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O Labirinto de Seda e a Rédea Solta

Oito meses haviam se passado desde a viagem a Angra, e o equilíbrio na vida de Emanuel parecia mais uma construção de areia sob a maré alta. Os negócios iam de vento em polpa; seus estúdios de tatuagem agora eram referência em design de luxo, e a administração de Sara era impecável. Ela era a força motriz que mantinha a engrenagem girando, enquanto ele era o gênio criativo. No entanto, o loft continuava sendo um território dividido. Sara reinava no closet principal e nas decisões cotidianas, enquanto o quarto de hóspedes, transformado em ateliê, permanecia frequentemente vazio, esperando por uma Eduarda que ainda se recusava a deixar a casa dos pais.

Era uma tarde de sábado e o shopping de luxo estava lotado. Emanuel caminhava com Sara, que usava um vestido justo de couro sintético e saltos que estalavam no mármore com a precisão de um metrônomo. Ela segurava o braço dele com firmeza, apontando para as vitrines.

— Manu, você precisa de um terno novo para o evento de inauguração da nova galeria — disse Sara, os olhos brilhando com a perspectiva de mais uma noite de gala. — E eu já escolhi o meu. Algo dourado, para combinar com o sucesso que estamos tendo.

Emanuel assentiu, mas sua mente estava em outro lugar. Ele pegou o celular pela décima vez naquela hora. Eduarda não atendia.

— Ela deve estar estudando, Manu — Sara comentou, com um tom de voz que misturava tédio e uma satisfação mal disfarçada. — Ou quem sabe escolhendo qual laço de fita vai usar no cabelo hoje. Esquece um pouco a Duda. Vamos focar no que importa.

— Ela me disse que tinha um plano para o vestido do evento — Emanuel murmurou, franzindo o cenho. — Mas não quis me dizer o que era.

Nesse momento, o celular de Emanuel vibrou. Não era uma mensagem de Eduarda, mas uma ligação de Helena, a mãe dela. O tom de voz da sogra era de puro nervosismo.

— Emanuel? Você sabe onde a Eduarda está? — a voz de Helena tremia. — Ela saiu cedo dizendo que ia resolver algo sobre o vestido, mas já são quatro da tarde e ela não voltou. O pai dela está furioso porque ela não atende o telefone.

Emanuel sentiu uma descarga de adrenalina e irritação.

— Ela não está em casa? Ela me disse que ia ver uma costureira, mas achei que fosse no centro.

— Ela mencionou uma tal de "Dona Zuleica" — Helena explicou —, mas descobrimos agora, por uma mensagem que ela deixou num caderninho, que essa mulher mora em Vila Velha do Monte. Emanuel, isso é em outra cidade! É um lugar quase rural, longe de tudo. Ela foi sozinha, de ônibus!

Emanuel parou no meio do corredor do shopping, ignorando o olhar curioso de Sara.

— Ela foi para onde?! Sozinha? Helena, como vocês deixaram?

— Ela nos pediu para levá-la, Emanuel! — Helena retrucou, agora defensiva. — Mas o Roberto tinha uma reunião de condomínio e eu estava no escritório. Ela disse que daria um jeito, mas não achamos que ela fosse para tão longe sem avisar o endereço exato!

Emanuel desligou o telefone sem se despedir. Seu rosto estava vermelho de raiva.

— O que foi agora? — Sara perguntou, cruzando os braços. — A princesinha se perdeu no caminho da biblioteca?

— Ela foi para uma cidade vizinha, em um lugar que ninguém conhece, sozinha, atrás de uma costureira — Emanuel rosnou, já caminhando em direção à saída. — Eu vou atrás dela.

— Você só pode estar brincando! — Sara exclamou, correndo para acompanhá-lo. — Temos uma reserva no restaurante e você tem provas de terno! Emanuel, deixe que os pais dela resolvam. Ela tem vinte anos, não dez!

— Ela é minha namorada e não conhece nada daquela região — ele respondeu, a voz gélida. — Se você quiser, pegue um Uber para casa. Eu estou indo agora.

***

Duas horas depois, Emanuel estava em uma estrada de terra batida, o SUV de luxo sacudindo violentamente. Ele já havia ligado para Eduarda trinta vezes. Roberto e Helena estavam em outro carro, tentando rastrear o sinal do celular dela, mas a área era de sombra.

De repente, o celular de Emanuel tocou. O visor mostrava o nome de Eduarda.

— Onde você está, Eduarda?! — ele gritou, assim que atendeu, a voz ecoando dentro do carro. — Você tem noção do que está fazendo? Seus pais estão desesperados, eu estou no meio de um matagal e você simplesmente some!

