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Ouro, Vidro e a Fragilidade do Controle

O sol de outono entrava pelas enormes vidraças da cobertura, refletindo-se nas superfícies de mármore e metal escovado. Emanuel observava o horizonte, mas sua mente estava focada na logística impecável que havia planejado para aquele dia. Oito meses haviam se passado desde a fatídica noite na sacada de Eduarda, e embora a convivência entre suas duas namoradas ainda fosse um equilíbrio precário de forças opostas, ele sentia que tinha as rédeas da situação.

Sara completava vinte e cinco anos. Para Emanuel, o aniversário dela não era apenas uma celebração, mas uma afirmação de status e de afeto. Ele admirava a força de Sara, a maneira como ela administrava seus negócios com uma mão de ferro calçada em luvas de seda, e como ela nunca recuava diante de um desafio. Ela merecia o melhor.

— Bom dia, aniversariante — disse Emanuel, caminhando até a mesa de café da manhã, onde Sara já estava sentada, deslumbrante em um roupão de cetim champanhe, folheando relatórios em seu tablet.

— Bom dia, querido — respondeu ela, fechando o aparelho e oferecendo-lhe um sorriso radiante e confiante. — Espero que esteja preparado. Hoje eu pretendo ser o centro das atenções de toda a cidade, e não aceito nada menos que a perfeição.

— Você sabe que eu não aceito menos que isso para você — Emanuel inclinou-se e beijou-a com intensidade. — O presente principal chega à noite, mas por enquanto, aproveite isso.

Ele deslizou uma pequena caixa de veludo negro sobre a mesa. Dentro, um bracelete de ouro maciço cravejado de diamantes negros e incolores, formando o padrão de uma de suas tatuagens mais icônicas. Sara soltou um suspiro de satisfação, seus olhos brilhando com a cobiça e o reconhecimento do luxo.

— É maravilhoso, Manu. Você realmente sabe como marcar uma mulher.

— Você é minha sócia e minha companheira, Sara. Esse é apenas o começo do seu dia.

A manhã e a tarde foram dedicadas inteiramente a ela. Emanuel a acompanhou em um almoço exclusivo, fechado apenas para os dois em um restaurante renomado, e depois a deixou no spa para que ela se preparasse para a grande festa que aconteceria naquela noite no salão de festas da cobertura. Emanuel queria que tudo fosse perfeito. Ele queria Sara brilhando no topo do mundo, e queria Eduarda ao seu lado, completando o quadro de sua vida ideal.

O plano era simples: ele buscaria Eduarda às dezenove horas. Já havia enviado um vestido de seda azul-claro para a casa dela, junto com sapatos delicados e uma joia discreta. Ele queria as duas lá. A presença de Eduarda, com sua doçura e timidez, servia como o contraponto necessário à intensidade vulgar e magnética de Sara.

Por volta das dezesseis horas, enquanto Emanuel revisava os últimos detalhes da decoração com o buffet, seu celular vibrou no bolso. Ele sorriu, esperando uma mensagem manhosa de Eduarda dizendo que estava nervosa com a festa.

Mas, ao ler a tela, seu sorriso desapareceu, substituído por uma rigidez que fez os funcionários ao redor recuarem instintivamente.

"Manu, meu amor, me perdoa... por favor, não fica bravo. Meus pais decidiram de última hora que precisamos ir para o interior visitar minha avó, ela não está bem de saúde. Eles já estão me chamando para o carro. Eu sinto muito mesmo, queria tanto estar com você e com a Sara hoje. Me espera voltar? Te amo muito, sua pequena."

Emanuel apertou o celular com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. A raiva subiu por seu pescoço, quente e sufocante. Oito meses. Oito meses de paciência, de pedidos, de tentativas de integrá-la à sua rotina, e ela ainda permitia que os pais a levassem como se fosse uma criança de dez anos.

— Droga, Eduarda! — rosnou ele, saindo para a varanda para que ninguém o visse perder a compostura.

Ele discou o número dela imediatamente. Caixa postal. Ele tentou de novo. Nada.

A vontade de Emanuel era pegar o carro, dirigir até a casa dela e tirá-la de dentro daquele veículo à força. Mas a voz da razão — e a voz de Sara, que ecoava em sua mente — o deteve. Era o aniversário de Sara. Se ele saísse agora em uma perseguição frenética atrás de Eduarda, estragaria o dia da mulher que estava ali, construindo o império com ele, morando com ele, sendo leal a cada segundo.

