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O Reflexo do Ciúme e o Gosto do Equívoco

O restaurante *L'Éclat* era o epítome da sofisticação paulistana: luzes baixas, paredes revestidas de veludo azul-profundo e uma adega de vidro que subia até o teto, exibindo rótulos que custavam mais do que um carro popular. Emanuel estava sentado à mesa central, a posição de destaque que ele sempre exigia. Ao seu lado, Sara era uma visão de ostentação e beleza agressiva. Ela usava um vestido vermelho de seda, tão justo que parecia esculpido em seu corpo, e o decote generoso deixava claro o investimento em seus seios siliconados. Ela ria alto de uma piada de Ricardo, um dos sócios de Emanuel, enquanto bebia um Martini extra seco.

Emanuel, no entanto, não estava totalmente presente. Já se haviam passado quatro meses desde o ultimato na noite do aniversário de Sara, e o resultado fora um impasse frustrante. Eduarda continuava na casa dos pais. Ela usava todas as táticas de seu arsenal — a voz mansa, os beijos no pescoço, as lágrimas silenciosas e as promessas de que "estava quase pronta" — para manter sua independência. Emanuel a amava com uma intensidade protetora que beirava a obsessão, mas a resistência dela o deixava em um estado de irritação latente.

— Manu, você está em Marte de novo? — Sara tocou o braço dele, as unhas longas e pintadas de dourado contrastando com o terno escuro dele. — O Ricardo está falando sobre o novo estúdio em Miami. Preste atenção, querido.

— Estou ouvindo, Sara — respondeu Emanuel, forçando um sorriso e pegando sua taça de vinho. — Miami é uma prioridade para o próximo semestre. Só estava pensando na logística.

— Você pensa demais — Sara provocou, aproximando-se para sussurrar no ouvido dele, a voz carregada de segundas intenções. — Devia pensar menos e aproveitar mais o que tem na sua frente.

Emanuel ia responder quando seu olhar vagou para a entrada do restaurante. O ar pareceu fugir de seus pulmões.

Lá estava ela. Eduarda.

Ela parecia flutuar em um vestido floral delicado, com os cabelos castanhos caindo em ondas suaves sobre os ombros. Mas ela não estava sozinha. Um homem alto, de ombros largos e cabelos escuros, segurava a mão dela com uma familiaridade que fez o sangue de Emanuel ferver instantaneamente. O desconhecido inclinou-se para dizer algo no ouvido de Eduarda, e ela soltou aquela risada cristalina e doce que Emanuel considerava sua propriedade exclusiva.

O mundo ao redor de Emanuel desapareceu. As vozes de Sara e dos amigos tornaram-se um zumbido indistinto. Ele viu o homem puxar a cadeira para Eduarda em uma mesa mais reservada, mas ainda visível, e depois acariciar o rosto dela com um carinho que Emanuel só podia descrever como íntimo.

— Emanuel? — A voz de Sara subiu dois tons, percebendo a mudança drástica na postura dele. Ela seguiu o olhar do namorado e seus olhos se estreitaram. — Ora, ora... parece que a pequena ovelha saiu do pasto. E não parece estar sentindo sua falta.

— Quem é aquele cara? — Emanuel perguntou, a voz saindo como um rosnado baixo.

— Como eu vou saber? — Sara deu de ombros, embora houvesse um brilho de satisfação maldosa em seus olhos. — Mas ele é bem bonito, não acha? Parece bem mais... disponível do que você.

Emanuel não ouviu o resto. Ele se levantou bruscamente, derrubando quase metade do vinho na toalha branca. A raiva possessiva, acumulada por meses de recusas de Eduarda em morar com ele, explodiu em uma necessidade cega de confronto.

— Manu, não faz cena! — Sara sibilou, mas ele já estava caminhando em direção à mesa de Eduarda.

Eduarda estava olhando o cardápio, comentando algo de forma animada, quando a sombra de Emanuel cobriu a mesa. Ela levantou os olhos e seu sorriso vacilou, mas não desapareceu.

— Manu? O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, a voz suave, mas com um toque de surpresa.

— Eu é que pergunto, Eduarda — Emanuel disse, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo, os olhos fixos no homem à frente dela. — Quem é ele? E o que você está fazendo em um lugar desses com um estranho enquanto me diz que está "cansada demais" para sair comigo?

O homem à mesa levantou-se. Ele era quase da mesma altura de Emanuel e mantinha uma expressão de curiosidade divertida.

— Algum problema, Duda? — o homem perguntou, a voz calma.

— Emanuel, por favor, se acalme... — Eduarda começou, mas o ciúme de Emanuel era um trem desgovernado.

