Voltar ao resumo

D

O Labirinto da Desobediência e o Silêncio de Vidro

A fúria de Emanuel era algo quase palpável, uma energia estática que parecia fazer as lâmpadas da cobertura de luxo zumbirem. Ele caminhava de um lado para o outro na sala, o maxilar tão tenso que seus dentes chegavam a ranger. O pacto de três meses, que ele já considerava um sacrifício hercúleo, havia sido estraçalhado. O pai de Eduarda, um homem que Emanuel subestimara por sua aparência tranquila e seus discos de vinil, revelara-se um adversário à altura.

— Um ano? — Emanuel rugiu, chutando um pufe de couro que estava em seu caminho. — Aquele velho teve a audácia de me dizer que, por eu ter tentado "sequestrar" a filha dele antes do prazo, agora o castigo é um ano? Eu não sou um moleque de escola, Sara!

Sara estava sentada no balcão da cozinha americana, observando a cena com uma mistura de deleite e tédio. Ela girava uma taça de vinho tinto, o líquido escuro manchando as paredes de cristal.

— Eu avisei, querido — disse ela, a voz carregada de uma satisfação melosa. — Você tentou dar um passo maior que a perna com um homem que conhece cada truque de manipulação emocional que a Eduarda usa. Agora, em vez de ter a sua bonequinha de porcelana aqui para enfeitar a estante, você vai ter que se contentar com visitas agendadas. É quase como um regime de semiaberto, não acha?

— Não me provoque, Sara. Eu não estou com humor para o seu sarcasmo — Emanuel parou diante da grande vidraça, olhando para as luzes de São Paulo. — Um ano é uma eternidade. Ela vai estar formada antes de morar comigo.

— Talvez seja melhor assim — Sara desceu do balcão, caminhando até ele e deslizando as mãos pelas costas tensas do tatuador. — Você tem a mim. Eu moro aqui, eu cuido dos seus negócios, eu entendo o seu mundo. A Eduarda é um passatempo que exige manutenção demais. Deixe-a lá, na casa dos pais, com o gato obeso e os livros de arte.

Emanuel não respondeu. A resistência do sogro e a distância forçada de Eduarda só serviam para alimentar sua obsessão. Ele queria o controle total, e o fato de não tê-lo o estava levando à loucura.

***

Enquanto isso, a quilômetros dali, Eduarda vivia o seu próprio pesadelo, embora de uma natureza muito menos sofisticada. Ela não estava em um museu, nem estudando o Renascimento. Ela estava no banco de madeira desconfortável de uma delegacia de polícia na zona sul, cercada por Bia e mais duas amigas da faculdade, todas com o rímel borrado e o hálito levemente alterado por margaritas de morango.

— Eu vou morrer — Eduarda sussurrou, escondendo o rosto entre os joelhos. — Se o Manu descobrir que eu estou aqui, ele vai me trancar em um cofre e jogar a chave no fundo do Tietê.

— Relaxa, Duda! — Bia exclamou, embora sua voz estivesse trêmula. — Foi só uma confusão generalizada no bar. A gente nem bateu em ninguém de verdade, só jogamos uns copos. Aquele cara merecia, ele passou a mão na Carol!

— Bia, a gente foi levada no camburão! — Carol choramingava ao lado. — Meus pais vão me matar.

Eduarda sentiu o celular vibrar no bolso pela trigésima vez. Ela sabia que era Emanuel. Ele ligava a cada meia hora para dar "boa noite" e verificar se ela estava segura. Ela havia desligado o rastreador do celular assim que saíram para o bar, sob os protestos de Bia, que dizia que ela precisava de "uma noite de liberdade da ditadura do tatuador". Agora, o aparelho era uma bomba-relógio em suas mãos.

— Eu não posso atender — Eduarda disse, olhando para a tela que brilhava com a foto de Emanuel. — Se eu atender, ele vai ouvir o barulho de rádio de polícia e o grito daquele delegado.

— Então desliga essa droga! — Bia sugeriu. — Se ele perguntar depois, você diz que a bateria acabou ou que você dormiu pesado.

Eduarda hesitou, mas o pânico de ser descoberta em uma situação tão "vulgar" — a palavra que Sara certamente usaria — falou mais alto. Ela desligou o aparelho. Pela primeira vez em meses, ela estava completamente fora do radar de Emanuel.

