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O Brilho do Ouro e o Peso do Sangue
A manhã na cobertura de Emanuel começou com o tilintar de cristais e o brilho ofuscante de um diamante de lapidação perfeita. Ele observava Sara, que estava sentada à mesa de café da manhã usando apenas um robe de seda preta, enquanto ela abria a pequena caixa de veludo azul. O grito de alegria dela ecoou pelo ambiente amplo e moderno.
— Meu Deus, Manu! É maravilhosa! — Sara exclamou, retirando o colar de ouro branco e segurando-o contra a luz. — Combina perfeitamente com o meu novo relógio. Você realmente sabe como recompensar uma mulher pelo seu esforço.
Emanuel tomou um gole de seu café preto, sentindo a satisfação de ver o sucesso materializado em um objeto.
— Você mereceu, Sara. O fechamento das contas deste mês foi impecável. A expansão dos estúdios está gerando um fluxo de caixa que eu não via há anos. Considere isso um bônus por ser meu braço direito.
Sara levantou-se e caminhou até ele, sentando-se em seu colo e prendendo o colar no pescoço, exibindo o decote generoso que o silicone realçava com precisão.
— Eu sou muito mais que um braço direito, querido. Eu sou o motor dessa engrenagem — ela sussurrou, beijando o pescoço dele com possessividade. — E agora que a "bonequinha" está lá no interior, cuidando da vovó, nós podemos finalmente aproveitar a cidade sem aquele clima pesado de velório que ela carrega.
Emanuel sentiu um desconforto familiar ao ouvir o tom de Sara, mas não a repreendeu. Ele ainda estava magoado com a partida de Eduarda. A ausência dela deixava um vazio silencioso em seu peito, uma falta daquele dengo que o acalmava depois de um dia de reuniões agressivas. No entanto, o brilho da joia no pescoço de Sara e a praticidade da loira eram um bálsamo para o seu ego ferido.
— Vamos sair — disse Emanuel, levantando-se. — Preciso passar no estúdio central e depois precisamos abastecer a despensa. Quero jantar algo especial hoje à noite.
***
O supermercado gourmet que Emanuel frequentava era o tipo de lugar onde as prateleiras pareciam vitrines de museu. Sara caminhava pelos corredores com seus saltos agulha, empurrando o carrinho com desdém, enquanto Emanuel escolhia vinhos caros. Ela fazia questão de parar em frente a cada espelho para admirar o novo colar, garantindo que todos os clientes notassem sua presença chamativa.
— Manu, olha aquele queijo trufado... — Sara começou a dizer, mas sua voz morreu na garganta.
No final do corredor de laticínios, duas figuras caminhavam tranquilamente. Emanuel parou abruptamente, sentindo o coração dar um solavanco.
Era Eduarda. Ela estava de volta antes do esperado.
Ela usava um short jeans simples e uma regata de algodão que deixava seus ombros delicados à mostra. O cabelo castanho estava preso em um rabo de cavalo frouxo, e ela ria de algo que a mulher ao seu lado dizia. Eduarda parecia radiante, com uma leveza que Emanuel não via nela há semanas.
Ao lado dela, estava uma mulher que Emanuel nunca tinha visto pessoalmente, mas cujas fotos ele já vira no porta-retratos do quarto de Eduarda. Era Beatriz, a prima mais velha de Eduarda. Beatriz tinha um porte atlético, olhos escuros que pareciam ler a alma de qualquer um e uma postura que exalava uma autoridade silenciosa e perigosa. Ela vestia roupas de ginástica pretas que delineavam um corpo forte, mas era o seu olhar que impunha respeito imediato.
— Manu? — Eduarda disse, parando ao vê-los. O sorriso dela vacilou um pouco ao notar Sara grudada no braço de Emanuel. — Você por aqui?
Emanuel soltou o braço de Sara quase instintivamente e deu um passo à frente.
— Duda... você voltou cedo. Eu achei que ficaria no interior até o final da semana.
— A festa foi ótima, mas a Bia decidiu vir para a cidade resolver uns assuntos e eu aproveitei a carona — Eduarda explicou, aproximando-se timidamente. — Senti sua falta.