— Se acalmar? — Emanuel virou-se para o desconhecido. — Eu não sei quem você pensa que é, mas a Eduarda é minha namorada. É melhor você se afastar dela agora antes que eu perca a pouca paciência que me resta.

O restaurante, antes agitado por conversas educadas, mergulhou em um silêncio constrangedor. Sara, observando da mesa central, levou a mão à boca, não para esconder o choque, mas para conter o riso diante do espetáculo.

O homem olhou para Emanuel, depois para Eduarda, e uma sobrancelha se ergueu.

— Namorada? — O desconhecido soltou uma risada curta. — Então você é o famoso Emanuel? O tatuador que a minha irmã não para de elogiar?

Emanuel estancou. O fogo da raiva foi substituído por uma onda de gelo que percorreu sua espinha.

— Irmã? — ele repetiu, a voz falhando.

Eduarda, agora com as bochechas coradas, mas com um brilho travesso nos olhos, levantou-se e parou ao lado do homem.

— Manu... este é o Gabriel. Meu irmão mais velho. Ele mora em Londres, você sabe disso, eu te falei que ele viria visitar. Ele chegou hoje de surpresa.

Gabriel estendeu a mão para Emanuel, o rosto contorcido em um esforço hercúleo para não gargalhar abertamente.

— Prazer, "cunhado". Eu sabia que você era protetor, mas não sabia que achava que a Eduarda tinha um gosto tão ruim para amantes.

Emanuel sentiu o rosto queimar. Ele olhou para Gabriel, que tinha os mesmos traços finos e o olhar inteligente de Eduarda, e depois para a namorada. Ele queria que o chão do restaurante se abrisse e o engolisse ali mesmo. O grande Emanuel, o homem que controlava impérios e pessoas, havia acabado de fazer o maior papel de bobo de sua vida.

— Eu... eu não sabia. Eu vi vocês dois e... — Emanuel gaguejou, algo que ele nunca fazia.

— Você viu o que o seu ciúme quis mostrar, Manu — disse Eduarda, aproximando-se e tocando o braço dele. Ela estava tentando ser séria, mas um risinho escapou de seus lábios. — Você foi tão... impulsivo.

— Impulsivo? Ele quase me bateu, Duda! — Gabriel riu, finalmente soltando a gargalhada. — Senta aí, Emanuel. Toma uma água. Você parece que vai desmaiar.

Nesse momento, Sara aproximou-se da mesa, balançando os quadris com sua confiança habitual.

— Mas que confusão deliciosa! — exclamou ela, lançando um olhar apreciativo para Gabriel. — Então este é o irmão prodígio? Prazer, eu sou a Sara. A outra metade do Emanuel.

— Eu imagino que a metade mais sensata — Gabriel respondeu, beijando a mão de Sara, o que fez Emanuel cerrar os dentes novamente, mas desta vez de constrangimento.

— Com certeza — Sara deu um tapinha no ombro de Emanuel. — Vá se sentar, querido. Sua dignidade está ali no chão, perto daquela mancha de vinho. Eu cuido das apresentações.

Emanuel não se sentou. Ele permaneceu ali, sentindo-se um gigante desajeitado em uma sala de porcelana.

— Duda, me desculpa — ele murmurou, ignorando a provocação de Sara. — Eu só... eu perdi a cabeça.

— Tudo bem, Manu — ela disse, fazendo aquela manha que ele tanto amava, puxando-o pela mão. — O Gabriel não vai te morder. Ele só gosta de provocar.

— E onde estão seus pais? — Emanuel perguntou, tentando mudar de assunto e recuperar algum vestígio de autoridade.

— Estão chegando. O trânsito estava horrível, então viemos na frente — explicou Gabriel. — Mas acho que eles vão adorar saber que o genro quase me nocauteou antes das entradas.

— Por favor, não conte isso para o seu pai — Emanuel pediu, quase em súplica.

— Depende do vinho que você pagar hoje — Gabriel piscou.

Minutos depois, os pais de Eduarda chegaram. Helena e Ricardo cumprimentaram Emanuel com o carinho de sempre, sem notar a tensão residual no ar. A mesa foi aumentada, e o grupo improvável sentou-se junto.

Sara, como era de se esperar, dominou a conversa. Ela falava sobre Miami, sobre as tendências de moda na Europa e flertava descaradamente com Gabriel, em parte para irritar Emanuel, em parte porque realmente achava o irmão de Eduarda interessante. Gabriel, por sua vez, entrava no jogo, devolvendo as ironias de Sara com uma agilidade mental que a deixava impressionada.

Eduarda estava sentada ao lado de Emanuel. Ela sentia a tensão no corpo dele e, por baixo da mesa, segurou a mão dele, entrelaçando seus dedos.

— Você ainda está bravo? — ela sussurrou, aproximando o rosto do ombro dele.

