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O Despertar do Furacão e o Reencontro Inesperado
A viagem a Milão havia sido um divisor de águas para Emanuel. Sob o céu cinzento da Lombardia e entre os lençóis de seda do Palazzo Parigi, Sara havia cumprido sua promessa: ela se tornara o centro absoluto do universo dele. Com sua competência feroz durante o dia e sua entrega carnal e desavergonhada durante a noite, ela conseguira silenciar o eco constante do nome de Eduarda na mente de Emanuel. Sara era prática, era o reflexo do sucesso dele, e não exigia que ele pisasse em ovos. Com ela, a vida era uma linha reta de ambição e prazer.
Ao retornarem ao Brasil, a dinâmica na cobertura havia mudado. Emanuel sentia que amava Sara de uma forma nova, mais profunda, reconhecendo nela o pilar que sustentava seu império. Ela era, sem dúvida, uma das mulheres de sua vida, a parceira de guerra que ele precisava ao seu lado. Eduarda, por outro lado, havia se tornado uma lembrança doce, mas distante — uma ferida que ele decidira deixar cicatrizar através do distanciamento e do silêncio frio que mantivera desde a briga no cemitério.
— Você está mais leve, Manu — comentou Sara, enquanto terminava de se vestir para uma tarde de compras e reuniões informais. Ela usava um vestido de couro sintético preto, tão justo que parecia uma segunda pele, e saltos que a deixavam quase da altura dele. — Viu como a vida flui melhor quando você não está tentando carregar uma boneca de porcelana no colo o tempo todo?
— Você tem razão, Sara — Emanuel respondeu, ajustando o relógio de pulso enquanto observava o próprio reflexo. Ele parecia mais descansado, embora houvesse uma rigidez em seu olhar que nunca desaparecia por completo. — O que temos para hoje?
— Preciso passar em alguns fornecedores e quero dar uma olhada em umas novidades para o quarto. Algo que combine com esse seu novo "ânimo" — ela piscou, um sorriso malicioso brincando em seus lábios pintados de um vermelho vibrante. — Vamos ao Jardins. Conheço uma boutique que abriu recentemente e é o auge do luxo proibido.
Emanuel assentiu. Ele precisava de movimento, de barulho, de qualquer coisa que o impedisse de pensar no porquê de não ter ligado para Eduarda desde que pousou em solo brasileiro.
O bairro dos Jardins fervilhava com a elite paulistana. Emanuel caminhava ao lado de Sara, sentindo os olhares de admiração e inveja que o casal atraía. Eles entraram em uma loja discreta, mas imponente, cuja fachada de vidro fumê não revelava o interior. Era uma sex shop de altíssimo luxo, frequentada por pessoas que buscavam sofisticação em seus desejos mais íntimos.
O ar condicionado era gelado e o ambiente cheirava a sândalo e couro caro. Sara imediatamente se dirigiu a uma vitrine de lingeries exclusivas, mas Emanuel parou abruptamente no meio do corredor. Seus olhos se fixaram em duas figuras ao fundo da loja, perto da seção de óleos corporais e acessórios de massagem.
Seu coração, que ele acreditava estar sob total controle, deu um solavanco violento contra as costelas.
Lá estava Eduarda. Mas não a Eduarda que ele conhecia. Ela não usava seus habituais cardigãs pastéis ou vestidos românticos. Estava com um jeans justo e uma blusa de alças finas que revelava a curvatura delicada de seus ombros. Mas o que mais chamava a atenção não era a roupa, e sim a mulher ao lado dela.
Uma mulher de cerca de trinta e cinco anos, com cabelos castanhos ondulados que caíam em cascata pelas costas, vestindo um conjunto de alfaiataria verde-esmeralda que exalava poder e sensualidade. Ela segurava um pequeno chicote de plumas e ria de algo que dizia para Eduarda, que parecia dividida entre a timidez e uma curiosidade crescente.
— Manu? O que foi? — Sara perguntou, voltando-se para ele. Ela seguiu o olhar do namorado e soltou uma risada curta e anasalada. — Ora, ora... olha quem resolveu sair da redoma. E parece que a Cinderela trouxe a fada madrinha.
Emanuel não respondeu. Ele caminhou em direção às duas, seus passos pesados ecoando no chão de mármore. A cada centímetro que se aproximava, a fúria e a possessividade que ele tentara enterrar em Milão voltavam com a força de um tsunami.
