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O Peso das Alianças Invisíveis
A cobertura de Emanuel estava mergulhada em um silêncio opressor, quebrado apenas pelo estalar suave da lenha na lareira moderna e pelo farfalhar do papel de presente caro que Sara manuseava. O apartamento exalava o Natal: uma árvore monumental, decorada em tons de preto e dourado, erguia-se na sala de estar, refletindo o gosto impecável e gélido de Emanuel.
Sara, usando um vestido justo de veludo verde que realçava cada curva de seu corpo siliconado, terminava de organizar as caixas sob a árvore. Ela estava radiante. Para ela, o Natal era uma vitrine, uma oportunidade de exibir seu poder e sua posição ao lado do homem mais influente de seu círculo social.
— Manu, o buffet confirmou que a ceia será servida à meia-noite em ponto — disse ela, sem se virar. — Espero que a sua "pequena" não se atrase. Não quero que o risoto de lagosta perca o ponto por causa de indecisões infantis.
Emanuel, parado junto à janela com um copo de whisky puro, não respondeu imediatamente. Seus olhos observavam as luzes da cidade, mas seu pensamento estava a quilômetros dali, na casa de muros altos onde Eduarda vivia sob a asa protetora — e agora sufocante — de seus pais.
— Ela não vem, Sara — disse ele, a voz rouca e carregada de uma tensão que ele não conseguia mais esconder.
Sara parou o que estava fazendo. Ela se levantou devagar, ajeitando o cabelo loiro platinado, e caminhou até ele com um sorriso irônico brincando nos lábios.
— Como é? Ela deu para trás de novo? A avó ressuscitou e precisa de cuidados? Ou o gatinho dela pegou um resfriado?
— A tia Eunice — Emanuel virou-se, o rosto rígido como pedra. — Ela vai passar o Natal na casa dos pais da Duda. E a Duda disse que, com a tia lá, não há a menor possibilidade de você ser recebida.
Sara soltou uma gargalhada alta, desprovida de qualquer humor.
— Ah, isso é maravilhoso! A carola voltou para salvar a sobrinha do pecado. E deixe-me adivinhar: a Eduarda, em toda a sua doçura e submissão, sugeriu que você fosse para lá sozinho? Que me deixasse aqui, nesta cobertura enorme, como se eu fosse um acessório descartável?
— Ela sugeriu que passássemos lá — Emanuel corrigiu, embora soubesse o quão absurdo aquilo soava. — Mas ela foi clara: a tia não sabe da nossa... dinâmica. Ela acha que eu sou o namorado dedicado e único. Se você aparecer, o escândalo destruiria a família dela.
Sara aproximou-se, colando seu corpo ao dele, os olhos brilhando com uma fúria fria.
— E o que você disse a ela, Manu? Porque eu sei que você é muitas coisas, mas nunca foi um covarde que se esconde atrás de mentiras de família tradicional.
— Eu disse a ela que sem você eu não vou — Emanuel sibilou. — Eu não vou passar a noite de Natal fingindo ser o que não sou, enquanto a mulher que mora comigo e constrói a minha vida está aqui sozinha. Se você não é bem-vinda, eu também não sou.
Sara sorriu, vitoriosa, e beijou o canto da boca dele.
— Pelo menos você ainda tem algum bom senso. Mas você sabe o que isso significa, não sabe? Se você não vai para lá, e ela não vem para cá... você está forçando a mão dela.
— Eu quero que ela escolha, Sara. Eu estou cansado de ser o segredo sujo que ela guarda no bolso enquanto brinca de casinha com os pais. Ou ela é minha mulher por inteiro, ou ela não é nada.
No subúrbio, o clima era o oposto. A casa dos pais de Eduarda estava cheia de flores, cheiros de canela e a presença onipresente da tia Eunice, que já estava na sala de jantar criticando a altura das saias das sobrinhas e a falta de fervor religioso nas orações de Natal.
Eduarda estava em seu quarto, sentada na beira da cama, segurando o celular como se fosse uma granada prestes a explodir. As lágrimas escorriam silenciosamente por seu rosto delicado. Ela acabara de ouvir o veredito de Emanuel por telefone, e as palavras dele ainda ecoavam em seus ouvidos como chicotadas: "Sem a Sara, eu não vou. Tome uma decisão, Eduarda. Eu não vou mais esperar na fila da sua família."
— Duda? — A mãe dela, Helena, entrou no quarto com um sorriso gentil que murchou ao ver o estado da filha. — O que foi, meu bem? O Emanuel ligou?
— Ele não vem, mamãe — soluçou Eduarda, escondendo o rosto nas mãos. — Ele disse que se a Sara não puder vir, ele também não vem. Ele disse que eu tenho que escolher.
