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Diamantes, Rosas e Pelos de Cachorro

O sol mal havia despontado no horizonte e a cobertura de Emanuel já pulsava com uma energia frenética. Era o dia 24 de julho, o aniversário de Sara. Para qualquer pessoa comum, seria apenas mais uma data, mas para a loira, era o feriado nacional de sua própria existência. Emanuel, ciente do temperamento explosivo da namorada e de sua necessidade insaciável de ser o centro das atenções, havia planejado um dia que faria qualquer influenciadora do Instagram chorar de inveja.

Flores importadas da Holanda começaram a chegar às sete da manhã. O hall de entrada estava transformado em um jardim de rosas brancas e orquídeas raras. Emanuel, vestindo apenas uma calça de moletom cinza, conferia a lista de tarefas em seu celular enquanto tomava um café preto forte. Ele precisava que tudo fosse impecável; o estresse acumulado de seus estúdios de tatuagem era fichinha perto da logística de manter Sara satisfeita.

— Emanuel! — O grito veio do andar de cima, agudo e carregado de uma urgência dramática.

Ele suspirou, fechando os olhos por um segundo antes de subir as escadas. Ao entrar na suíte principal, encontrou Sara em pé sobre a cama king-size, usando um robe de seda rosa choque que mal cobria suas curvas esculpidas. Ela apontava furiosamente para o chão.

— Olha isso! Olha o que esse monstro fez! — Sara estava à beira de um ataque de nervos.

No tapete de pele de carneiro, repousava o que um dia fora um scarpin de edição limitada. Agora, era apenas um amontoado de couro mastigado e glitter. Bóris, o Rottweiler, estava sentado calmamente a poucos metros dali, com um pedaço de fita de cetim pendurado na boca, olhando para Emanuel com uma expressão que dizia claramente: "E faria de novo".

— Sara, calma... É o seu aniversário. Eu te compro dez pares iguais a esse — disse Emanuel, tentando manter o tom de voz controlado.

— Eu não quero dez pares, eu quero esse cachorro fora daqui! — Ela desceu da cama, os saltos batendo com força no piso de madeira. — Ele destruiu o meu presente de pré-aniversário! Ele sabe, Emanuel! Ele faz de propósito porque aquela songamonga treina ele para me atacar!

— A Duda não treina o Bóris para atacar ninguém, Sara. Ele é um filhote, ele morde coisas.

— Ele morde as *minhas* coisas! — Ela se aproximou de Emanuel, colando o corpo siliconado no dele, usando sua arma favorita: a sedução agressiva. — Hoje é o meu dia. Eu quero que você mande esse bicho para um canil. Só por hoje. Eu não quero pelos no meu vestido de festa.

Antes que Emanuel pudesse responder, a porta do quarto foi empurrada suavemente. Eduarda apareceu, parecendo um anjo deslocado em meio ao caos. Ela usava um pijama de seda azul claro, os cabelos castanhos presos em um coque frouxo e segurava uma pequena bandeja com um cupcake e uma vela acesa.

— Eu ouvi os gritos... — sussurrou Eduarda, com a voz pequena e doce. — Eu trouxe um bolinho para a Sara. Parabéns...

Sara olhou para o cupcake como se fosse um artefato radioativo.

— Você está de brincadeira, não é? — Sara soltou uma risada sarcástica. — Um cupcake de supermercado? Eduarda, poupe-me da sua caridade de faculdade pública.

Eduarda encolheu os ombros, os olhos grandes e úmidos fixando-se em Emanuel em busca de proteção. Ela caminhou timidamente até ele e se aninhou sob seu braço livre, ignorando o olhar assassino de Sara.

— Eu mesma fiz, Manu... — disse ela, manhosa, esfregando o rosto no ombro dele. — Achei que seria gentil. O Bóris também queria dar parabéns, mas ele se empolgou com o sapato...

— Você ouviu isso?! — Sara explodiu. — Ela admite! Ela acha engraçado!

