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Entre Cruzes e Conflitos
A brisa do Mediterrâneo ainda parecia impregnada na pele de Emanuel, mesmo após o desembarque em solo brasileiro. A viagem de negócios a Ibiza, que deveria ter durado apenas três dias, estendeu-se por uma semana inteira de negociações intensas, festas em iates e o brilho constante de Sara ao seu lado. Sara fora, como sempre, a parceira perfeita para aquele cenário: exuberante, falando um inglês fluente e ácido, negociando contratos entre um drink e outro e preenchendo as noites de Emanuel com uma energia que não dava espaço para o cansaço.
Emanuel se permitira, pela primeira vez em muito tempo, "esquecer" um pouco as tensões domésticas. Ele não ligou para Eduarda com a frequência habitual, não cobrou sua presença e deixou que as mensagens curtas da morena fossem respondidas com monossílabos. Ele estava imerso no furacão que era Sara, na eficiência administrativa dela e no prazer sem amarras que a loira lhe proporcionava.
Porém, assim que o jato particular tocou a pista e o calor úmido da cidade o atingiu, a imagem de Eduarda voltou a ocupar cada espaço de sua mente. Ele sentia falta da suavidade, do cheiro de baunilha e daquela dependência doce que o fazia se sentir o centro do universo. Ele queria a Calmaria agora, depois de sete dias de Tempestade.
— Você mal chegou e já está com essa cara de quem vai buscar a "ovelhinha", Manu — disse Sara, ajeitando os óculos escuros de grife enquanto caminhavam pelo hangar. — Não vai nem passar em casa para um banho comigo?
— Vou deixá-la em casa, Sara — respondeu Emanuel, o tom de voz já assumindo a rigidez habitual. — Preciso ver a Duda. Ficamos muito tempo longe e ela mal me mandou notícias nos últimos dois dias.
— Talvez ela tenha aprendido que o mundo não acaba sem você — Sara deu de ombros, entrando no carro que os esperava. — Ou talvez ela só esteja aproveitando a folga da sua vigilância. Vejo você mais tarde... se ela deixar você sair das saias dela.
Emanuel ignorou a provocação. Ele deixou Sara na cobertura e seguiu direto para a casa dos pais de Eduarda. No caminho, ele já planejava: ia pegá-la, levá-la para jantar e, finalmente, convencê-la a passar o resto da semana com ele. Ele não aceitaria um "não" desta vez. A saudade, misturada com sua necessidade possessiva de controle, o deixava impaciente.
Ao estacionar diante da casa moderna, Emanuel estranhou o silêncio. Ele tocou a campainha e foi recebido por Helena, a mãe de Eduarda, que parecia um pouco mais contida do que o normal.
— Emanuel! Você voltou — disse ela, dando passagem para ele entrar. — Como foi a viagem?
— Foi produtiva, Helena. A Duda está? Quero levá-la comigo.
Antes que Helena pudesse responder, uma figura surgiu no topo da escada. Não era Eduarda. Era uma mulher de meia-idade, vestida com uma saia abaixo dos joelhos, uma blusa fechada até o pescoço e um terço de madeira enrolado no pulso. O olhar dela sobre Emanuel foi de imediata desaprovação, fixando-se nas tatuagens que subiam pelo pescoço dele e apareciam sob as mangas da camisa.
— Emanuel, esta é a minha irmã, Eunice — apresentou Helena, visivelmente desconfortável. — Ela veio do interior para passar uns dias conosco. É a tia da Duda.
— Prazer — disse Emanuel, secamente, sentindo o julgamento no ar. — Onde está a Eduarda?
Nesse momento, Eduarda apareceu atrás da tia. Ela usava um vestido muito mais recatado do que o habitual, os cabelos presos em um coque baixo, e parecia... pequena. Menor do que já era.
— Manu! — Ela desceu as escadas, mas quando ia se jogar nos braços dele, sentiu o olhar gélido da tia Eunice e parou a dois passos de distância, apenas segurando a mão dele. — Você chegou...
— Vim buscar você, pequena. Pegue suas coisas, você vai dormir comigo hoje — disse ele, a voz autoritária, marcando território diante da estranha.
