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O Labirinto de Vidro e a Redenção da Manha

A chuva batia contra o para-brisa do SUV blindado de Emanuel, criando uma cortina líquida que isolava o interior do veículo do resto do mundo. Ao lado dele, encolhida no banco de couro, Eduarda abraçava a própria mochila, os olhos fixos no asfalto molhado. No banco de trás, Bóris ocupava quase todo o espaço, a respiração pesada e rítmica de quem sabia que a batalha havia terminado.

Emanuel a encontrara em uma praça a poucas quadras da cobertura. Ela estava sentada em um banco de pedra, tremendo de frio, com o Rottweiler deitado sobre seus pés para aquecê-la. Não foram necessárias muitas palavras. O olhar de Emanuel, carregado de um arrependimento genuíno e de uma possessividade que ela conhecia bem, fora o suficiente. Ele a queria de volta. Ele precisava daquela doçura para não enlouquecer no deserto de egoísmo que era sua vida com Sara.

— Você está segura agora, pequena — murmurou Emanuel, estendendo a mão para acariciar o rosto dela. — Eu prometo que as coisas vão mudar.

Eduarda inclinou a cabeça para o toque dele, fechando os olhos. A rebeldia daquela noite havia sido um espasmo de sobrevivência, mas agora, sob o calor do carro e a presença protetora de Emanuel, a fragilidade voltava a envolvê-la como um manto.

— Eu tive tanto medo, Manu... — sussurrou ela, a voz voltando ao tom manhoso e infantil que sempre o desarmava. — Achei que você ia me deixar lá fora.

— Nunca — disse ele, a voz firme como aço. — Eu fui um idiota por deixar as coisas chegarem a esse ponto. Mas eu já resolvi a situação em casa.

Quando chegaram à cobertura, o silêncio era absoluto. Emanuel subiu com Eduarda, mantendo o braço ao redor da cintura dela, enquanto Bóris caminhava ao lado deles, as orelhas em pé, mas sem rosnar. O cão parecia entender que o território fora reconquistado.

Ao entrarem na sala, o cenário era diferente do caos de horas atrás. Sara estava sentada no sofá, mas não havia nela a arrogância habitual. Ela usava um roupão de seda e segurava uma taça de vinho, mas suas mãos tremiam visivelmente. Quando viu Eduarda e o cachorro, ela se encolheu contra o encosto do sofá.

— Ela voltou... — murmurou Sara, a voz carregada de um ressentimento que ela tentava, sem sucesso, mascarar com indiferença.

Emanuel não respondeu de imediato. Ele guiou Eduarda até a poltrona mais confortável, acomodando-a com um cuidado quase religioso.

— Duda, vá para o quarto. Tome um banho quente e descanse. Eu vou pedir para prepararem aquele chocolate quente que você gosta. O Bóris pode ir com você.

Eduarda olhou para Sara, depois para Emanuel, e assentiu. Ela se levantou, caminhando com passos leves, seguida pelo cachorro. Antes de sair da sala, ela parou e olhou para trás, fazendo um biquinho manhoso para Emanuel.

— Você vai logo, Manu? Eu não quero ficar sozinha.

— Vou em cinco minutos, pequena. Prometo.

Assim que Eduarda desapareceu no corredor, a atmosfera na sala mudou drasticamente. Emanuel virou-se para Sara, e o calor que ele demonstrara por Eduarda evaporou, dando lugar a uma frieza predatória.

— Emanuel, você não pode estar falando sério — começou Sara, levantando-se, tentando recuperar um pouco de sua postura. — Você trouxe aquela sonsa de volta? Depois do que aquele bicho fez comigo?

Emanuel caminhou lentamente em direção a ela. Sara recuou até bater as costas no balcão do bar.

— O que o Bóris fez foi proteger a dona dele de uma agressão — disse Emanuel, a voz baixa e perigosa. — Eu ouvi tudo, Sara. Eu vi a marca que você tentou deixar no rosto dela. Você quebrou a única regra que eu realmente prezo nesta casa: a minha paz.