Emanuel sentiu a dor de cabeça começando a latejar atrás dos olhos. De um lado, Sara exigia a perfeição e a exclusão de qualquer coisa que não fosse ela; do outro, Eduarda usava sua vulnerabilidade para se manter grudada a ele, marcando território de uma forma muito mais sutil, mas igualmente eficaz.

— Chega — decretou Emanuel. — Sara, vá se arrumar. O spa chega em trinta minutos. Duda, leve o Bóris para o jardim e limpe essa bagunça. Eu vou resolver o problema do sapato.

— Mas Manu... — Eduarda fez um biquinho, olhando para ele com uma adoração quase infantil. — Eu queria ficar com você hoje. Você vai passar o dia todo com ela?

— É o aniversário dela, Eduarda — respondeu ele, embora sua mão tenha acariciado o cabelo dela por puro reflexo. — Seja uma boa menina e não cause problemas.

Eduarda assentiu, saindo do quarto com passos lentos, mas não antes de lançar um olhar vitorioso por cima do ombro para Sara, que estava ocupada demais escolhendo quais joias usaria para a primeira sessão de fotos do dia.

As horas seguintes foram um teste de resistência para Emanuel. Sara exigia atenção constante. Ele teve que aprovar cada ângulo das fotos que ela tirava com o café da manhã luxuoso, teve que lidar com o maquiador que chegou dez minutos atrasado e, principalmente, teve que manter Bóris longe do campo de visão da loira.

Eduarda, por sua vez, adotou a estratégia do silêncio ruidoso. Ela não reclamava, mas aparecia nos cômodos sempre que Emanuel estava sozinho, agindo de forma extremamente carente.

— Manu, o Bóris não quer comer... — disse ela, entrando no escritório de Emanuel por volta das onze da manhã. Ela se sentou no colo dele, ignorando os papéis sobre a mesa. — Acho que ele sentiu que você está bravo com ele.

— Duda, eu estou trabalhando e tentando organizar a festa da noite.

— Eu sei... — Ela começou a brincar com os botões da camisa dele, a voz tornando-se um sussurro melancólico. — É que eu me sinto tão sozinha quando você foca só nela. Eu sei que ela é linda e... exuberante. Eu sou só a Duda.

Emanuel suspirou, sentindo a manipulação emocional de Eduarda envolvê-lo como um cobertor quente. Ele a abraçou pela cintura, sentindo a maciez de seu corpo esguio.

— Você sabe que não é "só a Duda". Você é a minha paz. Mas hoje eu preciso que você colabore.

— Eu colaboro... — Ela deu um beijo casto no queixo dele. — Mas você promete que amanhã vai ser só nosso? Sem gritos, sem silicone, sem sessões de fotos?

— Prometo.

— Emanuel! Onde você está? O buffet chegou e eles não sabem onde colocar a torre de frutos do mar! — A voz de Sara ecoou pelo corredor, seguida pelo som de seus saltos.

Eduarda pulou do colo de Emanuel segundos antes de Sara entrar. A loira estava com um vestido dourado tão justo que parecia pintado no corpo, os seios destacados pelo decote profundo.

— O que ela está fazendo aqui de novo? — perguntou Sara, cruzando os braços.

— O cachorro não está bem — mentiu Emanuel rapidamente.

— Ótimo, espero que ele tenha uma indigestão com o meu couro legítimo — rebateu Sara. — Emanuel, venha agora. Eu quero que você veja se a decoração da piscina está simétrica.

O ápice do caos aconteceu durante o almoço. Emanuel havia montado uma mesa externa, sob o pergolado de flores. Tudo parecia estar indo bem até que Bóris, que deveria estar preso no canil de luxo no fundo do jardim, apareceu correndo como um torpedo preto e canela.

O cachorro não estava apenas correndo; ele estava perseguindo um esquilo imaginário ou talvez apenas celebrando sua liberdade. O problema foi o trajeto. Bóris saltou sobre a mesa, derrubando a torre de champanhe e aterrissando diretamente sobre o prato de lagosta de Sara.