— Ah, mas não vai mesmo! — A voz de Eunice cortou o ar, aguda e firme. — Helena, você me disse que essa menina era criada com bons modos. Que história é essa de "dormir fora" com um homem que nem ao menos é noivo dela? E todo marcado desse jeito?
Emanuel sentiu o sangue subir. Ele encarou a mulher com incredulidade.
— Com todo o respeito, senhora, eu não sei quem a senhora pensa que é, mas a Eduarda é minha namorada. Nós temos uma vida juntos.
— "Vida juntos" é o nome que se dá ao pecado hoje em dia? — Eunice cruzou os braços. — Enquanto eu estiver nesta casa, minha sobrinha se comportará como uma moça cristã. Ela não vai a lugar nenhum para passar a noite, muito menos com alguém que parece ter saído de uma penitenciária.
Emanuel deu um passo à frente, a mandíbula travada, mas sentiu o toque desesperado de Eduarda em seu braço.
— Manu, por favor... — sussurrou ela, com os olhos marejados e o tom mais manhoso que ele já ouvira. — A tia Eunice é muito rígida... meu pai pediu para eu colaborar enquanto ela estiver aqui para não causar briga na família. Ela é a irmã mais velha da minha avó, é uma questão de respeito.
— Respeito? Eduarda, eu acabei de chegar de viagem. Eu quero você comigo na minha casa — ele sibilou, tentando manter o controle.
— Eu sei, eu também quero... sinto tanta saudade — ela disse, roçando o rosto no ombro dele discretamente, tentando acalmá-lo. — Mas ela vigia até o corredor de noite. Se eu sair agora, ela vai fazer um escândalo e minha mãe vai sofrer. Por favor, espera só mais uns dias?
— Emanuel — chamou Ricardo, o pai de Eduarda, surgindo da biblioteca com um sorriso diplomático, embora cansado. — Que bom que você veio. Ignore a Eunice, ela é de outra época. Mas, para manter a paz doméstica por esses dias, a Duda realmente vai ficar por aqui. Por que você não janta conosco? Vamos abrir um vinho, conversar sobre Ibiza.
Emanuel olhou para Ricardo, depois para a tia Eunice — que agora murmurava orações enquanto limpava o pó de um porta-retrato — e finalmente para Eduarda. Ela o olhava com uma súplica silenciosa, os lábios entreabertos, parecendo tão frágil que ele sentiu a raiva se transformar em uma frustração amarga.
— Jantar? Eu não vim aqui para jantar com a sua família inteira, Ricardo. Eu vim buscar a minha namorada.
— Eu sei, meu caro. Mas considere isso um investimento na sua tranquilidade futura — Ricardo aproximou-se e falou baixo, apenas para Emanuel ouvir. — Se você bater de frente com a tia agora, ela vai fazer a cabeça da Helena e da Duda por meses. Deixe a poeira baixar. Jante conosco, mostre que você não é o "marginal" que ela pensa que você é por causa das tatuagens.
Emanuel soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um segundo. A ideia de passar a noite em uma mesa de jantar com uma fanática religiosa, enquanto sua namorada era mantida sob custódia moral, era o seu pior pesadelo. Mas ver Eduarda ali, segurando sua mão com tanta força, como se ele fosse seu único oxigênio, o dobrou.
— Tudo bem — rosnou Emanuel. — Eu fico para o jantar.
A mesa de jantar era um campo de batalha silencioso. De um lado, Emanuel, com sua presença imponente e sombria, tentando não explodir a cada comentário de Eunice. Do outro, a tia, que não parava de lançar olhares de soslaio para os desenhos na pele dele. No meio, os pais de Eduarda tentavam manter uma conversa leve sobre economia e viagens, enquanto Eduarda permanecia quase muda, apenas servindo-se de pequenas porções e olhando para Emanuel com uma adoração melancólica.
— E você, rapaz? — Eunice começou, após a oração inicial que durou cinco minutos. — O que faz da vida além de se pintar como um muro de rua?