Sara, sentindo o território ser ameaçado, deu um passo à frente, fazendo o colar de diamantes brilhar sob as luzes fluorescentes do mercado.
— Que surpresa, Duda — disse Sara, com um sorriso carregado de veneno. — Achei que estivesse ocupada demais ajudando a vovó a trocar as fraldas ou algo do tipo. O Emanuel estava sentindo tanta a sua falta que resolveu me dar este diamante para se consolar. Lindo, não é?
Eduarda baixou os olhos, a insegurança começando a tomar conta de sua expressão. Ela apertou a alça da bolsa, sentindo-se, como sempre, inadequada perto da loira.
— É muito bonito, Sara — sussurrou Eduarda.
Emanuel abriu a boca para intervir, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Beatriz deu um passo à frente. O ambiente pareceu esfriar alguns graus. Ela se colocou entre Eduarda e Sara, olhando para a loira de cima a baixo com um desdém tão profundo que Sara, pela primeira vez na vida, recuou um milímetro.
— Então você é a famosa Sara — a voz de Beatriz era grave, calma e cortante como uma navalha. — Eu ouvi muito sobre você. Mas as descrições não faziam justiça à sua... exuberância.
Sara tentou recuperar a compostura, estufando o peito siliconado e ajeitando o cabelo loiro.
— E você deve ser a prima do interior. Beatriz, certo? — Sara tentou usar seu tom sarcástico habitual. — O que foi? Veio garantir que a Duda não se perca no caminho de volta para o colinho da mamãe?
Beatriz deu um sorriso de lado, um movimento que não tinha nada de amigável. Ela se aproximou de Sara, invadindo seu espaço pessoal de uma forma que faria qualquer homem tremer.
— Eu vim garantir que certas pessoas entendam que silêncio e respeito são virtudes que o dinheiro não compra — disse Beatriz, a voz baixa, quase um sussurro que apenas os quatro podiam ouvir. — Você gosta de ostentar esse colar, não é? Acha que carregar as pastas do Emanuel e fazer planilhas de Excel te torna uma mulher de negócios poderosa?
— Eu sou formada em administração! — Sara rebateu, a voz subindo uma oitava, tentando esconder o tremor nas mãos. — Eu gerencio os lucros do Emanuel. Eu sou a razão pela qual ele está crescendo tanto. O que eu faço exige inteligência e visão, algo que a sua priminha "bonequinha" nunca vai entender.
Beatriz soltou uma risada seca, um som que ecoou pelo corredor de forma intimidadora.
— Administração? — Beatriz repetiu com escárnio. — Minha querida, o que você faz qualquer estagiário de primeiro semestre faz com um pé nas costas. Você organiza agendas e confere notas fiscais. Não se ache uma estrategista de guerra só porque sabe usar um batom vermelho e seduzir o chefe durante o expediente. Você é substituível. A competência que você tanto gaba é o básico do básico.
Sara ficou pálida. Ela olhou para Emanuel, buscando apoio, mas Emanuel estava hipnotizado pela presença de Beatriz. Ele reconhecia naquela mulher a mesma força que ele usava para comandar seus estúdios, mas sem a necessidade de gritar ou ostentar.
— Como você ousa... — Sara começou, mas Beatriz a cortou com um olhar gélido.
— Eu ouso porque eu conheço o valor do sangue, não do silicone — Beatriz continuou, dando mais um passo, forçando Sara a bater as costas contra uma prateleira de vinhos. — A Eduarda pode ser tímida, pode ser manhosa, mas ela tem algo que você nunca vai ter: uma alma que não está à venda. Ela ama o Emanuel pelo que ele é, não pelo que ele pode comprar na joalheria mais próxima para aliviar a culpa.
Beatriz então olhou diretamente para Emanuel. O olhar dela era um julgamento silencioso que o fez se sentir pequeno.
