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Equilíbrio de Vidro e Pétalas
Seis meses haviam se passado desde que o silêncio pesado da partida de Bóris preenchera os corredores da cobertura. O tempo, no entanto, não curara as feridas daquela convivência forçada; apenas as tornara mais profundas e silenciosas. Bóris voltara do adestramento transformado em um cão de guarda impecável e disciplinado, mas a alegria caótica que ele trazia fora substituída por uma vigilância tensa. Ele agora dormia em seu próprio espaço, seguia comandos secos de Emanuel e parecia ter entendido que, naquela casa, a ternura era um recurso escasso e perigoso.
Emanuel, sentindo o peso da atmosfera gélida que se instalara em seu lar, decidiu que era hora de uma tentativa de trégua. Ele sabia que Eduarda havia se fechado em um casulo de melancolia e que Sara estava mais afiada do que nunca, sentindo-se a rainha incontestável após a "domação" do cachorro. Ele parou em uma floricultura exclusiva no caminho de volta do estúdio e comprou dois buquês.
O primeiro era de lírios brancos e rosas chá, delicados e suaves, que exalavam um perfume doce e discreto — a cara de Eduarda. O segundo era um arranjo extravagante de rosas vermelhas de caule longo, tingidas nas pontas de um dourado metálico, imponentes e vulgares na medida certa para agradar ao ego de Sara.
Ao entrar no apartamento, Emanuel encontrou o cenário típico de suas tardes. Sara estava esparramada no sofá de couro, analisando amostras de tecidos para uma reforma que ela insistia em fazer, enquanto Eduarda estava sentada no canto mais distante da sala, com um livro de História da Arte sobre os joelhos, mas com os olhos perdidos na vista da cidade.
— Cheguei — anunciou Emanuel, sua voz grave ressoando no ambiente.
Sara levantou o olhar imediatamente, um sorriso predatório surgindo em seus lábios pintados de carmim.
— Finalmente, querido. Achei que as agulhas tinham te prendido na cadeira hoje.
Emanuel caminhou até o centro da sala e estendeu o buquê dourado para Sara.
— Para você. Pela paciência com as obras no estúdio novo.
Sara pegou as flores com um brilho de triunfo nos olhos, cheirando-as com uma satisfação teatral.
— Maravilhosas. Combinam com o meu novo conjunto de joias. Você sempre sabe como me agradar quando quer, Manu.
Emanuel então se virou para Eduarda. Ela não se moveu, apenas levantou os olhos castanhos, que agora pareciam maiores e mais tristes em seu rosto pálido. Ele se aproximou e estendeu o buquê delicado.
— E estas são para você, pequena. Vi e lembrei do seu jardim preferido.
Eduarda estendeu as mãos trêmulas e pegou as flores. Ela não sorriu. Apenas apertou o buquê contra o peito e murmurou um agradecimento quase inaudível.
— Obrigada, Manu... São lindas.
— "Lindas"? — Sara soltou uma risada ruidosa, jogando o seu buquê sobre a mesa de centro. — Elas são pálidas, Emanuel. Parecem flores de velório. Mas acho que combinam com o humor de defunta que a sua protegida adotou ultimamente.
Eduarda encolheu os ombros, abaixando a cabeça até que seu rosto ficasse escondido pelas pétalas dos lírios. Ela não respondeu. Nos últimos meses, qualquer faísca de rebeldia que Eduarda possuía fora sufocada pelo medo constante de Sara. A loira não batia, não fisicamente, mas suas palavras eram como chicotes, e a forma como ela conseguia manipular as situações para que Eduarda parecesse sempre a culpada ou a "louca" criara uma barreira de terror.
— Sara, não comece — avisou Emanuel, sentando-se na poltrona e observando as duas. — Eu trouxe flores para as duas justamente para termos uma noite de paz.
— Paz? — Sara levantou-se e caminhou até Eduarda, parando bem à frente dela. — É difícil ter paz quando se vive com uma sombra que não abre a boca para nada, mas que vive choramingando pelos cantos. O que foi agora, Eduarda? Vai chorar porque as flores não são da cor que você queria?
Eduarda apertou os dedos nos caules das flores, sentindo um espinho cravar em sua pele, mas não se atreveu a reclamar.
— Não, Sara... eu gostei delas. De verdade.
— Então por que essa cara de enterro? — Sara inclinou-se, ficando com o rosto a centímetros do de Eduarda. — Sabe o que eu acho? Eu acho que você sente falta de quando o cachorro era um idiota mimado que destruía as coisas. Agora que ele me respeita, você não tem mais um aliado, não é? Ficou sozinha no seu mundinho de papel.