— Eduarda? — A voz dele saiu mais grave do que o pretendido, carregada de uma autoridade que fez a jovem dar um pulo de susto.
Eduarda se virou, o rosto empalidecendo instantaneamente ao ver Emanuel. Ela soltou o frasco de óleo que segurava, quase o derrubando.
— Manu... — ela sussurrou, os olhos castanhos arregalados de surpresa e medo.
A mulher ao lado dela, no entanto, não demonstrou o menor sinal de intimidação. Ela se virou lentamente, medindo Emanuel de cima a baixo com um olhar calculista e divertido. Ela não recuou; pelo contrário, deu um passo à frente, protegendo Eduarda com sua presença magnética.
— Então esse é o famoso Emanuel? — a mulher perguntou, a voz aveludada e cheia de uma confiança que beirava a insolência. — Você é mais bonito do que as fotos nas revistas de tatuagem sugerem, mas parece ter um problema sério com o tom de voz.
— Quem é você? — Emanuel perguntou, ignorando a provocação e mantendo os olhos fixos em Eduarda, que parecia querer desaparecer entre as prateleiras.
— Eu sou a tia dela, meu caro. Letícia — ela estendeu uma mão impecavelmente cuidada, que Emanuel não apertou. — E você deve ser o namorado que viaja o mundo e esquece de avisar quando volta, deixando minha sobrinha em casa chorando sobre livros de arte.
Sara chegou logo atrás de Emanuel, colocando a mão possessivamente em seu ombro e encarando Letícia com um desdém que a outra mulher apenas achou engraçado.
— E eu sou a Sara. A parceira de vida e de negócios do Emanuel — Sara se apresentou, a voz carregada de veneno. — O que exatamente vocês duas estão fazendo em um lugar como este? Achei que a "menininha" só saísse de casa para ir à missa ou à faculdade.
Letícia soltou uma gargalhada vibrante, um som que parecia preencher toda a loja.
— A "menininha" está comigo hoje, loira. E nós estamos explorando novos horizontes. A vida é curta demais para ficar esperando homens que acham que podem colocar uma coleira em tudo o que amam — Letícia voltou-se para Eduarda e tocou seu rosto com carinho. — Não é, Duda? Você estava me dizendo agora mesmo que queria experimentar aquele conjunto de seda vermelha que vimos ali atrás.
Eduarda corou profundamente, desviando o olhar de Emanuel.
— Tia, por favor... — ela murmurou.
— Por favor, nada! — Emanuel interveio, dando um passo à frente, o que fez Letícia estreitar os olhos, perdendo um pouco do divertimento. — Eduarda, o que significa isso? Você não atende minhas ligações, não responde minhas mensagens e agora te encontro aqui, com... com essa mulher, comprando esse tipo de coisa?
— "Essa mulher" é a irmã da mãe dela, Emanuel — Letícia retrucou, sua voz agora fria como aço. — E o motivo de ela não atender suas ligações é simples: ela estava ocupada vivendo. Coisa que você parece tentar impedir que ela faça.
— Eu estou protegendo ela! — Emanuel rugiu, perdendo a compostura.
— Você está sufocando ela — Letícia corrigiu, dando um passo audacioso para dentro do espaço pessoal de Emanuel. Ela era menor que ele, mas sua energia era a de um furacão. — E eu decidi que, enquanto você estivesse fora brincando de executivo com a sua "parceira", eu mostraria à Duda que o mundo não acaba no portão da casa do pai dela ou na porta da sua cobertura.
Eduarda finalmente encontrou sua voz. Ela se aproximou de Emanuel, mas não para se aninhar em seu peito como costumava fazer. Ela manteve uma distância segura, os dedos brincando nervosamente com a alça da bolsa.
— Manu... eu não queria brigar. Mas a tia Letícia tem razão em uma coisa. Eu fiquei muito triste com o seu silêncio. Você foi para Milão e me deixou aqui como se eu não importasse. A tia me buscou em casa, conversou com o papai e... ela me faz sentir que eu também posso ser forte. Que eu posso querer coisas... diferentes.
Emanuel sentiu um soco no estômago. A Eduarda que ele via ali não era a boneca de porcelana submissa. Havia um brilho de rebeldia em seus olhos, uma centelha que Letícia claramente havia acendido.
