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O Despertar da Fera e o Resgate da Doçura

O shopping de luxo havia sido um campo de batalha silencioso, onde cada peça de roupa escolhida por Sara era uma granada lançada contra a autoestima de Eduarda. A loira forçara a jovem a experimentar vestidos curtíssimos, decotes vulgares e cores berrantes que nada tinham a ver com sua personalidade suave. Emanuel, ocupado com chamadas internacionais em seu celular, apenas acenava positivamente, querendo evitar o conflito, sem perceber que os olhos de Eduarda clamavam por um socorro que nunca vinha.

Ao retornarem para a cobertura, o clima era de uma eletricidade estática insuportável. Eduarda carregava as sacolas como se fossem correntes, seus ombros curvados sob o peso da humilhação. Sara, por outro lado, caminhava com a altivez de uma general vitoriosa, rindo alto de como Eduarda parecia uma "boneca de ventríloquo mal vestida" nas fotos que tirara escondido nos provadores.

— Manu, o jantar vai ser servido em breve — disse Emanuel, tentando dissipar a tensão enquanto se dirigia ao escritório. — Duda, tente relaxar um pouco. Sara, por favor, sossegue.

Assim que a porta do escritório se fechou, o silêncio da sala foi quebrado pelo som metálico das unhas de Sara batendo no balcão de mármore. Bóris, o Rottweiler, estava deitado em seu canto, a postura rígida e os olhos atentos, como o soldado disciplinado que o adestramento o tornara.

— Sabe, Eduarda — começou Sara, aproximando-se da jovem com um sorriso gélido —, eu estava olhando aquelas fotos no provador. Você realmente não tem jeito. Nem o dinheiro do Emanuel consegue consertar essa sua aura de coitadinha. Você é um erro genético na vida dele.

Eduarda não respondeu. Ela começou a guardar as sacolas, as mãos tremendo. Uma das sacolas escorregou e um vestido de seda caro caiu no chão.

— Ai, que desastrada! — exclamou Sara, caminhando até ela. — Além de sonsa, é inútil. Pega isso agora.

— Eu já vou pegar, Sara... — sussurrou Eduarda, agachando-se.

— "Eu já vou pegar, Sara" — imitou a loira, com uma voz fina e irritante. — Você me dá nojo. Essa sua vozinha, esse seu jeito de santa... Você acha que o Emanuel te ama? Ele tem pena de você. Ele te mantém aqui como quem mantém um passarinho ferido em uma gaiola, mas ele prefere quem voa alto.

Eduarda levantou-se, os olhos cheios de lágrimas, e pela primeira vez em meses, algo dentro dela estalou. A dor da humilhação constante, o cansaço de ser tratada como um objeto e a saudade da vida que tinha antes daquele labirinto de crueldade transbordaram.

— Por que você não me deixa em paz? — gritou Eduarda, a voz saindo rouca e desesperada. — Eu não quero o seu dinheiro, não quero suas roupas! Eu só queria que você parasse de me machucar!

Sara arregalou os olhos por um segundo, surpresa com o lampejo de resistência, mas logo sua expressão se transformou em puro ódio. Ela odiava ser desafiada, especialmente por alguém que considerava inferior.

— Você está gritando comigo? — Sara deu um passo à frente, a mão levantada. — Sua ratinha de esgoto! Quem você pensa que é?

— Eu sou a mulher que ele escolheu primeiro! — retrucou Eduarda, embora seu corpo já estivesse começando a se encolher por instinto.

— Ele escolheu você por caridade! — gritou Sara, perdendo completamente o controle. — E eu vou te ensinar a nunca mais levantar a voz para mim!

Sara avançou. Ela não pretendia apenas dar um tapa; ela queria descarregar toda a sua frustração na face delicada de Eduarda. A mão da loira desceu com força em direção ao rosto da jovem.

Eduarda fechou os olhos, esperando o impacto, soltando um ganido de terror.

— BÓRIS! — ela gritou, um chamado puramente instintivo, um grito pela única lealdade que ela conhecera naquela casa.

O que aconteceu em seguida não foi o som de um tapa, mas um rosnado que parecia vir das profundezas da terra.

Bóris, o cão que passara meses agindo como uma máquina obediente e fria, rompeu suas correntes invisíveis. O adestramento, a disciplina rígida e a indiferença forçada desapareceram em um milésimo de segundo diante do grito de sua verdadeira dona. O instinto primitivo de proteção, aquele que Eduarda cultivara com mimos, beijos e sussurros quando ninguém olhava, despertou com uma fúria avassaladora.

Antes que a mão de Sara pudesse tocar a pele de Eduarda, uma massa de quarenta quilos de músculos e dentes se atravessou entre as duas.

Bóris não apenas latiu. Ele saltou.

O impacto derrubou Sara no chão antes mesmo que ela pudesse processar o que estava acontecendo. O Rottweiler se posicionou sobre ela, as patas dianteiras pressionando os ombros da loira contra o piso, e o focinho a centímetros do pescoço dela. O rosnado era constante, uma vibração gutural que fazia o ar da sala tremer.

