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O Labirinto de Seda e Espinhos
O silêncio na cobertura de Emanuel após o retorno das Maldivas era carregado de uma frieza que nem mesmo o sol tropical que ainda bronzeava sua pele conseguia dissipar. Ele olhava para os relatórios financeiros que Sara empilhava sobre a mesa de centro, mas sua mente estava a quilômetros dali, em uma sala de jantar suburbana onde ele não esteve presente. A vitória de Sara em levá-lo para a viagem parecia, agora, uma conquista de Pirro. Ele tinha o lucro, tinha o descanso, mas sentia que o fio que o ligava a Eduarda estava por um triz.
— Manu, você não ouviu nada do que eu disse? — a voz de Sara, aguda e impaciente, cortou seus pensamentos. Ela estava de pé, usando um vestido de linho branco caríssimo, com o colar de diamantes brilhando no pescoço. — O investidor japonês quer uma reunião presencial amanhã. Eu já confirmei.
— Cancele — disse Emanuel, sem desviar os olhos da janela.
— Como é? — Sara riu, uma risada seca e incrédula. — Você está brincando, não é? Ficamos dez dias fora, e a primeira coisa que você faz é cancelar o contrato mais importante do semestre? Por quê? Para ir rastejar atrás daquela menina?
Emanuel levantou-se com uma lentidão perigosa. O estresse acumulado e a culpa que o corroía desde que desligara o celular no aeroporto finalmente transbordaram.
— Sim, Sara. Para ir atrás da "aquela menina" que eu deixei sozinha no aniversário da mãe porque você me convenceu de que o meu conforto era mais importante. Eu fui um idiota, mas não vou continuar sendo.
— Você é um homem de negócios, Emanuel! — Sara gritou, a vulgaridade de seu temperamento rompendo a fachada de sofisticação. — Ela é um peso! Ela te puxa para baixo, para aquela vidinha medíocre de classe média. Eu sou quem te mantém no topo!
— O topo é muito solitário sem a paz que ela me dá — Emanuel rebateu, pegando as chaves do carro. — Cuide dos relatórios. Eu volto mais tarde.
***
A rua da casa de Eduarda estava silenciosa. Emanuel estacionou o carro e ficou alguns minutos observando a fachada simples, com o jardim bem cuidado pelo pai dela. Ele sentia-se um intruso, um homem de ferro tentando entrar em um jardim de porcelana. Quando tocou a campainha, seu coração batia com uma ansiedade que ele raramente permitia que aflorasse.
Eduarda abriu a porta. Ela usava um pijama de flanela e tinha os cabelos presos em um coque bagunçado. Seus olhos, antes brilhantes e expressivos, estavam opacos.
— O que você está fazendo aqui, Manu? — a voz dela era um sussurro desprovido de sua doçura habitual.
— Eu vim pedir perdão, Duda. Eu sei que não mereço, eu sei que fui egoísta, mas eu não consegui passar um segundo sequer naquelas ilhas sem sentir que tinha deixado o meu coração para trás.
Eduarda suspirou, encostando a testa no batente da porta. Emanuel viu o tremor em seus ombros e, sem pedir permissão, deu um passo à frente e a envolveu em seus braços. No início, ela ficou rígida, as mãos fechadas contra o peito dele, mas o calor familiar de Emanuel, o cheiro de sua colônia e a vibração de seu peito quando ele murmurava "me desculpa" repetidamente acabaram por vencê-la.
— Você me magoou muito — ela soluçou, escondendo o rosto no pescoço dele. — Minha mãe fingiu que estava tudo bem, mas eu vi a tristeza nela por você não estar lá.
— Eu vou consertar isso, eu prometo — Emanuel disse, apertando-a mais forte. — Vamos sair amanhã? Só nós dois. Um jantar calmo, sem telefones, sem negócios, sem... ninguém mais.
Eduarda levantou os olhos, buscando a sinceridade nos dele. Ela viu o cansaço e o arrependimento genuíno. O lado manhoso dela, aquele que buscava proteção e afeto acima de qualquer orgulho, começou a aflorar novamente. Ela se aninhou nele, sentindo-se pequena e segura.
— Tudo bem, Manu... eu te perdoo. Mas não faz mais isso comigo. Eu me sinto muito sozinha quando você escolhe o mundo da Sara em vez do meu.
***
No dia seguinte, Emanuel cumpriu a promessa. Ele a levou a um bistrô escondido, longe da agitação e dos lugares que Sara frequentava. Eduarda estava radiante em um vestido leve de seda azul, sua timidez natural voltando a ser um charme que encantava Emanuel. Ela sorria, contava sobre suas aulas de História da Arte e, por algumas horas, o mundo de negócios e cobranças parecia não existir.
No entanto, Emanuel tinha um objetivo. Ele não conseguia mais suportar a divisão. Ele queria a doçura de Eduarda disponível a cada minuto de sua vida.
— Duda — ele começou, segurando a mão dela sobre a mesa —, eu estive pensando muito. O que aconteceu na semana passada só me provou uma coisa: o motivo de estarmos sempre em conflito é essa distância. Se você estivesse lá comigo, na cobertura, nada disso teria acontecido.
Eduarda baixou o olhar, o brilho nos olhos diminuindo um pouco.
— Manu, nós já falamos sobre isso...