— A sua paz? Ela é um parasita! — gritou Sara, as lágrimas de raiva começando a surgir. — Eu sou a mulher que está ao seu lado nos eventos, que entende dos seus negócios! Ela é só uma criança que estuda estátuas de mármore!

— E é por isso que eu a amo — interrompeu ele, segurando o queixo de Sara com força suficiente para fazê-la soltar um ganido. — Porque ela tem o que você nunca vai ter: pureza. E você tentou destruir isso.

Emanuel a soltou com um gesto de desdém e caminhou até a mesa, onde pegou um envelope pardo.

— Eu amo vocês duas, Sara. À minha maneira. Gosto do seu fogo, da sua ambição, do seu corpo. Mas você se esqueceu de uma coisa fundamental: eu sou o dono desta casa. E ninguém toca no que é meu. Especialmente na Eduarda.

Ele jogou o envelope sobre o balcão.

— O que é isso? — perguntou ela, hesitante.

— O seu castigo — respondeu Emanuel, com um sorriso gélido. — Dentro desse envelope estão os comprovantes de cancelamento de todos os seus cartões de crédito adicionais. Também cancelei a reserva daquela viagem para Milão que você tanto queria.

Sara arregalou os olhos, a palidez tomando conta de seu rosto.

— Você não pode fazer isso! Como eu vou viver? Eu tenho compromissos, tenho o meu estilo de vida!

— Você vai viver com a mesada básica que eu depositar na sua conta pessoal — continuou Emanuel, ignorando o desespero dela. — E tem mais. A partir de amanhã, você está proibida de entrar na ala leste da cobertura, onde fica o quarto da Eduarda e o espaço do Bóris. Se eu ouvir você levantar a voz para ela, ou se você se aproximar do cachorro de forma provocativa, você sai daqui apenas com a roupa do corpo.

— Emanuel, por favor... — Sara começou a soluçar, caindo de joelhos. — Eu errei, eu sei! Mas não me tira tudo... Eu te amo!

— Você ama o meu dinheiro e o status que eu te dou — disse ele, sem um pingo de emoção. — Se quiser continuar desfrutando do luxo desta cobertura, terá que aprender o seu lugar. Você será invisível para a Eduarda. Você vai respeitá-la como se ela fosse uma extensão de mim.

Ele deu as costas a ela e caminhou em direção ao quarto de Eduarda. Sara ficou para trás, soluçando no chão de mármore, cercada pela opulência que agora parecia uma prisão de ouro.

Ao entrar no quarto, Emanuel encontrou Eduarda já de banho tomado, vestindo um pijama de seda com estampas de ursinhos, sentada na cama com Bóris deitado ao seu lado. A luz do abajur criava uma aura suave ao redor dela.

— Manu... — ela chamou, estendendo os braços.

Ele se sentou na beira da cama e a puxou para o seu colo. Eduarda se aninhou ali, escondendo o rosto em seu pescoço, respirando o cheiro do perfume dele.

— Ela ainda está brava? — perguntou ela, a voz abafada.

— Ela está aprendendo a lição dela, pequena — respondeu Emanuel, beijando o topo da cabeça dela. — Ela nunca mais vai encostar em você. Eu garanti isso.

— O Bóris foi muito corajoso, não foi? — disse ela, olhando para o cachorro, que abanou a cauda levemente ao ouvir seu nome. — Você não vai mais mandar ele para aquele lugar chato de adestramento, vai?

Emanuel olhou para o Rottweiler. O cão retribuiu o olhar, mas não havia mais o desafio de antes; havia um entendimento mútuo. Bóris era o guardião daquela fragilidade que Emanuel tanto prezava.

— Não, Duda. O Bóris fica. Ele provou que é o único que consegue manter a ordem aqui quando eu não estou por perto.

Eduarda sorriu, um sorriso doce e vitorioso que Emanuel não percebeu por completo. Ela se aconchegou mais nos braços dele, sentindo-se a rainha daquele pequeno e distorcido reino.

— Você é tão bom para mim, Manu... — ela murmurou, fechando os olhos. — Eu não sei o que faria sem você para me proteger.

