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O Labirinto de Prioridades
O ar condicionado central da cobertura de Emanuel mantinha a temperatura em exatos vinte e dois graus, mas o clima entre as paredes de vidro e aço era de uma satisfação palpável. Sara cruzava a sala de estar com a elegância de uma pantera, segurando duas taças de cristal com um espumante que custava o equivalente a um carro popular. Ela usava um conjunto de lingerie de renda branca sob um robe de seda transparente, uma visão que Emanuel, sentado no sofá de couro italiano com o notebook no colo, não conseguia ignorar.
— Um brinde à nossa eficiência, Manu — disse ela, entregando-lhe a taça e sentando-se ao seu lado, deixando que o robe escorregasse propositalmente pelo ombro. — Os novos estúdios em Londres já estão com a agenda lotada para os próximos seis meses. Eu disse que a estratégia de influenciadores locais seria o toque de mestre.
Emanuel deixou o computador de lado e aceitou a bebida, sentindo o frescor do líquido contrastar com o calor da pele de Sara contra a sua. Ele a puxou para mais perto, sentindo-se, por um momento, em total controle de sua vida.
— Você é implacável, Sara. Às vezes eu esqueço que, por trás de toda essa... — ele percorreu o corpo dela com o olhar — ...exuberância, existe uma mente que funciona como um relógio suíço.
Sara sorriu, mas desta vez não havia o veneno habitual em seus lábios. Ela estava em sua melhor fase. Desde o confronto no supermercado com a prima de Eduarda, ela havia mudado a estratégia. Percebeu que atacar a "bonequinha" diretamente apenas despertava o instinto protetor de Emanuel. Agora, ela era a parceira perfeita, a mulher que trazia soluções e lucros, deixando que a própria inércia de Eduarda fizesse o trabalho de desgastar o relacionamento.
— Eu só quero o seu melhor, querido — ela sussurrou, passando a unha pintada de vermelho pelo maxilar dele. — E falando em melhor, eu já fechei os detalhes daquela viagem que planejamos. Maldivas. Dez dias de sol, mar azul e nada de celulares. Só nós dois e o luxo que a gente merece.
Emanuel relaxou os ombros, fechando os olhos por um segundo.
— Maldivas soa como um sonho agora. Eu realmente preciso desligar. Quando partimos?
— Na próxima segunda-feira — respondeu ela, observando-o atentamente por cima da taça. — O jato já está reservado.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo zumbido suave da ventilação. Emanuel franziu a testa, uma memória incômoda cutucando sua consciência.
— Segunda-feira? — ele murmurou, pegando o celular para conferir o calendário. — Espera, Sara... segunda é dia quinze.
— Sim, e daí? — Ela deu um gole lento no espumante, mantendo a expressão neutra. Ela sabia exatamente o que havia naquela data, mas preferia que ele chegasse à conclusão sozinho.
Emanuel bufou, jogando o celular no sofá.
— O aniversário da mãe da Eduarda. Ela me falou disso há semanas. Vai ter um jantar de comemoração na casa dos pais dela.
Sara soltou uma risada leve, quase musical, sem rastro de agressividade.
— Ah, é verdade. Eu tinha esquecido desse detalhe familiar. Bem, é uma pena, Manu. Mas os resorts nas Maldivas não esperam, e a janela de clima perfeito é agora. O que você vai fazer? Cancelar uma viagem de milhares de dólares por causa de um bolo e um "parabéns" na sala de estar dos sogros?
Emanuel levantou-se e começou a caminhar pela sala, a irritação começando a borbulhar.
— Eu não posso simplesmente não ir, Sara. A Eduarda valoriza essas coisas de uma forma quase sagrada. Ela já está organizando as flores, o presente... ela espera que eu esteja lá.
Sara levantou-se também, mas não foi até ele para brigar. Em vez disso, ela se serviu de mais um pouco de espumante, agindo com uma calma calculada que era muito mais irritante do que qualquer grito.
— Eu entendo, Manu. De verdade. A Eduarda é uma menina doce, e a família dela é... adorável, eu suponho. Mas você é um homem de negócios internacional. Você tem um império. Até quando a sua vida vai orbitar em torno de datas de aniversário em bairros de classe média? Ela se recusa a morar aqui, se recusa a viver a sua vida, mas exige que você viva a dela.
Emanuel parou em frente à janela, observando as luzes da cidade lá embaixo. Ele amava Eduarda, mas a sensação de que ela o puxava para trás, para uma realidade pequena e limitada, estava se tornando insuportável.
— Eu vou falar com ela — disse ele, a voz endurecendo. — Ela precisa entender que essa viagem é importante para o meu descanso e para os nossos planos.
Sara sorriu para a própria taça.
— Claro, querido. Tenho certeza de que ela vai entender. Ela é tão compreensiva, não é?