Helena sentou-se ao lado dela, suspirando. Ela era uma mulher moderna, entendia o amor da filha, mas sabia que a presença de Sara naquela noite, com a tia Eunice presente, seria o mesmo que jogar gasolina em uma fogueira.
— Filha, você sabe como a sua tia é. Ela tem o coração antigo, e o dinheiro da família está nas mãos dela. Se ela souber da Sara... seu pai perderia o apoio nos negócios, e a paz desta casa acabaria para sempre. O Emanuel está sendo egoísta.
— Ele não está sendo egoísta, mamãe... ele está sendo leal a ela — Eduarda disse, a voz entrecortada. — O que dói é saber que ele não consegue passar o Natal sem a Sara, mas consegue passar sem mim. Eu sou a que ele deixa para trás quando as coisas ficam difíceis.
— Não é assim, Duda. Ele está tentando te forçar a morar com ele. Ele está usando o Natal como uma arma.
Eduarda olhou para a janela. Ela se sentia pequena, esmagada entre dois gigantes. De um lado, o amor possessivo e controlador de Emanuel, que exigia que ela amadurecesse e enfrentasse o mundo da noite para o dia. Do outro, o conforto de sua casa, o carinho dos pais e a segurança de uma vida onde ela não precisava competir com a presença esmagadora de Sara.
Emanuel sempre esquecia que Eduarda não funcionava sob pressão. Quanto mais ele a empurrava, mais ela se encolhia.
— Eu não vou — decidiu Eduarda, limpando as lágrimas com as costas das mãos. — Eu não vou deixar vocês sozinhos com a tia Eunice e eu não vou para um lugar onde sou obrigada a aceitar tudo nos termos dele. Se ele prefere a Sara hoje, que fique com ela.
— Tem certeza, querida? Você vai ficar triste a noite toda.
— Eu já estou triste, mamãe. Mas eu não sou um troféu que ele pode exigir quando bem entender.
Na cobertura, a ceia foi servida. A mesa estava impecável, o vinho era o melhor que o dinheiro podia comprar, e Sara estava empenhada em ser a companhia mais excitante que Emanuel já tivera. Ela falava sobre os novos estúdios, sobre as viagens planejadas para o ano seguinte, e flertava com ele de uma forma que normalmente o deixaria louco de desejo.
Mas Emanuel mal tocava na comida. Ele olhava para o lugar vazio ao seu lado e sentia um vazio que nem todo o ouro do mundo poderia preencher. Ele esperava que Eduarda ligasse. Esperava que ela aparecesse na porta, com as malas na mão, dizendo que finalmente escolhera ele acima de tudo.
Mas o celular permanecia mudo.
— Ela não vem, Manu — disse Sara, servindo-se de mais champanhe. — Aceite. A ovelhinha preferiu o curral. Você tentou dar o ultimato e ela escolheu o lado que é mais fácil para ela.
— Eu não queria que fosse uma escolha entre mim e a família dela, Sara. Eu queria que ela se escolhesse. Que ela escolhesse a vida que diz que quer ter comigo.
— Mas ela não quer a vida com você, Manu. Ela quer a proteção que você dá, mas sem o preço que isso custa. Ela quer ser a namorada doce enquanto for conveniente, mas na hora de enfrentar a tia carola, ela te joga aos leões.
Emanuel levantou-se bruscamente, a cadeira arrastando no chão com um som estridente.
— Eu vou até lá.
— Você não vai a lugar nenhum — Sara levantou-se também, a voz subindo de tom. — Você disse que não ia sem mim! Vai quebrar sua palavra agora? Vai se humilhar na porta daquela casa enquanto eles rezam o terço e fingem que você não existe?
Emanuel parou, as mãos fechadas em punhos. A lógica de Sara era impecável e cruel. Se ele fosse agora, ele estaria aceitando as migalhas que Eduarda lhe oferecia. Ele estaria validando o fato de que ela podia deixá-lo de lado sempre que a pressão social aumentasse.
— Eu a amo, Sara.
— E eu também te amo, Emanuel! Do meu jeito, sem frescuras, sem me esconder de ninguém. Eu estou aqui. Eu sempre estou aqui. Por que você insiste em buscar quem sempre foge?
Emanuel olhou para Sara. Ela era a tempestade, o fogo, a parceira que nunca recuava. E Eduarda era a brisa, a doçura, o refúgio que ele buscava quando o mundo se tornava pesado demais. Naquela noite de Natal, ele percebeu que estava tentando unir dois mundos que se repeliam como polos de um imã.
Enquanto isso, na casa de Eduarda, a ceia era um exercício de paciência. A tia Eunice falava sem parar sobre a decadência dos costumes modernos, enquanto lançava olhares reprovadores para o lugar vazio que deveria ser de Emanuel.
— Onde está o seu rapaz, Eduarda? — perguntou a tia, mastigando o peru com lentidão. — Um homem que não passa o nascimento de Cristo com a futura família não é um homem de confiança.
