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O Ultimato da Herança e o Horizonte Dividido

A luz da manhã de segunda-feira era impiedosa, iluminando cada partícula de poeira que dançava no ar do loft de Emanuel. O som eletrônico e constante de uma notificação de mensagem ecoava pelas paredes de concreto aparente, mas Emanuel o ignorou, concentrado no mapa digital aberto em seu tablet. Ele estava planejando a viagem de fim de ano: um refúgio exclusivo em uma ilha privada na costa de Angra dos Reis. Seria o momento perfeito para consolidar seu império pessoal, cercado por seus amigos mais íntimos, seus sócios e, claro, suas duas mulheres.

Sara entrou na sala de estar, já vestida para o trabalho com um terninho de corte impecável e saltos que faziam um barulho autoritário no piso de madeira. Ela segurava um iPad em uma mão e um suco detox na outra.

— Já fechei o aluguel do iate, Manu — disse ela, sem preâmbulos, sentando-se na ponta da mesa de jantar. — Consegui aquele modelo que você queria, com a tripulação reduzida para termos privacidade. Meus amigos já confirmaram, e o pessoal do estúdio de Miami também vem. Vai ser a festa do ano.

Emanuel levantou os olhos do tablet, sentindo uma satisfação momentânea. A eficiência de Sara era como uma engrenagem bem lubrificada que mantinha sua vida profissional nos trilhos.

— Ótimo. Quero que tudo esteja perfeito. Preciso desse descanso, e quero que a Eduarda veja que a vida conosco pode ser muito mais do que livros de arte e jantares de família.

Sara deu um gole no suco, um sorriso de canto surgindo em seus lábios.

— Sobre a Eduarda... você já falou com ela? Porque, sinceramente, Manu, se ela for levar aquela aura de "vítima" para a ilha, vai estragar o clima. Meus amigos não têm paciência para quem não sabe segurar uma taça de champanhe sem tremer.

— Eu vou falar com ela hoje — Emanuel respondeu, a voz endurecendo. — Ela vem. Não vou aceitar um "não" desta vez.

***

Mais tarde, Emanuel estacionou o carro em frente à faculdade de História da Arte. Ele viu Eduarda saindo pelo portão principal, carregando uma pasta de couro e parecendo exausta, mas radiante sob a luz do entardecer. Ela sorriu ao ver o carro e correu para entrar, sentindo o ar condicionado e o perfume amadeirado de Emanuel a envolverem.

— Oi, meu amor — ela disse, inclinando-se para beijá-lo. — Que surpresa boa.

Emanuel retribuiu o beijo, mas seus olhos permaneciam sérios. Ele não esperou muito para tocar no assunto que vinha martelando sua mente.

— Duda, planejei nossa viagem de fim de ano. Angra. Ilha privada, iate, nossos amigos. Vai ser incrível. Saímos no dia vinte.

O sorriso de Eduarda vacilou. Ela apertou a pasta contra o peito, sentindo um nó se formar em sua garganta.

— Dia vinte, Manu? Mas... esse é o fim de semana do aniversário da minha tia Célia. No interior.

Emanuel suspirou, as mãos apertando o volante com força. A irritação, que ele tentava manter sob controle, começou a borbulhar.

— Outra vez o interior, Eduarda? Outra vez a família?

— Manu, você sabe como é importante — ela disse, a voz ficando manhosa e suave, tentando acalmá-lo. — A tia Célia está fazendo setenta anos. A família toda vai estar lá. No ano passado, eu faltei ao aniversário do meu primo porque fomos para Paris. Meus pais ficaram muito tristes, e eu prometi que este ano eu não faltaria a nenhum evento importante deles.

— E a minha viagem não é importante? — Emanuel virou-se para ela, a expressão rígida. — Eu planejei isso por meses. É uma oportunidade de estarmos juntos, de você se integrar ao meu círculo social. Você prefere ficar comendo bolo de rolo em uma fazenda quente do que estar em um iate comigo?

Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela odiava quando ele colocava as coisas dessa forma, como se o amor dela por ele fosse medido pelo quanto ela estava disposta a abandonar sua própria vida.

— Não é isso, Manu... eu quero estar com você. Mas eu também tenho responsabilidades com as pessoas que me criaram. Eu não posso simplesmente virar as costas para eles toda vez que você decide viajar. Por que não podemos ir para Angra depois do aniversário?