Houve um silêncio de três segundos, seguido por um grito que provavelmente foi ouvido em outros bairros.

— MEU VESTIDO! MEU CABELO! — Sara estava coberta de molho de manteiga e pedaços de crustáceos. Bóris, feliz da vida, sacudiu o corpo, espalhando gotas de gordura por toda a decoração dourada.

Emanuel se levantou, a fúria finalmente transbordando.

— EDUARDA! — ele trovejou.

Eduarda apareceu correndo do jardim, com uma expressão de horror que Emanuel não sabia se era real ou fingida.

— Ai meu Deus! Bóris! Como você saiu de lá? — Ela correu até o cachorro, abraçando-o e sujando-se propositalmente de molho. — Desculpa, Manu! A trava deve ter quebrado! Ele é só um bebê, ele não sabe o que é uma festa!

— Um bebê de quarenta quilos que acabou de destruir dez mil reais em decoração! — gritou Sara, tentando limpar o vestido com um guardanapo, o que só piorou a mancha. — Emanuel, faça alguma coisa! Matem esse bicho!

— Ninguém vai matar ninguém — disse Emanuel, a voz gélida. — Sara, vá tomar um banho. Eduarda, leve esse cachorro para a área de serviço agora e não saia de lá até eu mandar.

— Mas Manu, eu também me sujei... — começou Eduarda, com os olhos começando a brilhar com lágrimas.

— AGORA, Eduarda!

Pela primeira vez no dia, as duas obedeceram imediatamente, intimidadas pelo tom de autoridade absoluta de Emanuel.

O resto da tarde foi um exercício de diplomacia de guerra. Emanuel teve que acalmar Sara com um par de brincos de diamante que ele planejava dar apenas à noite, e teve que ignorar as mensagens de texto de Eduarda enviando fotos de Bóris com "cara de triste".

Ao entardecer, a festa começou. A elite da cidade estava presente. O estúdio de tatuagem de Emanuel era um sucesso mundial, e sua cobertura era o lugar onde todos queriam estar. Sara estava radiante, tendo trocado o vestido dourado por um prateado ainda mais ousado. Ela circulava entre os convidados, exibindo os diamantes e agindo como se o incidente da lagosta nunca tivesse ocorrido.

Eduarda, fiel ao seu estilo, apareceu na festa usando um vestido de seda verde água, discreto e romântico. Ela não falava com ninguém, preferindo ficar em um canto perto da varanda, observando Emanuel com um olhar de saudade, agindo como a namorada negligenciada que atraía a simpatia de todos os homens mais velhos da festa.

Emanuel estava exausto. Ele segurava um copo de uísque, tentando manter conversas profissionais, quando sentiu uma mão em seu braço. Era Sara.

— Emanuel, querido, é hora do brinde — disse ela, com um sorriso de comercial de creme dental. — E eu quero que você anuncie a nossa viagem para as Maldivas.

Antes que ele pudesse responder, Eduarda se aproximou do outro lado, segurando a mão de Emanuel com força.

— Manu... eu estou com dor de cabeça. O barulho está muito alto. Você pode me levar para o quarto só um pouquinho? — Ela encostou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos com uma expressão de dor manhosamente ensaiada.

Emanuel olhou para as duas. Sara, a imagem da ambição e do brilho; Eduarda, a imagem do conforto e da necessidade.

— Ele não vai a lugar nenhum, sua parasita — sibilou Sara, mantendo o sorriso para os convidados. — É o meu aniversário.

— Ele é o meu namorado também, Sara... — respondeu Eduarda, a voz trêmula. — E eu não estou bem.

A tensão estava prestes a explodir novamente quando um som familiar e aterrorizante veio de dentro do apartamento. Um som de algo pesado caindo e vidro se quebrando.