***

Na cobertura, Emanuel olhou para o celular com uma expressão de descrença pura.

— Ela desligou? — Ele perguntou, a voz baixa e perigosa.

— O que houve? A princesinha cansou de ser vigiada? — Sara perguntou, fingindo desinteresse enquanto lixava uma unha.

— O rastreador não está funcionando. E o celular dá direto na caixa postal. Ela nunca faz isso, Sara. Nunca.

Emanuel tentou mais uma vez. Caixa postal. Ele sentiu uma pontada de ansiedade misturada com uma raiva possessiva. Ele ligou para a casa dos pais dela.

— Alô? — A voz do sogro soou do outro lado, calma e levemente sonolenta.

— É o Emanuel. A Eduarda está aí?

— Ela saiu com as amigas da faculdade, Emanuel. Disse que ia a uma exposição ou algo assim. Por quê? Algum problema?

— Ela não atende o celular. Onde ela foi exatamente?

— Eu não sou o secretário dela, rapaz. Ela tem vinte anos. Deixe a menina respirar um pouco. Boa noite.

O sinal de linha ocupada foi como um tapa na cara de Emanuel. Ele jogou o celular no sofá e pegou as chaves do carro.

— Onde você vai? — Sara perguntou, levantando-se.

— Vou atrás dela. Eu conheço as amigas dela, sei onde elas costumam ir.

— Emanuel, você vai mesmo rodar a cidade atrás de uma garota que claramente não quer falar com você agora? Tenha um pouco de dignidade! Se ela desligou o celular, é porque está se divertindo e não quer o seu controle no pé dela!

— Eu não perguntei a sua opinião, Sara! — Ele gritou, saindo pela porta e batendo-a com tanta força que o som ecoou pelo corredor.

***

Na delegacia, o clima não melhorava. O delegado, um homem cansado que já vira de tudo naquela noite, chamou as quatro meninas para a sua mesa.

— Escutem aqui — ele disse, batendo uma caneta no balcão. — O dono do bar não vai prestar queixa se vocês pagarem o prejuízo dos copos e da mesa quebrada. É uma infração leve, mas eu não posso liberar vocês sem que alguém maior de idade e responsável assine o termo de compromisso. Alguma de vocês tem um contato que não vá ter um infarto ao ver vocês aqui?

Eduarda sentiu o suor frio escorrer pelas costas. Ela não podia ligar para o pai, que já estava em uma corda bamba com Emanuel por causa dela. E ligar para Emanuel estava fora de questão.

— Eu ligo para o meu irmão — Bia disse, pegando o celular. — Ele é advogado, vai resolver isso rápido e não vai contar para ninguém.

Enquanto Bia falava com o irmão, Eduarda se afastou para um canto da sala de espera, tentando reorganizar seus pensamentos. Ela olhou para o próprio reflexo no vidro empoeirado da delegacia. Estava com um vestido leve, agora amassado, e um dos seus sapatos de amarrar estava desfeito. Ela se sentia pequena, suja e, estranhamente, apavorada com a ideia de que Emanuel pudesse estar certo: o mundo era perigoso demais para ela sem a proteção dele.

Porém, uma parte dela — a parte que o pai tentava proteger — sentia uma centelha de rebeldia. Ela estava ali por causa de uma briga de bar, algo que pessoas de vinte anos faziam. Ela não era uma criminosa.

***

Emanuel dirigia por Pinheiros, passando por todos os bares de estética "alternativa" que Eduarda poderia frequentar. Ele estava possesso. A cada vez que o celular caía na caixa postal, ele imaginava um cenário diferente: ela sofrendo um acidente, ela sendo abordada por algum idiota, ou pior, ela rindo com as amigas de como ele era controlador.

— Atende essa droga, Eduarda... — ele murmurava, o volante sofrendo sob sua pressão.

Ele parou o carro em frente a um bar badalado onde Bia costumava postar fotos. Desceu do veículo com sua presença imponente, as tatuagens nos braços à mostra, atraindo olhares de medo e admiração.

— Vocês viram um grupo de quatro meninas? Uma morena, baixinha, rosto de boneca, vestida como se fosse a um piquenique? — ele perguntou ao segurança da porta, com uma voz que não aceitava "não" como resposta.

— Teve uma confusão aqui mais cedo, cara — o segurança respondeu, reconhecendo Emanuel de alguma revista de tatuagem. — A polícia levou umas meninas que quebraram o pau lá dentro. Foram para o 14º DP.