— Porque a logística já está pronta! — ele exclamou, perdendo a paciência. — A Sara já organizou tudo, os convidados já confirmaram. Eu não vou mudar o cronograma de vinte pessoas por causa de um aniversário de tia.

Eduarda encolheu-se no banco, o silêncio se instalando entre eles. Emanuel sentiu um aperto no peito ao vê-la daquele jeito, mas sua mente racional e controladora não conseguia ceder. Ele queria que ela escolhesse ele. Sempre ele.

— Pensa bem, Eduarda — ele disse, a voz agora mais baixa, mas ainda carregada de uma autoridade fria. — Você diz que quer um futuro comigo, mas continua agindo como se ainda morasse no quarto de infância. Se você quer ser a mulher de um homem como eu, precisa começar a priorizar o que é nosso. Eu vou te deixar em casa para você pensar. Amanhã eu quero uma resposta definitiva.

***

A noite no loft foi silenciosa, mas carregada de uma eletricidade estática. Emanuel estava no escritório, tentando se concentrar em alguns contratos de expansão para a Ásia, mas a imagem de Eduarda chorando no carro não saía de sua cabeça.

Sara entrou no escritório, usando uma camisola de seda curta e segurando duas taças de vinho. Ela se aproximou por trás dele, massageando seus ombros com uma pressão firme.

— Ela disse não, não foi? — Sara perguntou, a voz tingida de um sarcasmo vitorioso.

— Ela está com a história do aniversário da tia no interior — Emanuel resmungou, fechando os olhos e aproveitando a massagem.

— Eu sabia — Sara riu baixo, inclinando-se para sussurrar no ouvido dele. — Ela nunca vai mudar, Manu. Ela é uma menina presa a tradições de classe média. Ela não tem a visão que nós temos. Se você continuar esperando por ela, vai acabar perdendo as melhores partes da sua própria vida.

Emanuel virou-se na cadeira, olhando para Sara. Ela era tão prática, tão direta. Ela não tinha esses dilemas emocionais que o drenavam.

— O que você sugere que eu faça, Sara?

— Eu sugiro que você dê um ultimato — ela disse, entregando-lhe a taça de vinho. — Diga a ela que a viagem é o teste final. Se ela não for, significa que ela não está pronta para o nível de compromisso que você exige. E se ela não for... bem, nós vamos e nos divertimos. Meus amigos adoram você, Manu. Você não vai sentir falta de drama enquanto estiver mergulhando em águas cristalinas.

Emanuel tomou um gole longo do vinho. A ideia de um ultimato parecia cruel, mas, em sua mente estressada, parecia a única forma de obter uma resposta clara.

***

No dia seguinte, Emanuel não esperou Eduarda sair da faculdade. Ele foi até a casa dela durante a tarde. Ele sabia que os pais dela não estariam, pois era dia de reunião no escritório de arquitetura.

Eduarda abriu a porta, os olhos inchados de quem não havia dormido bem. Ao ver Emanuel, ela tentou sorrir, mas o sorriso não chegou aos olhos.

— Manu... você veio conversar?

— Vim te dar uma solução — ele disse, entrando na sala e sentando-se no sofá de design que ele sempre achou desconfortável demais.

Eduarda sentou-se à sua frente, as mãos entrelaçadas no colo.

— Eu pensei muito, Manu. Eu falei com a minha mãe... ela disse que se eu não for, a tia Célia vai ficar muito magoada, mas que eles entendem se eu precisar trabalhar... mas eu não estou trabalhando, estou viajando. Eu me sinto uma mentirosa.

— Então não minta — Emanuel disse, inclinando-se para frente. — Diga a verdade. Diga que seu namorado, o homem com quem você vai dividir a vida, precisa que você esteja ao lado dele em um momento de descanso e networking. Eduarda, eu pensei em uma coisa. Vamos fazer o seguinte: você vai comigo para Angra no dia vinte. Ficamos lá até o dia vinte e três. No dia vinte e quatro, eu mando meu motorista te trazer para o interior. Você passa o Natal com eles e eu te busco no dia vinte e seis para voltarmos para a ilha para o Réveillon.

Eduarda processou a proposta. Parecia um meio-termo, mas o aniversário era no dia vinte e um. Ela perderia a festa principal.

— Mas a festa é no dia vinte e um, Manu... é o dia em que todos estarão lá. Se eu chegar no dia vinte e quatro, a festa já acabou.