— Eu sei, mas escute — ele a interrompeu, a voz firme e persuasiva. — Eu quero você lá. Eu quero acordar do seu lado todos os dias. Eu quero que você sinta que aquela casa é sua. Eu posso reformar um andar inteiro para você, criar um ateliê de pintura com a melhor luz da cidade. Você não precisaria se preocupar com horários ou com a estrada.
Eduarda suspirou, brincando com o guardanapo.
— Não é sobre o ateliê, Manu. Nem sobre o luxo. Você sabe qual é o verdadeiro problema.
— A Sara? — Emanuel perguntou, embora já soubesse a resposta.
— Sim, a Sara — Eduarda disse, ganhando uma coragem incomum. — A convivência com ela é... impossível para mim, Manu. Ela é agressiva, ela me olha como se eu fosse um inseto que ela quer esmagar. Ela ostenta tudo o que eu não sou e diminui tudo o que eu valorizo. Como você espera que eu more em um lugar onde eu me sinto indesejada vinte e quatro horas por dia?
— Ela é minha sócia, Duda. Ela mora lá porque... bem, porque é prático e porque ela sempre esteve lá — Emanuel tentou justificar, mas as palavras soaram vazias até para ele. — Mas eu posso estabelecer limites. Eu posso garantir que ela te respeite.
— Você não consegue controlar a Sara, Manu — Eduarda disse, com uma lucidez que o surpreendeu. — Ela domina o ambiente. Ela é barulhenta, ela é vulgar na forma como tenta marcar território. Eu sou tímida, eu gosto de paz. Se eu for para lá agora, eu vou ser engolida por ela. Eu vou perder a pouca confiança que conquistei.
Emanuel sentiu a frustração crescer. Ele queria as duas. Queria a eficiência e o fogo de Sara para seus negócios e para sua satisfação prática, e queria a doçura e a paz de Eduarda para sua alma.
— Eu não quero que você se sinta engolida — ele disse, com a voz suavizando. — Eu quero te proteger.
— Então me proteja respeitando o meu tempo — ela pediu, voltando ao seu jeito manhoso, inclinando a cabeça e olhando-o com aqueles olhos que sempre o desarmavam. — Eu ainda não estou pronta para entrar naquela arena. Meus pais são o meu refúgio, Manu. Lá eu sou a Eduarda. Na sua casa, eu sinto que sou apenas uma peça de uma disputa que eu não quero ganhar.
Emanuel recostou-se na cadeira, derrotado pela lógica emocional dela. Ele a amava justamente por essa pureza, mas essa mesma pureza era o que impedia que ele tivesse o controle total que tanto desejava.
— Tudo bem, manhosa — ele disse, forçando um sorriso e acariciando o rosto dela. — Eu espero. Mas não me peça para ser paciente para sempre. Eu sinto sua falta em cada canto daquela casa que não tem o seu cheiro.
Eduarda sorriu, satisfeita por ter vencido mais aquela batalha silenciosa. Ela se inclinou e beijou a mão dele.
— Eu também sinto sua falta, Manu. Mas enquanto a Sara for a dona daquela cobertura, eu prefiro ser a dona do meu próprio espaço.
***
Quando Emanuel voltou para casa naquela noite, o contraste foi imediato. O som de música eletrônica alta vinha da área da piscina. Sara estava lá, com um grupo de amigos que ele mal conhecia, todos bebendo e rindo alto. O cheiro de cigarros caros e álcool impregnava o ar que ele queria que fosse preenchido pelo aroma de lavanda de Eduarda.
Sara o viu entrar e caminhou até ele, cambaleando levemente pelo excesso de bebida.
— E então? — ela perguntou, passando os braços pelo pescoço dele. — A bonequinha já arrumou as malas ou ainda está pedindo permissão para o papai para mudar a cor do batom?
Emanuel a afastou com uma frieza que a fez perder o sorriso.
— Ela não vem, Sara. E a culpa é sua.
— Minha? — ela riu, indignada. — Eu não fiz nada! Eu estou aqui, trabalhando, mantendo esse lugar funcionando enquanto você sai para comer massa barata com uma universitária sem sal.
— O seu jeito, a sua falta de respeito, a forma como você tenta dominar tudo... — Emanuel disse, a voz baixa e carregada de autoridade. — Isso afasta a Eduarda. E eu estou começando a me perguntar se o preço da sua "eficiência" não está se tornando alto demais.
Sara estreitou os olhos azuis, a malícia brilhando em seu rosto.
— Tome cuidado, Emanuel. Sem mim, você é apenas um tatuador talentoso com muito dinheiro e nenhuma visão. Sem a Eduarda, você é apenas um homem que não tem quem o bajule com carinhos infantis. Pense bem em quem é realmente indispensável aqui.
Ela virou as costas e voltou para a festa, deixando Emanuel sozinho no centro de sua sala monumental. Ele olhou para as luzes da cidade e sentiu-se como um rei em um castelo sitiado. Ele tinha a mulher que o ajudava a conquistar o mundo e a mulher que o fazia querer esquecer que o mundo existia. Mas, enquanto as duas não pudessem ocupar o mesmo espaço, ele sabia que continuaria vivendo em uma guerra onde, não importava quem vencesse, ele sempre acabaria perdendo uma parte essencial de si mesmo.
O dengo de Eduarda era sua âncora, mas a ambição de Sara era o seu motor. E Emanuel, no auge de sua riqueza e poder, percebeu que estava à deriva, incapaz de escolher entre o porto seguro e o mar aberto, enquanto o tempo corria e a paciência de ambas — e a sua própria — se esgotava como areia em uma ampulheta quebrada.