Emanuel sentiu o sangue gelar por um segundo, antes de ser substituído por uma fúria incandescente. Delegacia. Eduarda estava em uma delegacia.

***

O irmão de Bia chegou vinte minutos depois. Era um homem prático que resolveu a papelada rapidamente.

— Vamos, meninas. O carro está lá fora. Duda, você quer que eu te deixe em casa ou na casa do seu namorado? — ele perguntou, guardando os documentos na pasta.

— Em casa, pelo amor de Deus — Eduarda disse, caminhando apressadamente para a saída. — Eu só quero sumir.

Elas cruzaram a porta de vidro da delegacia e o ar fresco da noite pareceu um alívio. No entanto, o alívio durou exatamente três segundos.

Um SUV preto, que Eduarda conhecia melhor do que a própria casa, estava estacionado em diagonal, bloqueando a saída do estacionamento da delegacia. A porta do motorista se abriu e Emanuel saltou para fora.

Ele não parecia um namorado preocupado. Ele parecia um deus da guerra em busca de vingança.

— Manu... — o nome saiu da boca de Eduarda como um sopro de terror.

Emanuel caminhou até ela ignorando completamente as amigas e o irmão de Bia. Ele parou a poucos centímetros dela, sua altura fazendo sombra sobre o corpo franzino de Eduarda.

— Delegacia, Eduarda? — A voz dele era tão baixa que chegava a ser vibrante. — Você desliga o celular, desativa o rastreador e vem parar atrás das grades por causa de briga de bar?

— Não foi assim, Manu... a gente só estava...

— Eu não quero ouvir! — ele rugiu, fazendo as amigas dela recuarem um passo. — Eu passo cada minuto da minha vida tentando garantir que você tenha o melhor, que você esteja segura, que ninguém te toque ou te falte com o respeito. E você me retribui mentindo e vindo parar aqui?

— Eu não menti! Eu só queria sair um pouco sem ter você monitorando cada passo que eu dou! — Eduarda gritou de volta, as lágrimas finalmente caindo. — Você não é meu dono, Emanuel!

O silêncio que se seguiu foi mortal. Emanuel estreitou os olhos. A audácia de Eduarda, alimentada pela adrenalina da noite, era algo que ele nunca vira.

— Eu não sou seu dono? — ele repetiu, dando um passo ainda mais próximo, obrigando-a a inclinar a cabeça para trás para encará-lo. — Se eu não fosse o homem que cuida de você, você ainda estaria sentada naquele banco de madeira esperando que alguém tivesse pena de você. Você quer liberdade? É essa a liberdade que você quer? A de ser levada por policiais porque não sabe escolher suas companhias?

— O senhor pode se afastar dela? — o irmão de Bia interveio, tentando ser profissional. — Ela já foi liberada e está indo para casa.

Emanuel virou o rosto lentamente para o advogado. O olhar era tão carregado de violência contida que o homem deu um passo involuntário para trás.

— Não se meta. Isso é entre mim e a minha namorada.

Emanuel voltou sua atenção para Eduarda. Ele pegou o pulso dela, não com força excessiva, mas com uma firmeza que indicava que não haveria negociação.

— Você vem comigo. Agora.

— Eu vou para a casa dos meus pais, Emanuel! — ela tentou puxar o braço, voltando ao seu jeito manhoso e choroso. — Por favor... eu estou cansada, eu quero a minha cama...

— Você vai para a minha casa. Nós vamos conversar sobre as novas regras, já que você acha que um ano de distância é um convite para o caos.

— O pai dela não vai gostar disso, Emanuel — Bia gritou, tentando ajudar a amiga.

— O pai dela pode vir me procurar amanhã. Hoje, ela fica comigo.

Emanuel a guiou — ou melhor, a arrastou gentilmente, mas sem espaço para resistência — até o carro. Ele a colocou no banco do passageiro e bateu a porta. Durante todo o trajeto de volta para o Itaim Bibi, Eduarda chorou em silêncio, o rosto voltado para a janela. Ela se sentia culpada, assustada e, ao mesmo tempo, sufocada.

Quando entraram na cobertura, Sara estava na sala, usando um pijama de seda transparente, segurando uma taça de Martini. Ela olhou para a cena — Emanuel furioso e Eduarda desgrenhada e chorosa — e soltou uma risada cristalina.

