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O Labirinto de Chantagens e Lágrimas
A manhã seguinte ao desastroso aniversário de Sara nasceu com um silêncio pesado, daqueles que precedem as grandes tempestades. O cheiro de glacê de pistache ainda impregnava discretamente o ar da sala de jantar, apesar da equipe de limpeza ter trabalhado durante a madrugada para apagar os rastros da destruição de Bóris. Emanuel estava na cabeceira da mesa, vestindo um terno sob medida, pronto para uma maratona de reuniões em seus estúdios. Sua expressão era de um cansaço absoluto, mas seus olhos mantinham a firmeza de quem havia tomado uma decisão irrevogável.
Eduarda entrou na cozinha com passos tão leves que parecia flutuar. Ela não usava suas roupas românticas habituais; estava com um camisetão de Emanuel que ia até o meio das coxas e os cabelos castanhos propositalmente desgrenhados, conferindo-lhe um ar de vulnerabilidade extrema. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, resultado de uma noite que ela garantiu que fosse regada a soluços audíveis vindos do quarto ao lado.
— Bom dia, Manu... — sussurrou ela, aproximando-se da cadeira dele e apoiando o queixo em seu ombro, como um gatinho carente buscando calor.
— Bom dia, Eduarda — respondeu Emanuel, sem desviar os olhos do tablet onde revisava orçamentos. — O adestrador chega em duas horas. Espero que você já tenha organizado as coisas do Bóris.
Eduarda sentiu um aperto no peito. Ela apertou o abraço no pescoço dele, deixando uma lágrima solitária cair sobre o tecido caro do paletó de Emanuel.
— Você não pode estar falando sério, Manu... Um mês? É muito tempo. Ele é só um bebê, ele vai achar que nós o abandonamos. Ele vai entrar em depressão, eu sei que vai.
— Ele é um cachorro de grande porte, Duda, não uma criança de colo — Emanuel disse, finalmente deixando o tablet de lado e virando-se para encará-la. — Ele destruiu uma festa de milhares de reais ontem. Ele precisa de disciplina que você não consegue dar porque o trata como se ele fosse feito de cristal.
— Eu dou amor! — ela protestou, a voz subindo um tom, carregada de mágoa. — O mundo já é tão duro com ele, as pessoas olham para ele com medo na rua... Se ele for para aquele lugar, vão usar coleiras de choque, vão gritar com ele... Eu não vou aguentar pensar no meu bebezinho sofrendo.
Emanuel suspirou, sentindo a manipulação emocional começar a corroer sua determinação. Eduarda tinha esse dom: ela não gritava como Sara, ela implodia, e os estilhaços de sua tristeza sempre atingiam o ponto mais fraco de Emanuel — seu instinto protetor.
— É um centro de treinamento de elite, Eduarda. Ele vai ter piscina, campo de grama e profissionais qualificados. Ninguém vai maltratar o cachorro.
Nesse momento, o som rítmico e arrogante de saltos altos anunciou a chegada da terceira ponta daquele triângulo caótico. Sara entrou na cozinha usando um conjunto de academia de grife, branco e justíssimo, que realçava seu bronzeado e suas curvas artificiais. Ela segurava um copo de suco verde e um sorriso de puro escárnio.
— Bom dia, família buscapé! — Sara exclamou, encostando-se no balcão de mármore. — Ainda discutindo sobre o monstro peludo? Emanuel, querido, não dê ouvidos a esse drama de novela das nove. O caminhão do adestramento deveria ter chegado ontem à noite.
Eduarda se encolheu contra Emanuel, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Viu só? Ela quer se livrar dele porque odeia tudo o que eu amo — choramingou Eduarda.
— Eu não odeio o que você ama, "História da Arte", eu odeio o que destrói o meu patrimônio e os meus nervos — rebateu Sara, tomando um gole de seu suco e olhando para Eduarda com desprezo. — Emanuel, se você ceder e deixar esse bicho aqui, eu juro que contrato um decorador para refazer o apartamento inteiro e mando a conta para o seu estúdio de Londres. E vou escolher tudo em tons que a sua protegida detesta.
Emanuel massageou as têmporas. O conflito entre as duas era como uma música dissonante que nunca parava de tocar.
— Sara, vá para a academia. Eduarda, vá arrumar as coisas do cachorro. Agora.
— Eu não vou! — Eduarda soltou Emanuel e deu um passo para trás, os braços cruzados sobre o peito. — Se o Bóris for, eu vou junto! Eu não vou deixar ele sozinho naquele lugar frio e impessoal.