— Eu não estou sozinha — sussurrou Eduarda, lançando um olhar suplicante para Emanuel.
Emanuel sentiu a irritação crescer. Ele odiava a fragilidade excessiva de Eduarda tanto quanto odiava a crueldade gratuita de Sara. Ele se sentia como um juiz em um tribunal onde as duas partes estavam erradas.
— Sara, deixe-a em paz. Eduarda, vá colocar as flores em um vaso e peça para a governanta preparar o jantar.
Eduarda levantou-se rapidamente, quase tropeçando nos próprios pés na pressa de sair da presença de Sara. Ela caminhou para a cozinha com os ombros encolhidos, como se esperasse um golpe a qualquer momento.
— Você está sendo muito dura com ela — disse Emanuel, assim que Eduarda saiu.
— Eu estou sendo realista, Emanuel — rebateu Sara, sentando-se no colo dele e passando os braços pelo seu pescoço. — Ela é um peso morto nesta casa. Você a mantém por pena. Olha para ela, ela tem medo da própria sombra. Que tipo de mulher é essa para um homem como você? Você precisa de fogo, de presença. Não de uma menina que parece que vai quebrar se você falar um pouco mais alto.
Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo o cansaço acumulado.
— Ela passou por muita coisa, Sara. O incidente com o Bóris mexeu com ela. Ela sente que perdeu o controle sobre a única coisa que ela sentia que era dela.
— Ela nunca teve controle sobre nada — Sara riu, roçando o nariz no dele. — E você adora isso, não adora? Adora ser o salvador dela. Mas não se esqueça de quem realmente te desafia, Manu. Quem realmente te mantém acordado à noite.
Na cozinha, Eduarda colocava as flores no vaso com as mãos ainda trêmulas. Ela ouvia o som da risada de Sara vindo da sala e sentia uma náusea profunda. Bóris estava deitado perto da porta de serviço, imóvel como uma estátua. Ela se aproximou dele e estendeu a mão para acariciar sua cabeça, mas o cão apenas inclinou os olhos para ela, mantendo a postura rígida.
— Você também mudou, não foi, bebezinho? — ela sussurrou, as lágrimas finalmente transbordando. — Agora você é um soldado do papai. E eu... eu não sou nada.
Ela tinha medo. Medo de Sara, medo de perder o pouco que restava do afeto de Emanuel e, acima de tudo, medo de si mesma e de sua incapacidade de reagir. Cada vez que Sara a provocava, Eduarda sentia que sua voz desaparecia, sua garganta se fechava e o mundo se tornava um lugar escuro e perigoso.
O jantar foi servido sob uma tensão quase palpável. Emanuel tentava puxar assuntos triviais sobre os estúdios em Berlim, mas as respostas eram monossilábicas. Sara comia com uma elegância agressiva, cortando a carne como se estivesse fatiando seus inimigos, enquanto Eduarda apenas empurrava a comida de um lado para o outro no prato.
— Amanhã eu vou ao shopping — declarou Sara, quebrando o silêncio. — Preciso de roupas novas para a festa de inauguração do estúdio de artes. E você vem comigo, Eduarda.
Eduarda levantou os olhos, em pânico.
— Eu... eu tenho aula amanhã, Sara. Tenho um seminário sobre o Barroco.
— O Barroco pode esperar — disse Sara, com um sorriso gélido. — Você precisa de um banho de loja. Esse seu estilo "camponesa órfã" está me dando nos nervos. Você vai representar o Emanuel, precisa parecer alguém, não uma sombra.
— Eu prefiro minhas roupas, Sara... por favor.
— Eu não perguntei o que você prefere — Sara disse, voltando-se para Emanuel. — Não é, querido? Ela precisa de uma repaginada. Ela está te envergonhando.
Emanuel olhou para Eduarda e viu o terror em seus olhos. Ele sabia que Sara só queria usá-la como uma boneca para humilhá-la ainda mais, provando que podia mudar até a aparência da rival.
— Talvez umas roupas novas façam você se sentir melhor, Duda — disse Emanuel, tentando ser diplomático, mas falhando miseravelmente ao não perceber a profundidade do medo dela.
Eduarda baixou a cabeça. O "talvez" de Emanuel era, na prática, uma ordem.
— Sim, Manu... se você acha melhor.
Sara sorriu, vitoriosa. Ela adorava ver a submissão de Eduarda. Era como um vício.