Emanuel sentiu a veia em sua têmpora pulsar. A paciência, que já era pouca, evaporou-se.

— Eduarda, chega de ser manhosa! — ele levantou-se, a voz ecoando pela sala silenciosa. — Eu estou te oferecendo um motorista particular, uma logística de luxo para você transitar entre os dois mundos, e você ainda está reclamando de datas? Você tem noção do quanto eu estou me esforçando para te incluir nisso? A Sara não questiona nada, ela simplesmente faz as coisas funcionarem!

— A Sara não tem uma família que a ama, Emanuel! — Eduarda gritou de volta, levantando-se também, a face corada de indignação. — A Sara só se importa com dinheiro e com o que as pessoas pensam dela! Eu não sou assim! Eu amo meus pais, amo minha tia! Por que você está tentando me transformar em uma versão loira e siliconada dela?

O silêncio que se seguiu foi pesado, quase sólido. Emanuel olhou para Eduarda como se a visse pela primeira vez em muito tempo. A menção à Sara de forma tão direta o atingiu em um ponto sensível.

— Eu não quero que você seja a Sara — ele disse, a voz baixa e perigosa. — Eu quero que você seja uma mulher que me apoie. E se você não consegue fazer esse sacrifício por um fim de semana, talvez a gente precise repensar o que estamos fazendo aqui.

Eduarda recuou, como se tivesse levado um golpe físico.

— Você está me ameaçando, Manu? — ela sussurrou, as lágrimas finalmente caindo.

— Estou te dando um fato. Eu sou um homem que se move rápido. Eu tenho estúdios em três continentes, eu tenho uma vida que não para. Eu preciso de alguém que corra ao meu lado, não de alguém que eu precise carregar no colo e pedir permissão para a família para cada passo que damos.

Ele caminhou até a porta, parando com a mão na maçaneta.

— O motorista vai estar na sua porta no dia vinte, às oito da manhã. Se você entrar no carro, nós vamos para Angra e eu cumpro minha parte de te trazer para o Natal. Se você não entrar... eu vou entender que a sua prioridade é o passado, e não o nosso futuro.

Emanuel saiu, batendo a porta com força. Ele entrou no carro e acelerou, sentindo uma mistura de adrenalina e um vazio profundo. Ele amava Eduarda, a doçura dela era o que o mantinha são, mas sua necessidade de controle não permitia que ela tivesse um espaço que ele não dominasse.

***

De volta ao loft, Sara o esperava com um sorriso de quem já sabia o resultado.

— Pela sua cara, o ultimato foi dado — disse ela, aproximando-se e desabotoando os primeiros botões da camisa dele. — Você fez o certo, Manu. Um homem como você não pode ser refém de aniversários de tia no interior. Vamos celebrar? O pessoal já está no lounge do prédio nos esperando.

Emanuel olhou para Sara. Ela era o porto seguro da sua racionalidade, mas, por um momento, o cheiro do perfume dela pareceu forte demais, artificial demais. Ele sentia falta do cheiro de baunilha de Eduarda, mas a raiva ainda falava mais alto.

— Vamos — ele disse, deixando-se levar por Sara.

***

Os dias que antecederam o dia vinte foram um inferno de silêncio. Eduarda não mandou mensagens, e Emanuel, em seu orgulho ferido, também não a procurou. Ele se afundou no trabalho, sendo mais exigente do que o normal com sua equipe de tatuadores, descontando o estresse em planilhas e agulhas.

Sara, por outro lado, estava radiante. Ela cuidava de cada detalhe da viagem, garantindo que Emanuel visse o quanto ela era a parceira ideal. Ela sabia que, se Eduarda não aparecesse no dia vinte, ela teria vencido uma batalha crucial pelo território emocional de Emanuel.

Na manhã do dia vinte, o sol nasceu radiante sobre a cidade. Emanuel acordou cedo, o coração batendo de uma forma que ele não conseguia controlar. Ele se vestiu para a viagem — roupas leves, óculos escuros, a imagem do sucesso descontraído.

— O motorista já saiu para buscar a princesinha? — Sara perguntou, saindo do closet com um biquíni de grife sob uma saída de praia transparente.

— Já — Emanuel respondeu, curto.

Ele desceu para a garagem, onde o comboio de carros dos amigos já se formava. Ele entrou em seu carro, com Sara ao lado, e começou a dirigir em direção à rodovia. Seu celular estava no console central. Ele o vigiava como um falcão.