Sara soltou uma gargalhada estridente.
— Ah, por favor! Vai morar no canil agora? Seria apropriado, já que você passa o dia todo de quatro no chão brincando com ele. Emanuel, você vai mesmo deixar ela falar assim com você? Cadê o homem que comanda dez estúdios e faz mafioso tremer na cadeira de tatuagem?
Emanuel levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando no chão com um som estridente. Sua paciência havia atingido o limite absoluto.
— Chega! — ele trovejou, e o silêncio caiu instantaneamente. — Eduarda, o Bóris vai. Ponto final. Eu não vou discutir segurança e disciplina com uma menina de vinte anos que acha que a vida é um museu de sentimentos fofos. E Sara, se você disser mais uma palavra sobre o cachorro, eu cancelo a reserva do restaurante de hoje à noite e você vai passar o resto do dia trancada aqui com a "energia negativa" que você tanto reclama.
Sara revirou os olhos, mas calou-se. Ela sabia quando Emanuel estava prestes a explodir de verdade, e perder o jantar de luxo não estava nos seus planos. Ela pegou seu celular e saiu da cozinha, rebolando de forma provocativa, deixando o rastro de seu perfume forte para trás.
Eduarda, vendo que o confronto direto havia falhado, mudou de tática instantaneamente. Ela não gritou. Em vez disso, sentou-se na cadeira que Emanuel acabara de ocupar e cobriu o rosto com as mãos, soltando soluços baixos, rítmicos e dolorosos.
— Você não me ama... — ela disse entre os dedos. — Você só quer me controlar. Você sabe que ele é a única coisa que me faz companhia quando você está trabalhando ou... com ela. Você quer me deixar sozinha.
Emanuel sentiu a pontada de culpa. Ele sabia que passava muito tempo fora e que a dinâmica entre as duas mulheres era tóxica. Bóris era, de fato, o refúgio de Eduarda.
— Duda, não é assim...
— É sim! — Ela levantou o rosto, as lágrimas escorrendo por suas bochechas pálidas, os lábios trêmulos em um biquinho irresistível. — Se você o levar, eu vou ficar definhando aqui dentro. Eu não vou conseguir estudar, não vou conseguir comer... Por favor, Manu. Deixa ele ficar. Eu prometo que vou ser firme. Eu prometo que vou ler aqueles livros de adestramento que você comprou.
Emanuel suspirou, aproximando-se e ajoelhando-se na frente dela, segurando suas mãos pequenas.
— Você prometeu isso na semana passada, pequena. E ontem ele destruiu o bolo da Sara.
— Foi um acidente! A porta estava mal fechada! — Ela se inclinou para frente, roçando o nariz no dele, usando toda a sua manha. — Por favor, meu amor... Só mais uma chance. Se ele fizer qualquer coisa errada nesta semana, eu mesma ajudo ele a entrar no carro do adestrador. Eu juro pela minha faculdade.
Emanuel olhou para aqueles olhos suplicantes. Ele era um homem prático, mas Eduarda era sua fraqueza estética e emocional. Ela era a suavidade que ele não encontrava em seu mundo de tintas e agulhas, nem na agressividade de Sara.
— Uma semana, Eduarda — ele disse, a voz rouca. — Se ele rasgar um tapete, se ele rosnar para a Sara, ou se ele pular em um convidado... ele vai embora por dois meses em vez de um. Estamos entendidos?
Eduarda abriu um sorriso radiante, as lágrimas ainda brilhando em seu rosto. Ela se atirou nos braços dele, cobrindo seu rosto de beijos.
— Obrigada, obrigada, obrigada! Você é o melhor homem do mundo! Eu te amo tanto!
Emanuel a segurou pela cintura, sentindo o alívio dela, mas também a preocupação de que acabara de cometer um erro estratégico.
— Vá limpar esse rosto. E avise ao pessoal da portaria que o adestrador não vai mais subir. Eu vou ter que pagar a taxa de cancelamento por sua causa.
Eduarda correu para o jardim para dar a notícia ao "bebê", deixando Emanuel sozinho com seus pensamentos. Dez minutos depois, Sara voltou para a cozinha, já com a bolsa de academia no ombro.
— O caminhão do adestrador acabou de sair da frente do prédio sem o cachorro, Emanuel. Posso saber o que aconteceu? — A voz de Sara era puro gelo.
— Eu dei mais uma semana de prazo — Emanuel disse, sem olhar para ela, concentrado em seu café.