— SOCORRO! EMANUEL! — berrou Sara, o rosto pálido como cera, as mãos paralisadas no ar, temendo que qualquer movimento fizesse o cão fechar a mandíbula em sua garganta.

Eduarda estava estática, a respiração ofegante, olhando para a cena com os olhos arregalados.

— Bóris... — ela sussurrou, a voz trêmula.

Ao ouvir o nome, o cachorro não relaxou a guarda sobre Sara, mas inclinou levemente uma das orelhas para trás, reconhecendo a voz. Ele não era mais o soldado de Emanuel; ele era, novamente, o protetor de Eduarda.

Emanuel escancarou a porta do escritório, atraído pelos gritos e pelo barulho da queda. Ele parou no topo da pequena escada que levava à sala, paralisado pela imagem. Sara, sua namorada exuberante e confiante, estava reduzida a uma massa de terror sob as garras do animal que ele acreditava ter "consertado".

— Bóris! FICA! — gritou Emanuel, usando seu tom de voz mais autoritário, aquele que sempre fazia o cão recuar.

Desta vez, não funcionou.

Bóris nem sequer olhou para Emanuel. Ele manteve os olhos fixos em Sara, os dentes à mostra, respondendo ao comando do dono com um rosnado ainda mais alto, como se dissesse que, naquela arena, a autoridade de Emanuel não valia nada contra a ameaça que Sara representava para Eduarda.

— Emanuel, tira ele daqui! Ele vai me matar! — soluçou Sara, as lágrimas borrando a maquiagem cara, a arrogância transformada em desespero abjeto.

Emanuel desceu as escadas rapidamente, mas parou a dois metros de distância. Ele conhecia cães o suficiente para saber que, se tentasse puxar Bóris à força naquele estado de fúria protetora, o desastre seria inevitável.

— Eduarda! — chamou Emanuel, a voz carregada de uma urgência que ele raramente demonstrava. — Tira ele! Só ele te ouve agora!

Eduarda olhou para Emanuel, depois para Sara, que tremia debaixo do cachorro, e finalmente para Bóris. Ela viu o pelo eriçado no dorso do cão, a cauda tensa, a lealdade pura e selvagem que ele estava demonstrando. Por meses, ela se sentira pequena e indefesa, mas agora, através de Bóris, ela sentia que tinha uma voz.

Ela caminhou lentamente até o animal.

— Bóris... — disse ela, desta vez com mais firmeza, mas mantendo a doçura. — Bebezinho... está tudo bem. A mamãe está aqui.

O cão relaxou os ombros por um milímetro, mas continuou encarando Sara, que mal ousava respirar.

— Ela não vai mais me bater, Bóris — continuou Eduarda, colocando a mão suavemente no pescoço do cachorro. — Pode soltar. Vem cá com a mamãe.

Lentamente, como se estivesse saindo de um transe, Bóris recuou. Ele desceu de cima de Sara, mas não se afastou. Ficou parado exatamente ao lado de Eduarda, encostando o corpo grande nas pernas dela, os olhos ainda fixos na loira no chão, emitindo um aviso baixo e constante.

Sara rastejou para longe, soluçando compulsivamente, até alcançar o sofá. Ela se encolheu, abraçando os próprios joelhos, o corpo todo tremendo.

— Você viu isso? — gritou ela para Emanuel, a voz entrecortada pelo choro. — Esse bicho é um monstro! Ele me atacou! Ele tentou me matar!

Emanuel aproximou-se de Sara, mas seus olhos estavam fixos em Eduarda e no cachorro. Ele viu a mão da jovem acariciando as orelhas de Bóris e viu como o cão, que antes era uma estátua de gelo sob seu comando, agora buscava o contato de Eduarda com uma necessidade quase infantil.

— Ele não te atacou do nada, Sara — disse Emanuel, sua voz soando estranhamente vazia. — Eu ouvi o que aconteceu. Eu ouvi você gritando. Eu ouvi o barulho de você tentando bater nela.

Sara olhou para ele, chocada.

— Você está defendendo esse animal? E essa... essa sonsa?

— Eu estou vendo a verdade — rebateu Emanuel. Ele caminhou até Eduarda, parando a uma distância segura de Bóris. O cachorro rosnou baixinho para ele, um aviso de que ninguém, nem mesmo o "mestre", chegaria perto de Eduarda com intenções ambíguas.

— Duda... — Emanuel começou, estendendo a mão.

Eduarda recuou um passo, mantendo Bóris entre eles.

— Não, Emanuel. Não chega perto.

— O que você está fazendo? — perguntou ele, confuso.

— O que eu deveria ter feito há muito tempo — respondeu Eduarda, e pela primeira vez, não havia manha ou timidez em sua voz. Havia uma clareza cortante. — Você trouxe o Bóris para cá para ser um brinquedo, depois um soldado. Você deixou a Sara me tratar como lixo porque era mais fácil do que lidar com o conflito. Você deixou que ela tirasse a minha paz, as minhas roupas, a minha dignidade... mas você não conseguiu tirar o Bóris de mim.