Após o jantar, Emanuel retirou-se para o escritório, deixando as duas sozinhas na sala por alguns minutos. O silêncio era interrompido apenas pelo som da TV ligada em um canal de moda. Eduarda tentou se levantar para ir para o quarto, mas a voz de Sara a deteve.
— Senta aí, santinha. Eu não terminei com você.
Eduarda obedeceu, sentando-se na ponta do sofá, as mãos entrelaçadas.
— Sabe por que o Emanuel comprou flores para você hoje? — perguntou Sara, caminhando até o bar e servindo-se de um uísque puro.
— Porque ele é gentil... — murmurou Eduarda.
— Não. Ele comprou porque ele sente culpa. Culpa por saber que você é um fardo. Ele traz flores para compensar o fato de que, cada vez que ele olha para você, ele sente vontade de sair correndo para os meus braços, onde existe vida de verdade.
— Isso não é verdade — Eduarda disse, embora sua voz não tivesse convicção.
— É sim. E você sabe disso. Por isso você se esconde nesses livros e atrás desse cachorro que nem te reconhece mais. Você é patética, Eduarda. Amanhã, no shopping, eu vou mostrar para todo mundo exatamente o que você é: um nada que eu visto e despo de acordo com o meu humor.
Eduarda sentiu as lágrimas subirem, mas as engoliu. Ela tinha tanto medo de Sara que até o seu choro se tornara silencioso.
— Por que você me odeia tanto? — perguntou ela, a voz quase sumindo. — Eu nunca fiz nada para você.
— Você existe — respondeu Sara, com uma simplicidade cruel. — E você ocupa um espaço que eu decidi que é meu. O Emanuel é meu. Esta casa é minha. E você é apenas um brinquedo que ele ainda não se cansou de brincar, mas eu vou garantir que ele se canse.
Sara deu um gole no uísque e deu um passo em direção a Eduarda. Instintivamente, a jovem se encolheu, protegendo o rosto com os braços. Sara soltou uma risada de puro prazer.
— Olha só para você. Um ratinho acuado. É isso que você é.
Nesse momento, Emanuel voltou para a sala. Ele viu a cena: Sara em pé, dominante, e Eduarda encolhida no sofá. Algo em seu peito se apertou. Ele sabia que o equilíbrio estava quebrado, mas sua natureza controladora o impedia de admitir que a situação havia fugido de suas mãos há muito tempo.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou ele, o tom de voz subindo.
— Nada, querido — disse Sara, mudando o tom de voz instantaneamente para uma doçura melosa. — Eu só estava dando uns conselhos de moda para a Duda. Ela está tão ansiosa para o nosso passeio de amanhã, não é, pequena?
Eduarda olhou para Emanuel. Ela queria gritar, queria dizer que tinha medo, que queria ir embora, que não aguentava mais o veneno de Sara. Mas quando abriu a boca, as palavras não saíram. O olhar de Emanuel era de expectativa, de alguém que queria que o problema simplesmente se resolvesse sozinho.
— É... sim, Manu — ela mentiu, a voz falhando.
Emanuel suspirou, satisfeito com a resposta superficial.
— Ótimo. Agora vamos dormir. Amanhã será um dia longo.
Ele caminhou até Eduarda e a beijou na testa, depois abraçou Sara pela cintura. As duas mulheres o seguiram para o andar de cima. Uma caminhava com o triunfo de uma conquistadora; a outra, com a resignação de uma prisioneira.
No quarto, após Emanuel adormecer, Eduarda ficou olhando para o teto. As flores que ele trouxera estavam no vaso sobre a cômoda, mas no escuro, elas pareciam sombras retorcidas. Ela percebeu que as pétalas estavam começando a cair.
O medo de Sara era agora uma parte dela, como uma segunda pele. Ela não era mais a menina manhosa que desafiava as ordens de Emanuel para mimar o cachorro; ela era uma versão pálida de si mesma, vivendo em um labirinto de chantagens e silêncios.
Ela olhou para o lado e viu Emanuel dormindo tranquilamente. Ele acreditava que as flores haviam resolvido o problema. Ele acreditava que o controle havia sido restaurado. Ele não via que, sob a superfície de luxo e beleza, sua casa era um campo de destroços, onde a doçura fora assassinada pelo medo e onde o amor se transformara em uma posse amarga.
Eduarda fechou os olhos, desejando que o amanhã nunca chegasse, enquanto no quarto ao lado, Sara planejava cada detalhe da humilhação que viria, saboreando antecipadamente o gosto de sua vitória absoluta. O equilíbrio de vidro e pétalas fora quebrado, e os cacos estavam por toda parte, prontos para ferir qualquer um que ousasse caminhar por aquela cobertura novamente.