Sara soltou uma risada seca e sem humor.
— Você é patético. Aquela garotinha chorou dois minutos e você abriu as pernas? Onde está o homem de ferro que eu conheci?
— Eu decidi que era o melhor para a harmonia da casa, Sara. Eduarda está muito apegada ao animal.
— Harmonia? — Sara caminhou até ele, batendo a mão na mesa. — Você chama isso de harmonia? Ela manipula você com esse jeitinho de "ai, eu sou tão sensível", e você cai como um patinho. Enquanto isso, eu sou a vilã porque exijo o mínimo de higiene e segurança. Pois bem, Emanuel. Se o cachorro fica, as regras mudam.
— Que regras, Sara? — Emanuel perguntou, cansado.
— Se aquela songamonga tem o direito de manter o monstro dela aqui, eu tenho o direito de usar o espaço como eu quiser. Eu vou trazer o meu fotógrafo amanhã. Vou fazer a sessão de fotos com o cachorro, quer você queira ou não. Se ele é tão "mansinho" e "educado" como ela diz, ele vai posar lindamente ao meu lado enquanto eu uso aquela lingerie de renda que você comprou em Paris.
Emanuel levantou o olhar, a irritação voltando a subir.
— Eu já disse que não quero fotos com o Bóris, Sara. É perigoso para você e estressante para ele.
— Perigoso? — Sara arqueou uma sobrancelha. — Se ele é perigoso, ele tem que ser adestrado. Se ele não é perigoso, ele pode tirar fotos. Você não pode ter as duas coisas, Emanuel. Ou você admite que ele é uma fera e o manda embora, ou admite que ele é o "bebê" da Eduarda e me deixa usá-lo como acessório. Escolha.
Emanuel sentiu-se encurralado. Sara era inteligente e sabia usar a lógica dele contra ele mesmo.
— Faça o que quiser, Sara. Mas se ele te morder ou destruir o seu cenário, não venha chorar no meu ombro. Eu não vou interferir.
— Ah, ele não vai me morder — Sara disse, com um sorriso vitorioso. — Eu sei lidar com feras muito melhor do que a Eduarda.
O dia transcorreu em uma trégua armada. Eduarda passou a tarde no jardim, lendo em voz alta para Bóris, tentando desesperadamente "educá-lo" através de conversas suaves e biscoitos orgânicos. Sara, por outro lado, estava ao telefone organizando sua produção, com um olhar de quem planejava uma vingança refinada.
Na manhã seguinte, a cobertura foi invadida por uma equipe de três pessoas: um fotógrafo, um assistente e um maquiador. Equipamentos de iluminação foram montados na sala de estar, transformando o ambiente sofisticado em um estúdio profissional.
Emanuel estava em seu escritório, tentando ignorar a movimentação, mas o barulho era inevitável. Eduarda apareceu na porta, tremendo de indignação.
— Manu! Você viu o que ela está fazendo? Ela trouxe luzes de flash, refletores... O Bóris está ficando agitado! Ele odeia luzes fortes!
— Eu sei, Duda. Mas eu tive que ceder para ela também. É o equilíbrio da casa.
— Equilíbrio? Ela vai usar o *meu* cachorro para tirar fotos vulgares! Ela está vestida com uma lingerie que nem cobre nada! É um desrespeito com o Bóris e comigo!
— Eduarda, por favor, eu tenho uma videoconferência em dez minutos. Apenas mantenha o cachorro sob controle.
Eduarda saiu do escritório bufando, algo raro para ela. Ela caminhou até a sala e encontrou Sara posando em uma poltrona de couro. A loira estava deslumbrante, é verdade, mas de uma forma que Eduarda considerava agressiva. Ela usava um conjunto de renda preta e saltos agulha vermelhos.
— Traga o modelo, querida — ordenou Sara, sem olhar para Eduarda, enquanto o maquiador retocava seu batom. — E tente não aparecer nas fotos com esse seu cardigã de vovó.
Eduarda segurava Bóris pela coleira. O cachorro estava visivelmente incomodado com os cabos pelo chão e o calor das lâmpadas.
— Ele não quer fazer isso, Sara. Olha para as orelhas dele, ele está estressado.
— Ele está ótimo. Coloque-o aqui do meu lado. Agora.
Relutante, Eduarda guiou Bóris até a poltrona. O fotógrafo começou a disparar os flashes. *Click. Click. Click.*
Bóris soltou um bocejo tenso, mostrando os dentes enormes.
