arranjos de peônias tombou, derramando água sobre os sapatos de Paula.

— MEU DEUS! — gritou Vanessa, pulando para trás.

Sara virou-se, o rosto transformado em uma máscara de fúria. Mas Arthur não parou ali. Ele encontrou um dos balões de gás hélio que estava preso a um peso baixo e, ao puxá-lo, acabou soltando uma rede inteira de balões que subiram ao teto, derrubando o lustre de franjas de seda no processo.

A sala mergulhou em um caos de risos abafados dos convidados e gritos de Sara.

— EDUARDA! TIRE ESSE MENINO DAQUI! — Sara berrou, avançando para pegar Arthur pelo braço, mas Emanuel foi mais rápido.

Ele pegou o filho no colo, que agora gargalhava, encantado com a bagunça que criara.

— Calma, Sara. São apenas doces — disse Emanuel, a voz calma, mas com um brilho de divertimento nos olhos.

— Apenas doces? Era o mesversário da Valentina! O meu evento! E esse... esse selvagem destruiu tudo! Olha o chão! Olha o meu lustre!

— A festa continua, Sara — Emanuel declarou, voltando-se para os convidados. — Peço desculpas pelo entusiasmo do meu filho. Ele claramente tem um gosto crítico por decoração.

Alguns convidados riram, e o clima de tensão se dissipou para a maioria, menos para Sara e suas amigas. Elas se retiraram para a varanda, fumando cigarros eletrônicos e destilando ódio.

— Ela fez de propósito, Paula. Ela soltou ele para me humilhar — sibilou Sara, as unhas cravadas no parapeito. — Eu odeio aquela garota. Eu odeio como o Emanuel olha para aquele menino como se ele fosse um deus e a Valentina apenas uma boneca.

— Você precisa dar o troco, amiga — sugeriu Vanessa. — A Eduarda é fraca. Ela se esconde atrás daquela timidez, mas nós sabemos que ela quer o seu lugar.

Enquanto isso, na sala, Eduarda aproximou-se de Emanuel, que ainda segurava Arthur. O menino agora estava mais calmo, brincando com a corrente de ouro no pescoço do pai.

— Desculpe, Manu. Eu não devia ter soltado ele. A Sara vai me odiar para sempre agora.

— A Sara já te odeia, Duda. Não por causa do Arthur, mas porque você tem o que ela nunca vai ter: a minha admiração genuína. Ela quer o espetáculo; você quer o momento.

— Mas a Valentina... ela ficou tão assustada com a gritaria.

Emanuel olhou para a filha na carruagem. A bebê agora chorava baixinho, incomodada com o barulho, enquanto a babá tentava confortá-la porque Sara estava ocupada demais sendo a vítima da situação. Emanuel caminhou até a carruagem, pegou Valentina com o outro braço e ficou ali, no centro da sala, com um filho de cada lado.

A imagem era poderosa. O homem forte, tatuado, rico e reservado, segurando a delicadeza loira e a energia castanha.

— Eles são irmãos, Sara! — gritou Emanuel para a varanda. — Venha aqui e tire a foto da família que você tanto queria. Mas saiba de uma coisa: nesta casa, o caos do Arthur vale tanto quanto o brilho da Valentina.

Sara voltou para a sala, a contragosto, ajeitando o vestido manchado. Ela se posicionou ao lado de Emanuel, forçando um sorriso para as câmeras, enquanto Eduarda permanecia um passo atrás, observando tudo com sua sensibilidade intuitiva.

— Sorria, Eduarda — disse Emanuel, estendendo a mão para ela, puxando-a para o círculo familiar. — Você faz parte disso. Quer a Sara goste ou não.

A foto foi tirada. Sara de um lado, radiante e artificial; Eduarda do outro, tímida e real; Emanuel no centro, segurando o futuro de seu império nos braços.

A festa continuou, mas o "terror" de Arthur havia deixado sua marca. Os macarons esmagados no chão eram o símbolo de que a perfeição de Sara era frágil. Mais tarde, quando os convidados foram embora e a cobertura mergulhou no silêncio, Emanuel encontrou Eduarda no quarto de Arthur. Ela estava ninando o menino, que finalmente havia se rendido ao sono.

— Ele deu trabalho hoje, hein? — sussurrou Emanuel, abraçando-a por trás.

— Ele é como você, Manu. Não aceita ser ignorado.

— E a Valentina?

— A Sara a levou para o quarto. Disse que a menina precisava de um "detox de energia negativa".

Emanuel riu, beijando o pescoço de Eduarda.

— Eu adoro o seu cheiro de abóbora e bebê, sabia? É muito melhor que o perfume da Sara.

— Você diz isso agora... mas amanhã, quando ela aparecer com um novo vestido e aquele jeito de dona do mundo, você vai correr para ela.

Emanuel virou Eduarda para frente, olhando-a nos olhos.

— Eu corro para ela porque ela é o meu desafio. Mas eu volto para você porque você é a minha casa. Eu quero as duas, Duda. O fogo e a paz. E hoje, o Arthur provou que o fogo dele também é muito bem-vindo.

Eduarda sorriu, encostando a cabeça no peito tatuado dele. Ela sabia que a convivência com Sara seria uma guerra eterna de alfinetadas e luxo contra simplicidade, mas enquanto tivesse Emanuel e Arthur, ela suportaria qualquer mesversário extravagante.

No quarto principal, Sara observava Valentina dormir. Ela pegou o tablet e começou a deletar as fotos em que a mancha no seu vestido aparecia, editando a realidade até que parecesse perfeita novamente.

— Da próxima vez, Valentina — sussurrou Sara para a bebê —, nós faremos a festa em um iate. Longe de papinhas e de gente comum. O mundo ainda vai ser seu, pequena. Eu garanto.

O triângulo de Emanuel permanecia intacto, mas as linhas estavam cada vez mais profundas, como as tatuagens em sua pele. Ouro, glitter e papinha de abóbora agora faziam parte da mesma tela, e Emanuel era o artista que teria que aprender a misturar essas tintas sem deixar que o quadro fosse destruído.