***
No dia seguinte, o ateliê de História da Arte da faculdade estava silencioso, exceto pelo som dos pincéis de Eduarda contra a tela. Ela estava retocando uma cópia de um estudo de Botticelli, concentrada e em paz. Quando Emanuel entrou na sala, ela abriu um sorriso que costumava desarmá-lo instantaneamente.
— Manu! Que surpresa boa — disse ela, limpando as mãos em um pano e correndo para abraçá-lo. — Eu estava pensando em você agora mesmo. Minha mãe ligou perguntando se você prefere vinho tinto ou branco para o jantar de segunda. Ela quer que tudo esteja perfeito para o aniversário dela.
Emanuel retribuiu o abraço, mas seus braços estavam rígidos. Ele sentiu o cheiro de tinta e sabonete neutro que ela exalava, tão diferente do perfume importado e opressor de Sara.
— Duda, nós precisamos conversar sobre segunda-feira — começou ele, afastando-a gentilmente para olhar em seus olhos.
Eduarda sentiu um frio na barriga. Ela conhecia aquele tom de voz. Era o tom de "negócios", o tom que ele usava quando estava prestes a decepcioná-la.
— O que houve? Você vai se atrasar para o jantar? Tudo bem, a gente pode servir a entrada mais tarde...
— Eu não vou poder ir, Eduarda — ele cortou, direto. — Eu e a Sara organizamos uma viagem para as Maldivas. Partimos na segunda de manhã.
O sorriso de Eduarda desapareceu, substituído por uma expressão de incredulidade. Ela deu um passo para trás, as mãos trêmulas escondidas atrás das costas.
— Maldivas? Mas Manu... eu te falei desse aniversário há um mês. É o aniversário de cinquenta anos da minha mãe. É uma data especial. Meus tios estão vindo de longe, meu pai comprou aquele terno que você sugeriu...
— Eduarda, por favor — Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto. — É uma viagem de dez dias. Eu preciso descansar. A Sara trabalhou duro para organizar tudo, os depósitos já foram feitos. É uma oportunidade única de nos desligarmos de tudo.
— De nos desligarmos de tudo, ou de você se desligar de mim? — a voz dela saiu pequena, embargada. — A Sara sabia da data, Emanuel. Eu tenho certeza de que ela sabia. Ela faz isso de propósito para me testar, para ver até onde você vai por ela.
— Não coloque a culpa na Sara! — Emanuel elevou a voz, a paciência se esgotando. — Ela está trabalhando comigo, construindo o meu futuro, enquanto você está aqui pintando quadros e se preocupando com jantares de família. Eu te convidei para morar comigo, eu te pedi para fazer parte da minha vida, mas você prefere ficar lá, naquela redoma de vidro dos seus pais.
— Minha família não é uma redoma, Emanuel! É o meu alicerce! — Eduarda agora chorava abertamente, as lágrimas manchando as bochechas. — Eu amo você, mas eu não posso simplesmente ignorar as pessoas que me deram tudo porque você decidiu, de última hora, que quer ir para o outro lado do mundo com a sua... assistente!
— Ela não é só minha assistente, ela vive comigo! — ele gritou, e o arrependimento o atingiu no momento em que as palavras saíram.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda o olhou como se o visse pela primeira vez. A dor em seus olhos expressivos era tão profunda que Emanuel sentiu uma pontada no peito, mas seu orgulho e o estresse acumulado o impediram de pedir desculpas.
— Se você for nessa viagem, Emanuel... — ela começou, a voz falhando — ...você vai estar dizendo para a minha família, e para mim, que nós não importamos. Que os caprichos da Sara e o seu conforto valem mais do que o respeito por quem te recebe em casa com carinho.
— Eu não vou deixar de viver a minha vida por causa de uma festa de aniversário, Eduarda. Eu sou um homem adulto, não um adolescente que precisa de permissão para viajar. Se você não consegue entender isso, se você não consegue colocar o nosso relacionamento acima dessas obrigações familiares sufocantes, talvez nós tenhamos problemas maiores do que uma viagem.
Eduarda limpou o rosto com as costas da mão, uma dignidade silenciosa surgindo em meio à sua fragilidade.
— Os problemas já existem, Manu. Você só não quer ver porque a Sara os esconde atrás de diamantes e relatórios financeiros. Vá para as Maldivas. Aproveite o seu descanso. Mas não espere que eu esteja aqui, com um sorriso no rosto, quando você voltar.
— Você está me dando um ultimato? — ele perguntou, os olhos semicerrados.
— Não — respondeu ela, voltando-se para a sua tela de pintura. — Estou te dando a liberdade que você tanto quer.
Emanuel saiu da sala batendo a porta. Ele caminhou pelo campus sentindo uma mistura de fúria e uma incômoda sensação de perda. Ele queria que Eduarda fosse mais como Sara — prática, direta, focada no sucesso. Mas ele sabia, no fundo de sua alma, que se ela fosse como Sara, ele não a amaria.