— Isso! — exclamou o fotógrafo. — Parece que ele está rosnando, dá um ar selvagem! Sara, coloque a mão no pescoço dele.
Sara, confiante em sua dominância, estendeu a mão com unhas longas e vermelhas para o pescoço de Bóris. O cachorro recuou, soltando um som gutural que fez o assistente de fotografia dar um passo para trás.
— Bóris, bebezinho, fica quieto... — pediu Eduarda, tentando se aproximar, mas sendo impedida pelo fotógrafo que não queria que ela estragasse o enquadramento.
— Fica quieto, seu bicho estúpido — sibilou Sara, forçando a mão sobre a cabeça do cão para mantê-lo na posição.
O que aconteceu em seguida foi um borrão de movimento. Bóris não mordeu Sara, mas soltou um latido tão potente e súbito que a loira, assustada, perdeu o equilíbrio nos saltos agulha e caiu da poltrona, derrubando um dos tripés de iluminação. O refletor caiu sobre a mesa de centro de vidro, que se estilhaçou com um estrondo ensurdecedor.
— MEU DEUS! — gritou Eduarda, correndo para segurar Bóris, que agora latia furiosamente para o fotógrafo.
Sara estava no chão, cercada de cacos de vidro, com o cabelo desarrumado e uma expressão de puro terror. Emanuel saiu correndo do escritório ao ouvir o barulho.
— O que foi isso?! — ele gritou, vendo o caos na sua sala.
— O seu cachorro tentou me matar! — gritou Sara, levantando-se com dificuldade, a respiração ofegante. — Ele avançou em mim! Ele destruiu tudo!
— Ele não avançou! Ele só se assustou com o flash e com você apertando a cabeça dele! — defendeu Eduarda, abraçada ao pescoço do cão, que ainda rosnava baixo.
Emanuel olhou para o vidro quebrado, para o equipamento destruído e para o medo nos olhos de sua equipe de fotografia. Ele caminhou até o centro da sala, sua presença emanando uma autoridade gélida que fez todos se calarem.
— Todos fora — ele disse para a equipe de fotografia. — Agora. Eu mando o cheque para cobrir os danos do equipamento.
Em menos de dois minutos, os estranhos haviam desaparecido. Restavam apenas os três e o cachorro, em meio aos destroços de vidro.
— Acabou a palhaçada — Emanuel disse, olhando para as duas mulheres. — Sara, você provou o seu ponto. Ele é imprevisível. Eduarda, você provou o seu ponto. Você não tem controle nenhum sobre ele.
— Manu, por favor... — Eduarda começou a chorar.
— Não tem "por favor". Eu dei uma semana e ele não durou uma hora. O adestrador vem buscar o Bóris hoje à tarde. E se alguma de vocês reclamar, eu juro que mando o cachorro para uma fazenda no interior e nenhuma de vocês volta a vê-lo.
Sara, ainda trêmula e sentindo-se humilhada por ter caído no chão na frente de estranhos, não disse nada. Ela apenas subiu as escadas em silêncio, sua derrota sendo tão amarga quanto o vidro quebrado.
Eduarda caiu de joelhos no chão, ignorando os pequenos cortes que o vidro fazia em sua pele, e abraçou Bóris com toda a sua força.
— Eu sinto muito, meu bebezinho... Eu sinto muito...
Emanuel olhou para a cena. Ele sentia o coração apertado pela tristeza de Eduarda, mas sua mente racional sabia que era o necessário. Ele se aproximou e tocou o ombro dela.
— É para o bem dele, Duda. E para o nosso.
— Você está tirando a única coisa que me entende nesta casa — ela soltou, a voz carregada de uma amargura que Emanuel nunca tinha ouvido.
— Talvez — Emanuel respondeu, com uma sinceridade dolorosa — eu esteja tirando a única coisa que impede você de enfrentar a realidade de que esta casa nunca será um lugar de paz enquanto você e a Sara tentarem se destruir usando tudo o que encontram pelo caminho. Incluindo a mim. E incluindo o cachorro.
Emanuel saiu da sala, deixando Eduarda sozinha com o seu "bebê" e o som dos cacos de vidro sob seus pés. Naquela tarde, o caminhão do adestramento finalmente levou Bóris. A cobertura ficou silenciosa, um silêncio oco e frio que nem o luxo de Emanuel, nem a beleza de Sara, nem a doçura de Eduarda conseguiam preencher. A guerra continuava, mas o campo de batalha agora estava vazio, aguardando o próximo movimento de um jogo onde ninguém parecia destinado a vencer.