— Eu sou tatuador, Eunice — respondeu Emanuel, a voz perigosamente calma. — Tenho estúdios em várias capitais do mundo. Sou um empresário. Além disso, invisto em imóveis e arte.
— Arte... — ela desdenhou. — No meu tempo, arte era o que estava nas igrejas. Hoje em dia, qualquer um que faz rabiscos na pele se diz artista. E você, Eduarda, o que aprende na faculdade? Espero que não esteja sendo influenciada por essas ideias modernas e pecaminosas.
— Eu estudo a beleza das formas, tia — respondeu Eduarda timidamente. — A história de como o homem se expressa através dos tempos.
— Expressão... o que o homem precisa é de contrição — Eunice pontuou, batendo o garfo no prato. — Amanhã, Eduarda, você vai comigo à missa das seis. E nada de roupas curtas.
Eduarda olhou para Emanuel, buscando socorro. Ele sentiu a veia em sua testa pulsar.
— Ela não vai a lugar nenhum às seis da manhã, a menos que ela queira — interveio Emanuel.
— Ela vai sim — Eunice rebateu. — Nesta casa, enquanto eu estiver aqui, Deus vem em primeiro lugar. E moças solteiras não ficam de conversinha com homens até tarde.
O jantar prosseguiu nesse tom. Emanuel sentia-se um leão enjaulado. Ele olhava para Eduarda e a via tão submissa àquela situação que isso o irritava profundamente. Ele queria pegá-la pelo braço, colocá-la no carro e mostrar a ela que ninguém, nem a família, nem a religião, tinha poder sobre o que era dele.
Após o jantar, Ricardo e Emanuel foram para a varanda.
— Sinto muito por isso, Emanuel — disse Ricardo, servindo um conhaque. — A Eunice é a última de uma geração muito conservadora da nossa família. Ela tem muito dinheiro e nenhuma herdeira direta, então a Helena faz de tudo para agradá-la, pensando no futuro da Duda.
— Eu não preciso do dinheiro dela para a Duda, Ricardo. Eu tenho mais do que o suficiente para dar a ela dez vidas de luxo — Emanuel respondeu, a voz ríspida. — O que me irrita é ver a Eduarda ser tratada como se fosse uma criança sem vontade própria. E me irrita ainda mais ela aceitar isso.
— Ela é doce, Emanuel. Ela não gosta de conflitos. Você sabe disso melhor do que ninguém. Ela prefere ceder do que ver a mãe chorando por causa de uma briga com a tia.
Eduarda apareceu na varanda, deslizando como uma sombra. Ela se aproximou de Emanuel, ignorando a presença do pai por um momento, e o abraçou pela cintura, escondendo o rosto em seu peito.
— Manu... não vai embora bravo, por favor — ela pediu, a voz abafada pela camisa dele. — Eu estou morrendo de saudade. A semana que você passou fora foi horrível. Eu me senti tão sozinha...
Emanuel suspirou, passando as mãos pelos cabelos dela, desfazendo o coque rígido que a tia a obrigara a usar.
— Se você sente tanta saudade, por que não vem comigo agora? Deixe que ela fale, deixe que ela grite. Você é maior de idade, Eduarda.
— Eu não consigo... — ela disse, olhando para ele com os olhos brilhantes de lágrimas. — Minha mãe me pediu tanto. É só por alguns dias, eu juro. Depois que ela for embora, eu prometo que vou passar a semana inteira com você. Eu faço tudo o que você quiser.
— Você sempre promete, pequena — ele disse, segurando o queixo dela com firmeza. — Mas sempre aparece uma desculpa. Um sítio, uma tia, uma faculdade. Eu quero você na minha casa. Eu quero você onde eu possa te ver quando eu acordar.
— Eu vou... eu prometo que vou — ela disse, fazendo um biquinho manhoso e roçando o nariz no dele. — Você me espera? Só mais um pouquinho? Por favor, meu amor... meu tatuador preferido...
Emanuel olhou para aquele rosto, para aquela expressão de gatinho abandonado que sempre o vencia. Ele a beijou, um beijo possessivo e faminto, que fez Eduarda soltar um suspiro trêmulo.