***
Ao chegar na cobertura, ele encontrou Sara na varanda, observando o pôr do sol. Ela se virou e, ao ver a expressão dele, não sorriu. Em vez disso, caminhou até ele e começou a massagear seus ombros tensos.
— Ela não aceitou bem, não é? — perguntou Sara, o tom suave e compreensivo.
— Ela disse que eu estou escolhendo você e as Maldivas em vez da família dela — Emanuel resmungou, fechando os olhos sob o toque de Sara.
— Ela é jovem, Manu. Ela vê o mundo de uma forma muito emocional e limitada. Com o tempo, ela vai perceber que o mundo real exige sacrifícios. Você não fez nada de errado. Você é o provedor, o líder. Você merece essa pausa.
Emanuel suspirou, deixando a cabeça cair para trás.
— Eu me sinto um canalha, Sara. A mãe dela sempre foi tão boa comigo.
Sara inclinou-se e beijou o topo da cabeça dele.
— Você não é um canalha. Você é apenas um homem que está crescendo rápido demais para uma garota que ainda quer brincar de casinha. Deixe que ela se acalme. Quando voltarmos, você compra um presente caro para a mãe dela, faz um jantar de desculpas e tudo volta ao normal. A Eduarda não consegue ficar longe de você por muito tempo, você sabe disso. O dengo dela sempre vence a raiva.
Emanuel concordou com a cabeça, embora uma parte dele duvidasse daquelas palavras. Ele se deixou levar pelo conforto que Sara oferecia, pela facilidade de uma vida onde não havia cobranças emocionais profundas, apenas resultados e prazer.
***
A segunda-feira chegou com um céu azul impecável. No hangar particular, Sara supervisionava o embarque das malas, usando um chapéu de abas largas e óculos escuros de grife. Ela estava radiante, vitoriosa.
Emanuel estava ao telefone, resolvendo os últimos detalhes com um de seus gerentes, mas seus olhos não saíam da tela de mensagens. Nenhuma palavra de Eduarda. Nenhuma ligação. Ele sentia um peso no estômago que nem mesmo a perspectiva do paraíso conseguia aliviar.
— Tudo pronto, Manu! — Sara chamou, acenando da escada do jato. — Vamos? O champanhe já está no gelo.
Emanuel guardou o celular no bolso e caminhou em direção ao avião. A cada passo, ele sentia que estava deixando algo vital para trás.
Enquanto isso, no subúrbio, a casa dos pais de Eduarda estava decorada com flores frescas. O aroma de assado vindo da cozinha preenchia o ar. Eduarda ajudava a mãe a arrumar a mesa, seus movimentos eram lentos, seus olhos ainda levemente inchados.
— O Emanuel vai se atrasar muito, querida? — perguntou a mãe, colocando um arranjo de rosas no centro da mesa. — Seu pai já abriu o vinho que ele gosta.
Eduarda parou, segurando um conjunto de talheres de prata. Ela olhou para a mãe, vendo a expectativa e o carinho naquele rosto que começava a ganhar marcas do tempo.
— Ele não vem, mãe — disse Eduarda, a voz firme apesar da dor. — Ele teve um compromisso de viagem inadiável.
A mãe de Eduarda parou o que estava fazendo, a surpresa estampada no rosto.
— Mas hoje? No meu aniversário? Ele sabia o quanto isso era importante para você, Duda.
— Ele sabia — respondeu a filha, colocando os talheres na mesa com precisão. — Mas o Emanuel vive em um mundo onde as coisas são mais importantes que as pessoas. E eu finalmente entendi que não posso morar nesse mundo com ele.
— Sinto muito, minha filha — a mãe se aproximou e a abraçou.
— Não sinta, mãe. Hoje é seu dia. Vamos comemorar com quem realmente quer estar aqui.
Naquele momento, a quilômetros de altura, Emanuel olhava pela janela do jato, vendo as nuvens passarem. Sara estava ao seu lado, tagarelando sobre os jantares que teriam na ilha, mas ele não ouvia. Ele pensava no jantar que estava acontecendo sem ele, na cadeira vazia à mesa, e no silêncio de Eduarda que, pela primeira vez, parecia muito mais definitivo do que qualquer uma de suas crises de dengo.
Ele tinha o sucesso, tinha a parceira ideal, tinha o luxo. Mas, ao olhar para o horizonte, Emanuel sentiu que, pela primeira vez em sua vida de conquistas, ele tinha acabado de perder algo que o dinheiro jamais poderia comprar de volta. Sara sorriu para ele e brindou ao ar, mas Emanuel apenas encarava o vazio, percebendo que o labirinto que ele mesmo construíra estava começando a fechá-lo em uma solidão dourada e fria.