— Coisas diferentes? — Sara interveio, com um sorriso sarcástico. — Como o quê, boneca? Um vibrador de cristal? Ou talvez um chicote para ver se você acorda para a vida?
Letícia olhou para Sara com uma piedade genuína que foi mais ofensiva do que qualquer xingamento.
— Você é muito óbvia, querida. A sexualidade e o desejo são sobre autodescoberta, não apenas sobre performance. Algo que você parece ter esquecido de ensinar ao seu namorado, já que ele acha que controle é sinônimo de amor.
— Como você ousa... — Sara começou, mas Emanuel a interrompeu com um gesto de mão.
Ele estava olhando para Eduarda. A visão dela naquele ambiente, cercada por símbolos de um desejo que ele sempre tentara moldar e restringir, o deixava louco. Ele a queria. Queria pegá-la nos braços e levá-la embora dali, longe da influência daquela mulher que parecia ser o caos em forma de pessoa.
— Eduarda, nós vamos para casa. Agora — Emanuel ordenou, sua voz voltando ao tom de comando que ele usava em seus estúdios.
Letícia cruzou os braços, um sorriso desafiador nos lábios.
— Ela não vai a lugar nenhum com você, Emanuel. Pelo menos não hoje. Nós temos um jantar reservado e depois vamos a uma festa onde a Duda vai conhecer pessoas da idade dela, que não têm tatuagens de controle na alma.
— Ela é minha namorada! — Emanuel exclamou.
— E ela é minha sobrinha. E, acima de tudo, ela é uma mulher livre — Letícia pegou a mão de Eduarda. — Vamos, Duda. Temos muito o que comprar antes da loja fechar. E Emanuel... da próxima vez que quiser ver sua namorada, tente ser um pouco menos "dono" e um pouco mais "parceiro". Talvez assim ela não precise de uma tia furacão para lembrá-la de que ela tem pulso.
Letícia começou a guiar Eduarda para outra seção da loja. Eduarda olhou para trás uma última vez, um olhar cheio de conflito, saudade e uma nova e assustadora independência.
Emanuel ficou parado no meio da loja, sentindo-se, pela primeira vez na vida, completamente fora de controle. Sara ao seu lado bufava de indignação, destilando veneno sobre a "vulgaridade" da tia de Eduarda, mas Emanuel mal a ouvia.
O perfume de sândalo da loja parecia sufocá-lo. Ele vira Eduarda em um ambiente de pecado e desejo, guiada por uma mulher que era tudo o que ele temia: alguém que ele não podia comprar, intimidar ou controlar.
— Emanuel, vamos embora — Sara puxou o braço dele. — Esse lugar ficou deprimente. Aquela mulher é um desastre ambulante. A Eduarda vai acabar se perdendo se continuar com ela.
— Ela já está se perdendo, Sara — Emanuel murmurou, seus olhos fixos nas costas de Letícia e Eduarda enquanto elas desapareciam entre as prateleiras de seda e couro. — Ou talvez ela esteja se encontrando. E eu não sei se estou pronto para o que ela vai se tornar.
Ele saiu da loja com Sara, mas sua mente permaneceu lá dentro. O reencontro que deveria ter sido uma demonstração de seu poder e da felicidade que encontrara com Sara em Milão se tornara um pesadelo de incertezas. Emanuel amava Sara, ela era sua rocha, sua parceira de vida. Mas a visão de Eduarda despertando sob a influência de Letícia acendera nele uma obsessão renovada.
Ele não queria apenas as duas mulheres morando com ele. Ele queria o controle total sobre o destino delas. Mas, enquanto entrava em seu carro de luxo, Emanuel percebeu que o furacão Letícia havia acabado de derrubar as paredes da redoma que ele construíra ao redor de Eduarda. E agora, ele teria que lutar não apenas contra os pais dela, mas contra uma mulher que conhecia todos os jogos de sedução e poder que ele mesmo costumava jogar.
A convivência civilizada que ele tanto desejava entre suas duas namoradas parecia agora um sonho distante. O que se desenhava no horizonte era uma guerra de vontades, onde o prêmio era a alma de Eduarda, e onde Sara, por mais competente e leal que fosse, talvez não fosse o suficiente para preencher o vazio deixado pela nova e indomável versão da sua "pequena boneca".
— Isso não acabou, Letícia — Emanuel sussurrou para o vidro escuro do carro, enquanto o motor roncava. — Isso está apenas começando.