— Ele teve um problema no trabalho, tia — mentiu Eduarda, a voz falhando. — Um dos estúdios teve um vazamento, ele precisou ir resolver.
— Trabalho no Natal? Que falta de temor a Deus — Eunice resmungou. — E você, minha sobrinha, deveria estar mais atenta. Homens ricos e cheios de tatuagens costumam ter distrações que moças direitas como você nem imaginam.
Eduarda sentiu um nó na garganta. Ela olhou para o pai, que lhe lançou um olhar de pena, e para a mãe, que tentou mudar de assunto. Ela se sentia uma fraude. Ela amava um homem que, naquele exato momento, estava nos braços de outra mulher — uma mulher que ele se recusava a deixar para trás, nem mesmo por uma noite.
— Com licença — disse Eduarda, levantando-se da mesa. — Eu não estou me sentindo muito bem. Vou me deitar.
Ela correu para o quarto e trancou a porta. O silêncio da noite de Natal parecia gritar em seus ouvidos. Ela pegou o celular e viu uma foto que Sara acabara de postar nas redes sociais: um brinde entre ela e Emanuel, com a legenda "Nosso Natal, do nosso jeito. Sem filtros, sem segredos. Só nós."
O coração de Eduarda quebrou de uma forma que ela nunca sentira antes. Não era apenas ciúme; era a percepção de que, no mundo de Emanuel, não havia espaço para a sua fragilidade. Ou ela era forte como Sara, ou ela era uma estranha.
Ela digitou uma mensagem para ele, mas apagou logo em seguida. O que diria? "Sinto sua falta"? "Por que você não pode me amar sozinho"? Ela sabia a resposta. Emanuel não era um homem de metades. Ele queria o todo, e ele queria o controle.
Na cobertura, a festa de dois havia perdido o brilho. Emanuel e Sara terminaram a ceia em um silêncio desconfortável. O whisky já não fazia efeito.
— Eu vou dormir — disse Sara, percebendo que, por mais que estivesse fisicamente ali, a mente de Emanuel estava em outro lugar. — Feliz Natal, Manu. Apesar de tudo, eu ainda prefiro estar aqui com você, mesmo de mau humor, do que em qualquer outro lugar do mundo.
— Feliz Natal, Sara — ele respondeu, dando-lhe um beijo mecânico na testa.
Emanuel ficou sozinho na sala, cercado pelo luxo que ele construíra com tanto esforço. Ele pegou o celular e viu a última mensagem de Eduarda, enviada horas antes: "Eu te amo, mas não posso ser quem você quer que eu seja hoje."
Ele sentiu uma vontade avassaladora de quebrar tudo naquela sala. Ele tinha as duas mulheres mais incríveis que poderia desejar, e ainda assim, sentia-se o homem mais solitário da terra. Ele tentara forçar o destino, tentara amalgamar a pureza de Eduarda com a crueza de Sara, e o resultado fora um Natal de ausências e ressentimentos.
Ele percebeu, com uma clareza dolorosa, que o ultimato fora um erro. Eduarda não era movida por desafios; ela era movida por cuidado. E Sara, por mais leal que fosse, nunca deixaria espaço para que Eduarda se sentisse segura.
Emanuel caminhou até a varanda. O ar frio da noite bateu em seu rosto. Ele olhou para a direção onde sabia que a casa de Eduarda ficava.
— Você venceu hoje, pequena — sussurrou ele para o vento. — Você ficou no seu mundo. Mas eu não sei por quanto tempo eu vou conseguir viver no meu sem você.
Naquela noite, ninguém dormiu verdadeiramente bem. Sara dormiu com o gosto amargo de uma vitória incompleta. Eduarda dormiu com o rosto inchado de tanto chorar, sentindo-se abandonada pelo homem que deveria protegê-la. E Emanuel... Emanuel passou a noite em claro, percebendo que o controle que ele tanto prezava era apenas uma ilusão.
O Natal passara, mas as cicatrizes que ele deixara seriam permanentes. O triângulo que Emanuel tentava manter em equilíbrio acabara de sofrer seu golpe mais duro. E enquanto o sol começava a nascer no horizonte, ele sabia que a próxima vez que visse Eduarda, as coisas não seriam mais as mesmas. A manha dela não o dobraria tão facilmente, e a pressão dele não a faria ceder.
Eles estavam em um impasse de almas, e o preço para sair dali seria mais alto do que qualquer um deles estava disposto a pagar. O Natal fora a prova de fogo, e todos haviam saído levemente queimados. Emanuel fechou os olhos, sentindo o peso das alianças invisíveis que o prendiam a ambas, e pela primeira vez em sua vida de sucesso e riqueza, ele sentiu medo do futuro.