Emanuel a apertou mais forte, sentindo uma satisfação profunda. Ele gostava daquela dependência, daquela necessidade que ela tinha dele. Era o contraponto perfeito para a agressividade de seu mundo lá fora.

Na manhã seguinte, a dinâmica da casa estava transformada. Sara apareceu na cozinha para o café da manhã, mas estava silenciosa. Ela não usava joias, e sua maquiagem era discreta. Quando Eduarda entrou na sala, acompanhada por Bóris, Sara baixou os olhos para o prato, seguindo estritamente as ordens de Emanuel.

Eduarda, percebendo a mudança, agiu com uma doçura exagerada.

— Bom dia, Sara! — disse ela, com uma voz cantarolante. — Você quer um pouco de suco?

Sara apenas assentiu, sem dizer uma palavra. O poder havia mudado de mãos, e ambas sabiam disso. Emanuel observava tudo da cabeceira da mesa, sentindo-se o mestre de marionetes perfeito.

— Duda, eu comprei aquele livro de iluminuras que você queria — disse Emanuel, entregando um pacote para ela. — E para o Bóris, mandei entregar um estoque de bifes maturados.

— Ah, Manu! Você é maravilhoso! — Eduarda pulou da cadeira e o abraçou, enchendo seu rosto de beijos manhosos.

Sara apertou o garfo com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos, mas ela não ousou emitir um som. O castigo financeiro era apenas uma parte da punição; a verdadeira tortura era ver Eduarda ser mimada enquanto ela era relegada ao papel de espectadora silenciosa.

Após o café, Emanuel saiu para o estúdio, deixando as duas na sala. O silêncio era tenso, mas diferente de antes. Eduarda sentou-se no sofá com seu novo livro, enquanto Bóris se deitava aos seus pés, mantendo um olho aberto em direção a Sara.

Sara levantou-se para sair da sala, mas parou ao passar por Eduarda.

— Você acha que ganhou, não é? — sussurrou Sara, a voz carregada de veneno contido.

Eduarda não levantou os olhos do livro. Ela apenas acariciou a cabeça de Bóris, que soltou um rosnado baixo, quase imperceptível, mas suficiente para fazer Sara estremecer.

— Eu não ganhei nada, Sara — respondeu Eduarda, com uma calma que não possuía antes. — Eu apenas voltei para casa. E o Manu gosta da casa assim... tranquila.

Sara saiu da sala às pressas, o som de seus passos ecoando a derrota. Eduarda finalmente levantou o olhar, um brilho de astúcia atravessando seus olhos castanhos. Ela sabia que a trégua era frágil, mas enquanto tivesse Emanuel em suas mãos e Bóris ao seu lado, ela seria intocável.

À tarde, Emanuel ligou para Eduarda apenas para ouvir sua voz.

— Como estão as coisas por aí, pequena?

— Estão ótimas, Manu... — disse ela, enrolando uma mecha de cabelo no dedo. — A Sara está sendo muito querida. E o Bóris está dormindo no sol. Você vem cedo para casa? Eu quero que você me ajude com um trabalho da faculdade... e talvez possamos pedir pizza.

— Vou chegar cedo, Duda. Prometo.

Emanuel desligou o telefone com um sorriso. Ele sentia que tinha o controle total. Ele amava Sara por sua intensidade e Eduarda por sua doçura, e agora, com o castigo imposto e a hierarquia definida, ele acreditava que poderia manter ambas sob seu teto para sempre.

Ele não via as fissuras no vidro. Não via que Sara estava acumulando um ódio que um dia explodiria, nem que a "doçura" de Eduarda era a arma mais letal que ele já permitira entrar em sua vida. Para Emanuel, o labirinto estava em ordem.

Na cobertura, Eduarda fechou o livro e deitou a cabeça no encosto do sofá, fechando os olhos. Ela sentia o cheiro das flores que Emanuel trouxera, o calor do corpo de Bóris em seus pés e o silêncio da submissão de Sara. Era o caos perfeito, mascarado de paz. E ela, a pequena e manhosa Eduarda, era o centro de tudo, protegida por garras, dentes e pelo amor cego de um homem que acreditava ser o mestre, quando era apenas o protetor de uma fera muito mais delicada.