Às oito e quinze, o celular vibrou. Era uma mensagem do motorista.

Emanuel sentiu a respiração travar. Ele deslizou o dedo pela tela.

"Sr. Emanuel, estou em frente à residência. A Srta. Eduarda ainda não desceu. Devo aguardar?"

Emanuel apertou o volante com tanta força que o couro rangeu.

— Algum problema, Manu? — Sara perguntou, a voz doce demais.

— Ela ainda não desceu — ele disse, a voz rouca.

— Eu te disse — Sara suspirou, recostando-se no banco. — Ela fez a escolha dela. Agora, por favor, vamos focar na nossa viagem. Não deixe que ela estrague o nosso dia.

Emanuel continuou dirigindo, mas sua mente estava naquela calçada, em frente à casa de Eduarda. Ele imaginava ela sentada na cama, segurando o colar de pérola que o pai lhe dera, dividida entre o amor que sentia por ele e o respeito por si mesma.

Dez minutos depois, outra mensagem.

"Sr. Emanuel, a Srta. Eduarda saiu agora. Ela está vindo para o carro."

Um alívio avassalador percorreu o corpo de Emanuel, tão forte que ele quase precisou encostar o carro. Ele não percebeu, mas um sorriso involuntário surgiu em seu rosto. Eduarda tinha cedido. Ela tinha escolhido ele.

No entanto, a mensagem continuava:

"Mas ela pediu para te entregar um recado através de mim. Ela disse: 'Eu vou para Angra, Emanuel. Mas não porque você me obrigou. Vou porque quero te mostrar que posso ser sua parceira. Mas se você me fizer perder o Natal com a minha família, como prometeu, não haverá mais volta para nós. Eu não sou a Sara, e nunca serei'."

Emanuel leu o recado e o sorriso desapareceu, substituído por uma compreensão sombria. Ele havia vencido a batalha, mas o preço tinha sido a inocência da relação deles. Eduarda estava indo, mas ela estava levando consigo uma condição, um limite que ela nunca havia imposto antes.

Sara, percebendo a mudança no semblante dele, tentou ver a tela do celular.

— O que ela disse? Ela vem?

— Ela vem, Sara — Emanuel disse, guardando o celular e acelerando o carro. — Ela vem.

A viagem para Angra foi cercada de luxo, risadas e ostentação. Quando chegaram à ilha, o iate já os esperava. Eduarda chegou pouco depois, em outro carro. Ela estava linda, mas seus olhos tinham uma firmeza que Emanuel nunca vira. Ela cumprimentou Sara com uma civilidade gelada e caminhou direto para Emanuel, permitindo que ele a beijasse, mas sem a entrega costumeira.

Durante o jantar no iate, sob o luar de Angra, Emanuel observava as duas mulheres. Sara brilhava, bebendo champanhe e sendo o centro das atenções. Eduarda permanecia ao seu lado, discreta, mas com uma presença que agora parecia mais sólida, menos dependente.

Emanuel percebeu que o equilíbrio que ele tanto buscava era uma ilusão. Ele tinha as duas ali, sob seu teto temporário, mas a tensão era palpável. Ele havia conseguido o que queria, mas sentia que estava caminhando sobre lâminas de barbear.

Naquela noite, enquanto Sara dormia após a festa, Emanuel encontrou Eduarda no convés do iate, olhando para as estrelas.

— Você está brava — ele disse, aproximando-se.

— Eu não estou brava, Manu — ela respondeu, sem olhar para ele. — Eu estou apenas vendo as coisas como elas são. Você quer tudo do seu jeito. E eu estou disposta a tentar. Mas se você quebrar sua promessa sobre o Natal... se você tentar me prender aqui por capricho... você vai descobrir que eu posso ser muito mais firme do que você imagina.

Emanuel a abraçou por trás, sentindo o perfume de baunilha. Ele tinha o controle, mas, pela primeira vez, sentia que o controle era uma corda que também o amarrava.

— Eu vou te levar para o Natal, Duda. Eu prometo.

Ele olhou para a cabine onde Sara dormia e depois para a mulher em seus braços. Ele amava as duas, mas naquele labirinto de possessividade e carência, ele começava a entender que o sucesso de seus estúdios era fácil de gerir comparado ao caos de dois corações que ele tentava possuir simultaneamente. A viagem estava apenas começando, e o horizonte, embora belo, prometia tempestades que nenhum iate de luxo seria capaz de evitar.