— Eu vou esperar — disse ele, contra os lábios dela. — Mas não desligue o celular. E se aquela mulher falar mais uma palavra sobre as minhas tatuagens, eu não respondo por mim.
— Ela não vai falar... eu vou ficar no quarto estudando — prometeu Eduarda, sorrindo entre as lágrimas. — Eu te amo, Manu.
Emanuel despediu-se de Ricardo e caminhou até o carro sob o olhar vigilante de Eunice, que o observava da janela da sala como se estivesse vendo o próprio demônio se retirar.
Ao chegar na cobertura, ele encontrou Sara na sala, bebendo vinho e rindo de algo no celular. Ela usava uma camisola de renda preta, vulgar e provocante, que deixava quase tudo à mostra.
— Cadê a santinha? — perguntou Sara, sem tirar os olhos da tela. — Não me diga que ela preferiu o terço da tia ao seu... "talento"?
— Não comece, Sara — rosnou Emanuel, jogando as chaves sobre a mesa. — A tia dela é uma fanática. A Eduarda vai ter que ficar lá por uns dias.
Sara soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.
— Isso é hilário! O grande Emanuel, o dono de impérios, derrotado por uma tia carola com um terço na mão. Eu pagaria para ver a sua cara durante o jantar.
Emanuel caminhou até o bar e serviu-se de um whisky puro, o gelo estalando no copo.
— Ela está sendo pressionada pela família. É uma situação complicada.
— Complicada nada, Emanuel. Ela é fraca — Sara disse, levantando-se e caminhando até ele, colando seu corpo ao dele. — Ela prefere obedecer a uma velha do que estar com você. Já eu... eu estou aqui. Eu não peço permissão para ninguém para estar na sua cama. Eu não tenho tias, não tenho medos e não tenho "manhas".
Sara passou as mãos pelas tatuagens do pescoço de Emanuel, beijando o lugar onde a pele encontrava a tinta.
— Esqueça a pequena Duda por hoje. Ela está lá, rezando o rosário. Deixe que eu te mostre o que é uma mulher de verdade, que não precisa de proteção e que sabe exatamente o que você quer.
Emanuel olhou para Sara. A intensidade dela era um contraste violento com a doçura de Eduarda. Ele sentia raiva de Eduarda por sua submissão, raiva da tia Eunice por sua audácia e raiva de si mesmo por não conseguir simplesmente carregar Eduarda dali.
Ele puxou Sara pela nuca, beijando-a com uma agressividade que era puro reflexo de sua frustração. Sara correspondeu com a mesma força, rindo entre os beijos, sabendo que, naquela noite, ela havia vencido por W.O.
No entanto, mesmo enquanto suas mãos percorriam o corpo de Sara, a mente de Emanuel estava a quilômetros dali. Ele imaginava Eduarda em seu quarto de solteira, cercada por imagens religiosas e pela opressão da tia, e uma necessidade protetora — quase doentia — crescia em seu peito.
Ele a queria. E quanto mais obstáculos surgiam, mais obsessiva tornava-se sua vontade de tê-la trancada em sua cobertura, longe de tias, de pais e de qualquer mundo que não fosse o dele. O jantar fora um erro, a espera era um tormento, e Emanuel sabia que, assim que aquela tia fosse embora, ele não pediria mais: ele exigiria que Eduarda assumisse seu lugar.
Naquela noite, enquanto o silêncio da cobertura era quebrado apenas pelos sons de prazer entre ele e Sara, Emanuel fez uma promessa silenciosa a si mesmo. Ele marcaria Eduarda de uma forma que nenhuma religião ou família conseguiria apagar. Ela seria dele, totalmente, ou ele destruiria qualquer barreira que se atrevesse a ficar no caminho.
E no subúrbio, Eduarda olhava para a lua através da janela de seu quarto, segurando o pingente de safira e sentindo um aperto no coração. Ela sabia que Emanuel estava com Sara. Sabia que a paciência dele estava se esgotando. Mas, em sua mente manhosa e temerosa, ela acreditava que o amor dele seria capaz de esperar por tudo. Ela só não sabia que, para um homem como Emanuel, esperar era o mesmo que perder — e ele nunca perdia.