— Estou com vergonha, Eduarda. Não estou bravo — ele respondeu no mesmo tom. — Eu me senti um idiota.

— Você foi um idiota — ela concordou, dando um beijinho no rosto dele. — Mas foi um idiota que me ama. Eu gosto de saber que você ainda fica louco por mim, mesmo depois de tanto tempo.

Emanuel olhou para ela. A luz das velas refletia-se nos olhos castanhos dela, e ele sentiu aquela onda de afeto avassalador que só ela conseguia despertar. Ele olhou para o outro lado da mesa, onde Sara comandava a atenção de todos com sua risada vibrante e sua presença solar.

Ele amava as duas. Amava a paz que Eduarda lhe trazia e o caos excitante de Sara. Mas momentos como aquele o faziam perceber que, por mais que tentasse controlar tudo, a vida sempre encontraria uma maneira de lhe dar uma rasteira.

— Então, Emanuel — Ricardo, o pai de Eduarda, chamou sua atenção. — O Gabriel estava nos contando que você está com planos de levar a Eduarda para morar com você definitivamente. Ele disse que você foi bem... enfático sobre isso.

Emanuel engasgou com a água. Ele olhou para Gabriel, que lhe deu um sorriso cúmplice e malicioso.

— É... nós temos conversado sobre isso — Emanuel respondeu, tentando manter a voz firme.

— Eu acho uma ótima ideia — disse Helena, sorrindo. — A Eduarda precisa de um pouco mais de agitação na vida. E com a Sara por perto, tédio é algo que ela nunca vai ter.

Eduarda olhou para Emanuel, e depois para Sara. A loira piscou para ela, um gesto raro de camaradagem feminina, ou talvez apenas um desafio.

— Quem sabe, mãe — disse Eduarda, de forma manhosa, encostando a cabeça no peito de Emanuel. — Se o Manu prometer que não vai brigar com todos os homens que chegarem perto de mim, eu posso pensar no assunto.

— Eu prometo — Emanuel disse, passando o braço pelos ombros dela e puxando-a para perto. — Mas só se o seu irmão voltar para Londres logo.

A mesa explodiu em risadas. O jantar prosseguiu de forma leve, algo que Emanuel nunca imaginaria que aconteceria. Ele observava a interação entre Sara e a família de Eduarda e sentia uma ponta de esperança. Talvez, apenas talvez, o equilíbrio que ele tanto buscava não precisasse ser imposto pelo controle, mas sim pelo tempo e pela convivência.

Ao final da noite, enquanto se despediam na calçada do restaurante, Gabriel puxou Emanuel de lado.

— Cuida bem dela, cara. Ela é sensível, mas é mais forte do que parece. E sobre o ciúme... tenta relaxar. Se ela quisesse outro, ela não estaria aguentando esse seu gênio há tanto tempo.

— Eu sei — Emanuel admitiu, apertando a mão do cunhado. — Valeu, Gabriel. E me desculpa de novo.

— Esquece isso. Foi a melhor recepção que eu já tive.

Emanuel e Sara entraram no carro, enquanto Eduarda seguia com os pais e o irmão.

— Então — disse Sara, recostando-se no banco de couro enquanto Emanuel dava a partida. — O irmão dela é um gato. E muito mais divertido que você quando está de mau humor.

— Sara, nem comece.

— Só estou dizendo. Se a Eduarda não se mudar logo, eu mesma vou buscar o Gabriel para morar com a gente. Imagina o quarteto?

Emanuel soltou uma risada curta, a primeira daquela noite que não era carregada de tensão.

— Você é impossível, Sara.

— Eu sou o que você precisa, Manu. E a Duda é o que você quer. No final das contas, você é um homem de sorte. Só precisa aprender a não socar os parentes das suas namoradas.

Emanuel dirigiu pela noite paulistana, sentindo o peso do estresse finalmente diminuir. Ele pensou em Eduarda, no seu jeito manhoso e na forma como ela o defendera, mesmo rindo dele. E pensou em Sara, na sua lealdade ácida e no modo como ela sempre o trazia de volta à realidade.

Ele não tinha o controle total, e talvez nunca tivesse. Eduarda ainda morava com os pais, Sara ainda era imprevisível, e ele ainda era um homem movido por impulsos que nem sempre conseguia dominar. Mas, enquanto cruzava as ruas iluminadas, Emanuel percebeu que, apesar do fiasco no restaurante, ele tinha exatamente o que queria.

Ele tinha as duas. E por elas, ele estava disposto a passar por quantos jantares embaraçosos fossem necessários. Porque no mundo de Emanuel, o amor nunca era simples, nunca era calmo, mas era a única coisa que realmente deixava uma marca permanente, muito além da tinta em sua pele.