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O Sal da Pele e o Pecado da Sacada

O domingo em Angra dos Reis havia sido uma exibição de excessos. Sara, sob o sol escaldante, parecia uma criatura feita de ouro e silicone, desfilando pelo convés do iate com um biquíni que desafiava as leis da física e da decência. Ela ria alto, bebia champanhe gelado e fazia questão de passar as mãos pelas tatuagens de Emanuel sempre que algum conhecido passava por perto, reafirmando sua posse. Emanuel, por sua vez, deixava-se levar pela energia vibrante da loira. O mar, o sal e a presença imponente de Sara eram anestésicos para a irritação que ele sentia desde o jantar desastroso com a tia Eunice.

— Você está muito pensativo hoje, Manu — disse Sara, aproximando-se dele enquanto ele pilotava o jet-ski de volta para a mansão. Ela se abraçou às costas dele, sentindo os músculos firmes. — Ainda está pensando na carola e na sobrinha submissa? Esquece isso. Olha onde a gente está. Olha para mim.

Emanuel acelerou, sentindo o vento cortar o rosto.

— Não estou pensando em ninguém, Sara. Só aproveitando o dia.

— Mentirosinho — ela sussurrou no ouvido dele, mordendo levemente o lóbulo de sua orelha. — Você está com aquele olhar de quem quer quebrar alguma coisa. Ou alguém.

Ao voltarem para a mansão de praia, o clima de festa continuou com os amigos de Sara, mas Emanuel sentia um vazio incômodo. Ele olhava para o celular a cada cinco minutos. Nenhuma mensagem de Eduarda. O silêncio dela, imposto pela presença da tia vigilante, era como um ruído ensurdecedor em sua mente. Ele imaginava Eduarda sentada em um banco de igreja, com roupas largas, sendo doutrinada contra ele, e o ciúme possessivo começava a queimar mais do que o sol em seus ombros.

— Vou voltar para a cidade agora — anunciou Emanuel, abruptamente, por volta das sete da noite, enquanto os outros se preparavam para um churrasco de frutos do mar.

— Agora? — Sara franziu o cenho, saindo da piscina com a água escorrendo pelo corpo escultural. — Mas a noite mal começou, Manu!

— Tenho assuntos para resolver nos estúdios amanhã cedo. Pode ficar com o pessoal, mando o motorista te buscar amanhã.

— Você vai atrás dela, não vai? — Sara cruzou os braços, a ironia afiada voltando ao seu rosto. — Vai se humilhar na porta daquela casa de novo?

— Eu não me humilho, Sara. Eu busco o que é meu.

Ele não esperou resposta. Dirigiu seu carro esportivo pela estrada sinuosa de volta à capital com uma pressa irracional. A cada quilômetro, a imagem de Eduarda manhosa, pedindo desculpas com os olhos úmidos, tornava-se mais nítida. Ele não suportava a ideia de passar mais uma noite sabendo que ela estava sendo "protegida" dele.

Quando chegou ao bairro de Eduarda, a rua estava silenciosa. As luzes da casa dos pais dela estavam quase todas apagadas, exceto por uma claridade suave que vinha do andar superior — o quarto dela. Emanuel estacionou a duas quadras de distância para não chamar atenção com o ronco do motor.

Ele caminhou até o muro lateral, onde uma árvore frondosa estendia seus galhos em direção à sacada do quarto de Eduarda. O lado racional de Emanuel dizia que aquilo era loucura, que ele era um empresário rico e respeitado, não um adolescente inconsequente. Mas o lado que trazia as marcas de tinta na pele, o lado que queria controle total sobre sua "pequena", falava mais alto.

Com a agilidade de quem mantinha o corpo em constante treinamento, Emanuel escalou o muro e usou os galhos da árvore para se impulsionar até a grade de ferro da sacada. Ele aterrissou sem fazer barulho, as botas de couro tocando o piso de pedra com suavidade. A porta de vidro estava entreaberta para deixar o ar entrar.

Lá dentro, Eduarda estava sentada na cama, vestindo uma camisola de algodão branca, lendo um livro de orações que a tia certamente a obrigara a manter por perto. Ela parecia triste, a expressão doce murcha pela melancolia.

Emanuel empurrou a porta devagar.

— Duda.

Eduarda deu um pulo, soltando o livro e levando a mão ao peito. Seus olhos se arregalaram ao ver a figura alta e sombria de Emanuel, ainda com o cheiro de mar e perfume caro, parado em sua sacada.