Ele respirou fundo, tentando controlar os batimentos cardíacos. Ele não deixaria que a insegurança e a hesitação de Eduarda arruinassem o brilho de Sara.

— Emanuel? — A voz de Sara veio de dentro da sala. Ela já estava de volta, envolta em uma nuvem de perfume caro, o cabelo loiro em ondas perfeitas. — Algum problema com o buffet? Você está com aquela cara de quem quer matar alguém.

Emanuel guardou o celular e virou-se, forçando uma expressão neutra.

— Nada importante, Sara. Apenas um contratempo com um fornecedor. Já resolvi.

— Ótimo — disse ela, aproximando-se e ajeitando a gravata dele, embora ele ainda estivesse de camisa casual. — Porque hoje eu não quero sombras. Quero luz total. A santinha já confirmou o horário?

Emanuel hesitou por um milésimo de segundo.

— Ela não vem, Sara. Teve uma emergência familiar e precisou viajar com os pais para o interior.

Sara parou o movimento das mãos e olhou fixamente para ele. Um sorriso irônico, quase de escárnio, surgiu em seus lábios perfeitamente pintados.

— Que surpresa conveniente, não é? — ela riu, uma risada curta e seca. — No dia da minha festa, a princesinha descobre que tem uma avó doente no interior. Emanuel, você é um gênio para os negócios, mas é de uma cegueira impressionante quando se trata dessa menina.

— Sara, não comece. Ela estava triste na mensagem, eu senti.

— Ela é manhosa, Manu! Ela sabe exatamente como te manipular para que você sinta pena em vez de raiva. Ela não quer estar aqui porque tem medo de mim, e tem medo de assumir que é a sua mulher diante de todo mundo. Ela prefere ser a filhinha do papai no interior.

— Chega — disse ele, a voz baixa e perigosa. — Hoje o dia é seu. Eu não vou discutir a Eduarda com você. Eu vou focar em te dar a melhor noite da sua vida.

Sara deu de ombros, satisfeita por ter plantado a semente da dúvida, e voltou para o quarto para terminar de se vestir. Emanuel, no entanto, sentia uma ferida aberta em seu ego. Ele amava Eduarda, amava a fragilidade dela, mas aquela "fuga" constante o exauria.

A festa começou às vinte e uma horas. A cobertura estava lotada com a elite da cidade: empresários, artistas, influenciadores e parceiros de negócios dos estúdios de tatuagem. Sara era a estrela absoluta. Usando um vestido de lantejoulas douradas que parecia ter sido costurado em seu corpo, ela circulava pelo salão com uma taça de cristal na mão, sendo a anfitriã perfeita, inteligente e provocante.

Emanuel, impecável em um terno sob medida que escondia suas tatuagens, mas deixava transparecer sua aura de poder, estava ao lado dela. Ele recebia os cumprimentos, sorria para as fotos e mantinha a mão possessiva na cintura de Sara. Mas, a cada vez que o elevador se abria, seus olhos buscavam, involuntariamente, um vestido azul-claro e um par de olhos castanhos assustados.

— Pare de procurar, querido — sussurrou Sara, aproximando-se dele durante uma pausa na música. — Ela não vai aparecer. Ela escolheu o mato e o silêncio. Fique aqui, no brilho, comigo.

— Eu estou aqui, Sara — respondeu ele, embora sua voz soasse um pouco distante.

— Então prove — disse ela, puxando-o para o centro da pista de dança enquanto o DJ aumentava o volume.

A noite avançava em um borrão de luxo. Emanuel bebia mais do que o habitual, tentando afogar a irritação que a mensagem de Eduarda havia deixado. Ele olhava para Sara e via a perfeição da forma, a eficiência da mente, o fogo do desejo. Ela era o que o mundo via, o que o mundo respeitava. Por que ele ainda ansiava pela doçura infantil e pela insegurança de quem nem sequer conseguia dizer "não" aos pais?

Por volta da meia-noite, Emanuel foi até o bar para pegar outro whisky. Seu celular vibrou novamente. Uma foto.

Era Eduarda. Ela estava em um balanço de madeira, sob a luz do luar, em algum lugar que parecia ser um sítio. Usava um pijama de flanela e tinha o rosto limpo, sem maquiagem, parecendo ainda mais jovem e vulnerável. A legenda dizia: "Queria estar no seu abraço agora. A lua aqui está linda, mas sem você, tudo parece vazio. Parabéns para a Sara. Com amor, sua pequena."