— Ora, ora... a detenta chegou. Como foi a noite no xadrez, querida? Aprendeu alguma gíria nova ou só trouxe o cheiro de desinfetante barato para o meu tapete persa?

— Sara, vai para o quarto — Emanuel ordenou, sem olhar para ela.

— Ah, não. Eu quero ouvir essa explicação. Emanuel, você percebe o quanto isso é ridículo? Você cruzou a cidade para buscar uma menina que estava se atracando em bar. Isso é vulgar até para os meus padrões.

Eduarda, exausta e humilhada, virou-se para Sara com os olhos vermelhos.

— Eu não me atraquei com ninguém, Sara! Eu só estava ajudando a minha prima! Você fala como se fosse perfeita, mas todo mundo sabe que você só está com o Manu pelo dinheiro e pelo poder!

Sara arqueou uma sobrancelha, surpresa com a agressividade da "bonequinha".

— Pelo menos eu trago lucro e estabilidade, meu amor. Você só traz dor de cabeça e contas de advogado. Emanuel, olhe para ela. É essa a mulher que você quer que represente o seu nome? Uma menina que se esconde atrás de lágrimas toda vez que faz uma bobagem?

— CHEGA! AS DUAS! — Emanuel socou a mesa de centro, fazendo os objetos saltarem. — Eduarda, banho. Agora. Sara, eu não vou repetir: vá para o quarto e não saia de lá até eu mandar.

Sara revirou os olhos, mas percebeu que Emanuel estava no limite de sua sanidade. Ela deu um último gole no Martini e saiu da sala com um rebolado provocante, deixando o rastro de seu perfume caro no ar.

Eduarda ficou parada no meio da sala, os ombros caídos. Emanuel aproximou-se dela e, por um momento, a fúria pareceu dar lugar a uma exaustão profunda. Ele a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto no pescoço dela.

— Você me mata de susto, Duda... — ele sussurrou. — Por que você faz isso? Por que desliga o celular? Você tem ideia do que passou pela minha cabeça?

— Eu só queria ser normal por uma noite, Manu... — ela soluçou contra o peito dele. — Eu não queria que você ficasse bravo.

— Eu fico bravo porque eu te amo e porque o mundo não é gentil com meninas como você. Você não foi feita para delegacias e brigas de bar. Você foi feita para ser cuidada.

Ele a afastou um pouco e olhou em seus olhos.

— O seu pai acha que um ano vai me afastar de você, ou que vai te dar "liberdade". Mas essa noite provou que você não sabe o que fazer com a liberdade. A partir de amanhã, você vai ter um motorista e um segurança. E se eu ligar e você não atender, eu juro por tudo o que é mais sagrado, Eduarda, que eu te busco onde quer que você esteja, nem que eu tenha que derrubar a porta da casa do seu pai.

Eduarda estremeceu. Ela sentia o amor dele, mas sentia também as grades invisíveis se fechando ao seu redor. Emanuel era seu protetor, seu urso, seu porto seguro, mas ele era também o carcereiro de uma prisão feita de ouro e obsessão.

— Agora vai tomar banho — ele disse, com um tom mais suave, mas ainda autoritário. — Eu vou ligar para o seu pai e dizer que você vai dormir aqui. E não tente me contestar.

Eduarda subiu as escadas para a suíte de hóspedes, sentindo o peso de cada passo. Ela sabia que a noite de "liberdade" terminara em uma derrota retumbante. Emanuel tinha agora todas as justificativas de que precisava para apertar ainda mais o cerco.

Na sala, Emanuel pegou o celular para enfrentar o sogro. Ele olhou para a foto de Eduarda na tela de bloqueio — ela sorrindo em um campo de flores, pura e intocada. Ele faria qualquer coisa para manter aquela imagem. Mesmo que tivesse que lutar contra o pai dela, contra Sara e contra a própria vontade de Eduarda de crescer.

A guerra pelo controle da vida de Eduarda estava longe de terminar, mas naquela noite, na cobertura silenciosa, Emanuel sentia que, apesar do prazo de um ano, ele já havia vencido. Ela estava ali, sob seu teto, sob sua vigilância, e ele nunca mais permitiria que ela ficasse fora de seu alcance. O amor, para Emanuel, era uma linha fina tatuada na pele: permanente, dolorosa e impossível de apagar.