— Eu só queria que a casa tivesse ordem — justificou-se Emanuel, sentindo o controle escorregar por seus dedos como areia.

— A sua "ordem" era o meu inferno — disse Eduarda. Ela olhou para Sara, que ainda soluçava no sofá. — Ela ia me bater, Emanuel. Se o Bóris não estivesse aqui, ela teria me batido na sua sala, e você provavelmente ia dar um buquê de flores para cada uma amanhã e fingir que nada aconteceu.

— Eu vou mandar esse cachorro embora agora mesmo! — gritou Sara, recuperando um pouco de sua agressividade através do medo. — Ou ele sai, ou eu saio!

Eduarda deu um meio sorriso, um gesto que continha uma tristeza profunda e uma resolução final.

— Você não precisa escolher, Sara. Eu estou indo embora. E o Bóris vem comigo.

Emanuel deu um passo à frente, o rosto obscurecido pela surpresa.

— Você não tem para onde ir, Eduarda. Você não tem dinheiro, não terminou a faculdade...

— Eu tenho a minha dignidade de volta — respondeu ela. — E tenho o único ser nesta casa que realmente se importa se eu estou sofrendo ou não.

Eduarda caminhou em direção ao corredor, com Bóris seguindo-a como uma sombra protetora. Ela entrou no quarto, pegou uma mochila pequena e colocou apenas o essencial: seus livros, algumas roupas que Sara não tinha escolhido e a coleira de passeio de Bóris.

Quando ela voltou para a sala, Emanuel estava parado no meio do caminho.

— Duda, vamos conversar. Eu posso mandar a Sara passar uns dias em um hotel. Nós podemos resolver isso.

— Não, Manu. Você não entende. O problema não é só a Sara. O problema é que você gosta de ter duas mulheres lutando por você. Você gosta do poder que isso te dá. Mas eu não sou mais uma peça do seu jogo.

Ela caminhou em direção à porta principal. Sara levantou-se, ainda trêmula, mas com um olhar de puro veneno.

— Vai embora então! Leva esse monstro com você! Tomara que você passe fome na rua!

Eduarda parou na porta e olhou para Sara uma última vez.

— Eu posso passar fome, Sara. Mas eu nunca mais vou sentir o gosto do seu veneno. E quanto a você, Emanuel... — Ela olhou para o homem que amara, o homem que a protegera de forma tão controladora que quase a sufocara. — Espero que o silêncio desta cobertura seja exatamente o que você sempre quis. Porque agora, você só tem a Sara. E ela só tem a si mesma.

Eduarda abriu a porta. Bóris saiu primeiro, ocupando o corredor, as orelhas em pé, vigiando o território. Eduarda saiu logo atrás, sem olhar para trás.

O som da porta se fechando ecoou pela cobertura como um tiro.

Emanuel ficou parado no centro da sala luxuosa, cercado por sacolas de compras caras, móveis de design e o silêncio que ele tanto alegava desejar. Sara aproximou-se dele, tentando abraçá-lo, buscando o conforto que sempre tivera.

— Deixa ela ir, Manu... Ela era um peso morto. Finalmente estamos sozinhos.

Emanuel olhou para a mão de Sara em seu braço. Ele viu as unhas vermelhas, as mesmas que quase atingiram o rosto de Eduarda. Ele sentiu o perfume forte dela, o mesmo que agora parecia sufocá-lo. Ele olhou para o canto vazio onde Bóris costumava ficar e para a poltrona onde Eduarda lia seus livros.

De repente, a cobertura parecia grande demais. Fria demais.

— Sai de perto de mim, Sara — disse ele, a voz baixa e sem vida.

— O quê? Manu, eu...

— SAI! — ele rugiu, e Sara recuou, assustada.

Emanuel caminhou até a janela e olhou para baixo. Lá embaixo, no meio da noite iluminada da cidade, ele viu uma pequena figura caminhando pela calçada, acompanhada por um grande cão preto. Eles andavam devagar, mas com uma determinação que ele nunca vira neles antes.

Eduarda não era mais a menina manhosa. Bóris não era mais o bebezinho mimado. Eles eram dois sobreviventes de uma guerra que Emanuel acreditava estar vencendo, mas na qual ele acabara de perder tudo o que realmente importava.

Ele encostou a testa no vidro frio, observando-os desaparecer na escuridão da avenida. Pela primeira vez em sua vida de riqueza e controle, Emanuel sentiu o verdadeiro peso da solidão. Ele tinha o império, tinha os estúdios, tinha a cobertura e tinha Sara.

Mas a doçura havia ido embora, protegida pelas garras e dentes da única lealdade que ele não pudera comprar. E, no silêncio daquela noite, Emanuel percebeu que o verdadeiro monstro daquela casa nunca fora o cachorro.