Emanuel sentiu um aperto no peito que misturava raiva e uma ternura doentia. Ela era tão injusta. Ela o deixava sozinho naquela festa barulhenta, cercado por pessoas que só queriam seu dinheiro, e depois mandava uma foto daquela, sabendo que o desarmaria.

— Manu? — Sara apareceu ao lado dele, os olhos brilhando pela bebida e pela adrenalina da noite. — O que foi agora? Outra mensagem da floresta?

Ela arrancou o celular da mão dele antes que ele pudesse reagir. Sara olhou para a foto e soltou uma gargalhada genuína, cheia de desprezo.

— Olha só para isso! — ela mostrou a tela para uma de suas amigas que passava. — A rival do ano, no balanço da vovó, de pijama de ursinho. Enquanto nós estamos aqui, vivendo a vida real, ela está brincando de ser camponesa. Emanuel, você realmente tem um gosto peculiar para o drama.

— Devolve o celular, Sara — disse Emanuel, a voz agora carregada de uma frieza glacial.

— Toma sua relíquia — ela devolveu o aparelho com um gesto brusco. — Mas me faça um favor. Se você vai ficar com essa cara de velório por causa de uma foto de pijama, vá para o escritório. Não estrague o meu momento com a sua carência por aquela menina.

Sara deu as costas e voltou para os amigos, rindo alto. Emanuel ficou parado no bar, o celular pesado em sua mão. Ele olhou para a foto de Eduarda e depois para as costas douradas de Sara.

Ele amava Sara por sua força, por sua vulgaridade que não pedia desculpas, por ser a mulher que enfrentava o mundo de pé. Mas ele amava Eduarda porque ela era o único lugar onde ele podia baixar a guarda, onde ele não precisava ser o grande empresário, apenas o homem que a protegia.

Emanuel não foi para o escritório. Ele guardou o celular, virou o whisky e voltou para a festa. Ele dançou com Sara, brindou com os convidados e foi o anfitrião que todos esperavam. Ele não deixaria que o dia de Sara fosse arruinado. Ele seria o homem perfeito para ela naquela noite, porque ela merecia sua lealdade.

Mas, dentro dele, uma decisão estava sendo selada.

Quando a festa finalmente terminou e os últimos convidados saíram, a cobertura mergulhou em um silêncio exausto. Sara, com os pés descalços e o vestido levemente amarrotado, jogou-se no sofá de couro branco, transbordando satisfação.

— Foi perfeito, Manu. Eu sou a mulher mais poderosa desta cidade hoje.

— Você foi incrível, Sara — disse ele, sentando-se ao lado dela e puxando-a para um abraço.

— Eu sei que você ficou irritado com a "fuga" da outra — disse Sara, a voz mais mansa agora. — Mas entenda uma coisa... eu sou a que fica. Eu sou a que constrói com você. Ela é só um sonho de infância que você se recusa a abandonar.

Emanuel não respondeu. Ele a beijou, um beijo de gratidão e de posse. Sara era sua realidade sólida.

No entanto, antes de dormir, Emanuel enviou uma única mensagem para Eduarda.

"Aproveite o interior, Eduarda. Mas saiba que esta foi a última festa que você perdeu. Quando você voltar, não haverá mais 'esperar um pouco'. Ou você traz suas malas, ou eu mesmo buscarei cada uma delas. A paciência acabou. Durma bem."

Ele desligou o celular e deitou-se ao lado de Sara. Oito meses de convivência civilizada haviam chegado ao fim. Emanuel percebeu que não podia mais equilibrar os dois pratos da balança sem que um deles quebrasse. Se Eduarda queria ser sua "pequena", ela teria que aprender a viver no seu mundo, sob suas regras, e ao lado da mulher que ele também não pretendia deixar.

A guerra fria entre a timidez de Eduarda e a agressividade de Sara estava prestes a se tornar um conflito aberto, e Emanuel, o mestre do controle, estava pronto para ser o comandante de ambos os lados, não importava o preço.

Naquela noite, sob o teto de vidro da cobertura, Emanuel sonhou com ouro e com seda azul, com risadas altas e sussurros manhosos. Ele tinha tudo o que um homem poderia desejar, mas sabia que o verdadeiro desafio começaria quando o sol nascesse e Eduarda tivesse que escolher entre o balanço do sítio e o império que ele havia construído para elas. E ele, Emanuel, não aceitaria nada menos que a rendição total.