— Manu! — ela sussurrou, a voz trêmula de choque e alegria. Ela correu para ele, jogando-se em seus braços. — Você enlouqueceu? Como você subiu aqui?

— Eu não ia aguentar mais uma noite sem te ver — disse ele, a voz rouca, enterrando o rosto no pescoço dela. — Eu não suporto aquela mulher ditando o que você pode ou não fazer.

— Meu Deus, se a tia Eunice te vê aqui... ela tem um infarto e eu sou mandada para um convento — Eduarda riu baixinho, a manha voltando instantaneamente enquanto ela se aninhava no peito dele. — Você é doido, Manu. Mas eu senti tanta saudade...

Emanuel a apertou com força, sentindo a maciez do corpo dela sob o tecido fino.

— Vem comigo agora, pequena. Pula essa sacada comigo. Eu te levo para longe dessa loucura.

— Eu não posso, meu amor... — ela disse, fazendo um biquinho e olhando para ele com aquela doçura que o desarmava. — Ela dorme no quarto ao lado. Qualquer barulho e ela acorda. Ela é como um vigia.

— Eu não me importo com ela.

Emanuel começou a beijar o pescoço de Eduarda, as mãos grandes descendo pelas costas dela, sentindo a pele quente. Eduarda soltou um suspiro baixo, entregando-se ao toque dele, esquecendo por um momento o perigo que corriam.

— Você está tão cheiroso... cheira a sol — ela murmurou, fechando os olhos.

— E você cheira a medo e a essa casa velha — ele retrucou, mordendo o lábio dela. — Por que você aceita isso, Duda? Por que não se impõe?

— Porque eu sou assim, Manu... eu não gosto de briga. E é só por uns dias. Por favor, não fica bravo. Fica aqui um pouquinho comigo? No silêncio?

Emanuel a pegou no colo e a levou para a cama, deitando-se ao lado dela sobre as colchas arrumadas. Por alguns minutos, o mundo lá fora não existia. Ele a beijava com uma ternura possessiva, sentindo a submissão dela como um bálsamo para seu ego ferido. Eduarda era manhosa, enroscando-se nele como uma criança que busca proteção, mas com a intensidade de uma mulher que o amava profundamente.

— Você é minha, Eduarda — ele sussurrou contra o ouvido dela. — Não importa o que aquela mulher diga, não importa quantos terços ela te faça rezar. Você é marcada por mim.

— Eu sei... eu sou sua — ela respondeu, a voz embargada.

De repente, o som de passos pesados no corredor fez o sangue de ambos congelar. O assoalho de madeira da casa antiga rangia sob o peso de alguém que caminhava com determinação.

— Eduarda? — A voz estridente da tia Eunice ecoou do outro lado da porta. — Por que a luz ainda está acesa? Eu ouvi vozes. Você está falando sozinha ou está com esse aparelho do demônio ligado?

Eduarda empalideceu, os olhos arregalados de puro pavor.

— Vai, Manu! Esconde! — ela sussurrou desesperada, apontando para debaixo da cama ou para trás das cortinas.

Emanuel, mantendo a calma sob pressão, levantou-se rapidamente. Ele não se esconderia como um amante culpado debaixo de uma cama, mas também sabia que ser pego ali causaria um desastre irreparável para a imagem de Eduarda diante da família.

— Apaga a luz! — ele ordenou em um sussurro.

Eduarda bateu no interruptor, mergulhando o quarto na penumbra, iluminada apenas pela luz da lua que vinha da sacada. Emanuel recuou para as sombras da cortina pesada, fundindo-se à escuridão.

A maçaneta girou. Eunice entrou no quarto, segurando uma lanterna pequena e seu onipresente terço. Ela iluminou o quarto com o feixe de luz, passando-o pela cama, onde Eduarda estava sentada, fingindo ter acabado de acordar.

— O que foi, tia? — perguntou Eduarda, a voz saindo mais aguda do que o normal. — Eu... eu estava rezando em voz alta, como a senhora sugeriu. Devo ter pegado no sono com a luz acesa.

Eunice estreitou os olhos, a luz da lanterna varrendo o ambiente. Ela caminhou em direção à sacada. Emanuel, encostado na parede externa, atrás do batente da porta, prendeu a respiração. Ele podia sentir o cheiro do sabonete de ervas da mulher.