Do outro lado, a voz de Eduarda veio suave, quase musical, com aquele tom manhoso que costumava desarmá-lo, mas que agora só servia para irritá-lo mais.

— Oi, Manu... por que você está gritando? O passarinho aqui no jardim da Dona Zuleica até se assustou.

— Jardim? Passarinho? — Emanuel bateu no volante. — Eduarda, me dá o endereço agora! Eu vou te buscar e nós vamos ter uma conversa muito séria sobre limites.

— Ah, Manu... — ela fez um som de desaprovação com a língua. — Se você continuar usando esse tom de "dono do mundo", eu não vou dizer endereço nenhum. O sinal aqui é péssimo, se eu desligar, você só me acha se contratar um satélite.

Emanuel respirou fundo, tentando não explodir. Ele sabia que, quando Eduarda decidia ser teimosa de um jeito doce, ela era imbatível.

— Pequena, por favor — ele tentou suavizar a voz, embora os dentes estivessem cerrados. — É perigoso. Você foi sozinha para um lugar longe, sem avisar ninguém. Seus pais estão vindo atrás também.

— Eu pedi para eles me trazerem, mas ninguém tem tempo para mim, não é? — ela disse, e ele pôde sentir o biquinho que ela devia estar fazendo. — Todo mundo está sempre ocupado com o trabalho, com a galeria, com a administração... Eu tive que vir sozinha. E valeu a pena, Manu. O vestido... ah, você não tem ideia. É a coisa mais linda que já vi. É de seda pura, com rendas que a Dona Zuleica faz à mão.

— Eu não quero saber do vestido, Eduarda! Eu quero saber de você! Me passa a localização pelo WhatsApp agora.

— Só se você prometer que não vai brigar comigo quando chegar aqui — ela provocou, rindo baixinho. — E que vai me trazer um chocolate daquela loja que eu gosto no caminho de volta.

— Eduarda!

— Tchau, Manu. Vou mandar o "pin" no mapa. Mas venha devagar, a estrada tem buracos e eu não quero que você estrague seu carro caro por minha causa.

***

Quando Emanuel finalmente chegou ao casebre cercado por flores silvestres, o sol já estava começando a se pôr. O carro de Roberto e Helena chegou quase ao mesmo tempo. Eduarda saiu pela porta de madeira, segurando uma capa de tecido protetora com um cuidado quase religioso.

Assim que ela viu o pai e o namorado descendo dos carros com expressões de quem ia começar uma guerra, ela parou e deu um sorriso radiante, segurando a capa contra o peito.

— Olhem! Eu consegui! — ela exclamou, ignorando completamente o clima tenso.

— Eduarda, você perdeu o juízo? — Roberto começou, caminhando até ela. — Sua mãe quase teve um colapso! Você não pode sumir assim, ir para outra cidade sem avisar o local exato!

— Mas pai, eu avisei que vinha ver a costureira — ela disse, fazendo uma expressão de profunda injustiça. — Vocês que não prestaram atenção. Eu até tentei explicar o caminho, mas você estava no telefone falando de vigas e pilares.

Emanuel aproximou-se, parando diante dela. Sua altura e sua presença física costumavam intimidar qualquer um, mas Eduarda apenas inclinou a cabeça para o lado, olhando-o com aqueles olhos grandes e expressivos.

— Você me deu um susto de morte — Emanuel disse, a voz baixa e vibrante de raiva contida. — Você agiu como uma criança, Eduarda. Pegar um ônibus para o meio do nada? E se o sinal não voltasse? E se acontecesse algo com você?

— Mas não aconteceu, Manu — ela murmurou, aproximando-se dele e apoiando a cabeça em seu peito, mesmo com ele rígido de raiva. — Eu estou bem. E eu fiz isso por você. Eu queria estar perfeita para o seu evento. Não queria um vestido de shopping que a Sara pudesse comprar igual. Queria algo que fosse só meu. Só para você.

Emanuel sentiu a raiva vacilar. Era o golpe baixo dela: usar a doçura e a dedicação para justificar a imprudência. Ele olhou para Roberto, que também parecia estar perdendo o ímpeto do sermão diante da carinha de anjo da filha.

— Isso não justifica o susto, Eduarda — Helena interveio, embora já estivesse abraçando a filha por cima da capa do vestido. — Você vai levar um sermão de horas quando chegarmos em casa.