Emanuel correu para dentro, seguido pelas duas mulheres. No meio da sala de jantar, o bolo de cinco andares de Sara estava no chão. Bóris estava parado sobre os escombros de glacê e pasta americana, lambendo calmamente o recheio de pistache. O cachorro havia conseguido abrir a porta de correr da área de serviço.

Sara soltou um som que não era humano. Ela avançou para o cachorro com a intenção de chutá-lo, mas Eduarda se atirou na frente, ajoelhando-se no glacê.

— Não encosta nele! — gritou Eduarda. — Foi um acidente!

— Acidente? Ele destruiu o meu dia! Tudo! — Sara começou a chorar, a maquiagem cara borrando pela primeira vez. — Emanuel, escolha! Ou esse cachorro e essa garota saem desta casa agora, ou eu saio!

Os convidados se amontoavam na porta, observando o espetáculo. Emanuel olhou para o bolo destruído, para a namorada loira em frangalhos e para a namorada castanha coberta de açúcar abraçada a um Rottweiler que parecia muito satisfeito consigo mesmo.

Ele caminhou até o centro da sala. O silêncio era absoluto.

— Sara — disse ele, a voz baixa e perigosa. — É o seu aniversário e eu te dei tudo o que você pediu. O sapato, as joias, a festa. Se você quer ir embora porque um cachorro comeu o seu bolo, a porta está aberta. Eu não aceito ultimatos.

Sara arregalou os olhos, chocada. Ela nunca imaginou que ele não escolheria o lado dela no dia "dela".

— E você, Eduarda — continuou ele, virando-se para a jovem no chão. — Pare de tratar esse animal como se ele fosse um ser humano. Ele vai para um centro de adestramento amanhã cedo e vai ficar lá por um mês. E você vai parar com esse teatro de vítima. Eu sei que você deixou a porta da área de serviço aberta.

Eduarda empalideceu, o biquinho desaparecendo instantaneamente.

— Manu, eu...

— Chega. As duas.

Emanuel virou o restante do seu uísque de uma vez e olhou para os convidados.

— A festa acabou. Agradeço a presença de todos.

Em trinta minutos, a cobertura estava vazia, exceto pelos três e o cachorro. Sara estava em um canto da varanda, fumando um cigarro e olhando para a cidade com ódio. Eduarda estava sentada no sofá, limpando o vestido com um lenço úmido, em silêncio absoluto.

Emanuel sentou-se na sua poltrona favorita e chamou Bóris. O cachorro caminhou até ele, com o rabo balançando levemente. Emanuel passou a mão pela cabeça do animal, sentindo o resto de glacê nos pelos.

— Foi um dia perfeito, não foi? — ironizou ele para o vazio da sala.

Eduarda levantou-se e caminhou até ele, sentando-se no chão aos seus pés, apoiando a cabeça em seu joelho.

— Desculpa, Manu... — sussurrou ela, voltando ao seu tom manhoso. — Eu só queria que você prestasse atenção em mim.

Sara entrou na sala, jogando a bolsa de grife sobre a mesa.

— Você é um idiota, Emanuel. Mas você é o idiota mais rico que eu conheço. — Ela caminhou até ele e sentou-se no outro braço da poltrona. — Eu quero um carro novo para compensar o bolo.

Emanuel olhou para uma, depois para a outra. Ele sabia que estava preso em um ciclo vicioso de manipulação, luxúria e drama. Mas, enquanto sentia a mão de Sara em seu pescoço e a cabeça de Eduarda em seu joelho, ele percebeu que, de uma forma distorcida e doentia, aquele caos era a única coisa que o fazia se sentir vivo.

— Amanhã — disse ele, fechando os olhos. — Amanhã nós resolvemos o carro e o adestramento. Hoje, eu só quero silêncio.

Bóris soltou um suspiro longo e deitou-se sobre os pés de Emanuel. Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, as duas mulheres não brigaram. Elas apenas ficaram ali, cada uma garantindo seu pedaço do homem que ambas tentavam controlar, enquanto o Rottweiler dormia o sono dos justos, com o estômago cheio de bolo de aniversário.