— A porta da sacada está aberta, Eduarda — disse Eunice, desconfiada. — Eu já disse que o ar da noite traz tentações e doenças.

— Eu estava com calor, tia... só isso.

Eunice chegou à beirada da sacada e olhou para baixo, para o jardim escuro. Por um segundo, a luz da lanterna passou a centímetros das botas de Emanuel. Ele manteve o corpo imóvel, as costas coladas à parede fria, a mão pronta para se segurar na grade caso precisasse saltar.

— Tem um cheiro estranho aqui — murmurou Eunice, farejando o ar. — Cheiro de... perfume de homem. Aquele perfume forte que aquele seu namorado cheio de rabiscos usa.

Eduarda sentiu o coração bater na garganta.

— É o meu hidratante, tia! Aquele que a senhora disse que era muito perfumado. Eu passei antes de dormir.

Eunice ficou em silêncio por um tempo que pareceu uma eternidade. Ela era uma mulher amarga, mas não era boba. Ela sentia que havia algo errado, mas a escuridão e a aparência inocente da sobrinha a faziam hesitar.

— Pois feche essa porta e vá dormir de verdade — ordenou a tia, finalmente se afastando da sacada. — Amanhã o dia começa cedo. E eu vou benzer este quarto com água benta, estou sentindo uma presença carregada aqui.

Eunice saiu, fechando a porta do quarto com um estalo seco. Eduarda esperou ouvir os passos da tia se afastarem pelo corredor e a porta do quarto dela se fechar antes de correr para a sacada.

— Manu! — ela chamou, quase sem fôlego. — Ela quase te viu! Por favor, vai embora agora! Meu coração não aguenta isso.

Emanuel saiu das sombras, a expressão séria, mas com um brilho de adrenalina nos olhos. Ele a puxou para um último beijo rápido e intenso.

— Viu o que você me faz passar? — ele perguntou, com um sorriso de canto. — Eu sou um homem de negócios, Duda, não um ladrão de galinhas.

— Você é o meu ladrão — ela disse, tentando sorrir apesar do susto. — Por favor, vai... antes que ela volte.

— Eu vou. Mas escute bem: amanhã, depois da sua missa ou do que quer que aquela mulher invente, eu venho te buscar. E não vai ser pela sacada. Eu vou entrar pela porta da frente e você vai sair comigo. Entendeu?

— Manu...

— Entendeu, Eduarda? — O tom dele não admitia discussão.

— Entendi — ela sussurrou, submissa. — Eu vou estar pronta.

Emanuel desceu pela árvore com a mesma facilidade com que subira. Ao tocar o chão, ele olhou para cima e viu a silhueta de Eduarda na sacada, uma pequena mancha branca na escuridão. Ele sentiu uma mistura de triunfo e posse. Ele havia desafiado a "vigilância" e vencido.

Ao caminhar de volta para o carro, o celular de Emanuel vibrou. Era uma mensagem de Sara: "Onde você está? A festa aqui ficou chata sem você. Volte logo, o quarto está muito grande para mim sozinha."

Emanuel guardou o celular sem responder. Ele entrou no carro e deu a partida, sentindo o motor rugir sob suas mãos. Ele tinha Sara esperando por ele com todo o fogo e a conveniência de uma vida compartilhada sem complicações. Mas era o perigo daquela sacada, a manha de Eduarda e a resistência que ela oferecia que faziam seu sangue pulsar com mais força.

Ele dirigiu de volta para a cobertura com um plano claro. A tia Eunice seria apenas um detalhe. Ele ia levar Eduarda para morar com ele, nem que tivesse que enfrentar toda a linhagem religiosa da família dela. E Sara... bem, Sara teria que aprender a dividir o espaço de forma definitiva, ou o império que eles construíram juntos começaria a rachar.

Naquela noite, Emanuel não dormiu. Ele ficou sentado na varanda de sua cobertura, olhando para a cidade, sentindo o cheiro do mar que ainda impregnava sua pele e o cheiro de Eduarda que ficara em suas mãos. Ele era o mestre de seu destino, o dono de seu império, e ele acabara de decidir que o tempo de esperar havia acabado.

No dia seguinte, a guerra entre a Calmaria e a Tempestade ganharia um novo capítulo. E Emanuel estava pronto para ser o vencedor, não importava quantas sacadas tivesse que escalar ou quantas regras tivesse que quebrar.