— Tudo bem, mamãe — Eduarda disse, manhosa. — Eu escuto o sermão. Mas antes, o Manu tem que ver um pedacinho da renda. Só um pedacinho.

Ela abriu um pouco o zíper da capa, revelando uma renda de bilro tão fina e delicada que parecia tecida por fadas. Emanuel, que apreciava arte e detalhes minuciosos por causa de seu trabalho como tatuador, ficou em silêncio por um momento. Era, de fato, um trabalho magnífico.

— É bonito — ele admitiu, a voz ainda dura. — Mas nunca mais faça isso. Entendeu? Nunca.

— Está bem, meu urso bravo — ela brincou, esticando-se para dar um beijo na bochecha dele. — Agora, você pode levar o vestido no seu carro? Tenho medo que o papai dirija rápido demais e amasse a seda.

Emanuel suspirou, derrotado. Ele pegou a capa das mãos dela com cuidado extremo.

— Você vem comigo — ele ordenou. — Roberto, Helena, nos vemos na casa de vocês.

***

O caminho de volta foi marcado por um silêncio tenso, que Eduarda quebrava de vez em quando com comentários sobre como as vacas no pasto eram "fofas". Emanuel mantinha os olhos na estrada, a mandíbula travada.

— Você ainda está bravo? — ela perguntou, cutucando o braço dele com o dedo indicador.

— Estou furioso, Eduarda. Você não tem noção da gravidade. Se você morasse comigo, eu teria te levado. Eu teria esperado você na porta. Mas você insiste nessa independência que, no fim, acaba em você perdida no meio do mato.

— Eu não estava perdida! — ela protestou, rindo. — Eu estava com a Dona Zuleica. Ela me deu chá de erva-cidreira e me contou a história de como aprendeu a costurar com a avó dela. Foi uma tarde adorável, Manu. Você que é muito estressado.

— Eu sou estressado porque me preocupo com você! — ele exclamou. — E a Sara tem razão em uma coisa: você às vezes age como se o mundo fosse um jardim de infância.

O nome de Sara fez o sorriso de Eduarda murchar por um segundo, mas ela logo se recuperou.

— A Sara não entende de seda — Eduarda disse, com uma pontinha de malícia na voz. — Ela entende de números e de coisas que brilham muito. Eu entendo de beleza. E quando eu entrar naquela galeria com este vestido, Manu... você não vai estar pensando na Sara. Você vai estar pensando em como tem sorte de ter uma namorada que vai até o fim do mundo por uma renda perfeita.

Emanuel olhou para ela de soslaio. Ela estava ali, pequena, manhosa, com um rastro de poeira no sapato e uma confiança inabalável em seu próprio charme.

— Você é impossível — ele murmurou, mas sua mão direita deixou o câmbio para apertar a mão dela.

— Eu sei — ela respondeu, entalando os dedos nos dele. — Mas você me ama assim. E agora, cadê o meu chocolate? Você prometeu no telefone.

— Eu não prometi nada, Eduarda! Eu disse "Eduarda!" em tom de aviso!

— Para mim soou como uma promessa — ela disse, encostando a cabeça no ombro dele. — Para no próximo posto, por favor? Eu estou com fome e a Dona Zuleica só tinha biscoitos de polvilho.

Emanuel balançou a cabeça, um meio sorriso finalmente aparecendo. Ele sabia que, ao chegar na casa dos pais dela, o sermão de Roberto continuaria e que, no dia seguinte, Sara faria comentários ácidos sobre a "aventura rural". Mas, naquele momento, no silêncio do carro com o vestido de seda no banco de trás, ele sentia que, apesar de todo o estresse e do controle que ele tanto amava exercer, era aquela imprevisibilidade doce de Eduarda que realmente o mantinha preso a ela.

Ele parou no posto de gasolina. Comprou o chocolate mais caro da conveniência e entregou a ela sem dizer uma palavra.

— Viu? — ela disse, abrindo a embalagem com os olhos brilhando. — Você é o melhor namorado do mundo, Manu. Só precisa relaxar um pouquinho mais.

— Se eu relaxar com você, Eduarda, eu te encontro na semana que vem tentando comprar tecidos no Tibete — ele resmungou, voltando para a estrada.

— O Tibete? — ela mastigou o chocolate, pensativa. — Será que eles têm rendas boas por lá?

— Nem pense nisso! — Emanuel gritou, e os dois acabaram rindo, enquanto o sol desaparecia no horizonte, deixando para trás a poeira de uma tarde que, apesar do susto, havia aproximado ainda mais os fios daquela relação tão complexa quanto a renda que Eduarda tanto protegeu.