— E você, Emanuel... — disse ela, o tom de voz mudando para algo mais sério e decepcionado. — Você é um homem inteligente. Criou um império com as próprias mãos. Mas parece que está perdendo a habilidade de distinguir o que é ouro de verdade do que é apenas latão banhado. A Eduarda é a sua paz. Se você deixar que essa mulher aqui continue a diminuí-la para se sentir grande, você não merece nem a paz, nem o amor que a minha prima te dá.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Eduarda olhava para a prima com uma mistura de adoração e choque. Ela nunca tinha visto ninguém enfrentar Sara daquela forma.
Emanuel pigarreou, sentindo o peso das palavras de Beatriz. Ele olhou para Sara, que agora parecia apenas uma mulher vulgar e insegura tentando se esconder atrás de um colar caro. Depois, olhou para Eduarda, que permanecia ali, doce e sensível, mas com uma dignidade que ele quase tinha ajudado a destruir.
— Beatriz tem razão — Emanuel disse finalmente, a voz firme. — Sara, você passou dos limites. A Eduarda não é um peso morto e eu não vou mais permitir que você fale dela dessa maneira, seja na minha frente ou pelas costas.
Sara abriu a boca, chocada com a traição.
— Manu! Depois de tudo o que eu fiz pela empresa? Depois da joia que você acabou de me dar?
— A joia foi pelo seu trabalho, Sara. Mas o seu trabalho não te dá o direito de ser cruel — Emanuel sentenciou. Ele se aproximou de Eduarda e pegou a mão dela, sentindo a pele macia e o tremor leve que sempre o despertava o instinto de proteção. — Duda, eu sinto muito. Eu deixei o estresse e a ambição cegarem o que realmente importa.
Eduarda olhou para o namorado, os olhos brilhando com lágrimas contidas.
— Eu só quero que você me entenda, Manu. Eu não sou a Sara. Eu nunca vou ser.
— Eu sei disso agora — ele sussurrou. — E é por isso que eu te amo.
Beatriz relaxou a postura, mas manteve o olhar atento sobre Sara, que bufava de raiva, mas não ousava dizer mais uma palavra. A loira percebeu que, naquele momento, o seu poder administrativo e sua sedução agressiva haviam encontrado um muro que não podiam derrubar.
— Bom — disse Beatriz, voltando ao seu tom calmo. — Acho que as compras acabaram por aqui. Eduarda, vamos? Seus pais estão esperando para o jantar de boas-vindas.
Eduarda olhou para Emanuel, um pedido silencioso em seus olhos.
— Vá, Duda — disse Emanuel, soltando a mão dela com relutância. — Eu vou para casa. Preciso pensar em muita coisa. Amanhã eu passo na sua casa para conversarmos... sem pressa, sem prazos. No seu tempo.
Eduarda sorriu, um sorriso verdadeiro que iluminou o corredor frio do supermercado. Ela se inclinou e deu um beijo suave no rosto de Emanuel, antes de seguir a prima.
Beatriz parou por um segundo antes de sair, olhando para Emanuel uma última vez.
— Não estrague tudo de novo, tatuador. Homens como você costumam achar que podem controlar tudo, mas o coração de uma mulher como a Eduarda é a única coisa que você não pode substituir se quebrar.
As duas saíram, deixando Emanuel e Sara sozinhos no corredor. Sara tentou segurar o braço dele, mas ele se esquivou.
— Manu, aquela mulher é louca! Ela me ameaçou! — Sara choramingou, tentando recuperar o papel de vítima.
Emanuel olhou para ela, e pela primeira vez, o brilho do colar de diamantes pareceu opaco e sem vida.
— Ela não te ameaçou, Sara. Ela te descreveu. E o pior de tudo é que eu concordei com cada palavra.
Emanuel caminhou em direção ao caixa, deixando Sara para trás, parada entre as garrafas de vinho caro, sentindo o peso de uma derrota que nenhum diamante poderia compensar. Ele percebeu que a estrutura que Sara oferecia era apenas um prédio frio, enquanto o dengo de Eduarda era o lar que ele estava prestes a perder por pura arrogância. A guerra entre as duas continuava, mas agora, Emanuel finalmente sabia por qual lado valia a pena lutar.